domingo, 22 de abril de 2018

MOIRAS, PARCAS & NORNAS, TECEDEIRAS DO DESTINO. por Artur Felisberto.



 
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Figura 1: As Parcas ou moiras tecedeiras do Destino. (Restauro do autor). Amasis Painter, lekythos, 550–530 B.C., Terracotta, The Metropolitan Museum of Art, New York.

Cada grupo passava sete dias na planície. Ao oitavo, devia levantar o acampamento e pôr-se a caminho para chegar, quatro dias mais tarde, a um lugar de onde se via uma luz direita como uma coluna estendendo-se desde o alto, através de todo o céu e de toda a terra, muito semelhante ao arco-íris, mas ainda mais brilhante e mais pura. Chegaram lá após um dia de marcha; e aí, no meio da luz, viram as extremidades dos vínculos do céu, porque essa luz é o laço do céu: como as armaduras que cingem os flancos das trirremes, mantêm o conjunto de tudo o que ele arrasta na sua revolução. A essas extremidades está suspenso o fuso da Necessidade, que faz girar todas as esferas; a haste e a agulha são de aço, e a roca, uma mistura de aço e outras matérias. É a seguinte a natureza da roca: quanto à forma, assemelha-se às deste mundo, mas, segundo o que dizia Er, deve-se representá-la como uma grande roca oca por dentro, à qual se ajusta outra roca semelhante, mas menor, do modo como se ajustam umas caixas às outras, e, igualmente, uma terceira, uma quarta e mais quatro. Com efeito, há ao todo oito rocas inseridas umas nas outras, deixando ver no alto os seus bordos circulares e formando a superfície contínua de uma única roca em tomo da baste, que passa pelo meio da oitava. O bordo circular da primeira roca, a que fica no exterior, é a mais larga, depois seguem esta ordem: na segunda posição o da sexta, na terceira posição o da quarta na quarta posição o da oitava, na quinta o sétima, na sexta o da quinta, na sétima o da terceira e na oitava o da segunda. O primeiro círculo, o maior de todos, é o mais cintilante; o sétimo brilha com o mais vivo esplendor; o oitavo tinge-se da luz que vem do sétimo; o segundo e o quinto, que têm mais ou menos a mesma tonalidade, são mais amarelos que os anteriores; o terceiro é o mais branco de todos; o quarto é avermelhado; e o sexto é o segundo mais alvo. Todo o fuso gira com um mesmo movimento circular, mas, no conjunto arrastado por este movimento, os sete círculos interiores realizam lentas revoluções de sentido contrário ao do todo. Destes círculos, o oitavo é o mais rápido, depois seguem-se o sétimo, o sexto e o quinto, que ocupam a mesma posição em velocidade; nesta mesma ordem, o quarto ocupava a terceira posição nesta rotação inversa; o terceiro, a quarta posição, e o segundo, a quinta. O próprio fuso gira sobre os joelhos da Necessidade.

No alto de cada círculo está uma Sereia, que gira com ele fazendo ouvir um único som, uma única nota; e estas oito notas compõem em conjunto uma única harmonia. Três outras mulheres, sentadas ao redor a intervalos iguais, cada uma num trono, as filhas da Necessidade, ou seja, as Moiras, vestidas de branco, com a cabeça coroada de grinaldas. Elas cantam acompanhando a harmonia das Sereias, e são três:

Láquesis canta o passado, Cloto, o presente, e Atropo, o futuro.

E Cloto toca de vez em quando com a mão direita no circulo exterior do fuso, para fazê-lo girar, enquanto Atropo, com a mão esquerda, faz girar os círculos interiores. Quanto a Láquesis, toca alternadamente no primeiro e nos outros, com uma e outra mão. Assim, quando chegaram, tiveram de se apresentar imediatamente a Láquesis. Antes disso, um hierofante os pôs por ordem; depois, tirando dos joelhos de Láquesis destinos e modelos de vida, subiu a um estrado elevado e falou assim:

“Declaração da virgem Láquesis, filha da Necessidade. Almas efémeras, ides começar uma nova carreira e renascer para a condição mortal. Não é um génio que vos escolherá, vós mesmos escolhereis o vosso génio. Que o primeiro designado pela sorte seja o primeiro a escolher a vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude não tem senhor: cada um de vós, consoante a venera ou a desdenha, terá mais ou menos. A responsabilidade é daquele que escolhe. Deus não é responsável”.

A estas palavras, lançou os destinos e cada um apanhou o que caíra perto dele, excepto Er, porque não lhe foi permitido. Cada um ficou então sabendo qual a posição que lhe tinha cabido por sorte. Depois, o hierofante estendeu diante deles modelos de vida em número muito superior ao das almas presentes.

Havia de toda espécie: todas as vidas dos animais e todas as vidas humanas; viam se tiranias, umas que duravam até a morte, outras, interrompidas a meio caminho, que acabavam na pobreza, no exílio e na mendicância. Havia também vidas de homens famosos, quer pelo seu aspecto físico, beleza, força ou aptidão para a luta, quer pela sua nobreza, e grandes qualidades dos seus antepassados. Havia também as obscuras em todos os aspectos, e o mesmo acontecia para as mulheres. Mas essas vidas não implicavam nenhum carácter determinado da alma, porque esta devia por lei mudar consoante a escolha feita. (…)

Depois que todas as almas escolheram a sua vida, avançaram para Láquesis pela ordem que a sorte lhes fixara. Esta deu a cada uma o génio que tinha preferido, para lhe servir de guardiã durante a existência e realizar o seu destino. O génio conduzia-a primeiramente a Cloto e, fazendo-a passar por baixo da mão desta e sob o turbilhão do fuso em movimento, ratificava o destino que ela havia escolhido. Depois de ter tocado o fuso, levava-a para a trama de Átropo, para tomar irrevogável o que tinha sido fiado por Cloto; então, sem se voltar, a alma passava por baixo do trono da Necessidade; e, quando todas chegaram ao outro lado, dirigiram-se para a planície do Lete, passando por um calor terrível que queimava e sufocava, pois esta planície está despida de árvores e de tudo o que nasce da terra. Ao anoitecer, acamparam nas margens do rio Ameles, cuja água nenhum vaso pode conter. Cada alma é obrigada a beber uma certa quantidade dessa água, mas as que não usam de prudência bebem mais do que deviam. Ao beberem, perdem a memória de tudo. Então, quando todas adormeceram e a noite chegou à metade, um trovão se fez ouvir, acompanhado de um tremor de terra, e as almas, cada uma por uma via diferente, lançadas de repente nos espaços superiores para o lugar do seu nascimento, faiscaram como estrelas. Quanto a ele, dizia Er, tinham-no impedido de beber a água; contudo, ele não sabia por onde nem como a sua alma se juntara ao corpo: abrindo de repente os olhos, a o alvorecer, vira-se estendido na pira. E foi assim, Glauco, que o mito foi salvo do esquecimento e não se perdeu, e pode salvar-nos, se lhe prestarmos fé; então atravessaremos com facilidade o Lete e não mancharemos a nossa alma. Portanto, se acreditas em mim, crendo que a alma é imortal e capaz de suportar todos os males, assim como todos os bens, nos manteremos sempre na estrada ascendente e, de qualquer maneira, praticaremos a justiça e a sabedoria. Assim estaremos de acordo connosco e com os deuses, enquanto estivermos neste mundo e quando tivermos conseguido os prémios da justiça, como os vencedores que se dirigem à assembleia para receberem os seus presentes. E seremos felizes neste mundo e ao longo da viagem de mil anos que acabamos de relatar. --- A República de Platão.

e ao longo da viagem de mil anos que acabamos de relatar. — A República de Platão.

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Figura 2: Moiras. Na mitologia grega, as Moiras (em grego antigo Μοῖραι) eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos.

As parcas, na mitologia romana (moiras na mitologia grega), eram filhas da noite (ou de Zeus e de Témis). Divindades que controlam o destino dos mortais e determinam o curso da vida humana, decidindo questões como vida e morte, de maneira que nem Zeus poderia contestar suas decisões. São também designadas fates, daí o termo fatalidade. Nona (Cloto), "Décima" (Láquesis) e "Morta" (Átropos). Cloto tece o fio da vida, Décima cuida de sua extensão e caminho, Morta corta o fio.

A gravidez humana normal é de 36 a 40 semanas ou seja, de cerca de nove meses solares correspondentes a cerca de 10 meses lunares. Sendo assim compreende-se que no meio da indeterminação natural que ainda hoje é a hora do parto os romanos acreditassem na existência de duas Parcas que presidindo ambas ao termo do trabalho de parto da mulher com nascimento dificilmente estariam de acordo entre si sendo a deusa Nona a que presidia ao nascimento previsto pelos meses solares enquanto a deusa Décima ou Decuma a que decidia quando o parto se dava próximo da “décima lua”. Como era o corte do cordão umbilical que definia o início autónomo da vida terrena seria por esta mesma analogia que a Morta determinava o corte do “fio da vida” na outra extremidade final da existência humana, que pode ocorrer a qualquer momento, de acordo com os caprichos desta deusa. Para reforço mítico da razão de ser da analogia do “cordão umbilical” com o fio da vida logo deve ter aparecido a analogia da condição humana como teia de enredos de malhas que o império da necessidade tece o que passou a ser o mitema nuclear das moiras gregas que devem derivar o seu nome da época remota e arcaica em que a deusa Morta era uma “moirade trabalho”.

Cloto (Κλωθώ; klothó) em grego significa "fiar". Segurava o fuso e tecia o fio da vida. Junto de Ilitia, Ártemis e Hécate, Cloto atuava como deusa dos nascimentos e partos.

Láquesis (Λάχεσις; láchesis) em grego significa "sortear". Puxava e enrolava o fio tecido. Láquesis atuava junto com Tique, Pluto, Moros e outros, sorteando o quinhão de atribuições que se ganhava em vida.

Átropos (Ἄτροπος; á-tropos) em grego significa "afastar", ela cortava o fio da vida. Átropos, juntamente a Tânato, Moros e as Queres, determinava o fim da vida.

I Assim a etimologia do nome de Cloto não nos reporta para uma deusa do parto como Elítia era reconhecidamente mas possivelmente para uma deusa fiandeira ou da tecelagem como foi Atena e Aracne.


Κλωθώ (Klōthṓ) < κλώθω (klṓthō), literalmente, “fiar”.

Seria a fiação que deu nome à deusa Cloto ou a inversa? Normalmente são os deuses a dar nome à acção que tutelam mas, neste caso, não é evidente o nome primitivo desta deusa da fiação que, em latim, era a deusa Nona e que teria sido virtualmente também *Novena o que nos reportaria para «nave» ou «nau» e superficialmente para Atena Pró-neia, literalmente a que está em frente da nave do templo, e declaradamente para a deusa Nabia bracarense que na origem terá sido *Anakia, ou seja a mesma que a persa Anahita, também deusa das águas.

Ananque ou Anánkê (em grego: Ανάγκη, a partir do substantivo ἀνάγκη, "força", "restrição", "necessidade"), na mitologia grega, era uma antiga Deusa da inevitabilidade, mãe das Moiras e personificação do destino, necessidade inalterável e fato, Era casada com Moros.

Claro que não é Ananquete que deriva da força da necessidade mas esta daquela que descaradamente não seria senão Ki, ou Damkina, a esposa de Enki, o senhor das águas doces, numa variante egeia parecida com *Ninkete e que no Egipto seria Nanuet, a deusa que representava o abismo primordial como Tiamat. Em conclusão, a deusa nona só aparentemente tem relação com o nono mês da gravidez porque efectivamente é uma adaptação para esta conotação mítica do nome da deusa que esteve por detrás da grega Anánkê.


Cloto < klothó < Klaude-te < Kali-de < Kar-tu ó Kurija ó Ker.

Assim, Cloto seria afinal uma mera variante linguística de Ker.

O nome de Cloto tem semelhanças com dois epítetos de Atena e que têm por raiz Kali com a conotação de bronze, secundária e seguramente derivada e que nos pode reportar para a tão celebérrima quanto arcaica relação de Atena a coruja e, por isso, com a cretense Kurija, a deusa mãe das cobras cretenses que teria sido a Medusa do templo de Artemisa em Corfu, uma variante arcaica de Deméter, ou seja, tão fértil e terrífica quanto Taverete.

Chalcioecus (Chal-kioikos), "a da casa de bronze", um sobrenome de Atena em Esparta, derivado do templo de bronze que a deusa tinha naquela cidade, e que também continha sua estátua em latão.

Chalinite (Chal-initis), o que pões os freios de bronze (chalinos) nos cavalos, um sobrenome de Atena, sob o qual ela tinha um templo em Corinto. Para explicar o nome, é dito que a deusa domou Pégaso e o deu a Belerofonte, embora o carácter geral da deusa seja suficiente para explicar o sobrenome (Paus. ii. 4. § 1.)

De qualquer maneira deve ter havido em Creta uma deusa com o perfil de Cloto que deve ter sido nem mais nem menos do que Clito a deusa que Platão refere como esposa de Poseidon e que, como todas as matronas arcaicas, seria tecedeira como Penélope e Atena Aracne.

De facto não deixa de ser estranho que a «roupa» em inglês, seguramente feita de tecidos vários, seja clothes, umtermo considerado de origem obscura mas que nos aprece evidentemente aparentado com o gregoklothó e que agora sabemos relacionado com o culto das artes de tecelagem de Cloto / Clito.

Cloth (n.) < Old English claþ "a cloth, sail, cloth covering, woven or felted material to wrap around one," hence, also, "garment," from Proto-Germanic *kalithaz (source also of Old Frisian klath "cloth," Middle Dutch cleet, Dutch kleed "garment, dress," Middle High German kleit, German Kleid "garment"), which is of obscure origin.

La palabra culcĭta tiene una etimología oscura dentro del latín y parece que su raíz puede indicar algo relleno e hinchado, pues parece tener un paralelo en sánscrito kūrkah (balón, fardo, algo relleno e hinchado).

A etimologia do nome genérico das Parcas passa pelo termo virtual *Kurkas ó burcas, que como as Keres seriam variantes de Kurija / Kertu.


«Colchão» < «colcha» <culcta < lat. culcĭta (colchão ou edredão de cobertura)

< kūrki-ta < Kurija / Kertu.

A Norna com o numa Urd parece ter ressonância com Cloto não tanto pela fonética imediata mas pela sua função de tecelagem da teia do destino.


Urd < Sax. Wurth < *Kur-ija > Anglosax. Wyrd > Engl. Weird.

        >«urd-ir» < ? > Lat. Ordire.

A deusa Nona pode ser uma adaptação alegórica ao tempo de gestação solar e derivar da mesma mitologia Egeia como a etrusca Nortia e as Nornas nórdicas.

Na mitologia etrusca, Nortia era a deusa do destino e da fortuna. Seu atributo era o prego, que era pregado na parede dos seus templos durante o ano novo. Embora não haja menção da deusa em textos etruscos, o historiador romano Tito Livio a menciona numa dedicação ritual associada com ela: Minervae inventum sit. Volsiniis quoque clavos indices numeri annorum fixos in templo Nortiae, Etruscae deae, comparere diligens talium monumentorum auctor Cincius adfirmat. -- Livy vii. 3. 7.

É uma desatenção inexplicável não comparar nem postular uma relação evolutiva entre a deusa etrusca Nor-tia e as Nor-(a)nas nórdicas sendo todas deusas da sorte e do destino.


Nona < No®na< Nornas < Nor-(a)nas º Nor-tia, lit deusa Nor < *nurtha-

                                           <*Anura < Ana-Ura

> Urania, deusa da astronomia, astrologia e profetismo.

As Nornas são três anciãs da mitologia nórdica que moram em Asgard. Têm como função tecer o destino dos deuses e dos homens e zelar pelo cumprimento e conservação das leis que regem as realidades dos homens, dos Aesires, dos elfos, dos anões, etc...

Old English norð "northern" (adj.), "northwards" (adv.), from Proto-Germanic *nurtha- (source also of Old Norse norðr, Old Saxon north, Old Frisian north, Middle Dutch nort, Dutch noord, German nord), possibly ultimately from PIE *ner- "left," also "below," as north is to the left when one faces the rising sun (source also of Sanskrit narakah "hell," Greek enerthen "from beneath," Oscan-Umbrian nertrak "left"). The same notion underlies Old Irish tuath "left; northern;" Arabic shamal "left hand; north." The usual word for "north" in the Romance languages ultimately is from English, for example Old French north (Modern French nord), borrowed from Old English norð; Italian nord, Spanish norte are borrowed from French.

Uma vez que o nome do «Norte» deriva dos falares nórdicos, é quase seguro que a deusa Nortia dos estruscos teve muito a ver com isto. Obviamente que derivar o nome do norte da mão esquerda quando se olha o nascente não é coisa relevante porque nos deixa por explicar porque é que a esquerda se chamava *ner- em PIE uma vez que se acredita que havia uma raiz indo-europeia semelhante à palavra grega nerteros que significava "baixo" e uma antiga palavra italiana nertu que significava "esquerda". Ora, considerando que os sacrifícios eram feitos com o altar voltado para o nascer do sol, a explicação só poderia ser dada pelos etruscos que confirmariam, ou não, se a posição do templo da deusa Nortia ficariaviradopara a esquerda e para baixo em termos da posição do sol ao meio-dia. Claro que a posição para baixo não fica clara e quase de certeza que a explicação de a deusa Nortia se referir também os infernos que estão debaixo da terra decorreria do facto de ela ser uma deusa infernal também. Ora é quase seguro que sim, uma vez que esta deusa se chamaria também Nério, esposa de Marte como Morta era, e de Ner-gal, o deus sumério dos infernos do Kur. Se as Parcas latinas, como se demonstrou, devem, intuitiva e directamente, o seu nome à sua função, não sendo portanto deusas alegóricos no verdadeiro sentido da palavra mas apenas a epítetos de deusas pré existentes, as moiras gregas seriam originariamente inominadas ou seriam meras variantes de outras divindades tende-lhe sido dado nome específico por mera alegoria com as suas funções no mitema do Destino da condição humana, tal como este era entendido pela cultura grega da época homérica.

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Figura 3: Nornas. As Nornir são representadas como 3 mulheres: a virgem (Skuld), a mãe (Verðandi) e a anciã (Urðr). Apesar de serem consideradas deusas do destino, as Nornir são jötnar (gigantes), e as 3 são donzelas (virgens).

II A deusa Decima pode ser uma adaptação alegórica ao tempo de gestação lunar e derivar de Decuma, a deusa Cibele ou a Sibila de Cumas.

A Sibila de Cumas, segundo a mitologia grega, era natural de Éritras, importante cidade da Jônia. Ficou conhecida como a sibila de Cumas porque passou a maior parte de sua vida nesta cidade, situada na costa da Campânia (Itália).


Decima < Decuma< De(a) Cuma < Kyma < Ki-Ma, Deusa mãe Ki

> *Kimê >«Fama».

Obviamente que não é fácil descortinar o nome da moira grega Laquesis em Decuma pelo que somos obrigados a considerar que se trata de tradições diferentes. No entanto, bem perto da Mauritânia fica Marrocos e Marraquexe que parece ter algo a ver com o nome desta moira.


Laquesis > Ma + Raqueshis > Marraquexe > Marrocos.

Acredita-se que Marraquexe ("Marrakech") derivaria das raízes berberes "ta-mart", "terra", e "akush", "Deus". De qualquer modo não nos podemos esquecer que se fizer sentido a relação de Laquesis com Marrocos então, como o que parece relacionar estes dois termos é a Mãe Terra, *Kimê, fica exoicada a relação de Decima com esta moira

A segunda norna equivalente seria então Werd-andi, com o significado de a que está tecendo ou «urdindo» a «verdade», ou seja, o destino pessoal de cada um. Como parece evidente esta tradição mantém o étimo Wer- de Kurija, que vamos encontrar nas Horas e nas estações do ano, acrescentando-lhe o radical -andi que em latim é um gerúndio ou seja um gerador constante de acção e que deve decorrer da mitologia da deusa Mãe parideira Antu, equivalente de Decuma

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Figura 4: Prometheus creates man. Clotho and Lachesis besides Poseidon (with his trident), and presumably Atropos besides Artemis (with the moon crescent). Roman sarcophagus, Louvre.



III MORTA & ATROPOS

As moiras (em grego: Μοῖραι), na mitologia grega, eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Durante o trabalho, as moiras fazem uso da “Roda da Fortuna”, que é o tear utilizado para se tecer os fios. As voltas da roda posicionam o fio do indivíduo em sua parte mais privilegiada (o topo) ou em sua parte menos desejável (o fundo), explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte de todos. As três deusas decidiam o destino individual dos antigos gregos, e criaram Têmis, Nêmesis e as erínias. Pertenciam à primeira geração divina (os deuses primordiais), e assim como Nix, eram domadoras de deusas e homens.

É possível garantir que os nomes das duas primeiras parcas latinas eram alegóricos porque etimologicamente pouco ou nada têm a ver com os respectivos nomes gregos. Já o nome de Morta não será uma alegoria, embora o pareça por ser literalmente o que significa: a morte inexorável. De facto, Morta deriva de um deus virtual que teria sido *Ma-Werte, possivelmente variante do nome da deusa egípcia do parto que era Taveret,de que teria derivado também o nome de Marte / Mavorte. Neste caso, *Maweret º Taweret e seriamambas formas de Isis, a deusa que ressuscitouo próprio filho e marido, Osíris.

Como a função de Marte era a de tanto a de deus de fertilidade em tempo de paz como de morte, em tempo de guerra, podemos postular que primitivamente Marte / Mavorte era filho de Morta e mais tarde seu esposo, como Vénus foi. Ora, é óbvio que a deusa Mor-ta é literalmente a ou o (deus) *Mor que facilmente se identificaria como sendo o deus grego Moros, o pai das Moiras.

Moros (em grego: Μόρος), na mitologia grega, era o deus da sorte e do destino, da morte e das criaturas do Tártaro representado uma entidade cega. Segundo a Teogonia de Hesíodo, era filho de Nix, sendo assim considerado um Daimon. Sem ver a quem reserva o futuro, seu carácter é o da inevitabilidade.

Sendo filho da Noite Primordial, Moros teria necessariamente que ser uma entidade cega de luz como é a noite e negra, como os «moiros» do Norte de Africa acabaram sendo e «morenas» como eram as mouriscas «moiras» encantadas lusitanas suspeitando-se que o nome de Afrodite Melania derive deste mitema relacionado com a morte negra, que a latina Morta já era tal como as Keres gregas, irmãs de Moros. Ora bem, pode facilmente suspeitar-se que esta Afrodite Melania, enquanto a latina Vénus, estaria casada com Marte / Mavorte quer porqueaquela era Morta, quer porque este era Moros o que nos permite postular uma origem arcaica da raiz *mor- de que deriva também a moralidade latina, talvez porque também esta estivesse relacionada com o destino colectivo do povo.

Seguramente que se formos procurar origem desta raiz *mor- iremos encontrar escrito as costumeiras eloquências que põem o protocolo da mitologia virado do avesso na base de evidências linguísticas que relacionam as moiras gregas com termos correlativos para «sorte» ou «quinhão» na distribuição dos despojos militares ou lote de terras distribuído por mérito ou herança!

The ancient Greek word moira (μοῖρα) means a portion or lot of the whole, and is related to meros, "part, lot" and moros, "fate, doom", Latin meritum, "reward", English merit, derived from the PIE root *(s)mer, "to allot, assign".

Porém, o mais lógico é suspeitar que foi a mitologia das moiras que emprestou a estes termos o significado de «quinhão» de riqueza ou "porção do espólio" de guerra por analogia óbvia com a porção de vida que as moiras dão aos mortais por destino. A verdade é que o quinhão de vida, que acaba sempre no seu fim que é morte, teria que ser dado por deuses da morte como no fundo todos estes deuses são…desde logo pela sua relação com a deusa Morta e com a etimologia latina da morte. 
 


Ver: DEUSES DA MORTE (***)



Ora esta mesma relação semãntica já estava latente na mitologia da deusa egípcia Tavaret quer por ser uma deusa do parto e, logo também, uma deusa da vida e da morte quer porque esta tinha o seu lado negro na mitologia do Amut / Amenti / Amentet.

Amentet (Ament, Amentit, Imentet, Imentit) was the Egyptian goddess and friend of the dead, and the personification of the Land of the West, 'Amenti'. It was she who welcomed the deceased to their new dwelling place in the netherworld. She was also a goddess who helped with the rebirthing process, and thus a goddess of fertility and rebirth, who regenerated the deceased with food and water.

Originally, Amenti (or Amentet) was considered to be the place where the sun set at the entrance to the netherworld, but the name was soon applied to cemeteries and tombs across Egypt. As a goddess of the dead, Amentet is thought to have lived in a tree at the edge of the desert overlooking the gates to the underworld.

Should the heart prove heavier, however, it was thrown to the floor of the Hall of Truth where it was devoured by Amenti (also known as Amut), a god with the face of a crocodile, the front of a leopard and the back of a rhinoceros, known as "the gobbler". Once Amenti devoured the person's heart, the individual soul then ceased to exist. There was no `hell' for the ancient Egyptians; their `fate worse than death' was non-existence.

A-tropos, a que afasta de lugar, deve ter uma origem alegórica recente relacionada com o trauma do corte do cordão umbilical ou pode derivar de a-trophos, a que retira o alimento, mas sempre e em qualquer caso de origem alegórica recente.

A norna equivalente é uma Valquíria que transporta os guerreiros mortos para o «vale dos caídos», a Valhalla, e que se chama Skuld, que facilmente se vê não ter continuado a sequência da raiz Wer-. Assim vamos ter de esclarecer a relação coma parca Morta e com a moira Atropos por vias indirectas.

Su nombre está asociado en nórdico antiguo (así como en los idiomas escandinavos modernos) a "deuda, falta, culpa, o responsabilidad". Etimológicamente la palabra deriva de skola en islandés / nórdico antiguo, "necesidad, ser necesario".

1 Esta palabra comparte el mismo origen que ciertos verbos germánicos modales como "skulle" en sueco (modo condicional, "lo que podría ser") o "should" en inglés ("lo que debería ser").

2 Por extensión, Skuld se interpreta usualmente como el aspecto del destino relacionado o reflejado en el futuro, es decir, "lo que nos hará falta, lo que debería ser, o lo que es necesario que ocurra".

Desta norna se canta em islandês antigo que “Skuld helt skildi”, ou seja, “Skuld tinha um escudo” que em inglês moderno continuaria um trocadilho “Should had a shield” que poderia ser traduzido como: “a necessidade tem um escudo” como as mulheres árabes têm *kurkas ou burcas.


Should < Skuld < Ish-kur-Te < Ishkur ó Kurija.

O único aspecto relevante da terceira norna de nome Skuld e a sua relação coma a necessidade imperiosa do destino que era a qualidade semântica da mãe das moiras que era Ananquê. Delas resultou o moderno conceito vitoriano do dever inglês.

As «fadas» da mitologia dos contos infantis equivalentes às nortas nórdicas estão relacionadas com ofatum latino, um conceito de destino que e fatalidade que nos pode reportar para um deus arcaico como seria Fanes grego e Fauno latino.


Fatum < for / fārī / fātus sum *fā-ōr
> Grec. Φά-τις.
From Proto-Italic *fāōr, from Proto-Indo-European *bʰeh- (“to speak”). Cognates include fama (“news; fame”), fabula (“story, tale, fable”), Ancient Greek φημί (phēmí, “speak”), φάτις (phátis, “rumour, news, speech”), φάσις (phásis, “speech, announcement”), φωνή (phōnḗ, “voice”), Old Church Slavonic баяти (bajati, “tell, narrate”) and баснь (basnĭ, “fable”) (Russian ба́ять (bájatʹ) and ба́сня (básnja)) and Old English bannan (English ban). Compare also Sanskrit भनति (bhánati, “speak”).

Na verdade, seria falta de lembrança não incluir nesta evocação os Vanes da mitologia nórdica. Os Vanir ou Vanes são um grupo de deuses da fertilidade e da prosperidade, magia e profetismo que se contrapunham aos Æsir ou Asses que eram deuses do poder e da guerra. De facto, são os Vanes que permitem relacionar o fatum com outros termos de suposta origem indo-europeia.

 “La palabra destino viene del verbo destinar, y este procede del latín destinare”[1]. Obviamente que estamos perante outro dos erros comuns no estudo da etimologia porque não são as palavras que derivam dos verbos mas as acções que derivam das coisas coagidas ou dos agentes dos actos. De facto, os verbos são realidades complexas na sua conjugação e não é de regra o simples derivar do complexo mas o inverso.

“El prefijo latino de- que indica separación y origen y a veces dirección de arriba abajo o idea de descenso, como en declarar y demacrar”[2]. Obviamente que o sentido da preposição e prefixo «de» tem o significado de separação e origem e direcção de descida de cima para baixo precisamente porque a sua origem semântica decorre do seu significado original mais arcaico que seria o de deusa mãe e divindade.

“La raíz del verbo -stanare, el cual por apofonía radical cambia a -stinare, como apreciamos también en obstinar. La forma -stanare se genera de la raíz -sta- del verbo stare con un infijo nasal -n-. Stare significa "estar de pie", o sea, "estar fijo" y se asocia con una raíz indoeuropea *sta (estar de pie), que en griego dio στατός (statos = estacionario) y de ahí las palabras: estática, próstata, metástasis, etc[3].


«Destino» < Lat. De-| stin < -stan(are) < Istano, o deus sol dos hititas, ou

                 < *Dis-Tan, o deus cobra dos infernos, ou seja,

Tan-atos, o Destino final de tudo e de todos.



HIPNOS & TANATOS, ANJOS DA GUARDA DOS MORTOS (***)



A regularidade cíclica dos períodos solares deve ter criado a ideia da necessidade causal do destino daí a sua relação com o deus sol dos hititas que tudo indica terem sido os antepassados culturais dos romanos.

O destino não está predestinado na mente dos deuses ou se está, o seu desconhecimento teórico coloca-o na posição do que é desconhecido e que por isso indeterminado e inoperativo. A teia do destino vai sendo tecida a cada momento pelas acções humanas sujeitas aos caprichos da Sorte e ao império das leis naturais. Da Necessidade causal da física determinista estável ao Acaso probabilístico que começa na geometria fractal gerada pelos números irracionais, passa pela incerteza quântica da realidade sensível à instabilidade das condições iniciais e acaba no livre arbítrio das decisões subjectivas a infinitos níveis de decisão da realidade as filhas de Ananquê sonham que decidem o Destino dos humanos mas são os limites ilimitáveis tão simples quanto complexos da infinita “liberdade condicional” de tudo o que ocorre na Natureza que tecem a forma e o domínio de acção do Devir que a cada momento renova a Eternidade do Ser. Entre o Ser tudo e o não Ser nada, o Acaso e a Necessidade tecem as malhas de alguma coisa que é a grande ilusão do Devir.






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