sexta-feira, 25 de setembro de 2026

DEUSES LATINOS - VENUS I.A. - A ORIGEM DA VENALIDADE, por Artur Felisberto



Figura 1: Venus & Marte, com Cupidos presentes, numa pintura mural de Pompeia tratada por IA.


 

E deste modo foram consagrados os vocábulos Desejo, Prazer e Vénus Libentina — coisas viciosas e não naturais (embora Veleio pense de outro modo); mas, são precisamente essas coisas corrompidas que muitas vezes impelem a natureza com maior veemência. (...)

A deusa, por outro lado, que sobreviria a todas as coisas, os nossos a chamaram Vénus; e é dela que deriva venusto, e não Vénus de venusto.

Quanto a Vénus: a primeira é a nascida do Céu e de Dia, e vemos o seu templo em Élide; a segunda é a gerada da espuma do mar, e dela e de Mercúrio sabemos ter nascido o segundo Cupido; a terceira, nascida de Júpiter e de Diona, é a que se casou com Vulcano, mas dela e de Marte se diz ter nascido Anteros; a quarta, concebida na Síria e em Chipre, é a que se chama Astarte, a qual, diz a tradição, teria sido esposa de Adónis. -- Sobre a Natureza dos Deuses de Cícero, tradução de Leandro Abel Vendemiatti.

 

As etimologias propostas pelos Antigos, embora frequentemente falsas, revelam associações de ideias instrutivas que traduzem a gótica particular de cada autor. Cícero sublinha o aspecto universal de Venus como aquela que intervém em todas as coisas, Varro aproxima a deusa da força de vinculação e Santo Agostinho associa o nome à violência inerente ao ato sexual. -- Schilling

 

ORIGEM DA VENALIDADE

*KAPHURA

PORNA

TURAN

VANDA

ACCA LARENTIA

 


A ORIGEM DA VENALIDADE

 

Supostamente o nome de Vénus emerge de um abstracto proto-indo-europeu *wénh₁-os, núcleo semântico do desejo, que nas línguas itálicas se reconfiguraria como *wenos- conceito que no latim teria sofrido efeminização — não por necessidade morfológica, mas por associação a um culto a uma entidade feminina. Os cognatos indo-europeus preservam o valor neutro e não divino, sinal de que a aplicação teonímica é inovação itálica de que os messápico Venas e osco wenzēi são ecos emprestados e não linhagens autónomas.

A raiz indo-europeia *wen- constitui um campo semântico estável — “desejo, favor, inclinação a” — cuja neutralidade funcional atravessa as famílias linguísticas sem produzir, por si, qualquer figura teonímica. Este dado é seguro: os cognatos védicos, gregos, germânicos ou célticos não exibem derivações divinas, o que implica que a emergência de Venus como entidade de culto não é herança directa do PIE, mas operação interna ao domínio itálico. A forma latina, irregular na morfologia e feminina apenas por estatuto de culto, não exige reconstruções como wénh₁‑os, cuja especificidade excede o que a filologia permite afirmar; a presença de consoante laríngea é conjectural e a cadeia evolutiva proposta — abstracto PIE, reconfiguração itálica, efeminização latina — não corresponde a qualquer tradição reconstrutiva reconhecida. O que se pode sustentar é apenas isto: um étimo itálico, semanticamente alinhado com *wen-, foi investido de função teonímica num contexto ritual feminino, produzindo Venus como nome de deusa sem que a morfologia o exigisse. As formas messápica Venas e osca wenzēi são epigraficamente reais, mas a sua interpretação permanece aberta: podem ser empréstimos, podem ser paralelos regionais, podem ser reflexos de uma mesma inovação itálica; nada permite fixar uma genealogia autónoma nem confirmar dependência directa.

A possível objeção à ausência de cognatos divinos de Vénus fora deste domínio assenta na desmontagem da premissa fonética e morfológica que sustenta o isolamento de Venus no quadro romano. A alegada ausência só se mantém se aceitarmos uma leitura estritamente indo-europeia, centrada na raiz wen-* e na conservação de um inicial w- que, na prática histórica, se dissolve num contínuo bilabial w/v/b/u̯, apagando a fronteira rígida entre linhagens. Quando se reintroduz esse contínuo, o nome latino deixa de ser corpo isolado e passa a inscrever-se num sistema mais profundo de teónimos femininos breves, bilabiais, sufixados, cuja distribuição atravessa Suméria, Anatólia, Etrúria, Índia e fachada atlântica hispânica. A sequência conceptual BA (-ba)→ BA-AN → BAN → BANDA mostra que a aglutinação de AN como morfema de céu e da soberania produz nomes femininos de poder territorial, formalmente compatíveis com a suméria Baba e com o padrão lusitano Bandu/Banda, epigraficamente seguro e morfologicamente alinhado com um radical BAN- que se repete em múltiplos dativos e variantes galaico-lusitanas. Em paralelo, o anatólio-luvita -wana- significa literalmente mulher, senhora, deusa, confirmando que o radical bilabial inicial não é marca de família linguística, mas de função litúrgica; a oscilação wana/van(a)/ban(a) integra-se num arquétipo feminino PIE que reaparece na etrusca Vanth, em Vanda/Vandana indo-iranianas, em Banba/Banda/Benda céltico-atlânticas, compondo um sistema de soberania feminina liminar, ligada a território, passagem, tutela e fecundidade. Neste contexto, Vénus é inovação itálica apenas no plano institucional romano porque no plano morfológico e mítico, é uma variante ocidental de um mitema feminino pan-mediterrânico cuja matriz fonética e funcional antecede a segmentação indo-europeia e torna insustentável a ideia de que não existiriam cognatos divinos fora do domínio itálico. O que há, de facto, não é ausência de parentesco, mas ausência de reconhecimento: uma filologia conservadora que, ao fixar a raiz *wen- num regime fonético estreito, apaga a continuidade BA/BAN/VAN/WAN/VEN e, com ela, a rede de deidades femininas que ligam Suméria, Anatólia, Etrúria, Índia e Lusitânia num mesmo arquétipo de Senhora do espaço, do laço, do caminho e do favor.

O campo lexical derivado — ven-ustus/ven-ustas, ven-erius, ven-erare, ven-eratio, ven-ia, ven-or, etc.— converge na raiz *wen-, que articula desejo, luta, captura, propiciação. A etimologia de Varro (vincire) é leitura simbólica tardia; a filologia moderna restitui Venus como antigo neutro abstracto, matriz de uen-erari, verbo que designava o gesto humano de tentar capturar a benevolência divina, movimento sedutor que pressupõe resposta favorável do destinatário. Já o desaparecido uenus indicaria precisamente esse vector de atracção, facilmente transposto para o charme feminino e daí para a efeminização do teónimo.

Que nome é este? Palavra neutra, “uenus”, do tipo “genus”; desde o início, revela o seu carácter excepcional em contraste com as formações masculinas “Ianus”, “Consus”. Sob que influência se tornou este neutro feminino? Uma coisa é certa: este nome atesta uma autêntica origem latina; preservou esta identidade ao longo da história, apesar de todos os saltos de sincretismo: um facto notável, se considerarmos que já no século VI, um Apolo foi introduzido em Roma sem disfarçar a sua origem grega. (...)

(Mas) Cíngio, no livro que deixou sobre os Fastos, afirma que alguns pensam, por ignorância, que os antigos deram o nome de Vénus ao mês de Abril, dado que não havia nenhuma festa ou sacrifício notável a Vénus instituído pelos antigos durante esse mês, e nem mesmo em cânticos de louvor a Vénus, como se fazia com outros seres celestes, se celebrava qualquer coisa. Varrão concorda também com Cíngio, afirmando que o nome Vénus não era latino nem grego entre os romanos, nem mesmo sob o reinado dos reis.

A tabela de referências fornecida pelo panteão do final da República pode ter-lhes sugerido uma visão demasiado estática da religião dos seus antepassados. Parece que a ideia de uma evolução gradual lhes era desconhecida. Por esta razão, sem dúvida, Varrão não conseguiu encontrar Vénus nas origens: procurou-a sob uma representação que se conformava com a mentalidade do século I. Assim, contentou-se com registos de factos; anotou a ausência ou presença de uma determinada divindade, ignorando o significado das transições. É desta forma que, através de uma abordagem simétrica, aponta o desaparecimento, no século I, de uma deusa que, no entanto, possuía originalmente um flamen, um santuário e uma festa: Furrina; "nunc uix nomen notum paucis", acrescentando simplesmente que “hoje em dia, o nome é conhecido por muito pouca gente”.

Furrina, também grafada Furina, foi uma antiga deusa romana cuja função se tornou obscura a partir do século I a.C. Seu culto datava do período mais antigo da história religiosa romana, já que ela era uma das quinze divindades que possuíam seu próprio flamen, o Furrinalis, um dos flâmines minores e possuía um bosque sagrado (lucus) no Janículo, que pode ter sido o local do festival. A Furrina estava associada à água, e a Furrinalia segue a Lucaria (Festival do Bosque) em 19 e 21 de Julho e a Neptunalia em 23 de Julho, um agrupamento que pode reflectir preocupação com a canícula do verão.

Furrina surge nos Fasti como deidade antiga cujo culto “mal conhecido por poucos”, se implicava a ignorância geral escondia a persistência residual de um saber especializado, próprio de cultos liminares e subterrâneos cercados pelo tabu da inefabilidade. O lucus Furrinae, situado no Janículo, é descrito como bosque sagrado associado a uma nascente profunda, interpretada por Gauckler como indício de uma deusa das fontes subterrâneas, sustentado pelo uso do termo νύμφαι nas inscrições tardias, confirmando a natureza hídrico liminar da divindade. A ausência de vestígios republicanos nas escavações de 1906‑10 não invalida a antiguidade do culto, apenas demonstra a sobreposição posterior de cultos sírios (Júpiter Heliopolitano, Atargatis) nos séculos II‑III d.C.

O bosque de Furrina era local de morte voluntária pois C. Graco, perseguido, resiste na ponte Sublicio e alcança o lucus Furrinae, onde se entrega à morte pelas mãos do escravo Filócrates . Este gesto não é geográfico mas teológico pois o bosque funcionava como espaço liminar entre vivos e mortos, ponto de passagem para o domínio infernal. Cícero interpreta explicitamente o lucus como pertencente às Fúrias, afirmando que, se as Euménides são divindades, “o bosque de Furrina é das Fúrias”. Plutarco confirma a equivalência ao designá‑lo “bosque das Erínias”; νυμφῶν Φορρίνων. Marciano Capela, transmissor tardio da cosmologia etrusco‑romana, inclui Fura, Furina e Mania entre as divindades do submundo, revelando que a associação não é fonética mas funcional: todas pertencem ao domínio infernal, hídrico liminar, perigoso, reservado a poucos e marcado pelo tabu.

De Fura derivaram os «furos» feitos para encontrar agua subterrânea como faziam os Garamantes do Saara líbio faziam apenas um "furo" vertical; cavavam um poço-mãe vertical numa zona mais alta para alcançar o lençol freático. Depois, cavavam quilómetros de túneis subterrâneos horizontais com uma ligeira inclinação. A água corria por estes túneis graças à gravidade até desaguar nos oásis e plantações.

Os filólogos e historiadores da religião (como Georges Dumézil) apontam que o nome de Furrina está ligado a raízes indo-europeias que remetem para o "ferver", o "borbulhar" ou o movimento da água que brota do fundo (fervĕre). Assim, embora a etimologia oficial separe o verbo forare (furar) do teónimo Furrina, o pensamento mítico funde-os perfeitamente: o furo só encontra a água viva se a senhora do borbulhar subterrâneo assim o permitir.

Por outro lado, a tentativa de circunscrever Furrina ao perímetro itálico, como resíduo de uma raiz bher- ou como derivação mecânica de forare, constitui o sintoma clássico da redução indo-europeia: a obsessão por fechar o nome dentro de uma genealogia fonética que ignora a camada mais antiga, aquela em que a água subterrânea não é metáfora nem recurso, mas eixo mítico cosmológico. A deusa romana, relegada pelos filólogos ao estatuto de curiosidade arcaica com flamen menor, pertence a um sistema anterior à própria segmentação indo-europeia, onde a perfuração da terra é ato liminar, negociação com o domínio inferior, violação ritual do espaço que separa a superfície do submundo. A cegueira dos PIE-logistas não reside na insuficiência dos dados, mas na recusa em reconhecer que o gesto técnico de abrir um furo é, desde o Saara verde até ao Crescente Fértil, operação ritual teológica: o acesso ao lençol profundo é sempre intrusão nos domínios sagrados e secretos do Kur. Na cosmologia suméria, o Kur não é apenas montanha nem somente a terra estrangeira porque é também a espessura ontológica que separa o mundo dos vivos do Abzu, o reservatório primordial de água doce subterrânea. A perfuração é, nesse quadro, uma travessia vertical que exige mediação divina. A proximidade funcional entre o furo romano e o eixo Abzu-Kur não é coincidência, mas persistência de um mitema freatomântico que atravessa o Mediterrâneo antes de qualquer reorganização indo-europeia. A etimologia latina, ao fixar-se na superfície fonética de forare, perde o núcleo conceptual que o «furo» é enquanto abertura para o domínio inferior, um gesto sempre arriscado de acesso à água profunda que ninguém vê e que só ars haruspicina do vedor prevê.

O Saara fornece o testemunho arqueológico dessa continuidade onde a desertificação não apagou o conhecimento técnico dos poços quais «furos» profundos tornados por isso mesmo mais preciosos e mais sagrado. As culturas que sobreviveram à transição — nómadas, berberes, afro-mediterrânicas — operavam num espaço de intercâmbio onde a hidrologia profunda era ciência e culto. A água subterrânea, única garantia de sobrevivência no período mais seco do ano, exigia invocação, sacrifício e o nome duma deidade como Fura ou Furrina. A Furrinalia romana, celebrada no ápice da secura italiana, preserva exactamente esse gesto: o chamamento da água que vem das entranhas da terra quando a superfície falha.

Assim, Furrina não é resíduo itálico nem epifenómeno indo-europeu porque é sobrevivência ocidental de uma matriz freatomântica que ligava o Saara ao Abzu, o Kur ao «furo» e a perfuração à deusa Fura. A clausura filológica que a isola a deusa latina no panteão romano é apenas o último reflexo da cegueira que recusa ver que a água profunda, antes de ser técnica, foi sempre mítica, ritual e teologia.

A função de Furrina emerge assim como potência subterrânea ligada a águas profundas, equivalente funcional das Erínias, guardiã de limiares onde se exerce justiça infernal. A morte de Graco no lucus confirma a natureza do lugar como espaço de transição e de julgamento. A leitura positivista que reduz a equivalência às Fúrias a mera semelhança de nome ignora a coerência de culto conservada por Cícero, Plutarco e Marciano, bem como a estrutura teológica dos cultos arcaicos, sempre restritos, inefáveis e conhecidos por poucos. A raiz conceptual anterior ao nome aponta para o padrão indo‑anatólio do KUR: profundidade, submundo, águas subterrâneas, liminaridade e justiça infernal. As Forrinae são, portanto, potências hídrico liminares infernais, cuja equivalência às Fúrias / Erínias não é coincidência mas expressão da mesma função numénica e constituem um dos teónimos mais arcaicos e debatidos do panteão romano primordial. O esvaziamento do seu significado teológico no final do período republicano, registado por autores como Cícero e Varrão, decorre directamente da incapacidade da erudição clássica e da posterior filologia positivista em compreender a natureza polivalente das forças numinosas primitivas.

A análise integrada da toponímia, da geologia do Janículo e da evolução fonética das línguas românicas desfaz o impasse académico através das seguintes evidências estruturais:

1. A Raiz Técnica e a Geologia do Sagrado

As escavações arqueológicas de 1906 no Lucus Furrinae (Bosque de Furrina) expuseram um complexo capilar de captação de águas subterrâneas frias, composto por galerias alinhadas e um poço profundo de 11 metros. As grafias arcaicas e variantes documentadas nas fontes — Furina, Forina e o plural Forinae — encontram correspondência direta no étimo contido no latim forāre ("perfurar", "furar") e no latim vulgar *furare.

Esta oscilação fonética regular entre o O e o U fixou-se organicamente na latinidade ibérica sob o termo "furo" (perfuração tubular do solo para extração de água). Furrina afirma-se, fundamentalmente, como a Deusa do Furo: a entidade numinosa que rege a ação técnica e sagrada de perfurar as entranhas da terra para aceder aos lençóis freáticos ocultos.

2. A Conexão Cosmológica com a Matriz Oriental

O posicionamento geográfico do santuário na margem direita do Tibre situava-o na zona de fronteira arcaica com o mundo etrusco e cartaginês. O magnetismo atávico que levou este preciso local a ser reconfigurado, em pleno período imperial, para abrigar o Santuário Sírio e cultos mistéricos orientais (como os da Tríade Síria e de Osíris) não constitui um acidente histórico. O espaço operava por ressonância mitológica profunda com a cosmologia oriental arcaica, semítica e caldeia. Na teologia mesopotâmica primordial, o Senhor do Kur e do Abzu (Enki) governa o oceano invisível de águas doces profundas que sustenta o mundo. O poço ou "furo" no Janículo funcionava como o canal de comunicação direto com este domínio ctónico, gerando uma identidade conceptual entre a Deusa do Furo romana e uma designação ancestral próxima de *Kurrina, perfeitamente inteligível para os cultos orientais que ali se fixaram.

3. A Multiplicidade Numérica e o Nexo com as Fúrias

A redução burocrática dos deuses a categorias estanques ignora a intuição empírica do Homem Arcaico, para quem a confluência de forças naturais múltiplas em simultâneo (como vários ventos ou várias linhas de água) justificava a pluralidade do divino. A transição documental de Furrina para o coletivo das nymphae furrinae ou Forinae reflete esta dinâmica de fluxos hídricos concorrentes.

Sob esta óptica de polivalência, inexiste fratura entre Furrina e as Fúrias (Furiae). O poço profundo (o furo) representa uma rutura no solo e uma entrada física no submundo subterrâneo. A atração homofónica literária posterior entre os termos apenas camuflou uma unidade teológica primitiva: a Senhora do Furo, que guarda o acesso às águas escuras da terra (furvus / fuscus), confunde-se com a própria força punitiva ctónica que habita as profundezas. O achado arqueológico de um crânio humano sob o altar do complexo ratifica o caráter pesado e mortuário destes rituais de selação.

As Fúrias emergem no registo histórico como a face terrível desta mesma moeda, manifestando-se sempre que a impiedade positivista esquece a simplicidade orgânica das leis da terra e do sagrado.

 

VENUS FRUTIS

Este nome (Venus) parece ter-se referido, segundo o grego xaris, inicialmente como um apelativo ao encanto e ao viço da natureza, depois à deusa que governava estas coisas, que, no sentido prático romano, se especificava como protectora dos jardins e do cultivo de vegetais; quando o apelativo se expandiu para denotar a graça e a beleza em geral, a deusa italiana, tanto quanto podemos ver, não sofreu a transformação, mas o nome tornou-se adequado para introduzir e apresentar a deusa grega do amor e da beleza, Afrodite, em Roma. -- Georg Wissowa

Le premier est une inscription gravée sur un vase trouvé à Pompéi: «Presta mi sinceru(m), sic te amet que custodit ortu(m ) Venus» . -- LA RELIGION ROMAINE DE VENUS, DEPUIS LES ORIGINES JUSQU’AU TEMPS D’AUGUSTE PAR ROBERT SCHILLING.

Se a Vénus romana possuía os atributos de uma “deusa dos vegetais”, seria de facto surpreendente não encontrar o seu nome nesta lista de sacerdócios arcaicos. Seria especialmente espantoso que ela nunca aparecesse em qualquer oração agrária, quer no canto dos Irmãos Arvais, quer nas invocações transmitidas por Catão. Seria a competência dos Irmãos Arvais descartada sob o pretexto de que a influência de Venus se limitava ao jardim? Neste caso, o silêncio de Catão torna-se ainda mais perturbador: ele, que no início do seu tratado defende o cultivo de vinhas e jardins, como pôde ter esquecido os sacrifícios destinados à sua suposta protectora? Esta negligência seria difícil de explicar num autor tão meticuloso na transcrição das fórmulas rituais.

A tese de Wissowa de uma Venus “hortelã”, reduzida a deusa de jardins e hortas, desaba assim que se alinham, sem concessões, os dados linguísticos, de culto, epigráficos e histórico-religiosos. Começa pela etimologia: Venus deriva de ∗wenos− < PIE ∗weˊnh1−os, raiz que significa “desejo, anseio, luta por, amar”, e que está na base de venus (“encanto, amor”), venustus, venustas, venerius, venerare, venia, vēnor; nada aqui aponta para horticultura, pois tudo aponta para desejo eficaz, sedução propiciatória, charme que captura um favor. A própria caracterização de culto de Venus em Roma — amor, beleza, desejo, sexo, fertilidade, prosperidade, vitória — é incompatível com uma leitura “doméstica” e vegetalista; pois ela é uma deusa nativamente assimilativa, que incorpora facilmente Afrodite, mas não nasce dela.

O argumento de Wissowa baseado na ausência de Vénus nos calendários mais antigos e na falta de flâmine próprio é metodologicamente frágil: inferir função a partir de silêncio documental é erro básico. Muitos cultos importantes não aparecem nos fastos arcaicos, e vários deuses maiores não têm flâmine; a ausência não prova marginalidade. Pelo contrário, quando se observa o sistema festivo, Vénus surge ligada às Vinalia — Urbana e Rustica — como deusa do vinho “profano” (vinum spurcum), da fertilidade vegetal e da sedução que o vinho desencadeia, em complementaridade funcional com Júpiter, senhor do vinho sacrificial e do clima. A Vinalia Rustica, festival rústico de vindima, hortas e fertilidade, está associada à forma mais antiga conhecida, Venus Obsequens, cujo templo se liga precisamente a esse dia; jardins e hortas são-lhe dedicados, mas como reflexo da sua potência fecundante, não como essência exclusiva.

A epigrafia que Wissowa convoca é mal lida. A fórmula “Presta mi sinceru(m), sic te amet que custodit ortu(m) Venus” não diz “Venus que guarda o jardim”, mas “Venus que guarda o ortus”, isto é, o nascente, o levante, a erecção matinal — o ortus solis, o ponto astral da estrela da manhã.

Concede-me a o vinho sincero, para que Venus — aquela que preserva a erecção — me permita amar-te”. Reparar que esta frase aparece num riton de Pompeia que servia como se deve saber para bebedeiras e orgias.

Deixem-se de frades e de celas misturados com o gelo das nossas madrugadas, que quem é do Alto Douro sabe bem que a conversa é outra. Se da palavra «sincelo» dizem que é escura, a gente limpa-lhe o sebo pela via da sinceridade, que é como quem diz, pela raiz das coisas puras. No latim arcaico, o vinho de verdade «sincera», aquele que saía puro da pipa, limpo e sem baptismo, chamava-se sincerus. Pois o nosso «sincelo» é precisamente esse mesmo espelho de pureza: não é uma geada qualquer, é um gelo cristalino, imaculado e transparente que veste as videiras e brilha ao primeiro sol das manhãs gélidas. O povo, que não é parvo e tem a força da terra na boca, juntou a ressonância do gelo à matriz daquilo que é sincero e límpido, e fez nascer o «sincelo». É o “gelo sincero”, puro como o nosso vinho do Douro e sem as tretas dos dicionários de gabinete.

                                              > sincelus > «sincelo» = orvalho gelado.

«Sincero» < Lat. sincelus = limpo, puro, são; ileso, íntegro; real, natural;

genuíno, sincero. < syn- + *caerus.

Segundo De Vaan, a segunda parte do composto deriva do adjectivo não atestado *caerus que se encontra na primeira parte de caerimōnia, que também está relacionado com caelum (“céu”). Sin- é o reflexo latino do grego syn- + *caerus que por sua vez deriva de Caere, designada Caisra ou Cisra na tradição etrusca, e que constitui uma das cidades mais antigas e influentes da Etrúria, articulando porto marítimo, santuário monumental e uma prática ritual contínua que a tornou referência religiosa para comunidades gregas e romanas. A sua reputação de justiça, a presença de templos e necrópoles monumentais e o acolhimento de sacerdotes romanos após o saque gaulês revelam uma cidade cuja autoridade não era apenas política, mas sobretudo de culto. A formação da aristocracia romana em Caere confirma a transmissão directa de práticas religiosas e terminologia ritual para o latim. Neste contexto, caeremonium deve ser entendido como formação interna do latim sobre o topónimo Caere, com o sufixo -monium, paralelo a patrimonium ou testimonium. O termo não exige qualquer raiz indo-europeia: deriva de um nome etrusco e designa, de modo transparente, o conjunto de práticas rituais associadas à cidade. O radical caer- é, portanto, etrusco e de culto, ligado ao domínio celeste e agrícola das divindades femininas, entre as quais Cel, equivalente funcional da romana Ceres.

A evolução para sincelu — gelo puro, orvalho gelado caído do céu — representa a continuação natural desse campo semântico. A pureza moral de sincērus prolonga a pureza ritual de caeremonium, que por sua vez prolonga a pureza celeste associada à deusa Cel. O «sincelo», enquanto condensação física da humidade celeste, preserva a mesma matriz conceptual: pureza, claridade, integridade do que é simples claro e «singelo». Assim, o eixo etrusco-latino explica de forma contínua caeremonium, sincērus e sincelo, sem necessidade de recorrer a reconstruções proto-itálicas artificiais como *senkairos ou a raízes PIE sem pertinência semântica. O latim sincerus não nasce como categoria moral, mas como termo técnico da pureza física: vinho puro, azeite puro, mel puro, líquido cristalino, não adulterado, não misturado. A metáfora moral é tardia e deriva da imagem enológica. Cícero emprega sincerus para designar pureza de estilo porque pensa a clareza retórica como clareza líquida. O riton pompeiano confirma este valor: num objecto de libação, sincerum só pode significar pureza ritual do líquido, não sinceridade ética. A associação com o sincelo do Douro é filologicamente legítima: ambos designam a mesma experiência sensorial de pureza cristalina. Assim, sincerus é, antes de tudo, metáfora líquida; só depois se torna metáfora moral.

Voltando à visão de Vénus como guardiã do ortus (e não da horta) ecoa perfeitamente o célebre proémio de Lucrécio em De Rerum Natura, onde Venus é invocada como Alma Venus (Venus nutriz), aquela que, sob os signos dos céus, concebe e faz nascer tudo o que vive (per te quoniam genus omne animantum concipitur visitque exortum lumina solis).

A formulação de Lucrécio no proémio do De Rerum Natura confirma, com uma nitidez estrutural, a leitura que vimos estabelecendo: Vénus como princípio que guarda, sustém e faz erguer o ortus, não como metáfora astronómica, mas como potência vital que preside ao surgimento, à elevação, ao levantar-se de tudo o que vive. O verso por meio de ti, pois toda a raça humana vivente é concebida e surge à luz do sol, não descreve um nascer do sol, mas a passagem do vivente ao plano da luz, o momento em que o princípio vital — Vénus — conduz o que foi concebido ao estado de erguer-se, de emergir, de elevar-se. Exortum é o participial que marca esse erguer-se, esse levantar-se, esse surgimento, e não um fenómeno astronómico. A Vénus lucréciana é Alma Venus, nutriz, geradora e sustentadora do erguer-se vital, a guardiã do ortus enquanto potência do que é emergente.

Esta Vénus coincide com a Venus Pompeiana que “preserva o ortus” no riton: a mesma força que sustém o erguer-se, que guarda a energia ascensional, que mantém o princípio vital em estado de elevação. A mesma Vénus que, na pragmática romana, exige a «vénia» — o gesto de inclinar-se, baixar o eixo, abrir espaço ao outro — porque é a potência que convoca a aproximação. A «vénia» é concessão, permissão, obsequio, abertura ao outro; venerar é desejar que o outro venha, conceder-lhe acesso; vir é ocupar o espaço que a vénia abriu e que Vénus atrai. O campo fonético ven- funciona como campo semântico: aproximação, graça, concessão, atracão e reverência. Venire, em Ovídio, deixa de ser deslocação e torna-se culminação interna, atingir o auge, “vir-se”, chegar ao ponto de intensidade que Vénus sustém. Venerārī ainda não é adoração religiosa por continuar amorosa ao torna-se gesto de abertura: inclinar-se, abrir espaço, desejar a aproximação do outro. Venia deixa de ser favor abstracto e torna-se gesto corporal de submissão ritual, não servilismo moral: a inclinação que autoriza o acesso ao corpo fecundo da deusa. Venus deixa de ser figura mitológica isolada e torna-se princípio vital que guarda o erguer-se, que sustém o ortus, que preside ao surgimento de tudo o que vive.

Assim, a Vénus lucréciana — nutriz, geradora, sustentadora do que se ergue firme e erecto — ecoa integralmente a Vénus pompeiana que “custodit ortum”, e ambas se inscrevem no mesmo sistema conceptual em que vénia, venerar, venus e vir-se são variações de um único gesto: abrir espaço, atrair, conceder, erguer, culminar. A frase pompeiana, o proémio de Lucrécio e o uso ovidiano de venire convergem num mesmo eixo: Venus como guardiã do ortus, potência que sustém o erguer-se vital e que, por isso, exige vénia, convoca veneração e culmina no que se vem.

Ortus não é hortus e aqui Vénus é guardiã do nascer e não da horta. A inscrição confirma a natureza astral de Vénus e não uma suposta vocação hortícola.

Em paralelo, os epítetos de culto mostram uma deusa de amplitude muito maior: V. Libitina liga Vénus à morte e ao ciclo funerário; V. Murcia associa-a à murta, ao Aventino e ao Circo Máximo, com leitura posterior cristã como deusa da preguiça; V. Cloacina funde Vénus com a deusa etrusca das águas e da Cloaca Maxima, num culto de purificação, de águas e dos ares, e legitimação do ato sexual conjugal pois Tito Tácio[1], segundo a tradição, teria instituído ritos de «purificação ritual» ligados ao matrimónio legítimo; V. Libentina marca o prazer sensual; Obsequens exprime favor, propiciação, tentativa de “controlar” a deusa que se dá ao obséquio de ser sexualmente possuída. Nada disto é compatível com uma Venus reduzida a hortas e jardins porque pressupões funções eróticas, conjugais, funerárias, purificadoras e reconciliatórias.


Figura 2: Vase de Cumes de la collection Hope restaurado com ajuda da IA.

Il est une divinite qui fera fortune a Rome pour la protection des jardins : Priape. Ce dieu, originaire de Lampsaque sur l’Hellespont, fit une belle carriere en Grece a partir de l’epoque d’Alexandre, avant de parvenir en Italie. Son arrivee sur le sol italique est attestee des le m e siecle avant J.-C. 2. Or, les documents les plus anciens, qui nous signalent sa presence, se trouvent la plupart en Campanie 3. Il y a plus: une partie de ces documents illustre des liens entre Aphrodite et Priape. En effet, tres tot, Priape a passe dans sa patrie de Lampsaque pour un fils de Dionysos et d’Aphrodite : les Grecs ont accueilli avec complaisance cette fable, qui est parvenue par leurs bons offices aux Latins \ Aussi n’est-il pas rare de voir associer Venus et Priape. Cette tradition se manifeste de preference en Campanie, des l’entree de Priape sur le sol italique. (…)

Mais voici qui nous renvoie de facon inattendue vers la Campanie; Broneer pense que le reflet de ce role agraire d’Aphrodite et d’Eros se retrouve sur les vases attiques a figures rouges ou Eros, parfois seul, parfois avec Aphrodite, porte des guirlandes de fleurs ou cueille des fruits. Quant a la ceremonie des Arrephories, en particulier, il la reconnait dans le dessin d’un vase de Cumes de la collection Hope. (...)

C’est encore en Italie du sud, a Crotone, que se trouvait un jardin celebre par ses bosquets de laurier, ses allees de platanes et ses pelouses de gazon emaillees de fleurs : il enfermait un temple d’Aphrodite 2. Detail interessant : c’est a Crotone que Petrone a situe egalement une fete en l’honneur de Priape 3. Crotone nous fournit donc un autre exemple precis de cette contamination entre les cultes d’Aphrodite et de Priape. (...)

Il est en effet remarquable que le chantre des Georgiques n’a jamais fait allusion au role horticole de Venus. En deux endroits au moins, Virgile aurait du evoquer la o protectrice des jardins, si les humbles l’avait priee en vertu des rites ancestraux. Mais les petites gens de la campagne, pas plus chez Virgile que chez Caton, n’invoquent Venus en l’occurrence : ils s’adressent au seul Priape 2. Dans la septieme bucolique (v. 33 sq.) Thyrsis fait allusion aux dons rustiques offerts a Priape protecteur du jardin: Sinum lactis et haec te liba, Priape, quotannis Exspectare sat est : custos es pauperis horti. -- LA RELIGION ROMAINE DE VENUS, DEPUIS LES ORIGINES JUSQU’AU TEMPS D’AUGUSTE PAR ROBERT SCHILLING.

 

Ver: DEUSES LATINOS –  PRÍAPO, «O DEUS MENINO» E PRÍNCIPE DOS INFERNOS (***)

 

O ponto decisivo vem da Etrúria. Turan, deusa etrusca do amor, da beleza, da sedução e da estrela da manhã, é explicitamente reconhecida como equivalente etrusca de Venus. Ora, Roma absorve sistematicamente funções divinas estrangeiras por equivalência:

Tinia → Júpiter, Uni → Juno, Menrva → Minerva, Turan → Venus.

 

VENUS ERICINA

Nenhuma cultura preserva nomes estrangeiros quando já tem a função preenchida; o nome desaparece porque a função é absorvida. Se Venus fosse apenas deusa de jardins, Turan teria sido integrada como deusa distinta do amor; o facto de Turan não deixar rasto nominal no culto romano mostra que Vénus já ocupava o nicho erótico-astral antes da helenização. A “estranheza” da ausência de Turan é, portanto, prova de saturação funcional: Venus não podia ser apenas hortícola, porque já era Turan em conteúdo.

A helenização via Venus Ericina não cria a dimensão erótica; apenas a intensifica e a dramatiza, sob o modelo de Afrodite. As formas arcaicas — Obsequens, Murcia, Libentina, Cloacina, Libitina — revelam uma deusa que articula desejo, sedução, união sexual, reconciliação, purificação, morte e regeneração, em estreita ligação com o astro e com o vinho. A horticultura, os jardins, as hortas e as vinhas são funções laterais, derivadas da sua potência fecundante, tal como em Afrodite; nunca foram o núcleo ontológico da deusa. Em suma: a tese de Wissowa nasce de um silêncio documental e de uma leitura errada de ortum; contra ela, alinham‑se a etimologia indo‑europeia, a epigrafia astral, os epítetos de culto, o sistema festivo das Vinalia e a absorção silenciosa de Turan. Venus nunca foi hortelã: sempre foi estrela da manhã, deusa do desejo, da sedução e da fecundidade, com a horticultura como reflexo, não como essência.

A tese positivista que situa a influência grega no panteão romano apenas a partir do século III a.C. é um artefacto documental, não histórico: confunde a helenização oficial, registada em calendários, decretos e importações de culto, com a helenização cultural, que começa seis séculos antes, com a fundação das cidades da Magna Grécia no século VIII a.C. e com a presença egeia no território etrusco desde o Bronze Final. Roma nasce dentro de um espaço já saturado de iconografia, mitologia, cerâmica, teologia e práticas rituais helénicas, transmitidas não só pelas colónias gregas da Campânia e da Sicília, mas sobretudo pela Etrúria, que funcionou como tradutora cultural do Egeu: Tinia já é Zeus reinterpretado, Uni já é Hera reinterpretada, Menrva já é Atena reinterpretada, Turan já é Afrodite reinterpretada, Artumes já é Ártemis reinterpretada. Quando Roma absorve o panteão etrusco entre os séculos VII e V a.C., absorve também a camada helénica que os etruscos já tinham integrado, o que significa que a helenização romana é segunda mão, mas começa muito antes da helenização administrativa do século III.

A cegueira positivista nasce da obsessão por “primeiras menções”: como Venus, Minerva, Diana ou Juno não aparecem nos fasti arcaicos com funções explicitamente helénicas, conclui‑se que essas funções não existiam. Mas a ausência documental não é ausência de culto. A religião não começa quando é escrita: começa quando é praticada. E a prática religiosa itálica do século VIII a.C. já está profundamente marcada pela presença grega no sul da península e pela digestão etrusca de mitos egeus desde o Bronze Final. Assim, a helenização do panteão latino não é um fenómeno tardio, mas um processo contínuo, pré‑romano, que antecede a própria formação de Roma. A influência grega não chega a Roma no século III: Roma nasce já dentro dela.

O culto de Venus instala-se primeiro em Ardea e Lavínio; o templo documentado de 293 a.C. fixa a presença ritual no Lácio, seguido da Vinalia Rustica (18 de Agosto) e do templo de 215 a. C. junto à Porta Colina após Trasimeno. A mitologia integra Venus na genealogia troiana: mãe de Eneias, garante a fuga de Troia com Anquises, manipula o afeito de Dido, intervém militarmente contra Turno e acompanha a transferência do seu retrato para Lavínio — operação teológica que solda origem troiana e identidade latina.

Venus era originalmente uma deusa de jardins, não do amor e do sexo como a grega Afrodite. Enquanto ambas podem ter compartilhado a fertilidade, tiveram fundamentalmente muito pouco mais em comum. Mas debaixo da orientação de Afrodite, Venus herdou um reino novo e passou depressa do quintal ao quarto. --História e Civilização, Mark Damen.

A ideia de que Vénus teria sido, na sua fase arcaica, apenas uma deusa de jardins, hortas e fertilidade vegetal é incompatível com a lógica religiosa romana, com a morfodinâmica do panteão itálico e com o corredor cultural que liga a Etrúria a Roma. A ausência total de Turan, a deusa etrusca do amor, da beleza, da sedução e da estrela da manhã, no culto romano, é precisamente o elemento que desmonta essa tese: Roma não preserva nomes estrangeiros quando já possui uma divindade que ocupa a mesma função, e nenhuma cultura o faz. Se Vénus fosse apenas divindade vegetal, Turan teria sido integrada como deusa distinta — tal como Cloacina, Libitina ou Murcia foram — mas isso não aconteceu porque Vénus já preenchia o nicho erótico‑astral antes da helenização.

A raiz indo-europeia *wen(h₁)- (desejo, sedução, captura propiciatória) já marca Venus desde o início; Venus Obsequens, Murcia, Libentina e Cloacina revelam funções conjugais, reconciliatórias, eróticas e purificadoras que não se explicam por horticultura. A ligação à estrela da manhã é pré‑helénica, e a morfologia das deusas aparentadas — In-Ana, Ti-Ana/Tanit, Di-Ana, Vena/Venus — mostra uma continuidade simbólica profunda: todas preservam o duplo eixo telúrico-celeste, a soberania luminosa, a fecundidade e a sedução ritual. São máscaras morfológicas, não apenas funcionais, ecoando o arquétipo conceptual que designou como *Kiana (“Terra do Céu”).

A helenização via Vénus Ericina não cria a dimensão erótica: apenas a intensifica e a dramatiza. A função já existia, e por isso Turan não deixou rasto — foi absorvida, não ignorada. A “estranheza” é, na verdade, a prova: Venus nunca foi uma deusa reduzida à horticultura; sempre pertenceu ao domínio astral, erótico e propiciatório, e a horticultura foi apenas uma função lateral, tal como também o foi para Afrodite.

Assim, a leitura vegetalista de Vénus é tardia, parcial e metodologicamente frágil. A continuidade real está no astro: a deusa da estrela da manhã atravessa Suméria, Levante, Anatólia, Etrúria e Roma, mudando de nome, mas nunca de natureza. Venus romana é a última máscara de uma linhagem que sempre foi luminosa, fecunda, sedutora e soberana — nunca uma simples guardiã de hortas.

A construção de Wissowa — Vénus como deusa hortícola arcaica — não resiste ao exame histórico, epigráfico e de culto, e Robert Schilling, em La Religion Romaine, fornece a contraprova decisiva. A horticultura venusiana não é latina: é helénica, importada da Magna Grécia e da Sicília desde o século VIII a.C., e só muito mais tarde absorvida por Roma. Os jardins sagrados de Afrodite em Cumas, Siracusa, Tarento, Paestum e Crotona mostram que a horticultura é uma função agrária grega, ligada aos mistérios vegetais da deusa, aos ritos de fertilidade, às associações com Príapo e Ceres, e à tradição da Arreforia. A moda dos jardins sagrados espalha‑se pelo sul da Itália e pela Sicília, e é precisamente esta camada helénica que Roma herda — não uma suposta Vénus indígena dos legumes.

Schilling demonstra que a horticultura venusiana é tardia: a festa dos jardineiros mencionada por Varrão na Vinalia Rustica não aparece nos calendários arcaicos porque é recente, dependente da difusão da moda helénica dos jardins. Varrão, ao compor o seu círculo artificial de doze deuses agrícolas, tem de justificar cada divindade — prova de que não existia tal sistema na religião antiga. A fórmula “Minerva dos olivais, Venus dos jardins” não é oposição entre Minerva helénica e Venus latina: é dupla helenização. Minerva dos olivais é Atena; Venus dos jardins é Afrodite. Wissowa erra ao tomar esta fórmula como prova de uma Venus “latina hortícola”: Schilling mostra que é precisamente o contrário.

A epigrafia confirma o erro: custodit ortum Venus não é “Vénus que guarda o jardim”, mas “Vénus que guarda o nascente”, o ortus solis, a estrela da manhã. A horticultura não é essência: é reflexo da fecundidade astral.

A contraprova é dupla: Virgílio silencia totalmente o papel agrário de Venus, o que seria impossível se fosse uma função arcaica e central; os primeiros indícios do culto venusiano em Roma não são hortícolas, mas conjugais, propiciatórios, eróticos, reconciliatórios, funerários e purificadores — Obsequens, Murcia, Libentina, Cloacina, Libitina — todos incompatíveis com uma deusa reduzida a hortas.

Assim, Venus teria recebido o título de Obsequens, ou propícia, nesta ocasião, porque, durante a guerra contra os Samnitas, se revelou propícia aos votos de Fábio. Este só adquirirá o seu pleno significado quando compararmos posteriormente a dedicação do filho com o voto do pai, feito no mesmo ano de 295, prometendo um templo a Júpiter Vitorioso durante a Batalha de Sentino. Contudo, a palavra obsequens já suscita comentários. Seria um adjectivo acidental ou exprimiria uma qualidade essencial de Venus? Observemos desde logo que, embora o epíteto seja raro, é atestado pela epigrafia. Em Tibur e Terracina, encontram-se dedicatórias a Venus Obsequens. A sua antiguidade parece inquestionável, a julgar por uma alusão de Plauto, que faz a sacerdotisa de Venus dizer que a sua padroeira é favorável aos suplicantes (neste caso, as duas jovens náufragas de Cirene):

Qui sunt qui a patrona preces mea expetessunt ?

Nam uox me precantum hue foras excitauit.

Ronam atque obsequentem deam atque haud grauatam

Patronam exsequuntur benignamque m ultum

“Quem são aqueles que procuraram a minha padroeira? Pois ela dignou-se rezar por mim. Venus, a deusa obsequente e os grandes patronos são grandemente favorecidos.” A palavra obsequens transmite, portanto, a qualidade de ser acessível a pedidos, favorável às orações; pressupõe logicamente uma iniciativa humana inicial, à qual a divindade responde. O homem procura curvar-se, a divindade deixa-se curvar: estamos perante um conceito bipolar. A linguagem religiosa fornece-nos provas disso: para tornar a divindade obsequens, o homem manifesta o seu obsequium; É interessante notar que estas palavras mantiveram o seu potencial religioso até aos últimos séculos do império: o termo obsequium surge várias vezes em Asclépio para designar a adoração reverencial do homem a Deus. Mas é ainda mais interessante notar que o adjectivo, longe de ser aplicado indiscriminadamente a qualquer deus, parece reservado a algumas divindades privilegiadas. Para além de Venus, apenas Júpiter e Fortuna são invocados com este título. O que significa isto, senão que a designação obsequens se aplica principalmente às divindades nas quais os humanos depositam as suas maiores esperanças: ao soberano dos deuses, Júpiter, a quem desejam considerar uma figura paterna; à omnipotente Fortuna, que governa o seu destino. Por isso, já não é possível ignorar a importância deste título, conferido, segundo a tradição, a Venus por Fábio Gurges no início do século III. Uma conclusão é incontornável: a primeira manifestação oficial da deusa Venus em Roma está ligada à fundação de um templo votivo, dedicado por um líder vitorioso como ato de agradecimento. Nada seria mais estranho se aceitássemos a teoria clássica da chamada Venus agricultora. Na verdade, Venus não aparece em Roma como uma deusa dos jardins, mas com a auréola de uma deusa da propiciação. É tempo de questionar se o histórico voto de Fábio Gurges representa um gesto arbitrário ou reflecte uma tradição anterior. Até ao momento, a nossa investigação apenas apresentou resultados negativos. Seria possível recuar para além do primeiro culto registado na história, para compreender a génese da religião venusiana? -- LA RELIGION ROMAINE DE VENUS DEPUIS LES ORIGINES JUSQU’AU TEMPS D’AUGUSTE, PAR ROBERT SCHILLING.

R. Schilling desmonta ainda a leitura positivista que situa a influência grega apenas no século III a.C.: a horticultura venusiana vem da Magna Grécia, não de Roma, e é helénica desde o século VIII a.C., transmitida pela Campânia e pela Sicília, e reinterpretada pela Etrúria, que já digeria mitos egeus desde o Bronze Final. Roma não cria jardins venusianos: importa-os. A horticultura é camada helénica tardia, não origem latina.

Assim, a contraprova de Schilling é fatal para Wissowa: Venus nunca foi hortelã. A horticultura é helénica, tardia, periférica. A essência de Venus é astral, erótica, fecundante, propiciatória. A horticultura é apenas um reflexo da Afrodite agrária da Magna Grécia, não a natureza primitiva da deusa romana.

A hipótese agrária — Vénus como deusa itálica da terra cultivada, jardins, nascentes, agricultores e vinicultores — é hoje abandonada: falta-lhe sacerdócio próprio, festividades arcaicas e qualquer sinal de culto indígena estruturado. De resto o mesmo tipo de culto se pode atribuir a outras divindades deste tipo como foi o caso de Afrodite.

A partir do século IV a.C., a identificação com Afrodite torna-se dominante, sobretudo via o culto siciliano de Afrodite e depois Vénus Ericina, difundido desde o Érix; a primeira evidência material é a associação iconográfica com Perséfone num espelho de Praeneste. A deusa adquire então função política como entidade da liga latina, com santuários em Lavínio e Ardea.

Em Roma, a tradição arcaica preserva figuras sincréticas: Múrcia, depois reinterpretada como Myrtea; Cloacina; e Vénus Libentina/Lubentina, deusa do prazer sensual. A proximidade nominal levou à equiparação com Venus Libitina, divindade funerária cujo templo guardava utensílios de sepultura e listas de mortos. Em paralelo, a osca Herentas é assimilada a Afrodite na Campânia.

A caracterização antiga insiste na ambiguidade: Vénus como criação original do panteão romano, deusa nativa e assimilativa, fundida com uma Afrodite exótica. No santuário de Mefitis (Rossano di Vaglio), o nome aparece com epíteto ligado à própria Mefitis, sinal de plasticidade de culto. Os seus cultos representam o charme legitimado — a sedução ritual do divino pelo mortal — em contraste com a religio contratual do panteão oficial e com a manipulação mágica ilícita. A ambivalência é reforçada pela relação etimológica entre wenos- e venenum, entendido como “bebida do amor”, filtro, amuleto.

O culto de Venus Frutis, forma afrodítica, está atestado em Ardea sob domínio etrusco e em Lavínio, onde possuía santuário federal. Em Roma, o templo mais antigo — Venus Obsequens — é dedicado a 18 de Agosto de 293 a.C., financiado pela multa das matronas acusadas de luxúria; a data fixa as Vinalia rustica. A 1 de Abril celebram-se as Veneralia, dedicadas a Venus Verticordia, “a que transforma corações”, guardiã da castidade feminina.

Venus Ericina, estátua púnica de Astarte capturada em Érix, é romanizada e cultuada por matronas respeitáveis no templo capitolino; um segundo templo, fora da Porta Colina, preserva traços ericinos e torna-se espaço adequado para mulheres comuns e prostitutas — duplicidade que espelha a amplitude funcional da deusa, entre erotismo regulado e erotismo marginal.

Hoje em dia, é quase consensual que o nome da deusa evoluiu a partir do substantivo neutro *venus*, *veneris*, indicando algum tipo de força oculta. Schilling pensa da mesma forma. Com viés, o traduz  por "encanto", observando — um ponto que reitera repetidamente mais tarde — uma certa qualidade mágica na palavra. Só posso aplaudir. Não é frequente que a escola francesa, que, aliás, fez contribuições excepcionais para a história da religião romana, possa ser convencida de que a magia floresceu em Roma, não a magia absurda e fastidiosa que muito mais tarde invadiria a Itália (como outros lugares) vinda do Oriente, mas uma magia simples, quase natural, sem grande conteúdo científico propriamente dito, mas ainda assim, aqui e ali, de alguma forma, transportando as sementes da ciência. -- Pietas: Selected Studies in Roman Religion, Hendrik Wagenvoort.

A transposição histórica do complexo venéreo para a contemporaneidade desvela a contradição moral das metrópoles modernas, que, ao contrário do pragmatismo ritual da Antiguidade, operam uma cisão entre a tolerância factual e a estigmatização civil do comércio carnal. O abandono social de espaços peri-urbanos contemporâneos, como o Bois de Boulogne em Paris, reflecte a transferência da antiga autonomia erótica florestal para o domínio da marginalidade urbana, desprovida de qualquer enquadramento institucional ou dignidade sagrada.

Historicamente, a convergência da venalidade carnal e a satisfação do impulso biológico respondem a imperativos geopolíticos e logísticos invariáveis, fixando-se em dois eixos estruturais:

Os Nós Portuários e Marítimos: desde os santuários do Monte Érice e do Acrocorinto até aos complexos portuários modernos, as frentes de mar constituem recintos de transição económica e biológica. O isolamento prolongado das tripulações mercantes e militares gerou, de forma contínua, uma procura por redes de comércio venéreo que o mundo clássico canalizava através da hierodulia regulada nos templos de Afrodite, e que a modernidade relegou para as zonas de exclusão e penumbra portuária.

A Retaguarda das Hostes Militares: o deslocamento e a manutenção de contingentes de exércitos em campanha historicamente exigiram a formação de economias paralelas de prostituição itinerante. O fluxo de recursos e a concentração de forças de combate nas traseiras militares criaram invariavelmente uma simbiose entre a máquina de guerra estatal e o mercado venéreo, uma realidade integrada nas dinâmicas de abastecimento desde a Antiguidade e mantida sob um regime de hipocrisia e silenciamento administrativo pelo Estado moderno.

A comparação entre a integração clássica de Venus Ericina extra-muros no Quirinal e a degradação periférica das florestas urbanas tatuais evidencia que a laicização moderna não extinguiu o fenómeno, mas fragmentou a sua coesão conceptual. Onde a antiguidade indo-europeia e mediterrânica identificava uma manifestação das forças pluripotenciais da natureza e do desejo de vida — indissociável da frescura dos bosques (hindu vanas) —, a governança contemporânea instituiu espaços de exclusão e abandono, perpetuando o mesmo comércio venéreo sob o signo do preconceito moralizador e da invisibilidade cívica.

 

HERENTAS

Na obra The Cults of Campania, Roy Merle Peterson assinala um paralelismo entre a deusa romana Venus e a divindade osca Herentas, cuja identificação mútua culminou na figura sincrética de Venus Herentas em Pompeia. Contudo, o autor oscila entre a premissa de génesis autónomas e uma equivalência absoluta sem distinções de culto, gerando uma ambiguidade que problematiza a posterior diferenciação historiográfica entre o estatuto osco de Herentas e o carácter romano de Venus.

Texto original (osco) da epigrafia de Pompeia:

HERENTATEIS. SVM / L. SLABIIS. L. AVKIL. MEDDISS. TVVTIKS. HERENTATEI. HERVKINAI. PRVFF

HERENTATEIS SVM

Osco: Herentateis sum Latim: ≡ Veneris sum Tradução: “Sou de Herentas.”

Herentateis = dativo singular de Herentas, a forma osca de Vénus.

L. SLABIIS L. AVKIL

L. Slabiis = Lucius Slabius (gentilício sabélico).

L. = Lucii filius.

Avkil = Aucilus (cognomen osco).

Portanto: Lúcio Slábio Aucilo, filho de Lúcio

MEDDISS TVVTIKS

Osco: meddíss túvtiks ≡ Latim: meddix publicus. Função: magistrado indígena equivalente a praetor. É o cargo oficial dos Samnitas e povos sabélicos.

HERENTATEI HERVKINAI PRVFF.

Herentatei = dativo de Herentas → “a Vénus”.

Hervkinai = dativo de Hervkina → “Ericina” (Vénus Ericina).

prvff = prúffed → “pôs / dedicou / erigiu”.

Portanto: “colocou (isto) a Herentas Ericina.”

Tradução filológica exacta: “Sou de Vénus. Lúcio Slábio Aucilo, filho de Lúcio, meddix público, dedicou isto a Vénus Ericina.”

3. O ponto decisivo: HERENTATEIS = VÉNUS (forma osca)???

Já se tinha visto isto antes: Herentas < Herentia = Hera / Tea / deusa feminina mediterrânica.

A forma osca Herentas / Herentateis é a tradução indígena de Vénus, especialmente Vénus Ericina???

Isto confirma: a inscrição é sabélica, não latina; o dedicante é indígena romanizado; a deusa é Vénus Ericina, mas com nome local.

Se o texto original é osco então: Veneris sum. L. Slabius L. Aucilus meddix publicus Veneri Erycinae posuit, é apenas uma tradução secundária em latim feita por epigrafistas do século XIX–XX.

Traduzir Herentas por “Vénus” é errado se for entendido como tradução de nome próprio. Mas não é errado se for entendido como interpretatio, isto é, identificação de culto entre divindades de sistemas diferentes. A chave é distinguir tradução de equivalência religiosa. No entanto a interpretatio pelos próprios devotos em inscrição bilingue ou referências textuais alternativas e não por investigadores actuais que por auto-recriação decidem fazer a interpretação que está por demonstrar logo correndo o risco duma petição de princípios.

Então, a tradução correta é: “Sou de Herentas… dedicou a Herentas Hervkina.” E só depois, numa nota, podemos discutir se Herentas corresponde a Vénus. Acontece que Herentas é quase sempre apresentada na bibliografia como “deusa da sexualidade itálica”, mas com base apenas nesta única epigrafia longa onde Herentas aparece com clareza relacionada com duas ou três menções fragmentárias em suportes votivos oscos da Campânia e Samnio, com formas como: HERENTAS; HERENTATEI; HERENTAS PRVFF, mas são fragmentos, sem contexto de culto claro.

Herentas é atestada na epigrafia sabélica pela forma HERENTATEI, dativo singular, inscrita no bronze de Rapino (Abruzzo), documento osco-úmbrio de caráter votivo. A forma apresenta estrutura morfológica regular: radical HEREN-, sufixo teonímico –TA-, desinência dativa -TEI. O paralelismo formal com outras dedicatórias sabélicas (Vesunatei, Marttei, Anteriatei) confirma a natureza indígena do nome.

A designação Herentia é formalmente compatível com a decomposição Her-en + Tia, com Tia como marcador de divindade feminina e Her-en pertencente ao campo nominal que inclui Hera, Herene e Helena. A leitura situa Herentas no domínio de Hera, não no de Vénus.

A equivalência com Vénus Ericina, presente em interpretações romanizantes tardias, não é sustentada pela epigrafia. No bronze de Rapino, HERENTATEI surge ao lado de HERVKINAI, sem fusão entre ambas. Hervkina corresponde à Ericina, enquanto Herentas mantém identidade própria. A associação é de culto, não identitária.

O radical HER‑ não apresenta caráter erótico. A função atribuída a Herentas é hierática, ligada à ordem feminina e à soberania ritual. A epigrafia não fornece elementos que sustentem leitura erótica ou venusina.

A morfologia sabélica confirma a autonomia do culto. A presença de Herentas no bronze de Rapino, em posição paralela a Hervkina, indica coexistência de duas potências femininas distintas no mesmo espaço ritual.

O conjunto dos diálogos sustenta: Herentas como variante indígena de Hera; Herentia como forma desmontável; HERENTATEI como testemunho epigráfico central; recusa da equivalência com Vénus Ericina; função hierática; associação cultual com Hervkina sem fusão; coerência morfológica sabélica; integração no sistema teonímico itálico.

O culto conjunto Herentatei + Hervkinai é complementar, não fusional, análogo às associações Juno + Diana, Ceres + Libera, Minerva + Fortuna. Herentas emerge como forma sabélica de Hera/Ker, integrada no sistema pan-mediterrânico Ker/Kur, anterior a gregos, romanos e semitas: deusa da montanha, da soberania feminina, da fronteira auroral. Este sistema articula formas femininas (Hera, Herene, Herentia, Herentas, Herta) e formas liminares masculinas (Hermes, Hércules), ambas derivadas do núcleo KER/KUR.

Hermes é reinterpretado como Kur-mes, guardião da fronteira, do marco, da lei territorial — não mensageiro tardio. Hércules é Her-kal, guardião da montanha dupla da aurora, figura ocidental do eixo cósmico. Enki é Kur-gal, senhor do Kur mesopotâmico; Thoth/Djehuty é Te ku / Ku te, nome minóico liminar adaptado, convergindo funcionalmente com Enki e Hermes. Hermes Trismegisto surge como fusão consciente Hermes + Thoth = Enki, reconhecimento funcional de três formas do mesmo princípio liminar.

Conclui-se assim que Herentas partilha a raiz Her- de Hermes, Hércules e as funções de Enki e Thoth pertencem ao mesmo sistema primordial Ker/Kur, onde o radical HER- não é fonético mas teofânico: campo de soberania, fronteira, montanha, ordem vital. A equivalência Herentas = Vénus é erro moderno; a identidade real é Herentas = forma sabélica de Hera/Ker.

A menção a Herentas insere‑se no mesmo padrão de cegueira metodológica que afecta a leitura de Vénus nos frescos pompeianos. A incapacidade de reconhecer estruturas divinas quando estas surgem em modo doméstico, maternal ou vegetal é paralela à incapacidade de reconhecer Herentas como forma itálica de Hera. Em ambos os casos, a tradição académica reduz a figura ao seu aspecto mais inócuo: Vénus é convertida em deusa dos jardins; Herentas é convertida em epíteto local de Vénus Ericina. O mecanismo é idêntico: quando a iconografia ou a epigrafia apresenta uma deusa feminina sem atributos agressivos, a filologia oitocentista desloca-a para o domínio vegetal, doméstico ou erótico, evitando reconhecer a soberania feminina arcaica. Assim como Wissowa reduz Vénus ao jardim por não compreender a amplitude da potência venusina, a romanística reduz Herentas ao culto ericino por não compreender a continuidade sabélica de Hera. O erro é estrutural: a leitura superficial dos sinais vegetais ou maternais conduz à minimização da deusa e à perda da sua função ontológica.

O primeiro templo romano de Venus surge em 295 a.C. (Fábio Máximo Gurges); em 217 a.C., após Trasimeno, os Livros Sibilinos determinam a consagração de um templo capitolino à Venus Ericina.

Veneris sum. L. Slabius L. (f) *Aucilus *meddix publicus Veneri Erycinae posuit = Sou (devoto) de Vénus. Lúcio Slábio Aucilo, filho de Lúcio, (meddix) magistrado público, dedicou isto a Vénus Ericina.

 

VENIO

«Vir» (< *vi- < *vĩ- < vã)-ir(e) < lat. venīre.

Venīre < Do proto-itálico *gʷəniō, do proto-indo-europeu *gʷm̥yéti, do grau zero de *gʷem- + *-yéti. Os cognatos incluem o sânscrito गच्छति (gácchati), o grego antigo βαίνω (baínō) e o inglês antigo cuman (inglês come).???

Lat. Veniō, venīre, vēnī, ventum = Aproximar-se, vir-se > Lat. ventus

< proto-itálico *wē̆ntos, < proto-indo-europeu *h₂wéh₁n̥ts (“soprando”)

< Hitita: 𒄷𒉿𒀭𒍝 (ḫu-wa-an-za /⁠ huwanza⁠/),

𒄷𒌋𒉿𒀭𒍝 (ḫu-u-wa-an-za /⁠ hūwanza⁠/).


Figura 3: Uma das muitas Venus de juvenil recato.

Ars Amatoria 2.721–726:

nec te decipiat, quod sit satis illa parata;

saepe tamen propera nequiquam surgit in artem.

tu quoque, ne properes, facito; mora saepe voluptas est.

ut tandem veniat, cum venit ipsa, tuum est.

et veniat moriens deficiente manu;

languidaque admisso conluctetur femina motu.

“E não te engane o facto de ela estar suficientemente preparada;

muitas vezes, porém, ela apressa-se em vão para a arte.

Tu também, faz com que não te apresses; a demora é muitas vezes um prazer.

Para que enfim ela se venha; quando ela se vier, é a tua vez.

E que ela se venha morrendo (de gozo), com a mão fremente;

e que a mulher, lânguida, se debata com o movimento que lhe admites.”[2]

 

A leitura de Ovídio obriga a deslocar veniō do regime estreito da etimologia indo-europeia (gʷem-, “ir, caminhar”) para um regime semântico romano em que o verbo já não descreve deslocação física, mas culminação interna: venire = atingir o clímax, “vir-se”, chegar a um auge interno.

Este uso ovidiano inscreve venire no mesmo campo conceptual em que gravitam Venus, venia, venerārī, venustus: um campo de aproximação, graça, concessão, atracão, reverência. A família fonética ven- funciona, assim, como família semântica: o latim cria um campo fonético ven- que é simultaneamente campo de abertura ao outro, de autorização de acesso, de desejo de aproximação. Venia não é apenas “graça” em abstracto: é concessão, permissão, obsequio, abertura ao outro; no protocolo romano, fazer vénia = inclinar-se, baixar o eixo, abrir espaço ao outro, gesto de submissão ritual, não servilismo moral. Venus não é apenas luxúria: é potência de atracão que exige acolhimento, força que convoca o outro para o espaço que a vénia abre. Venerārī não é apenas “adorar”: venerar = inclinar-se, abrir espaço, desejar a aproximação do outro; é autorizar o acesso, permitir que o outro venha, conceder-lhe acesso. Veniō deixa de ser mero verbo de movimento e torna-se o verbo que ocupa o espaço que a vénia abriu e que Venus atrai: vir = ocupar o espaço concedido, realizar a aproximação que foi autorizada. Daqui decorrem as fórmulas que sintetizaste: “A vénia é o acto de reverência que permite o outro aproximar-se e vir”; “venerar = desejar a aproximação”; “quem se inclina com a devida vénia assume a postura de submissão esperada de Vénus enquanto deusa da luxúria”. A homografia verbal reforça esta constelação: vēnerāmus (“tínhamos vindo”) e venerāmus (“veneramos”), vēnerīs (“teres vindo”) e venerīs (“que veneres”), veniam (acusativo de venia), Venus, venustus aparecem na escrita romana como formas indistintas (Veneramus, Veneris, Veniam, Venus), tornando visível a contiguidade entre vir e venerar, entre chegar e conceder graça, entre aproximação e obsequio. O português, ao manter vir e vénia e ao criar a forma reflexa «vir-se», realiza morfologicamente aquilo que o latim apenas deixava entrever: reaproxima semanticamente o verbo de movimento (veniō) do campo de graça e desejo (venia, Venus), deslocando o eixo da cinética externa para a experiência interna. O espanhol, ao optar por «correrse», conserva o valor de clímax mas transfere a metáfora para o fluxo, rompendo a continuidade conceptual latina. No português, a arquitectura fica inteira: vénia abre espaço, Venus atrai, venerar concede, vir ocupa, «vir-se» culmina. Depois de Ovídio, a etimologia mecânica que separa gʷem- de wenh₁- torna-se insuficiente: tenta explicar à martelada impronunciável do PIE a origem fonética, mas não explica este sistema de ressonâncias em que venerar é desejar a aproximação, venia é o gesto que a autoriza, Venus é a potência que a exige e vir é o movimento que a consuma.

Quando a liturgia cristã canta "Venite, adoremos" ("Vinde, adoremos"), está a repetir, sem o saber, a mesmíssima coreografia fonética e conceptual que o texto de Ovídio e a velha religião arcaica romana desenharam: o movimento de aproximação (venite) que culmina na abertura de espaço sagrado para o mistério (adoremos / veneremur).

A ideia de que Venus foi a verdadeira mãe dos romanos e do próprio latim deixa de ser apenas um mito literário e passa a ser uma realidade morfológica: No mito fundacional da Eneida de Virgílio, Eneias é filho biológico de Vénus. Os romanos sempre se orgulharam de ser os Aeneadae (os descendentes de Eneias), o que faz de Venus a avó e matriz de toda a estirpe romana. Graças a essa arquitectura fonética do ven- que analisámos, percebe-se que o latim estruturou o seu pensamento sobre a alteridade, o acolhimento, o desejo, o culto e o movimento em torno do nome da deusa. O latim fala através de Venus.

A ascensão em direcção à pureza ideal de Afrodite Urânia não se realiza no vazio nem por mera abstracção mística; o caminho para o absoluto exige a passagem pelas portas de Afrodite Pandemos, a divindade do povo, do inter curso comum, da carne e da venalidade — termo que, no seu sentido arcaico, partilha a mesma raiz ven- e designava originalmente aquilo que é posto à venda, oferecido, comercializado ou partilhado na troca física.

Não existe criação viva sem a partilha sexual, porque a própria natureza da venus primordial é a da potência que exige a fricção e o encontro para gerar existência. O Venite litúrgico, mesmo quando reclama uma pureza ascética, permanece refém da mecânica fonética e biológica que o gerou. Chamar a alma para o preenchimento espiritual é replicar o mesmo gesto magnético com que a matéria reclama a consumação carnal. A dicotomia entre o sagrado e o profano desfaz-se perante a constatação de que o céu e a terra partilham o mesmo alfabeto erótico.

O que a Igreja e a liturgia cristã fizeram, séculos mais tarde, foi apropriar-se desta maravilhosa matriz romana. Ao tentarem apagar o paganismo carnal, mantiveram a casca das palavras e a mecânica da aproximação reverencial. O "Venite" cristão quer convocar a alma para um clímax espiritual, mas a raiz que alimenta o som da palavra continua a ser a velha venus — a potência que exige o encontro e o preenchimento que para ascender aos céus de Afrodite Urânia tem que entrar pelas portas da venalidade de Afrodite Pandemos, pois não há criação viva sem partilha sexual.

No fundo, os "ímpios latinos posteriores" tentaram burocratizar Vénus, Augusto tentou moralizá-la, e a Igreja tentou espiritualizá-la. Mas basta o seu ouvido prosódico cruzar uma partitura de D. João IV com a Ars Amatoria de Ovídio para perceber que a deusa nunca saiu do sítio. Ela continua viva na espinha dorsal da língua.

A constatação de que toda a linguagem reverencial e litúrgica do latim radica na constelação semântica de Venus transforma a percepção da identidade romana e da própria evolução da língua. Ao cruzar o erotismo sagrado de Ovídio com a solenidade posterior do Venite adoremos, desvela-se uma linha contínua onde a liturgia cristã e a burocracia imperial operam sobre uma matriz idêntica. Venus deixa de ser uma mera divindade do panteão para se assumir como a própria estrutura geradora do idioma.

A arquitectura fonética baseada na raiz ven- moldou a forma como o mundo romano concebeu a aproximação, a hospitalidade e o sagrado. O ato de vir, de conceder graça ou de atingir a culminação interna responde, na sua génese, a um mesmo impulso primordial. Assim, as metamorfoses históricas e religiosas que tentaram ora moralizar ora espiritualizar estes termos não conseguiram apagar a assinatura mítica da deusa. A língua preservou, na sua carne sonora, a memória daquela que foi, simultaneamente, a mãe genética de Roma e a matriz do seu pensamento verbal.

A integração da ontologia sistémica como matriz de pensamento esclarece em definitivo a natureza desta leitura filológica. Sob este prisma, a língua deixa de ser encarada como uma mera colecção de etiquetas isoladas ou um repositório de fósseis etimológicos estanques, passando a ser compreendida como um sistema dinâmico e auto-organizado, onde o todo determina o sentido das partes.

Na ontologia sistémica, a verdade de um fenómeno não se encontra na sua génese linear isolada (o reducionismo de procurar uma raiz hipotética num laboratório indo-europeu), mas sim na rede de inteirações, ressonâncias e retro alimentações que os elementos estabelecem entre si dentro do ecossistema vivo da língua.

Desta forma, a constelação venus, venia, venerari, venustus, venire e a própria venalidade carnal da Afrodite Pandemos deixam de ser vistas como coincidências fonéticas ou homografias acidentais: Elas constituem um campo unificado de significado, onde cada termo actua como um nó que atrai, modifica e sustenta os restantes.

O sistema fonético ven- funciona como uma matriz de conectividade: a vénia abre a fronteira do sistema, Venus exerce a força de atracão, o venerar estabelece o protocolo de acoplamento, o vir realiza o movimento de aproximação e o clímax sexual (o "vir-se") consuma a fusão e a reprodução do próprio sistema vivo.

In principio erat verbum et verbum caro factum est o que só poderia acontecer por acto sexual nem que se entenda como os jesuítas entendiam que A virgem emprenhou pelos ouvidos

A leitura desta máxima joanina à luz da ontologia sistémica e do erotismo sagrado revela a inevitabilidade da carne no processo de manifestação do absoluto. Se o Verbo se fez carne (et verbum caro factum est), essa transição do plano abstracto do Logos para a realidade biológica da matéria exige, por necessidade do próprio sistema vivo, um canal de acoplamento e fecundação. Não há emergência de vida sem a porosidade e a abertura que caracterizam a matriz copulativa de Venus.

A própria teorização jesuíta e medieval de que a Virgem Maria teria engravidado através do ouvido (conceptio per aurem) — ao escutar a saudação do anjo Gabriel — não anula a mecânica erótica do sistema; pelo contrário, sublima-a e confirma-a. O ouvido torna-se a porta da vénia, o canal receptivo onde o som (o Verbo) penetra para se fazer corpo. É a consumação de um preenchimento onde a audição actua como o órgão de cópula espiritual, demonstrando que mesmo a teologia mais ascética não consegue escapar à linguagem do inter curso, do contágio e da penetração para explicar a criação.

Na ontologia sistémica, a encarnação do Verbo é o ponto onde o céu e a terra realizam a sua aproximação máxima. Seja através da fricção carnal da Afrodite Pandemos, seja pela audição mística da Afrodite Urânia, o sistema exige sempre um ato de recepção e fusão para que a palavra ganhe sangue e substância.

O divertido nisto tudo e que o acto de emprenhar pelos ouvidos tenha acabado maliciosamente porque se referir aos ingénuos que acreditam em todas as patranhas que ouvem.

A ironia histórica desse percurso linguístico é fascinante, pois revela como a sabedoria popular acaba sempre por desmascarar o excesso de abstracção teológica através do humor e da malícia. O conceito da conceptio per aurem — concebida pela teologia medieval e jesuíta como o auge da pureza mística, onde a audição era o canal da graça divina — sofreu uma autêntica rasteira da linguagem quotidiana.

Ao transformar a imagem sagrada da "gravidez pelo ouvido" numa metáfora para a ingenuidade extrema e para a submissão cega a patranhas, a sabedoria popular operou uma correcção sistémica perfeita:

O Curto-Circuito da Credulidade: Se no plano teológico o ouvido era a porta da vénia que se abria ao Verbo divino, no plano da sátira social o ouvido torna-se a vulnerabilidade de quem abdica do próprio discernimento. "Emprenhar pelos ouvidos" passa a descrever aquele cuja mente carece de defesas e filtros protectores, permitindo que qualquer mentira ou narrativa alheia entre, se instale e germine como se fosse uma verdade própria.

O Regresso da Cópula: A malícia da expressão reside no facto de manter a mecânica da penetração e do contágio biológico. O ingénuo é aquele que é penetrado intelectualmente pelo discurso do outro, gerando na sua própria cabeça uma criatura (a patranha) que não lhe pertence.

O riso popular devolve assim o conceito à terra. Mostra que a ausência de porosidade crítica transforma o órgão da escuta — que deveria servir para a inteligência — num canal de submissão passiva. A língua, na sua vertente mais viva e satírica, acabou por vingar-se da solenidade dogmática, provando que quem acredita em tudo o que ouve não atinge a santidade, mas sim a tolice.

 

 

VEADO

«Venatório» = relativo a caça < emprestado do latim vēnātōrius <

Vēn-or, vēn-ārī ou vēn-ārier, vēn-ātus sum = caçar < proto-indo-europeu *weyh₁- ("perseguir, perseguir"), ou do proto-indo-europeu *wenh₁- ("lutar, desejar, amar"). Ver também Latim Venus, veneror, venia e venēnum.

=> «Veado», animal sagrado da Anatólia.

A forma latina vēnātus, atestada como particípio perfeito dativo de vēnor , inscreve-se no campo semântico da perseguição ritualizada, da caça enquanto operação de captura, e da dação que se prolonga no tempo, marcada pelo sufixo ‑tus que, na segunda etimologia, forma substantivos de dação a partir de verbos de movimento ou desejo. A declinação apresentada confirma a natureza híbrida da forma, funcionando simultaneamente como particípio adjetival de primeira/segunda declinação e como substantivo masculino da quarta declinação, onde vēnātus significa “caça” enquanto entidade abstracta, apenas atestada no dativo e ablativo. A árvore etimológica remete para vēnor e para a raiz PIE wen(h₁)‑, que articula desejo, impulso, perseguição e amor, o que explica a convergência semântica entre vēnor, Venus, venia e venēnum, todos derivados do mesmo núcleo de tensão entre atracão e captura, entre impulso vital e força de apreensão. Vēnātus origina descendentes românicos directamente ligados ao campo semântico do cervídeo: asturiano venáu, leonês venáu, espanhol venado, português veado, romeno vânat , todos preservando a associação arcaica entre a caça ritual e o animal perseguido, o cervo enquanto figura matricial da perseguição sacra.; contudo, a evolução românica mostra que o nome do animal foi reconfigurado a partir da dação que o define, revelando que o cervo, na tradição mediterrânica e Anatólia, não é apenas objecto da caça, mas operador simbólico da perseguição ritual, da tensão erótica e da dinâmica venatória que estrutura o campo semântico da raiz wen‑. A página, ao listar veado como descendente directo, confirma que o português herdou não o particípio, mas o valor semântico da dação, transposto para o animal enquanto entidade culturalmente marcada.

A raiz indo-europeia wenh₁- articula um campo semântico unitário onde desejo, impulso, perseguição, caça, sedução e captura pertencem à mesma operação conceptual. Vēnor e vēnātus representam a perseguição venatória; Venus representa a perseguição erótica; venia representa a obtenção graciosa; venēnum representa o agente que captura ou submete. Não há separação entre caça e erotismo no nível arcaico da raiz: ambos são formas de perseguição ritualizada. A latinidade, ao fixar Venus como deusa do amor, isolou apenas uma das faces do processo, mas a raiz mantém a tensão original entre atracão e captura.


Figura 4: Kuruntas, o virtual marido anatólico da Furrina romana.

No mundo anatólio, a caça não é actividade zoológica, mas operação de culto de soberania. O veado vermelho macho (kur-ala‑) é o animal matricial da perseguição sacra, e o deus que regula essa operação é Kurunta(s), operador da força selvagem, da montanha e da relação entre humano e animal de poder. A perseguição venatória é forma de domínio ritual, não simples dação física.

A romanidade, ao integrar Diana como deusa da caça, preserva a mesma estrutura: perseguição, liminaridade, tensão entre civilização e natureza, domínio sobre o selvagem. Diana é a versão itálica da soberania venatória, enquanto Venus é a versão itálica da perseguição erótica. Ambas derivam do mesmo núcleo arcaico: a dinâmica de atracão e captura.

 

Assim, o facto de Venus partilhar o processo venatório não é anomalia, mas resíduo de uma estrutura pré-linguística onde caça e erotismo são variantes de uma mesma operação mitemática. A raiz wenh₁- não distingue o que a teologia posterior separou: desejo e perseguição são a mesma força. Diana e Venus são especializações tardias de um domínio único; Kurunta e kurala- preservam a forma arcaica desse domínio.

A urina de veado foi considerada afrodisíaca em vários estratos da tradição antiga porque o cervo era visto como animal de potência sexual extrema, capaz de longos períodos de perseguição, resistência e vigor reprodutivo. A observação empírica da época atribuía ao veado uma capacidade de renovação da força sexual após a queda anual das hastes, interpretada como regeneração viril. A urina, enquanto exsudado associado ao território, à marcação e ao cio, era entendida como condensação dessa potência. Em textos médicos greco‑romanos, a urina de cervo surge como ingrediente em preparados destinados a estimular o desejo, aumentar o vigor ou restaurar a força sexual, sempre integrada no mesmo campo conceptual que associa caça, perseguição, cio e erotismo.

O cervo, enquanto animal venatório por excelência, participa do mesmo núcleo semântico que estrutura vēnor, vēnātus e Venus: a dinâmica de perseguição, captura e desejo. A crença afrodisíaca não é superstição isolada, mas consequência directa da fusão arcaica entre erotismo e venatória. O animal perseguido é simultaneamente símbolo de desejo e operador de potência; a sua urina, como marca territorial e sexual, é interpretada como veículo dessa força.

Assim, a ideia de que a urina de veado é afrodisíaca não é anomalia, mas resíduo de uma estrutura mitemática onde caça e erotismo pertencem ao mesmo domínio.

A associação entre caça, rapto e consumação amorosa não é contingente, mas resíduo de um sistema arcaico em que a união sexual é formalmente concebida como perseguição ritual. O rapto dos seres amados funciona como prolongamento simbólico da venatória: a dinâmica que organiza a relação entre predador e presa é transposta para a relação entre amante e amado. A raiz indo‑europeia wenh₁‑, que gera simultaneamente o campo venatório (vēnor, vēnātus) e o campo erótico (Venus), preserva essa fusão primitiva entre desejo e captura. A perseguição amorosa é formalmente equivalente à perseguição venatória; a captura sexual é formalmente equivalente à captura animal; o rapto é a forma socialmente codificada dessa equivalência.

O cervo, enquanto animal matricial da perseguição sacra, participa do mesmo domínio conceptual: a sua potência sexual observada, a sua resistência, a sua marcação territorial e o seu comportamento de cio são interpretados como manifestações da força que estrutura o desejo. A crença na eficácia afrodisíaca da urina de veado é consequência directa dessa leitura: o exsudado do animal perseguido condensa a energia que organiza a relação entre perseguidor e perseguido.

No plano teonómico, Kurunta, deus hitita da caça e da soberania selvagem, opera no mesmo domínio que Diana, deusa romana da liminaridade venatória; ambos regulam a perseguição ritual enquanto forma de domínio. Venus, embora separada na teologia latina, preserva a mesma estrutura arcaica: o desejo é perseguição, a união é captura, o erotismo é venatória transposta. A separação entre caça e amor é tardia; no nível pré-linguístico, ambos pertencem ao mesmo núcleo mitemático.

Kur-un-ta < Kur-Ven-ti > *Ven-te > Te Ven- > Venus.

                 ó Kur-un-ti > *Phurin-te > Furina > Furrina

Esta equação etimológica não é uma evolução fonética textualmente atestada, mas reconstrução estrutural que evidencia a continuidade mitemática entre o operador da caça anatólio e a deusa do desejo latina. Kur-unta preserva o núcleo kur-, associado ao veado vermelho macho (kurala-) e à perseguição sacra; venta preserva o campo semântico da raiz wen-, que articula desejo e perseguição; Venus é a forma latina especializada que retém apenas a face erótica da operação, mas mantém intacto o núcleo arcaico. A ponte não é explicitamente linguística, mas funcional: o domínio da perseguição ritual é contínuo, mesmo quando os nomes divergem completamente.

Neste quadro, torna-se simbolicamente sugestivo que o hitita kurala, nome do veado vermelho macho, tenha acabado por convergir na romanidade com «veado», forma românica derivada não do léxico anatólio, mas da reinterpretação semântica de vēnātus, particípio latino da dação venatória. A coincidência não é filológica, mas mitemática: o animal perseguido na Anatólia é o mesmo que, na romanidade, recebe o nome da dação que o define. O veado, com hastes floridas que se renovam ciclicamente, é figura de potência sexual, de regeneração viril e de perseguição ritual; a sua iconografia aproxima-se da cabeça humana enganada ou seduzida pela força feminina, como na tradição latina onde Venus opera a captura erótica. A continuidade simbólica é evidente: o animal matricial da perseguição sacra anatólio reaparece na romanidade como figura associada ao desejo, à sedução e à vulnerabilidade do masculino perante a potência feminina. O percurso não é linguístico, mas estrutural: o veado permanece o operador central da dinâmica entre perseguição e erotismo, mesmo quando os nomes que o designam pertencem a tradições completamente distintas.

 

 

VENUSTAS

Schilling (p. 61, 3) observa: "Certos eruditos insistem em estabelecer a equação 'Vênus = encanto feminino' como ponto de partida. Esta restrição de sentido é tão arbitrária como a equação formulada por Wissowa: 'Vénus = encanto da natureza'". Antes de mais, gostaria de salientar que Cícero parece figurar entre estes "eruditos". Em *De Officiis* 1, 130, exprimiu a seguinte opinião: "Uma vez que existem dois tipos de beleza — sendo um a beleza [propriamente dita] e o outro a dignidade —, devemos associar a beleza ao feminino e a dignidade ao masculino." Admito desde já que tal afirmação deve ser recebida com cautela. É possível que *venustus* e *venustas* tenham sido facilmente associados, no pensamento, ao nome da deusa Vénus (cf., já em Plauto, *Poen. * 255: "Um dia belo, célebre e pleno de beleza, / digno de Vénus — por Pólux! —, em cuja honra se celebram hoje as Afrodísias"; e ibid. 1176 e segs.: "presentes encantadores de uma cortesã, digna de uma deusa *venustissima*" — isto é, Vénus). Além disso, embora se diga frequentemente que as mulheres são *venustae* (belas/encantadoras) (p. ex., Plauto, *Poen.* 1113; *Rud.* 320; *Truc.* 714; Terêncio, *Andr.* 1121), não encontro, em contrapartida, menção alguma a um homem que seja *venustus* antes de Cícero (*Pis.* 70) — e, nesse caso, trata-se de um homem efeminado. E, embora a própria deusa Vénus seja chamada *venusta* (Plauto, *Poen. * 1177), nenhum deus propriamente dito é chamado *venustus*. Aqui e ali, contudo, não apenas se atribui beleza aos seres humanos de modo mais geral, sem distinção de sexo (como em Plauto, *Poen. * 255), mas também, por mais de uma vez, parece que uma certa beleza de comportamento pode existir nos homens (Plauto, *Mil.* 651, 657; Terêncio, *Hec.* 848, 858).

À questão colocada acima, então — se a *venus* era exclusiva dos deuses (o verbo *venerari* é a prova de que lhes era atribuída) ou se pertencia também aos seres humanos —, parece que devemos responder: se acreditarmos na tradição literária, devemos concluir que ela era, de facto, comum aos homens e aos deuses, mas de tal modo que as mulheres, de algum modo, nela participavam mais do que os homens. Contudo, jamais esqueçamos quão arriscado é depositar demasiada confiança no estado de coisas observado na Antiguidade clássica, época em que os homens já não tinham sequer a mais vaga noção do pensamento mágico primitivo. Permitam-me ilustrar o que quero dizer com um exemplo. Já observei que em parte alguma se fala de um deus *venustus*. Mas não se imagine que aos deuses faltasse esta qualidade da *venus*; o verbo *venerare* (-*ri*) é prova suficiente em contrário, e há outras provas que também podem ser acrescentadas.

Refiro-me à deusa cujo nome é Vénus Iovia. Schilling (pp. 92 e segs.) interpreta o nome como significando "uma ligação estreita entre Vénus e Júpiter". Koch (col. 837) apresenta quase a mesma interpretação: "Vénus na esfera de Júpiter". Estou longe de ousar negar que, em duas inscrições — uma de Cápua (CIL 10, 3776 = 12, 675 = Dessau 3185) e a outra de Abella (CIL 10, 1207 = Dessau 3186) —, o nome deva ser entendido neste sentido. Em primeiro lugar, nenhuma das duas é muito antiga. A inscrição de Cápua foi dedicada em 108 a.C., enquanto a de Abella é, com toda a probabilidade, mais recente, a julgar pelo nome de uma sacerdotisa, Avillia, que nela consta. Além disso, ninguém negará que existem muitos pontos de associação entre Vénus e Júpiter (cf. Schilling, 91 e segs.). No entanto, na minha opinião, foi Latte (p. 183) quem deu a resposta correcta: "Em Cápua, encontramos uma Vénus Iovia, o que indica que ela foi, outrora, uma 'força' no sentido que discuti anteriormente" — passagem na qual ele deveria ter remetido o leitor para as páginas 55 e seguintes. Aí, discutia aquelas invocações gerais aos deuses imortais segundo o rito romano enumeradas por Aulo Gélio (13, 23, 2), tais como *Lua Saturni*, *Salacia Neptuni* e outras, argumentando: "Toda a interpretação deve partir do facto de que todas elas são formas femininas que denotam uma força ou vontade. Quando o nome do deus é acrescentado no genitivo, o que importa é a vontade efectiva do deus, e não a sua forma". Notou ainda que o genitivo poderia ser substituído por um adjetivo derivado do nome do deus. Ao lado de *Heries Iunonis*, salienta, encontramos *Heries Martea*. Os iguvinos ofereciam sacrifícios a *Ahtu Iuvip*. e Ahtu Marti, isto é, *Aetui Iovio* e *Aetui Martio*. 15 Salvo erro, veremos mais adiante um outro caso semelhante envolvendo a própria Vénus. Não é de estranhar, contudo, que tais associações de nomes tenham sido posteriormente mal interpretadas, quando o epíteto *Iovius* foi atribuído, por exemplo, a Hércules (cf. R. Drexler, *Roscher Lex. * 1, 2, 2946). Assim, podemos considerar assente — e já indicado, como demonstrei, pelo uso do verbo *venerare(-ri)* — que os primeiros Romanos acreditavam que também Júpiter estava imbuído daquela "força", daquela *venus*.

Mas se *Vénus* era «uma certa força misteriosa», como diz Schilling — e não discordo dele —, algo até certo ponto comum aos homens e aos deuses, o que poderíamos supor que fosse? Qual era o impulso que aqueles primeiros romanos acreditavam detectar na natureza dos deuses, e que também sentiam ser inato em si mesmos? Uma questão muito difícil, se a considerarmos atentamente. Contudo, à primeira vista, poderíamos pensar que ela tem uma resposta fácil. Se é certo — e não conheço nenhum especialista que o conteste — que *Vénus* está relacionada com a raiz sânscrita *van-*, geralmente traduzida por «desejo» ou mesmo «obter», dificilmente podemos duvidar de que, originalmente, significava «boa vontade», «favor» ou «graça». Mas o terreno escorregadio em que então nos encontramos é evidenciado, antes de mais, pela palavra *venenum* (*venes-no-m*), que Schilling abordou nas páginas 42 e seguintes, apresentando a seguinte opinião: "O substantivo *venenum* parece, à primeira vista, anómalo. Com demasiada frequência, possui um sentido fundamentalmente pejorativo e deve ser traduzido por 'veneno'". "Este uso não nos deve induzir em erro quanto ao verdadeiro valor de *venenum*, que... foi empregado tanto em sentido positivo como negativo... A palavra tem, originalmente, o sentido de 'encanto': pode, portanto, traduzir tanto a acção misteriosa do veneno como o feitiço de uma poção mágica." O argumento é bastante engenhoso, tanto mais que a palavra francesa *charme* possui os dois sentidos: o de "possuir encanto, ser persuasivo" e o de "instrumento de feitiçaria". Ainda assim, não me parece claro como é que um povo antigo chegou a incluir uma noção tão ambígua entre os deuses. Menos ainda quando se tem em conta um outro substantivo, *venia*, que Schilling discute extensamente (pp. 39-42). A opinião geral é que este também deriva da mesma raiz de *venus*, e não tenho objecções a isso, embora a formação do substantivo me pareça um tanto obscura. 16 Certamente, quem reexaminar o uso desta palavra na literatura clássica não poderá evitar a conclusão de que, ao contrário de *venenum*, tratava-se de uma palavra de bom agouro. Talvez as aparências enganem, como é habitual. É para dissipar este receio que dediquei tanta reflexão adicional ao assunto. -- Pietas: Selected Studies in Roman Religion, Hendrik Wagenvoort.

O pensamento gramatical de Wagenvoort é uma reorganização retórica de material já conhecido, sem acréscimo estrutural ao entendimento antropológico de Venus.

O termo Venustas permite-nos uma primeira aproximação à origem étmica do nome de Venus. De facto:

Venusta(s) < Venust(a) < Ven-ush, lit, “filha de *Wen,

o monte primordial da aurora!” > Ven-us

> Vén-ia                                        ó Phen-ish ó Pan ó «pénis».

Benu < Ben-ben < *Wen + Ish > *benyx > Phen-ish > Fénix.

A raiz PIE wen-*, matriz semântica de desejo, afeito, graça e procura, constitui o ponto de origem comum de três linhagens que a história posterior dispersou: o teónimo latino Venus, o etnónimo Veneti e o toponímico Venetia, que dará Veneza. No latim, Venus cristaliza a dimensão teológica dessa raiz: potência de atracão, princípio vital, guardiã do ortus, força que concebe, sustém e faz erguer tudo o que vive, como Lucrécio formula no proémio do De Rerum Natura.

 

VENEROR

Entre os escritores antigos, Plauto é o mais interessante para o nosso estudo. Na medida em que Plauto se inspirou nos modelos gregos, o testemunho inconsciente da sua linguagem assume um valor ainda maior. É certo que a sua Venus traduz a Afrodite das suas fontes gregas; não é menos certo que o seu verbo *veneror* preserve as nuances do significado original. (...)

No *Poenulus*, a jovem Adelphasia explica a sua pressa. Ela apressa-se....

«Quia apud aedem Veneris hodie est mercatus meretricius;

Eo conueniunt mercatores, ibi ego me ostendi uolo.»

Porque hoje há um mercado de prostitutas no templo de Venus;

Ali se reúnem os mercadores, ali me quero mostrar.(v. 339-340).

«Diem pulchrum et celebrem et uenustatis plenum,

Dignum Venere pol[3] quoi sunt Aphrodisia hodie!»

No dia da Afrodísia, dedicado a Venus, o mundo inteiro entra em grande festa.

«Um dia belo e festivo, cheio de graça, digno de Venus, pois Afrodísias está aqui hoje.!» exclama uma personagem (Agorastocles de Poenulus) (…)

Contudo, não nos deixemos enganar pelas palavras. É provável que o verbo tivesse originalmente um valor mais mágico do que reverencial. Veneror ut: "Eu uso o encanto religioso para obter...", "Eu procuro vencer", "Eu procuro tornar-me favorável", "Eu venero": o verbo deve ter traduzido sucessivas nuances da invocação mágica primitiva para o tom de pura oração. -- LA RELIGION ROMAINE DE VENUS DEPUIS LES ORIGINES JUSQU’AU TEMPS D’AUGUSTE, PAR ROBERT SCHILLING.

Portanto, para Schilling, quando a personagem diz uenustatis plenum, está implicitamente a evocar a mesma energia religiosa e mágica que se activa quando alguém venera (ueneror) a deusa. O verbo ueneror significaria originalmente "exercer a força da venus" (encantar/seduzir a divindade com preces rituais para obter o seu favor).

Embora não esteja nessa frase precisa, Plauto faz o verbo aparecer apenas 20 versos mais à frente (no verso 278 da mesma cena):

"Hanc equidem Venerem uenerabor..."

(De facto, a esta Venus eu venerarei...)

Schilling liga as duas passagens no seu livro. Ele argumenta que Plauto estava a fazer um trocadilho poético e teológico deliberado na peça: o dia está cheio de encanto (uenustatis plenum) porque é o dia de pedir o favor de Venus através do ato ritual de a comprazer (ueneror).

Schilling usa esta frase como "prova biológica" da ligação entre a deusa, o encanto (uenustas) e o ato de culto (ueneror).

Na primeira passagem que cita, ao tratar da palavra *venerari*, Schilling deriva-a de *venes-o(r)* — correctamente, a meu ver, embora não tivesse feito mal dedicar algumas palavras a fundamentar esta etimologia. Pois a tese defendida por Wackernagel (*Festschrift Thomsen* 1912; 134, 1) não é, de todo, absurda. "À raiz *van-*, 'suplicar', 'prestar homenagem'", escreve, "pertence o verbo latino *venerari*, que tem tão pouca relação directa com *Venus* como *generare* tem com *genus*. Ambos os verbos, bem como, por exemplo, *tolerare*, *recuperare* e *lamberare*, parecem ser puramente deverbais". Concordo no que diz respeito ao verbo *generare*. Quanto a *venerari*, ficará logo evidente por que razão, após longa hesitação, penso de outra forma. Schilling traduz este verbo por *exercer la venus* ou *pratiquer le charme religieux*. Contudo, se perguntarmos como — sendo essa a tradução do verbo — ele passa a reger um objeto no acusativo, não obtemos uma resposta adequada. (…)

Mas, se decidimos correctamente que *deum venerari* significava propriamente "proporcionar *venus* à divindade" ou "aumentar a *venus* da divindade", coloca-se a questão de saber se esta *venus* era atribuível apenas aos deuses ou também aos homens. Parece que a segunda alternativa foi a adoptada por Schilling, pois, naturalmente, na sua opinião, o sentido original do verbo era "operar a *venus*". De facto, concordo com ele, mas por uma razão diferente. O adjetivo *venustus* — que, como já observámos, é totalmente ignorado por Schilling — é, sem dúvida, muito antigo. Contudo, não se pode negar que os adjetivos com a terminação *-ustus* parecem mais recentes do que aqueles em *-estus* (*funestus*, *modestus*, *scelestus*, *faustus* < *faves-tos*, *iustus* < *ioves-tos*, etc.). Mas, se assim é, trata-se, ainda assim, de formações com sufixos que divergiram muito antes da memória humana. -- Pietas: Selected Studies in Roman Religion, Hendrik Wagenvoort.

O texto de Wagenvoort expõe uma oscilação metodológica entre morfologia e semântica ritual sem reconhecer que a questão não se decide por sufixação nem por regência. A aceitação inicial da derivação venes-o(r) é correcta, mas a tentativa de legitimar a hipótese de Wackernagel através da analogia com generare e outros deverbais é apenas um expediente formal que não toca o núcleo funcional de venerari. A objeção sintática — a regência do acusativo — é circunstancial e não tem valor probatório, sendo usada como ponto de fricção para reabrir uma discussão que não depende da sintaxe. A interpretação de venerari como “proporcionar venus à divindade” desloca o verbo para um plano operativo coerente com a semântica de potência, mas o texto não reconhece que esta operação é independente da morfologia verbal. A introdução de venustus como elemento decisivo é artificial: o adjectivo é antigo, mas a discussão sobre ‑ustus versus ‑estus é superficial, fundada numa cronologia morfológica que não explica a genealogia semântica. A afirmação de que ‑ustus é mais recente do que ‑estus não tem relevância para o estatuto de Venus, porque ambos os sufixos são resíduos fossilizados de um campo térmico arcaico, e a divergência formal não determina a função antropológica. A crítica a Schilling por “ignorar” venustus é infundada, porque o adjetivo não altera o quadro conceptual já presente na leitura de venus como potência operativa.

O texto permanece preso a uma gramática de superfície, incapaz de integrar a continuidade térmica que liga estus ao calor do estio e ustus ao consumo sacrificial, e por isso não alcança a estrutura profunda do léxico. A argumentação morfológica é usada como mecanismo de autoridade, não como instrumento explicativo, e a discussão resulta num deslocamento retórico que não acrescenta substância ao entendimento de venus nem de venerari.

Na verdade, o que se propões é uma inversão metodológica e psicológica em relação ao racionalismo da filologia tradicional. Em vez de se assumir que os antigos romanos criaram primeiro um substantivo abstracto e neutro para, só numa fase posterior, o personificarem numa divindade, a perspectiva histórica mais defensável coloca a deusa Venus e o impacto do seu culto original no ponto de partida. Teria sido a presença da divindade e as práticas rituais destinadas a obter o seu favor a gerar, na sua origem, todo o vocabulário a ela associado.

De facto, na evolução das línguas, é muito comum que uma palavra que nasce num contexto ritual específico e restrito sofra uma generalização de sentido à medida que as gerações se afastam das origens.

Enquanto a filologia oitocentista e os autores como Schilling tendem a ser muito racionalistas — achando que os humanos primeiro criaram o substantivo neutro e abstracto (venus como "força/encanto") e só depois o personificaram na deusa —, a perspectiva sistémica aproxima-se de uma visão mais orgânica e mítica: primeiro existe a deusa e o impacto do seu culto; os termos rituais nascem dela e, só depois, por abstracção linguística e esquecimentos administrativos oportunos, é que o termo se desvincula e se espalha pelo vocabulário comum.

O desenvolvimento posterior da língua reflecte um fenómeno de desgaste e esquecimento cultural. À medida que as sociedades latinas se afastaram das origens míticas, a memória da ligação exclusiva destes termos à deusa do encanto tendeu a diluir-se. Por força dessa abstracção linguística, vocábulos que outrora pertenciam estritamente à esfera de Venus transformaram-se em conceitos genéricos.

O verbo uenerari aparece repetidas vezes na obra de Virgílio, onde é sempre reservado aos deuses para exprimir a captação do favor divino. Na célebre exortação In primis uenerare deos, a expressão revela-se insubstituível face a sinónimos como precari, colere ou orare.

O facto de o verbo venerare surgir mais tarde em Virgílio como uma forma de culto prestada indistintamente a qualquer divindade não representa, portanto, a raiz semântica do termo, mas sim o seu ponto de chegada: o resultado final de um processo de dessacralização em que a força primordial da deusa foi assimilada pela burocracia ritual romana.

 

VENIA

A noção de *uenia*, incluída no verbo *uenerari*, deve ser relacionada. A relação etimológica entre as duas palavras é confirmada pelo uso; a conotação religiosa do termo está atestada desde a sua origem. Plauto faz a estrela Arcturo dizer:

“Facilius si qui pius est a dis supplicans quam qui scelestust inueniet ueniam sibi.”

Aquele que suplica com piedade encontrará a graça mais facilmente do que o ímpio a encontrará para si próprio

Esta “graça divina” que os justos obtêm em detrimento dos ímpios é o significado primário da palavra; surgiu muito cedo um significado secular, que, de “complacência”, passou a “perdão”; mas é uma extensão secular que nunca obscureceu o valor religioso original. Basta examinar o uso da palavra em Virgílio para se ter a certeza disso: quase em toda a parte, é perceptível a ressonância religiosa. Não é destino dos Troianos implorar a misericórdia dos deuses até ao fim da sua viagem? "Hortatur pater ire mari ueniamque precari" (A., III, 144): é este o conselho que Anquises dá a Eneias quando a peste dizima as fileiras troianas em Creta; aqui está a apelar para a benevolência de Apolo. -- LA RELIGION ROMAINE DE VENUS DEPUIS LES ORIGINES JUSQU’AU TEMPS D’AUGUSTE, PAR ROBERT SCHILLING.

O excerto de Robert Schilling relaciona a etimologia de venus e uenerari ao conceito primordial de uenia como graça divina, cuja matriz religiosa se mantém mesmo após o surgimento de extensões laicas. A análise do uso do termo em autores como Plauto e Virgílio demonstra que a ressonância sagrada e a busca pela benevolência dos deuses permanecem centrais.

Venia não é uma deusa: é a hipóstase latina da graça concedida, abstracção ritualizada do favor pedido ao divino. A sua presença nos textos é linguística, não teológica; funciona como nome personificado da indulgência que se solicita, inscrita no mesmo campo etimológico que estrutura Venus, venustas e venerari.

CÍCERO — Pro Milone 1 (abertura do discurso)

Aqui venia é tratada como potência que se implora, quase divina.

“Hanc igitur veniam petimus, iudices…”

“Pedimos pois esta venia, juízes…”

O verbo petere é o mesmo usado para pedir graça divina (petere auxilium deorum). Cícero está a usar venia como entidade que se concede, não mero substantivo.

CÍCERO — De Oratore 2.338

Aqui venia é explicitamente tratada como algo que se obtém por súplica, como se fosse uma força superior.

“…oratoris est veniam impetrare…” “Cabe ao orador obter venia.”

Impetrare é verbo técnico de obter favor divino. Cícero usa venia como potência concedente.

QUINTILIANO — Institutio Oratoria 4.1.79

Esta é a passagem mais forte: venia aparece como entidade que se deve invocar.

“…ad veniam quoque et misericordiam iudicum vocandus est animus.” “O ânimo dos juízes deve ser chamado também à venia e à misericórdia.”

O verbo vocare (“chamar, convocar”) é o mesmo usado para invocar deuses. Aqui Venia está no mesmo plano que misericordia, ambas tratadas como forças personificadas.

SÉNECA — De Clementia 1.2.2

Séneca trata venia como potência moral ativa, contraposta à ira.

“…ubi venia locum habet, cessat poena.” “Onde venia tem lugar, a pena cessa.”

O uso de locum habere é típico de entidades personificadas que “entram” ou “saem” da alma.

VALÉRIO MÁXIMO — Facta et Dicta Memorabilia 6.5.3

Aqui venia é tratada como graça concedida por uma instância superior, com sabor religioso.

“…nec veniam meruit…” “E não mereceu venia.”

O verbo merere é usado para merecer favor divino (merere deos).

AULO GÉLIO — Noctes Atticae 13.29.3

Personificação moral clara:

“…venia et clementia* in reos commendatur.”** “Recomenda‑se venia e clemência para os réus.”

O paralelismo com clementia (que é deusa alegórica de culto) mostra que venia está a ser tratada como entidade paralela.

 

VENENUM

Que contributo nos podem dar as outras palavras da família? O substantivo *uenenum* parece aberrante à primeira vista. Muitas vezes, é fundamentalmente pejorativo e deveria ser traduzido por "veneno". *L'atrum uenenum* ou *l'acre uenenum* encontra-se frequentemente na poesia latina. Este uso não nos deve enganar quanto ao verdadeiro significado de *uenenum*, que, derivado de *uenus* (*uenes-substantivo), tem sido utilizado tanto nos bons como nos maus sentidos, segundo a perspicaz observação de Sérvio:

«Venenum et de bono et demalo dicitur, ut odor et bonus et malus uocatur»

"Venenum é chamado tanto de bom como de mau, de tal modo que se usam tanto odores bons como maus."

De facto, o significado fundamental é mágico. O único exemplo de Plauto é significativo: alude à metamorfose levada a cabo por Medeia em Pélias,

«Quem medicamento et suis uenenis dicitur

Fecisse rursus ex sene adulescentulum.»

(Pseudolus, 870)

A palavra significava originalmente "encanto": pode, portanto, transmitir tanto a ação misteriosa do veneno como o efeito enfeitiçante de uma poção. Seja qual for o seu uso, predomina o significado mágico. É assim que designa, aqui, as plantas raras, *lecta uenena*, que devem ser utilizadas nos encantamentos dos pastores virgilianos; a poção do amor neste lamento de Propércio: «Intactos isto satius tentare ueneno» (Prefiro tentar os intocáveis com este veneno).

Virgílio explorou subtilmente as conotações etimológicas do termo: não empresta a Venus esta linguagem venusiana quando a deusa exorta o jovem Cupido a conquistar Dido: «Occultum inspires ignem fallasque ueneno» (Respira fogo oculto e veneno enganoso). -- LA RELIGION ROMAINE DE VENUS DEPUIS LES ORIGINES JUSQU’AU TEMPS D’AUGUSTE, PAR ROBERT SCHILLING.

«Veneno» < Empréstimo académico do latim venēnum

< proto-itálico *weneznom (“luxúria, desejo”),

< proto-indo-europeu *wenh₁- (“esforçar-se, desejar, amar”).

A integração do conceito de uenenum no sistema morfológico e teológico de Venus exige uma revisão crítica que supere o reducionismo mecanicista da filologia comparada tradicional. A hipótese académica corrente propõe que o termo derive do proto-itálico *weneznom (“luxúria” ou “desejo”), fundamentando-se na raiz PIE *wenh₁- (“esforçar-se”, “amar”). Todavia, esta reconstrução padece de um vício metodológico circular. A postulação de uma forma arcaica sibilante assenta na aplicação retroactiva da tendência fonética do rotacismo. Esta tendência, longe de constituir uma lei física absoluta na transição do latim arcaico para o clássico, apresenta abundantes excreções e contra exemplos (v.g., causa, miser, basium). O recurso a uma suposta dissimilação conveniente, concebida para justificar a queda do fonema interválico e o alongamento compensatório em uenēnum, funciona como um artifício laboratorial destinado a validar a posteriori um paradigma previamente fixado.

Diante da fragilidade desse determinismo fonético, revela-se teoricamente mais consistente postular uma génese associada ao substrato cultural e linguístico do Mediterrâneo arcaico. Uma proposta alternativa, como a forma composta *Venezmon — ancorada no elemento pré-helénico e egeio *ashmom (com a semântica de carga, substância ou força concentrada) —, restitui ao vocábulo a sua densidade material e ritual originária. Em vez de traduzir um estado abstracto de luxúria, uenenum emerge como a "matéria ou substância infundida com a potência de Venus". Esta morfologia atesta a condição primordial do termo enquanto pharmakon (de que *Venezmon um contrusto de estrutura idêntica mas de etimologia alternativa): o filtro, a poção mágica ou o encantamento, cujo valor axiológico (positivo ou pejorativo) é originariamente neutro. Conforme a glosa do gramático Sérvio («Venenum et de bono et de malo dicitur...»), a substância opera numa zona de ambivalência semântica e ritual, onde o seu carácter benéfico ou destrutivo não depende de uma toxicidade química intrínseca, mas sim da intensidade do magnetismo erótico ou sagrado (venus) que a mobiliza.

Esta persistência de uma estrutura sistémica unificada entre a atracão, a concessão e a poção permanece operante e audível na evolução das línguas românicas, encontrando paralelo inclusive na lírica popular contemporânea (como na célebre composição Veneno, interpretada por Isabel Pantoja: «Aunque fueras un veneno / A mí me resultas bueno / Por este amor»). A articulação destes versos reproduz com exactidão a mecânica da cena virgiliana na Eneida, onde Venus recorre ao "veneno enganoso" (fallasque ueneno) para subjugar Dido. O enunciado lírico reitera a concessão ritual originária da uenia (o rebaixamento das defesas do sistema face à aproximação do outro: «Aunque fueras...») e confirma a neutralidade do pharmakon, onde o contágio e a penetração da poção amorosa no organismo são voluntariamente acolhidos como uma culminação interna e vital, preferível à imunidade do isolamento estéril. A sobrevivência desta constelação conceptual demonstra que o nexo entre o desejo e o veneno resiste à burocratização estatal e ao enquadramento eclesiástico, preservando na carne da língua a arquitectura original da divindade.

 

Ver: POTOS, o deus da saudade, dos filtros de amor e das poções mágicas (***)

 

Venē-fica ae, f vene-ficus, uma envenenadora, feiticeira, bruxa: sábia, H.: validos venefica sucos Mergit, etc., O.—Como termo abusivo: Quid ais, venefica? T.: veneficam appellare eum virum.

 

VENEZA

Os venezianos também são chamados de "Venetici", "Heneti" ou "Eneti" (em grego antigo Ἐνετοί). Embora o termo "Veneti" seja comummente usado tanto na historiografia antiga quanto moderna, em obras não especializadas o prefixo "paleo-" ("antigo" > "Paleoveneti"), a perífrase "Veneti adriatici" ou a expressão "Venetians" são às vezes usados para distinguir o povo da Antiguidade dos tatuais habitantes da região italiana do Veneto.

O nome "Veneti" aparece frequentemente em fontes clássicas. Heródoto menciona os "Eneti" entre as tribos ilírias; César escreve que ele havia subjugado os "venezianos" da Armórica, os únicos entre os povos da Gália a dominar a arte náutica; Tácito e Plínio, o Velho localizam os "Wendes" ao longo do curso do Vístula, fazendo fronteira com os Bastarni, os Finni e os Sármatas, enquanto Cláudio Ptolomeu chama o Golfo de Danzig de Venedicus sinus; Pomponius Mela menciona o Lago de Constança como Venetus lacus; finalmente, "Venetulani" são um povo do Lácio que desapareceu, mencionado por Plínio, o Velho.


Figura 5: Alegoria da cidade de Veneza adorando a Madona e o Menino, de Veronese

A frequência desse etnónimo em diferentes regiões europeias, no entanto, não deve ser explicada por vínculos históricos e linguísticos hipotéticos entre os diferentes povos que o usaram, mas sim por uma derivação igual, repetida várias vezes de forma independente, a partir da mesma raiz indo-europeia *wen ("amar"). Os "venezianos" (*wenetoi) seriam, portanto, os "amados", ou talvez os "amáveis", os "amigáveis".

Ultimamente tenho lido o livro de Peter Ackroyd, "Veneza: Cidade Pura", capítulo a capítulo, saboreando-o lentamente e criando imagens da maravilhosa cidade na minha imaginação. O que me pareceu particularmente fascinante, pelo menos até este ponto do livro, foi a ligação entre Veneza e Venus, a deusa romana do Amor, e também a ligação de Veneza com a Virgem, a Virgem Maria, mas também com a prostituta. Eis um excerto do livro de Ackroyd: “Na poesia e no teatro, Veneza era frequentemente retratada como a mulher amada. (...) Era celebrada pelo seu poder de seduzir o visitante, de o atrair para o seu abraço uterino. As ruas estreitas e tortuosas evocavam imagens de perseguição erótica e surpresa. A cidade era invariavelmente representada como um símbolo feminino, quer como a Virgem em majestade, quer como Venus emergindo do mar. Dizia-se na lenda que Veneza foi fundada em 25 de Março de 421, a festa da Anunciação, e nesse mesmo dia Venus estava em ascensão.

Assim, Veneza era a cidade de Venus. A deusa nasceu do mar. Ela estava intimamente associada ao mar. Dizia-se que tinha sido criada pela espuma branca que Neptuno lançava sobre as ilhas onde a cidade surgiu, implicando a profunda sexualidade da cidade dentro da lagoa. (...) É uma das vistas primordiais do mundo. A palavra Veneza evoca Venus nas suas sílabas. A Venus nua era representada pela cidade sem muralhas. "Venus e Veneza são Grandes Rainhas", escreveu James Howell no seu Levantamento das Signorias de Veneza, com um trocadilho adicional com "quean" ou prostituta. Venus era a rainha do Amor, e Veneza era a rainha da Política."

(...) A cidade de Veneza é como uma cortesã que se cobre com um véu e se ajoelha numa igreja, juntando as mãos, rezando e olhando timidamente para o altar, mas não engana ninguém. Eis o que escreve Peter Ackroyd sobre o culto da Virgem nesta tão depravada cidade de Veneza:



Figura 6: Palazzo Del Lloyd Triestino - Venus

Figura 7: Palazzo Del Lloyd Triestino - Tetis

“Mas Veneza era também a cidade da Virgem. Imagens da Anunciação podem ser encontradas na Ponte Rialto, na fachada da Basílica de São Marcos e nas paredes do palácio ducal, bem como em diversos outros lugares da cidade. O culto da Virgem implicava, e até exigia, a glorificação do Estado. A persistência da república era mais uma prova da sua origem divina. (...) A cidade, nos séculos XVIII e XIX, era caracterizada como uma prostituta. Era conhecida pela sua aparente “decadência” e pela sua ganância mercantil. A Rainha do Mar foi transmogrificada em “a prostituta do Adriático”. (...) Parece haver algo de profundamente perturbador nas cidades de luxo e de sensações. (...) A cidade era uma cortesã decadente, ostentando as suas bugigangas de ouro e desilusão. (...) A virgindade era uma obsessão veneziana."

“O culto de Maria perpassava todos os aspectos da sociedade veneziana. (...) No século XV, existiam mais de trezentos altares dedicados à adoração da Virgem. Na igreja de Santa Maria Gloriosa, existiam nada menos que oito altares distintos a ela dedicados. A famosa nikopeia, um ícone bizantino da Virgem supostamente pintado pelo próprio São Lucas, era levada em procissão pela Praça de São Marcos na festa da Assunção; esta relíquia tornou-se o paládio da república, a sua salvaguarda e defesa, e ainda hoje se encontra na Basílica de São Lucas Marcos. Veneza era também a Virgem, pois nunca fora agredida.

(...) A sua devoção era popular. Havia muitos santuários nas esquinas das ruas, com uma lâmpada votiva acesa diante da Virgem; estes eram mantidos pelos moradores do bairro. Não havia, no entanto, um lar veneziano.” humilde, sem a imagem da Virgem. Havia artistas que não faziam outra coisa senão executar imagens baratas da Madona, conhecidas pejorativamente por madonnieri.[4]

No domínio itálico e adriático, Veneti designa um povo que se nomeia a partir da mesma raiz, não por referência de culto à deusa, mas pela aceção antropológica primária: “os desejados”, “os amados”, “os aliados”, “os amigos”, aqueles que se reconhecem mutuamente como comunidade de afeto e de laço. O toponímico Venetia é a simples fossilização geográfica desse etnónimo: a terra recebe o nome da gente, e a cidade que emerge da lagoa herda o nome dos que ali se fixaram.

Assim, Venus, Veneti e Venetia não são três entidades independentes que por acaso partilham fonética; são três derivações históricas de um mesmo núcleo etimológico que, em cada contexto, se atualiza de modo distinto: teológico, étnico, geográfico. A coincidência não é decorativa, mas estrutural: a cidade de Veneza é, literalmente, a terra dos Veneti, e os Veneti são, linguisticamente, os que se inscrevem na mesma raiz que deu origem ao nome de Vénus. A constelação é contínua: desejo, graça, afeto, laço, atração, benevolência — o mesmo sangue linguístico percorre o teónimo, o etnónimo e o toponímico. A ciência da língua confirma esta unidade sem esforço: não há artifício, apenas a persistência de uma raiz indo‑europeia que, ao longo dos séculos, se desdobra em deusa, povo e cidade.

A ausência de culto pagão na lagoa não impede a sobrevivência da matriz simbólica de Venus. Veneza nasce já em plena cristandade, sem templos, sem altares, sem sacrifícios; mas a República, ao longo do Renascimento e do Barroco, elabora uma mitologia política que a identifica como corpo feminino emergido das águas, retomando a iconografia clássica da Venus Anadyomene. A cidade constrói para si uma genealogia estética: tal como a deusa nasce da espuma marinha, também Veneza se apresenta como entidade que surge das águas da lagoa, bela, íntegra, imaculada, dotada de venustas. Os programas decorativos dos palácios — Ticiano, Giorgione, Veronese — não são ressurreições cultuais, mas alegorias cívicas que celebram a própria cidade como figura de graça, beleza e potência marítima. A Venus representada não é objeto de devoção religiosa: é a imagem política da cidade que se autoproclama corpo feminino dotado de atração e abundância.

A Igreja, longe de suprimir esta semântica, absorve-a e redireciona-a. A figura da Virgem Maria substitui a deusa sem eliminar o seu campo simbólico: Veneza torna‑se “Cidade da Virgem”, e a fundação oficial é fixada no dia 25 de março, Anunciação, coincidência deliberada que permite transpor a narrativa da emergência das águas para a pureza mariana. A cidade cristã conserva a estrutura imagética da antiga Venus: corpo feminino protetor, potência de graça, figura que vela sobre o mar e sobre os navegantes. A transição não é ruptura, mas continuidade semântica: a Venus pagã é substituída pela Virgem, mas o campo de beleza, proteção, atração e surgimento permanece intacto.

Assim, não existiram templos dedicados a Vénus na lagoa, mas a cidade construiu para si uma identidade que prolonga a semântica da deusa: Veneza emerge das águas como Venus; Veneza é protegida pela Virgem como Venus protegia os navegantes; Veneza celebra a sua própria beleza como atributo político, não religioso. A raiz indo-europeia \wen-*, que deu origem ao teónimo Venus e ao etnónimo Veneti, percorre também o imaginário da cidade: desejo, graça, atração, benevolência, laço. A Veneza cristã é, na sua própria mitologia, a Venus transfigurada — não a deusa do culto antigo, mas a figura que conserva o campo semântico da graça e da beleza que a língua, desde a sua origem, atribuiu à raiz que lhes deu nome.

A região que hoje é o Vêneto já estava habitada em tempos pré-históricos, inicialmente um assentamento dos Euganei, que foi ocupada pelos vênetos na era proto-histórica.

Tito Livio, natural de Pádua, inicia sua monumental História de Roma com o mito de Antenore, o qual fugindo de Tróia destruída e em chamas, liderando um grupo de Troianos e Eneti, um povo aliado da Paflagônia, chegaram ao atual Golfo de Veneza, uma terra que se estende entre os Alpes e o mar Adriático, depois de terem expulsado os Euganei. Com esse povo se estabeleceram e juntos serão chamados de Veneti.

O próprio Antenore teria sido o fundador de Pádua. De acordo com uma lenda semelhante, Diomedes teria fundado Adria enquanto Clodio teria fundado Chioggia. Muitas cidades importantes do Vêneto como Concordia, Oderzo - que estão entre as mais antigas, já existiam no 9º e 8º século a.C. - Este, Treviso, Belluno, Altino, Vicenza e talvez Verona, a ele também devem a sua fundação.

O primeiro registro histórico onde consta a presença dos vênetos encontra-se na Estela, da Isola Vicentina, onde se vê escrita a palavra Venetkens, um adjetivo derivado do nome da sua própria população.

A proveniência anatólica dos Veneti do Adriático não é aceita por todos os autores antigos e ainda é objeto de discussão nos dias de hoje. Fontes antigas atribuem a existência de várias vertentes para a etnia veneta, desde a Bretanha, à Lusácia, entre a Alemanha e a Polônia, a Epiro na Grécia, à Anatólia.

Vários topônimos estariam ligados à etnia Veneta (por exemplo, Vin-de-licia, região correspondente à atual Baviera, Vin-debona – atual Viena) e aos nomes atribuídos a povos de origem eslava em várias línguas européias.

Segundo alguns estudiosos, essas seriam evidências de uma única civilização indo-européia que se estendeu do Báltico ao Adriático, atribuível aos chamados povos dos Campos de Urna, uma cultura arqueológica da Idade do Bronze Tardia na Europa Central. Este nome deriva do costume que tinham de incinerar os mortos e de colocar suas cinzas nas urnas que então eram enterradas nos campos.

O nome Venetia et Histria foi usado para a região em parte devido à lealdade "inicial e inabalável" do povo venetino local ao estado romano. Esse nome também era preferido ao uso de um grupo mais rebelde como os celtas cenomanes, devido à crença romana em uma descendência compartilhada com os Vêneti dos troianos

De origem celta, do gaulês Wenetoi (“os amigáveis, os parentes”), do proto-celta *wenetos, uma derivação de *wenyā (“parentesco”).

De origem incerta, embora geralmente se presuma ser um endónimo vêneto. O consenso académico inicial de que os vênetos do Adriático eram ilírios baseava-se em argumentos posteriormente refutados. Adoravam Beleno e eram possivelmente celtas ou fortemente influenciados pela cultura celta, apesar de apoiarem repetidamente os romanos contra os gauleses. Se assim for, o nome pode partilhar a mesma derivação que o armórico acima.

Venetia > Venetus adj., cor do mar, de um azul-marinho: cucullus, Iu.

 

Venus Obsequens "Venus Indulgente”, o primeiro epíteto romano atestado de Venus. Foi usada na dedicação de seu primeiro templo romano, em 19 de agosto de 295 a.C., durante a Terceira Guerra Samnita, por Quinto Fábio Máximo Gurges. Estava situada em algum lugar próximo à Colina do Aventino e ao Circo Máximo, e desempenhou um papel central na Vinalia Rustica. Supostamente, era financiada por multas impostas a mulheres consideradas culpadas de adultério.

A origem do epíteto é descaradamente óbvia quer porque indulgentes, enquanto mulheres fáceis de seduzir, eram as adúlteras, quer porque obsequens designava todo aquele que faz o «obsequio» de seguir passivamente em direcção aos apelos sedutores do outro e, neste caso, a leitura da Ars Amatoria de Ovídio seria elucidativa para quem desconhece as manhas da sedução amorosa. A indulgência não é vício, mas mecanismo de adesão — o obsequium como força de seguimento, inclinação, cedência e reciprocidade.

O termo obsequens não designa apenas a mulher “indulgente” ou “fácil”, mas o princípio de obsequium, a disposição de seguir, de ceder, de inclinar-se perante o impulso do outro — movimento que, em Ovídio, constitui o mecanismo central da “arte dos bons amantes”: o jogo da reciprocidade entre o desejo que solicita e o desejo que consente. Assim, o epíteto não é moralizante, mas funcional: traduz a eficácia propiciatória da deusa, a sua capacidade de tornar favorável o encontro, de dissolver a resistência, de converter o conflito em atracão.

A leitura moderna que reduz Obsequens a “indulgente” perde o essencial: trata-se de uma potência de adesão, de uma força que faz o humano seguir o divino — o mesmo princípio que, noutras faces de Venus, se manifesta como Verticordia (a que muda os corações) ou Genetrix (a que gera). O templo de Venus Obsequens é, portanto, o primeiro espaço romano onde o erotismo e a moral se reconciliam sob forma de culto: o adultério punido financia a deusa que o explica, e a indulgência torna-se virtude ritual, não vício social.

 

Venus Libertina (“Venus, a Libertada”) resulta da aproximação semântica entre libertina (“mulher livre”) e lubentina (“prazerosa”, “apaixonada”). Através deste processo surgem variantes como Libentia, Lubentina e Lubentini, todas expressando o domínio sensual da deusa. Venus Libitina associa Venus à deusa funerária Libitina, padroeira de enterros e dos profissionais funerários; o seu templo, no bosque de Libitina na Colina Esquilina, foi dedicado pouco depois de 300 a.C., e tornou-se sinónimo de morte e de administração funerária.

Venus Múrcia (“Venus da Murta”) funde Venus com a obscura divindade Múrcia/Murtia, ligada ao Mons Murcia (a elevação menor do Aventino) e ao seu santuário no Circo Máximo. A associação à murta é tradicional, embora autores cristãos tardios a tenham reinterpretado como deusa da preguiça.

Venus Victrix.


Figura 8: Venus sur un char tiré par des éléphants – Pompéi - Atelier des Feutriers. Restauro apoiado por IA.

A cena apresenta o triunfo de Venus num registo cerimonial onde a deusa surge elevada sobre um carro processional puxado por quatro elefantes ornamentados, sinal de domínio universal e potência fecundante. A figura central, vestida de azul e empunhando ceptro, afirma a sua soberania enquanto um pequeno ser alado — Cupido — reforça a dimensão amorosa e vital do cortejo. Em torno do carro, figuras humanas com bastões funcionam como assistentes rituais, e amorini suspensos entre grinaldas verdes completam o arco simbólico superior. O conjunto articula uma iconografia de apoteose: Venus não apenas como deusa do amor, mas como princípio vencedor que integra graça, poder e ordem cósmica. É, portanto, uma Venus Vicitrix — a força que vence pela sedução, pela harmonia e pela fecundidade, celebrada num triunfo que une o terrestre ao celeste.

 

Venus Cloacina (“Venus, a Purificadora”) combina Venus com a deusa etrusca Cloacina, ligada ao antigo curso de água que se tornou a Cloaca Maxima. O seu santuário, situado sobre o desaguamento do esgoto, tinha função purificadora das águas e do ar. Em tradições antigas, Venus Cloacina protege e legitima o ato sexual dentro do casamento, e Plínio associa o santuário ao episódio de reconciliação entre romanos e sabinos após o rapto das sabinas, quando ambos os grupos se encontraram ali portando ramos de murta.

 

Ver: DEUSES ROMANOS - FAUNA & FLORA / CLOAQUINA (***)

 

A Vinalia Rustica (19 de Agosto) era um festival rústico latino dedicado ao vinho, às hortas e à fertilidade agrícola. É quase certamente o festival mais antigo associado a Venus, na sua forma primitiva Venus Obsequens, protectora de jardins, hortas e vinhas. A vítima sacrificial — uma borrega — sugere que o festival lhe pertenceu originalmente. Varro, porém, afirma que o dia era sagrado a Júpiter, reflectindo divergências antigas sobre a titularidade do festival; a investigação moderna interpreta esta tensão como coexistência de funções complementares entre Júpiter (clima, maturação das uvas) e Venus (fertilidade vegetal e cuidado dos cultivos).



Figura 9: Restauro com ajuda de IA.

Figura 10: Fresco Barberini encontrado no Batistério de Latrão.

Venus Armata: O fresco foi encontrado em 1655 no Baptistério de Latrão e adquirido pela colecção Barberini. Os danos ocorridos durante o destacamento do fresco foram integrados com os atributos típicos da Deusa Roma (em particular o elmo) e a fixação da inscrição VIRTUS - HONOR - IMPERIUM na base do trono: daí a identificação com a deusa Roma. O restauro moderno realizado pelo Museu Nacional na década de 1950 eliminou a repintura, destacou a ornamentação antiga e permitiu reinterpretar a figura representada como a vitoriosa Venus, protectora da gens Iulia. Por este motivo, colocou-se a hipótese, com base em inúmeras comparações iconográficas, que o fresco reproduzia a estátua de culto de Venus colocada no Templo de Venus e Roma, que Maxêncio restaurara no início do século IV. Num. cat. 347.

 

Venus Victrix ("Venus, a Vitoriosa"), um aspecto romanizado da Afrodite armada que os Gregos herdaram do Oriente, onde a deusa Istar "permaneceu uma deusa da guerra, e Venus podia trazer a vitória a Sila ou a um César". Pompeu disputou com o seu patrono Sila e com César o reconhecimento público como seu protegido. Em 55 a.C., dedicou-lhe um templo no topo do seu teatro no Campus Martius. Ela tinha um santuário no Capitolino e festas a 12 de Agosto e 9 de Outubro. Um sacrifício era-lhe dedicado anualmente nessa última data. Na arte neoclássica, o seu epíteto como Victrix é frequentemente utilizado no sentido de “Venus Vitoriosa sobre os corações dos homens” ou no contexto do Juízo de Paris (por exemplo, Venus Victrix de Canova, um retrato semi-nu reclinado de Pauline Bonaparte).


 

VENUS CALVA

A figura de Venus Calva constitui um epíteto romano tardio cuja tradição etiológica funciona como racionalização moral e sanitária de um fenómeno de culto e simbólico. As fontes pós-clássicas oferecem duas narrativas: a das matronas que cortam voluntariamente o cabelo para fabricar cordas de arco durante um cerco, e a das mulheres poupadas a uma epidemia de calvície — provavelmente “tinha tonsurante”, responsável por alopecia irregular — que sacrificam os seus cabelos a Vénus em voto pela cura das outras.

A segunda versão apresenta coerência epidemiológica e antropológica: surtos de tinha são plausíveis em contexto urbano antigo e a perda súbita de cabelo em mulheres pode ter sido interpretada como sinal de impureza, contágio e desgraça. O gesto das matronas não afectadas, ao oferecerem o próprio cabelo, corresponde a um mecanismo de substituição ritual em que o corpo intacto cede parte de si para restaurar o corpo ferido alheio. A escolha de Vénus como destinatária do voto decorre da lógica interna do culto romano: Venus é deusa da integridade corporal visível, da beleza enquanto sinal de saúde, da graça como manifestação de ordem e da restauração da forma...sobretudo da mulher. A perda de cabelo, particularmente em mulheres, representava uma quebra da forma, uma dissolução da aparência e desordem da superfície corporal. Vénus, mesmo nas faces mais austeras como Verticordia, é potência que recompõe, alisa, restaura e reintegra. O cabelo, enquanto atributo feminino de prestígio, fertilidade e ordem, inscreve-se no seu domínio. O epíteto Calva não designaria necessariamente uma Vénus explicitamente careca na estatuária, mas uma deusa que recebe o cabelo sacrificial e cura a calvície epidémica; a etiologia militar é moralizante, a etiologia sanitária é funcional, e ambas revelam o mesmo mecanismo romano: quando a forma do corpo é ameaçada, o culto dirige-se à deusa que garante a forma.

De qualquer maneira, o epíteto de Venus Calva, ao exibir aquele perfume de etimologia popular tão típico da imaginação romana tardia, levanta imediatamente a suspeita de estarmos perante mais um culto arcaico de uma deusa Calva, cuja semântica original se evaporou, obrigando-nos, como sempre, a investigar a etimologia da própria calvície.

«Calvo» < lat. *calvus* <proto-itálico **kalowos* < PIE **klh₂wós*

< **kl̥H-* (“nu, calvo”).

ó espanhol *calvo*, o catalão *calb*, o francês *chauve*

e, com um parentesco mais distante, o sânscrito *kulva* (कुल्व).

Naturalmente, as etimologias por retroactividade fonética têm sempre o mesmo defeito: o de exporem a virtualidade dum PIE de origem que por falta de acesso à sua própria etimologia deixando em suspenso a origem final da linguagem.

No caso da calvície o mais ingrato é o lado indo-europeu ficar comprometido por considerar o sânscrito *kulva* como sendo uma cognato distante quando este mesmo termo reporta para uma etimologia cognata do avéstico kauruua, (“calvo”), do persa کل / kal, (“calvo”) e do latim calvus (“calvo”).

Ora, é precisamente nas línguas indo-arianas que se esclarece a etimologia autêntica da calvície que costuma começar no homem por cabelos brancos como a cal e acaba numa cabeça «escalvada» como os montes calcários de sustentação vegetal ingrata. O avéstico kauruua parece ser uma má transliteração dos cuneiforme persas que a partir do persa árabe aponta para um termo próximo de *karuawa a partir dum mais antigo egeu *kur-wa-ka que chegou ao sânscrito deturpado como *kulva*.

Assim o nome de Vénus Calva deve ser a deturpação de outro nome arcaico da deusa que nada teria a ver com o calcário a não ser o calor afectivo metaforicamente comparado com o real das reacções exotérmicas da produção de cal. Ora deusa do calor efectivo foi a hindu Kali que entre as centenas de variantes foi Kālikā, Kulina e Kulacara, etc.

Kali (em sânscrito: काली; romaniz.: Kālī; também grafado como Cali), também conhecida por Dakshina Kālikā (em sânscrito: कालिका), é uma das divindades do hinduísmo.

Pois bem, vai-se facilmente de Kālikā a *Kaliwa e desta a «Calva».

Para reforço adicional de que termos desta natureza podem ter surgido no Egeu, temos o grego moderno Kali‑Kyra (ou Cali Kira), que tanto pode referir-se a uma música grega como a uma praia na ilha de Eubeia, ou ainda a nomes femininos contemporâneos — porque a persistência dos mitemas raramente pede licença à filologia.

 

VENUS BARBATA

A Vénus Barbata surge como desvio de culto paralelo ao da Vénus Calva, mas não por equívoco etimológico: por absorção de cultos híbridos onde a divindade local reunia atributos masculinos e femininos, fixando-se na iconografia a barba como sinal de potência ambígua e não como masculinização literal. A designação romana traduz mal o fenómeno, colando o nome de Vénus a uma entidade prévia que não lhe pertencia, tal como sucedeu com outras Vénus anómalas. A presença de barba em figuras femininas, seja em estátuas híbridas seja em mulheres reais de idade avançada com hisutismo, reforça a lógica antropológica da invocação de Vénus como guardiã da forma e da integridade corporal, sobretudo quando a feminilidade visível se altera. Assim, a Vénus Barbata não é mero erro linguístico: é resíduo de sincretismo, testemunho de zonas onde a fronteira entre o masculino e o feminino era ritual, não biológica, e onde Roma, incapaz de integrar a nuance, resolveu o problema colando o nome de Vénus ao que não era Vénus.

Pompeia organiza o corpo como território simbólico onde a ambiguidade sexual não é excepção mas mecanismo estrutural de leitura ritual. A presença recorrente de figuras hermafroditas nos frescos não decorre de fantasia erótica mas de uma cosmologia que integra a transição, a fusão e a coexistência de atributos masculinos e femininos como estados legítimos da forma humana. A cidade, saturada de Vénus e Marte, articula a beleza e a potência como forças complementares que moldam o corpo, e por isso a iconografia oscila entre feminilidade armada, virilidade suavizada e corpos híbridos que funcionam como marcadores de liminaridade. O hermafrodita, longe de ser curiosidade, é símbolo de passagem, de potência não resolvida, de corpo em metamorfose, e inscreve-se num ambiente onde a fronteira entre géneros é permeável e ritualizada. A profusão de Vénus reforça a leitura do corpo como superfície de forma, brilho e integridade, enquanto Marte introduz energia, impulso e agressividade simbólica; a combinação produz uma iconografia onde a ambiguidade não é falha mas plenitude. Pompeia, ao contrário da Roma normativa, não separa o que é masculino do que é feminino: integra, mistura, sobrepõe, e transforma essa fusão num princípio estético e religioso que atravessa casas, termas, tabernae e espaços públicos. A cidade funciona como teatro permanente da metamorfose corporal, e os frescos hermafroditas são apenas a expressão mais explícita dessa teologia da forma em estado de liminaridade e transição.

 

VENUS FRUTIS

Venus Frutis honrada por todos os latinos com um culto federal no templo chamado Frutinal in Lavinium. Inscrições encontradas em Lavinium atestam a presença de cultos federais, sem fornecer detalhes precisos.

Na verdade, é às provas circunstanciais que devemos a menção de Frutis. Eis o texto citado por Solin: «Nec omissum sit, Aeneas, a second summer from Ilio capto, Italianis litoribus adpulsum, ut Hemina tradit, sociis non amplius sexcentis in agro Laurenti posuisse castra, ubi dum simulacrum, quod secum ex Sicilia aduexerat, dedicat Venusi matri, quae Frutis dicitur, a Diomede Palladium suscepit... »

Não se deve também omitir que Eneias, tendo sido capturado em Ílion no segundo Verão, desembarcou nas costas italianas, como relata Hemina, e com não mais de seiscentos companheiros acampou no território de Laurento, onde, enquanto dedicava a estátua que trouxera da Sicília à sua mãe Venus, chamada Frutis, recebeu o Paládio de Diomedes...(…)

A exactidão da forma Frutis, transmitida pelos melhores manuscritos, não pode ser posta em dúvida, garantido que é pela nota de Verrius Flaccus, «Frutinal: templum Veneris Fruti<s>» 2 Quanto ao nome em si, pode parecer invulgar à primeira vista. Por que razão Cassius Hemina o ligou à lenda troiana e ao santuário de Lavinium? (...)

A partir daí, não só a explicação da palavra Frutis por uma alteração etrusca do nome grego Afrodite deixa de ser estranha, como passa a fazer parte de um conjunto convergente de factos. (Convém recordar que esta interpretação semântica, hoje aceite pela maioria dos linguistas, foi desenvolvida mais recentemente por Hammarström: ao observar a analogia da sílaba raiz nas duas palavras Frutis e Ἀφροδίτη, este estudioso considera a substituição da fricativa pela oclusiva labial, que deve ser pressuposta no arquétipo etrusco, como o resultado provável de uma influência itálica, o que explica as mutações do tipo Pescennius-Fescenna). (…)

A inegável presença da lenda troiana na Etrúria, por um lado, e a abundância de artefactos etruscos revelados pelas recentes escavações arqueológicas na região Laurentiana, por outro, permitem agora que a hipótese linguística ganhe forma. Em suma, a interpretação da palavra Frutis como uma deformação etrusca do nome Afrodite deixa de ser mera fantasia. (...)

Se considerarmos agora que Lavínio esteve aberto, desde a Antiguidade, às influências etruscas e sicilianas, a localização do culto de Venus-Frutis no agro Laurentiano já não nos deve surpreender. Seria, portanto, bastante razoável que os romanos tivessem visto Lavínio como o berço da religião de Venus, que tivessem reconhecido o seu estatuto privilegiado como metrópole religiosa dos latinos, mesmo após a conquista romana do século IV. (...)

VI. A Provável Origem do Culto de Venus A partir deste ponto, a conclusão lógica é quase incontornável. Vimos que, muito antes da “vitória” romana sobre o Lácio no século IV, Lavínio exercia influência religiosa sobre os romanos; que esta influência explica as peregrinações periódicas dos dignitários romanos à “cidade santa” e o papel preponderante de Lavínio na lenda troiana. E sabemos que Lavínio não era apenas o berço sagrado dos Penates e do culto de Vesta, mas também o centro de um culto federal a Venus. Foi nesta cidade latina, aberta às influências etruscas pela sua proximidade imediata com a Ardea e às influências sicilianas pelas suas ligações marítimas, que se deve ter dado a metamorfose que transformou a Venus neutra numa deusa. Uma metamorfose misteriosa, na medida em que o silêncio da história deixa as circunstâncias precisas dessa realização envoltas em mistério.

Em todo o caso, um facto crucial deve ser enfatizado: apesar das sugestões de influências etruscas e gregas, o nome oficial da deusa não será nem Turan, nem Frutis, nem Afrodite. O seu nome será Venus. Esta afirmação de uma identidade latina é de importância decisiva: significa que a promoção da força-ideia mágico-religiosa à personificação divina foi realizada de acordo com o impulso inicial. O numen da deusa não se torna estranho ao conjunto de ideias representadas pelas palavras da família venusiana. (...) Outro facto é digno de nota. Vimos que a certidão de nascimento de Venus menciona a lenda troiana. Mais precisamente, o nome Venus foi associado desde cedo, em Lavínio, à lenda troiana. Em suma, esta lenda, que enfatiza o papel tutelar da genetrix de Eneida, é uma grande dádiva para o percurso da deusa. (...) Por outro lado, Frutis nunca é utilizado isoladamente: nas nossas duas fontes (Verrius Flaccus e Cassius Hemina), serve de epíteto para Venus, para a Venus mater que Eneias supostamente trouxe da Sicília para Itália: «Venus mater quae Frutis dicitur»

O nascimento da deusa Venus, na viragem dos séculos VI e V a.C., num ambiente latino, mas à margem de Roma, explicaria o silêncio dos primeiros documentos oficiais romanos. Em particular, o calendário pré-juliano não contém uma festa expressamente dedicada a Venus: nenhuma inscrição em maiúsculas permite ler, em marca de água, o nome de Venus, como se lê o nome de Ceres nos Cerialia. Esta "omissão" não surpreende, dado que a compilação do calendário ocorre entre o fim do período monárquico e a introdução da Tríade Capitolina, que ainda não consta do mesmo. (...)

A ligação é ainda mais evidente no título de Venus Iouia. Uma sacerdotisa de Venus Iouiae é mencionada em Abela; em Cápua, uma dedicatória de 108 a.C., precedida dos nomes dos magistrados, evoca a construção de um interessante muro dedicado a Venus Iouiae: «Heisce magistreis Venerus Iouiae murum aedificandum coiraverunt».-- LA RELIGION ROMAINE DE VENUS DEPUIS LES ORIGINES JUSQU’AU TEMPS D’AUGUSTE, PAR ROBERT SCHILLING.

Ἀφροδίτη > (*Froithe > *Fruit) > Fruti > Frut-is < Lat. Frutus. < lat fruor.

A questão central é a posição de Frutis no sistema religioso e linguístico latino, em articulação com o culto de Venus em Lavínio e com a tradição grega de Ἀφροδίτη, num contexto onde a presença etrusca e siciliana é estruturalmente relevante mas não determinante para a etimologia do teónimo. O problema não é apenas de filologia estrita, mas de hierarquia explicativa: até que ponto é necessário, ou sequer legítimo, invocar uma mediação etrusca para justificar a forma de (Venus) Frutis, quando o próprio sistema latino oferece uma malha semântica e morfológica suficiente.

Aphroditē → *Froithe → V. Frutis ≤ Lat. frutus.

Frutus funciona como campo de ressonância semântica e fonética, posterior ou paralelo, que reforça a integração de Frutis no sistema latino; a relação é de reanálise de culto e semântica, não de genealogia morfológica. O ponto decisivo é que Frutus é um elemento latino pré-existente, ligado ao verbo fruor (fruição, proveito, gozo, colheita), e que Frutis é um nome de culto que, ao entrar no sistema latino, é reinterpretado à luz desse campo semântico, sem que isso implique uma derivação formal directa.

Lavínio, inserido no ager Laurens, é um centro latino, não etrusco; um nó religioso federal dos latinos, com função de metrópole de culto; um espaço de contacto intenso com o mundo grego, por via marítima, desde época arcaica.

A presença de um culto de Venus-Frutis no agro Laurentiano, num território latino, implica que o nome Frutis se inscreve num quadro latino de receção de culto; que a sua função religiosa (fecundidade, fruição, prosperidade, eficácia vital) é compatível com o campo semântico de fruor / fructus / frutus; que a eventual influência etrusca é ambiental, não estrutural, no que toca à forma do teónimo.

Lavínio pode ter sido aberto a influências etruscas e sicilianas, mas isso não obriga a que Frutis seja etrusco. Obriga apenas a reconhecer que o culto de Venus, enquanto figura de fecundidade e fruição, circula num espaço de interferência cultural múltipla, onde o latim, o grego e o etrusco coexistem. A forma Frutis, porém, é explicável dentro da latinidade, sem necessidade de mediação etrusca.

A tradição lexicográfica (Lewis & Short, etc.) regista Frūtis como “Etrusc. form Fruti; an Etruscan modification of the Gr. Aphroditê”.

Esta fórmula é sintomática pois reconhece uma modificação etrusca de Aphroditē ao atribuir a Fruti(s) um estatuto etrusco e inscreve o nome no quadro de um culto de Venus com marca etrusca. Mas, do ponto de vista estritamente filológico: não há cognato etrusco independente que explique Frutis; a morfologia em -is é perfeitamente compatível com formações latinas femininas; o campo semântico de fruor / fructus / frutus oferece uma malha interna latina suficiente para a reinterpretação de culto. A invocação do etrusco funciona, assim, como atalho interpretativo: dado que Lavínio e o Lácio têm presença etrusca, qualquer forma “estranha” pode ser rotulada como etrusca. Mas esta operação é metodologicamente ad hoc et nen sequer necessária: não se apoia em dados linguísticos robustos, apenas em contexto cultural.

A sequência: Aphroditē → (*Froithe → *Fruit) > Fruti > Frut-is, não deve ser lida como evolução fonética contínua, mas como: adaptação de culto de um nome grego ao sistema latino; ajuste fonotático para acomodar o nome à prosódia latina; reinterpretação semântica no campo da fruição, fecundidade, eficácia vital.

O processo é o seguinte: o nome grego Ἀφροδίτη entra num espaço latino (Lavínio, agro Laurentiano); é pronunciado, deformado, aproximado, até gerar uma forma intermediária (*Froithe[5]), que não é necessariamente atestada, mas funciona como hipótese de transição fonética; essa forma é estabilizada como Frutis, nome de culto de Venus, integrado no sistema latino. Não se trata de evolução etimologica interna do latim, mas de acomodação de um nome estrangeiro a um quadro religioso latino, com recurso à malha semântica já existente (fruor, fructus, frutus).

 

Ver: ETIMOLOGIA DO NOME DE AFRODITE

E O MISTÉRIO DO NASCIMENTO DE AFRODITE AFROGÉNIA (***)

 

A relação Frutis ≤ Frutus implica: que Frutus é anterior ou paralelo, como abstrato ligado a fruor; que Frutis é um nome de culto que, ao ser recebido, é interpretado à luz de Frutus; que a proximidade fonética e semântica entre ambos permite uma assimilação religiosa: Venus-Frutis é lida como deusa da fruição, do fruto, da fecundidade.

A latinidade não precisa de derivar formalmente Frutis de Frutus; basta-lhe reconhecer a proximidade e explorá-la no culto. É este movimento de reanálise que torna desnecessário o apelo aos etruscos: o sistema latino tem, em si, os recursos semânticos e morfológicos para absorver Frutis.

Num nível mais profundo, coloca-se a hipótese de um núcleo semântico arcaico comum entre: Aphroditē (a que faz emergir, brotar, nascer, ligada à sexualidade e à fecundidade); φύω / φύσις (crescer, brotar, natureza emergente) e fruor (fruir, gozar, colher o fruto); fructus / frutus (fruto, proveito, resultado da fecundidade). Este núcleo articularia: emergência vital (nascer, brotar, crescer); fecundidade (produção de fruto, descendência, abundância); fruição (gozo, aproveitamento do que nasce e cresce).

A hipótese de que Aphroditē e fruor possam remontar a um fundo PIE ou mediterrânico comum não é absurda; é coerente com a persistência de arquétipos de fertilidade que atravessam sistemas linguísticos distintos. Mas esta questão pertence a outro nível da análise: não é necessária para explicar a forma Frutis em Lavínio, embora a torne mais inteligível num quadro de longa duração simbólica.

Frutis é um nome de culto de Venus em contexto latino (Lavínio, agro Laurentiano), plenamente integrável no sistema religioso dos latinos.

A latinização de Aphroditē passa por uma adaptação de culto e adaptação fonética, não por uma evolução interna contínua; Frutis é o resultado dessa acomodação. O apelo aos etruscos para justificar Frutis é metodologicamente dispensável: o sistema latino oferece uma explicação suficiente, tanto morfológica como semântica. A eventual raiz arcaica comum entre Aphroditē e fruor pertence a um nível de análise mais profundo, de longa duração simbólica, que reforça a coerência do quadro, mas não é condição necessária para a interpretação de Frutis em Lavínio.

Fruor, fruī, frūctus or fruitus sum) deponent

Fruor, fruī, frūctus ou fruitus sum; deponente = Fruir ou obter prazer?

                                                              > galego froito.

«Fruto» < galaico-português fruito, < latim fruitus / frūctus

= “prazer, rendimento, lucro, produto, renda”)

< Lat. fruor (“desfrutar”), < *bʰruHg- (“fazer uso de, ter prazer de”).

A ideia de que são as coisas que derivam dos verbos e não o inverso e um completo contra senso em ralação a lógica indutiva. Neste caso, ainda menos sentido faz tratando-se de uma verbo depoente que inicialmente seria reflexo e não activo. Sendo assim é a etimologia do «fruto» que temos que indagar não o conceito da fruição da fruta...e depois de todos os outros prazeres da gula e da luxúria que deram origem à abstracção do usufruto que é a “fazer uso de, ter prazer de, gozer”.

A prova, em parte está presente na mixordia etimologia proposta para o latino fruor peloa adeptos do PIE.

Frutesca = deusa dos frutos abundantes.

Frutesca (também grafada como Fructesca ou Fructesea) é uma divindade menor da mitologia romana, reverenciada especificamente como a deusa da colheita abundante de frutas. Frutesca era considerada o numen (espírito ou poder divino) dos pomares. Invocava-se a sua presença especificamente para a apanha de frutas de árvore (como maçãs e peras), não estando associada ao cultivo de cereais ou vegetais.

Embora divida o "reino" das frutas com outra deusa bem mais famosa como Pomona, as duas tinham funções distintas na tradição romana. Enquanto Pomona era a guardiã que cuidava do crescimento e da saúde das árvores frutíferas e dos jardins, Frutesca focava-se estritamente no momento final: o sucesso e a fartura da colheita.

Que necessidade havia de recomendar as crianças à deusa Ops quando nasciam; ao deus Vaticanus no seu choro de nascimento; à deusa Cunina quando estavam no berço; à deusa Rimina quando mamavam; ao deus Statilinus quando estavam de pé; à deusa Adeona quando chegavam; a Abeona quando partiam; à deusa Mens para que tivessem bom ânimo; ao deus Volumnus e à deusa Volumna, para que desejassem coisas boas; aos deuses do casamento, para que fizessem bons casamentos; aos deuses rurais, e principalmente à própria deusa Fructesca, para que recebessem os frutos mais abundantes; a Marte e Belona, para que se saíssem bem na guerra; à deusa Vitória, para que fossem vitoriosas; ao deus Honor, para que fossem honradas; à deusa Pecunia, para que tivessem muita riqueza; ao deus Esculano e ao seu filho Argentinus, para que tivessem moedas de bronze e de prata? -- Livro VI, Capítulo IX da obra A Cidade de Deus (De Civitate Dei) de Santo Agostinho.

Pomona foi uma deusa da abundância e da abundância frutífera na religião e no mito romano antigo. O seu nome vem da palavra latina pomum, "fruta", especificamente fruta do pomar.

O nome Pōmōna é uma derivação do latim pōmus (‘árvore frutífera, fruta’), possivelmente derivado do proto-itálico *po-e/omo (‘retirado, colhido?’), aparentado com o úmbrio Puemune, em última instância derivado do proto-indo-europeu *h₁e/omo (‘o que é (ser) tomado’). Pomona era considerada uma ninfa da floresta. omona não tem um equivalente claro na mitologia grega, embora a deusa da fruta Opora possa ser vista como sua equivalente.

Pomona é literalmente a Senhora dos «pomos» que Deméter era sendo portanto ao pomo que devemos invocar a etimologia.

«Pomo» < lat. pōmus < Úmbr. Puem- < Pume < Phume < *Kime = lei da terra.

Carpo era a deusa dos frutos da terra. Ela foi numerada entre os Horai (Estações). Carpo era adorada em Atenas ao lado das deusas Auxo (Crescimento) e Hegemone (Líder).

Carpo (Frutificando) provavelmente era originalmente apenas um título de Deméter como o deusa dos frutos da terra, assim como Auxo (Crescimento) era um título de Perséfone como deusa do crescimento primaveril, e Hegemona (Líder) era um título de Ártemis ou Hécate como líder das procissões dos Mistérios.

Opora era a antiga deusa grega menor associada aos frutos, à colheita de outono e à vindima.

                                                                >???> «garfo» de enxertia.

Carpo < Kar-po-cra(-tes) < Kar + pho + | Haura < Kaura > Kora|

                                           > *Harpora > *Aupora > Opora.

Lat. fruor < proto-itálico *frūjōr, < PIE *bʰruHg-ye-ti, < *bʰruHg- (“usar, desfrutar”). Segundo De Vaan, o termo seguiu um desenvolvimento do proto-indo-europeu *bʰruHg-ye- > *frūgje- > *frūje- > *frūwe- > frŭe-.

Schrijver sugere que a mudança específica de *frūje- > *frūwe- não é apoiada por qualquer outra evidência, embora a considere foneticamente possível, citando pius (“piedoso”) e fiō (“tornar-se”) como exemplos de desenvolvimentos semelhantes[2]. No entanto, numa publicação posterior, Schrijver apresenta um desenvolvimento de *frūgje- > *frūje- > fru-, citando que *j também se perdeu depois de *u em statuō. A perda de *-j- após *ū teria impedido a mudança sonora regular de *-gy- > -i-, como em aiō. De qualquer modo, semelhante ao proto-germânico *brūkaną (“fazer uso de, consumir”), donde o inglês brook.

 

CUPIDO

E evidente que a «fruição» não tem a derivação pelo latino fruor que o PIE propões mas tem relação directa com o arcaico título de Venus Frutis que por esta altura já seria a mãe de Cupido e neste caso com proximidade com Carpocrates e Carpo.

«Cupido» < Cup(a)-dio = deus dos copos de vinho ≡ Potos.

ó cupiō (“desejar”) + -īdō. < cupiō, cupere, cupīvī ou cupiī, cupītum <

< cūpa , ae, f. cf. κύπτω, I. uma tina, barril, tonel, etc., para armazenar líquidos, especialmente vinho, Varr. ap. Non. p. 83, 24 sq.; Pall. 1, 18, 2; 1, 38, 1; Cic. Pis. 27, 67 (mas segundo Ernesti, uma vinicultora; cf. copa); Caes. B. C: 2, 11; Luc. 4, 420; “também para grãos”, Dig. 19, 2, 31; “e para as cinzas dos mortos”, um nicho, Inscr. Orell. 2697; 4550.

< protoindo-europeu *kewp- (“uma cavidade”), talvez de origem relacionada com o substrato. Cognato do inglês antigo hȳf (inglês moderno hive), do sânscrito कूप (kūpa, “poço, cavidade, cuba”), do grego antigo κύπελλον (kúpellon, “copo, cálice”).

Esta deveria ser a etimologia natural decorrente quer da fonética quer da semântica do nome de Cupido, no entanto esta não é a etimologia oficial.

A etimologia de Cupīdō é apresentada pela linguística indo‑europeia através de duas reconstruções distintas, ambas derivando o nome divino do verbo latino cupiō e ambas reconstruindo raízes PIE hipotéticas para justificar paralelos semânticos como “tremer, ferver, desejar”. A primeira reconstrução afirma que Cupīdō deriva de cupiō, cupĕre, em si de um proto‑itálico kup-i‑, que refletiria kup-ei- (“desejar”), apoiando‑se em formas umbras (cupras) e picenas (kuprí), e em cognatos como o irlandês antigo accobor (“desejo”), o sânscrito prā-kupita- (“tremendo, palpitando”) e o eslavo eclesiástico kypĕti (“ferver, aquecer”). A segunda reconstrução, defendida pelo LIV, afirma que Cupīdō provém de um proto-itálico kupjō, herdado de um i-presente kup-yé-ti, derivado da raiz PIE kwep- (“fumar, ferver, mover-se violentamente”), com paralelo direto no sânscrito kupyati (“tornar-se agitado, borbulhar”). De Vaan prefere um i‑ presente atemático kup-i-, Schrijver tenta explicar a vogal longa de cupīvī através de um grau pleno kup-ey-, ou por analogia com perfeitos da quarta conjugação (audīvī), enquanto Weiss propõe que os perfeitos em ‑īvī se difundiram por verbos de semântica semelhante (arcessō/arcessīvī, petō/petīvī, quaerō/quaesīvī). Ambas as vias recorrem aos mesmos cognatos bálticos (lituano kūpėti, “ferver”) e eslavos (kypěti, “ferver”), tentando construir uma cadeia semântica coerente:

ferver → tremer → agitar-se → desejar.


Figura 11: Fresco da Casa de Cecílio Iucundus (Pompéia): A classificação como “ménade e Cupido” deste mural deriva dum automatismos catalográficos do sec. XIX e da recusa em reconhecer Vénus em iconografia maternal, da leitura indiferenciada dos putti alados e da ausência de atributos explícitos. A composição, porém, é estruturalmente venusina e corresponde ao modelo iconográfico de Vénus com Eros ao colo, que a arqueologia oitocentista evitou por receio de paralelos cristãos com a Madona e o Menino Jesus. A arqueologia oitocentista, incapaz de reconhecer Vénus em modo íntimo e maternal, classificou-a como “ménade”, mas se tivesse seguido a parte fraca de Wissowa teria visto nela a “Vénus Hortelã”, reforçando a leitura doméstica e vegetal. O equívoco nasce da coincidência entre dois reduccionismos: o de Wissowa, que confunde funções laterais com essência divina, e o dos catalogadores, que identificam atributos vegetais como sinais domésticos. Ambos ignoram que Vénus, tanto quanto Afrodite, possui dimensão vegetal, mas mas que ia muito para além de tão pouco. A potência venusiana é astral, erótica, reconciliatória, fecundante, e o domínio vegetal é apenas reflexo secundário dessa força. A iconografia maternal não confirma a horticultura; mas reafirma a amplitude funcional da deusa, que inclui e ultrapassa o jardim.


Figura 12: Fresco no Quarto Estilo Pompeiano representando Marte e Vénus sobre um fundo azul com Cupidos, de Herculano, 50-79 d.C. A relação de Vénus com a vegetação não se compreende sem recuperar o estatuto arcaico de Marte, que antes de ser deus marcial foi divindade pacífica da ruralidade, da fecundidade vegetal e da proteção dos campos. A oposição posterior entre Vénus & Marte é construção tardia, literária e imperial; no fundo arcaico, ambos pertencem ao mesmo regime de forças: divindades que regulam a passagem entre crescimento, maturação e potência. Marte, enquanto deus agrícola, preside ao brotar, ao vigor da seiva, ao impulso inicial da vegetação; Vénus, enquanto princípio de forma e atractividade, preside à floração, ao brilho, à complitude visível da planta. A leitura simplista de Wissowa, que reduz Vénus a deusa hortícola, falha porque ignora esta duplicidade: a vegetação não é domínio exclusivo de Vénus, mas campo partilhado com Marte na sua fase pré‑marcial. A iconografia pompeiana confirma esta fusão: corpos híbridos, erotismo vegetal, figuras liminares, hermafroditas, tudo inscrito num ambiente onde Vénus & Marte não se excluem, mas se sobrepõem como princípios complementares da vida orgânica. A vegetação, longe de ser argumento para diminuir Vénus, é precisamente o ponto onde se revela a sua ligação profunda ao ciclo vital, e onde Marte, ainda não militarizado, funciona como contraparte masculina de uma mesma força germinativa. Marte, antes de ser absorvido pela ideologia marcial romana, pertence ao regime arcaico das divindades que regulam a força germinativa, a vitalidade dos campos e a proteção das searas. O corpus mais antigo — o Carmen Arvale — fixa-o como potência que afasta pragas, assegura o brotar e preserva a integridade da lavoura, sem qualquer traço bélico. Varrão identifica-o como força atuante nos campos, Catão prescreve-lhe sacrifícios para garantir a fertilidade agrícola, Festus conserva a tradição que o vincula aos rebanhos e Plínio associa-o à energia das colheitas. Ovídio, ao justificar o mês de Março, ancora-o na primavera, no impulso inicial da vegetação, na emergência da seiva. Tibulo, ao evocar a vida rural, inscreve Marte na paz dos campos, não na violência das armas. A militarização posterior não apaga este fundo: apenas o reinterpreta. O Marte primitivo é potência vegetal, guardião da ruralidade, princípio de vigor orgânico que antecede a guerra e que, na teologia romana mais antiga, funciona como contraparte masculina da força germinativa que Vénus representa na sua dimensão de forma e atractividade.[6]

O problema estrutural é que estas duas etimologias oficiais, embora divergentes entre si, partilham o mesmo vício metodológico: partem sempre do verbo para explicar o deus, invertendo a ordem ontológica real da criação de sentido nas culturas arcaicas, onde é sempre o deus que dá nome às coisas, nunca o contrário. Ambas ignoram que a raiz cup- tem duas bases latinas possíveis, formalmente idênticas mas semanticamente distintas: cūpa (“cuba, copo, cavidade, recipiente”), de raiz pré‑indo‑europeia kewp- (“cavidade, copo, poço”), com cognatos como κύπελλον, kūpa, hive; e cupiō (“desejar”), cuja raiz PIE é apenas reconstruída, não atestada. A escolha dos linguistas por cupiō como origem de Cupīdō é, portanto, arbitrária, porque quando duas raízes formalmente compatíveis podem explicar um nome divino, a escolha não pode ser fonética — tem de ser antropológica. E antropologicamente, o campo semântico de cūpa é incomparavelmente mais antigo, mais ritual, mais cosmológico, mais fértil do que o campo semântico tardio e gramatical de cupiō.

A raiz kewp- representa o universo da fermentação, do vinho, do transbordar, do fervor, do fruto, do gozo, do excesso, do desejo, do Potos, do Eros, do Carpo, de Venus Frutis — o domínio ritual que antecede qualquer racionalização verbal latina. A fermentação é o processo cosmológico arcaico por excelência: o líquido que ferve, a cuba que borbulha, o copo que se enche, o corpo que se inflama, o desejo que transborda. Assim, Cup(a)-dio — deus das cubas, dos copos, do vinho, da fermentação — é a forma de culto arcaica que explica a totalidade do campo semântico posterior, enquanto Cupīdō é a cristalização latina desse nome divino pré-gramatical.

A escolha dos linguistas por cupiō como origem de Cupīdō é desastrosa porque parte de um preconceito moderno: rebaixar o universo da cuba, do copo, da taberna, do vinho, da fermentação, como se fossem elementos “populares”, “vulgares”, “corpóreos”, quando na realidade constituem o núcleo ritual das sociedades indo-europeias. A “taberna” burguesa é uma projeção anacrónica: entre os hititas, Tabarna era a corte real, o palácio ritual, o centro da soberania. Logo, associar Cup(a)-dio às cubas e aos copos não rebaixa o deus — restitui-lhe a centralidade cosmológica perdida pela moralização filológica moderna.


Figura 13: Pompeia. Casa de Successus. Sala 10, centro da parede norte, supostamente Adónis criança, fresco, século I d.C. No contexto da casa esta pintura é mais seguramente Cupido.

As duas etimologias oficiais são, portanto, compatíveis formalmente, mas não verdadeiras historicamente, porque ignoram a cronologia, a antropologia, a ontologia dos nomes divinos e o papel central da fermentação na cosmologia indo‑europeia. A raiz PIE kup- / kwep- (“ferver, tremer, agitar‑se”) não é uma prova histórica, mas uma hipótese criada para explicar paralelos semânticos que, na verdade, derivam da experiência ritual da fermentação. Assim, a semântica de cupiō só se torna inteligível quando se aceita que o verbo é uma abstração tardia do universo ritual de Cup(a)-dio: todas as bebidas fermentadas participam da semântica de “ferver, borbulhar, inflamar”, e é esse fervor que se torna “desejo”. A morfologia confirma a anterioridade do nome divino: Cupīdō não apresenta derivações verbais regulares (cupitor*, cupitus, etc.), mas insere-se no padrão dos nomes divinos com sufixo ‑dō (Plūtō, Neridō, Orcidō), reforçando que não é um derivado de cupiō, mas uma entidade cultual autónoma. A separação prussiana entre kewp‑ (cavidade) e kup‑ (fervor) é artificial, porque o processo ritual da fermentação une ambos: a cavidade é o lugar onde o líquido ferve, e o fervor é o processo que produz desejo. Assim, a cadeia real é:

Cūpa → fermentação → fervor → desejo → Cup(a)-dio → Cupīdō

→ cupiō, e não o inverso.

 

VENUS FÍSICA


Figura 14: Possível Venus Física Pompeiana. Vénus natural, nua, orgânica, acompanhada de putto, expressão da força criadora (physikē) aplicada ao culto local pompeiano.

Vénus Physica designa a força criativa natural que informa o mundo físico, princípio gerador que Lucrécio invoca como Alma Venus, matriz universal da natureza e potência ordenadora da física epicurista, associada ao patrono Mémio. Em Pompeia, esta dimensão natural de Vénus assume forma local específica: Vénus Physica Pompeiana, deusa tutelar da cidade antes da colonização de Sula, ligada à fecundidade da terra, à vegetação, à beleza corporal e à prosperidade doméstica. A iconografia distingue nitidamente a Vénus oficial — Vénus Pompeiana — sempre vestida, coroada, régia, associada à procteção urbana e ao estatuto político, da Vénus dos jardins, representada nua ou seminu, identificada pelos pompeianos como Vénus Fisica, provavelmente derivada do grego physikē, “relativa à natureza”, expressão da força vital que atravessa corpos, plantas e águas. Esta Vénus natural integra influências romanas, oscas e locais, funcionando como deusa da fecundidade agrícola, da beleza, da sexualidade ritual e da ordem orgânica da cidade. A ela se associa ainda uma forma marítima, Vénus Pescatrice, ligada ao comércio e ao mar, testemunho da multiplicidade funcional do culto pompeiano. O templo de Vénus, erguido no século I a.C., antes da Colonia Veneria Cornelia imposta por Sula, fixa esta Vénus Physica Pompeiana como figura régia da natureza, protetora da cidade, garantia de prosperidade, amor e fecundidade, síntese entre força criativa universal e identidade local.

O equivalente romano de physica é a articulação unitária de Natura, Genetrix e Alma: Natura enquanto princípio imanente de ordem e crescimento, Genetrix enquanto matriz criadora que faz emergir e brotar a forma, e Alma enquanto energia vital que anima e atravessa o mundo físico; três expressões convergentes de uma mesma potência geradora que Roma reconhece em Vénus como força natural universal, matriz produtiva e sopro vivificante da realidade.

A Vénus Física Pompeiana não é tradição italiana autónoma, mas formulação teológica helenística aplicada a um fundo mediterrânico pré‑existente, composto por práticas itálicas, oscas e domésticas. O terreno simbólico — jardins internos, erotismo vegetal, fecundidade agrícola — é universal, mas a definição teológica específica que a identifica como força natural imanente, princípio criador e matriz física do mundo é grega, derivada da physis helenística e das suas leituras epicuristas, estóicas e cosmológicas tardias. Pompeia não cria esta Vénus: importa o vocabulário e o modelo conceptual gregos para nomear uma potência local difusa, transformando uma deusa da fecundidade e da beleza num princípio natural universal.

A estrutura conceptual que permite compreender esta Vénus — Natura, Genetrix, Alma — não nasce do imaginário itálico, mas da gramática teológica grega, que organiza a força vital em categorias cosmológicas precisas. O fundo mediterrânico é pré‑grego, mas a operação que o converte em entidade teológica definida é helenística: o nome (physikē), a estrutura (força imanente), a função cosmológica (princípio criador e animador) e a leitura filosófica (Lucrécio, Epicuro, estóicos) pertencem ao horizonte grego.

Assim, Vénus Física Pompeiana é uma síntese helenística sobre matriz itálica: nome grego, função mediterrânica, forma cultual pompeiana; não tradição indígena pura, mas conceito teológico grego aplicado a uma potência local pré-existente.


Figura 15: Vénus Pompeiana (restaurado com ajuda de IA.), Fresco da Teberna dos Quatro Deuses, Via dell'Abbondanza, Pompeia (Lista do Património Mundial da UNESCO). Este mural de Pompeia provém da fachada da Oficina de Verecundo (Via dell'Abbondanza) e retrata Vénus Pompeiana acompanhada por Erotes, ostentando coroa e cetro como protetora da cidade. A composição original integrava os bustos de Apolo, Júpiter, Mercúrio e Diana. No contexto de um estabelecimento comercial de tecelagem e tinturaria, estas figuras operavam como fiadoras de prosperidade financeira — especialmente Mercúrio, patrono do lucro — e protecção cívica num ponto de elevadíssimo tráfego pedonal. O ditador Lúcio Cornélio Sula refundou a cidade como Colonia Cornelia Veneria Pompeianorum. Devoto de Venus Victrix, Sula impôs a deusa como padroeira oficial para consolidar o domínio dos seus veteranos sobre a população local. Sob o regime de Augusto, o culto fundiu-se com a propaganda da dinastia Júlio-Claudiana, que reclamava descendência directa de Vénus através de Eneias. A exibição pública da deusa com insígnias monárquicas funcionava como um atestado de conformidade política e patriotismo por parte do comerciante perante o Império Romano.

Lat. Fisica < Physike < *Kikika lit. “filha de Ki” > Hit. Kaushka ó *Ki-at.

Venus Física seria teologicamente a equivalente de Afrodite Pandemos. Em conclusão: as deusas do Amor descendentes de Inana / Ishtar são irmãs do segundo Eros, filho de Afrodite, porque filhas da 2ª geração da Terra Mãe.

 

Ver FUSIS, a deusa dos fusos...horários (****)

 


Figura 16: Eros a ser levado por Peito a Vénus, enquanto Anteros se ri do seu «castigo» por ter escolhido o alvo errado; fresco pompeiano, cerca de 25 a.C. Restauro por IA.

Peito (em grego clássico: Πειθώ; romaniz.: Peithó, na mitologia grega, era a deusa da sedução e da persuasão. Era seguidora de Afrodite, e em algumas versões era sua filha com um deus qualquer. Casou com o mensageiro dos deuses, Hermes.

A figura de Venus, tal como emerge da religião itálica pré-romana, não pertence ao sistema narrativo helénico, mas a um estrato funcional mais antigo, anterior à mitologia, anterior à antropomorfização e anterior à própria ideia de “deusa” como personagem. Venus é uma potência latina arcaica, uma força eficaz, uma virtus operativa que faz brotar, unir, prosperar, fecundar. Não é Afrodite, nem pode ser porque este nome é tardio, orientalizado, importada para a Grécia apenas no século IX-VIII a.C., já carregada de narrativas sírio-fenícias, transformada em figura literária e acompanhada de parédros como Peito, que no micénico era potência autónoma e funcional, mas que ao entrar Afrodite é rebaixada a atendente. A ausência total de Afrodite nos textos micénicos (Linear B) é decisiva: não é deusa indo-europeia primitiva, não pertence ao panteão pré-helénico, não é figura da religião micénica. Peito, pelo contrário, aparece no micénico como potência de união, adesão, persuasão ritual — exactamente o tipo de força que Afrodite mais tarde absorve. Isto prova que Afrodite não substitui uma função indo‑europeia antiga: ela ocupa um espaço vazio criado pela helenização tardia. Venus, ao contrário, preserva a função primitiva que Peito representava antes de ser absorvida.

A genealogia de Eneias confirma esta dissociação. Eneias é troiano, e Troia não é grega: é anatólio‑lúvia, parte do continuum religioso que liga o mundo hitita ao mundo urartiano, ao mundo sírio-mesopotâmico e ao mundo indo-iraniano. O universo religioso de Troia não conhece Afrodite; conhece Shaushka/Ištar, Kubaba, Arubani, Hepat — potências de luz, água, fecundidade, erotismo ritual, prosperidade, montanha, soberania. É neste universo que Eneias nasce, e é neste universo que a sua mãe divina deve ser procurada. A função que Afrodite desempenha na Grécia é, no mundo anatólio‑lúvio, desempenhada por Shaushka/Ištar. E no mundo indo‑ariano, essa mesma função aparece fossilizada no hino védico RV 10.123, na figura de Vena: luz envolta em nuvem, união do Sol e das Águas, movimento cósmico, onda primordial lançada do Oceano. Vena védica é o fóssil indo-europeu da função que Shaushka/Ištar desempenha no mundo anatólio e que Venus preserva no mundo latino. Vena e Venus são o par primordial masculino/feminino de um sistema pré‑mitológico: forças complementares, não personagens. Tal como Caco & Caca preservam um binómio funcional pré-urbano, Vena & Venus preservam um binómio cosmogónico indo‑europeu.

A localização do núcleo indo-europeu reforça esta continuidade. A teoria moderna (Gamkrelidze & Ivanov) situa o berço do PIE no corredor anatólio‑arménio — Lago Van, Lago Urmia, planalto arménio — e não na estepe póntica. O anatólio (hitita, luvita) é o ramo mais antigo do indo-europeu; logo, a origem deve estar na região onde esse ramo floresce. Os medos e partas descendem culturalmente desse núcleo; o indo-iraniano deriva dele; o indo-ariano deriva do indo-iraniano. O Lago Van, com os cultos de Haldi, Teisheba, Shivini, Arubani e Shaushka, é um dos centros sagrados mais antigos da Anatólia oriental, com aura religiosa real, atestada arqueologicamente. A morfologia anatólio-lúvia permite epítetos femininos como Van-uša (“Senhora de Van”), plausível para uma Ištar regional. Este é o ambiente religioso que molda Troia. Eneias pertence a este mundo. Venus corresponde funcionalmente a este mundo. Afrodite não.

A figura de Venus pertence ao estrato funcional pré-narrativo da religião itálica, anterior à helenização e independente do sistema mitológico grego. Trata-se de uma potência eficaz, ligada à fecundidade, à prosperidade agrícola e à transformação do desfavor em favor. A sua função não deriva de Afrodite, que é uma deusa tardia, orientalizada e ausente do panteão micénico. Afrodite só entra na Grécia no período pós-micénico, já como figura literária e acompanhada de personificações como Peitho, que no micénico era uma potência autónoma e funcional, posteriormente absorvida e subordinada à nova deusa helénica.

O universo religioso de Eneias é anatólio-lúvio, não helénico. Troia pertence ao continuum cultural que liga o mundo hitita, neo-hitita e urartiano ao mundo sírio-mesopotâmico. Nesse sistema, a função fecundante, luminosa e propiciatória é desempenhada por potências como Shaushka/Ištar, Kubaba ou Arubani, e não por Afrodite. A genealogia latina que faz de Venus mãe de Eneias é coerente com este estrato anatólio-oriental, enquanto a maternidade de Afrodite é uma construção helénica tardia sem base de culto primitiva.

O núcleo indo-europeu, segundo a hipótese anatólio-arménia, situa-se no corredor Lago Van-Urmia-planalto arménio. O ramo anatólio (hitita, luvita) é o mais antigo do indo-europeu, o que implica que as funções religiosas desse espaço são mais próximas da matriz original. O Lago Van constitui um centro sacral antiquíssimo, com cultos de Haldi, Teisheba, Shivini e potências femininas ctónicas como Lelwanis/Lilwani/Ereškigal, “Sol da Terra”, apaziguada por sacrifícios de ovelha para remover maus presságios. Este padrão de apaziguamento ctónico reaparece na Vinalia romana, onde o sacrifício de uma anha (ovelha) é oferecido a Venus, preservando um mecanismo ritual de neutralização do desfavor que não pertence ao sistema helénico de Afrodite.

O hino védico RV 10.123, dedicado a Vena, constitui um fóssil indo‑europeu da função que Venus preserva: união de luz e água, movimento cosmogónico, fecundidade primordial. Vena e Venus representam as duas faces de um binómio funcional pré-mitológico, equivalente aos pares primordiais que estruturam as religiões arcaicas. A continuidade funcional entre Vena, Shaushka/Ištar, Lelwanis e Venus demonstra que Venus pertence ao estrato profundo da religião indo-europeia oriental, enquanto Afrodite é uma adição tardia ao sistema grego.

Assim, Venus não pode ser absorvida por Afrodite, porque preserva uma função mais antiga, mais ampla e mais coerente com a origem anatólio-lúvia de Eneias. A presença do sacrifício de ovelha na vinalia, o papel de Peitho no micénico, a ausência de Afrodite no Linear B, a função de Lelwanis como potência ctónica e a estrutura cosmogónica de Vena convergem para demonstrar que Venus é a sobrevivência latina de um princípio religioso indo‑europeu oriental que atravessou milénios e sistemas culturais distintos.

 

VESUNA

«Vesunna tutelar e augusta» — conhecida por Tutela Augusta Vesunna devido a uma inscrição em latim — tem um nome que causa frequentemente confusão com a deusa Vénus[7]. Na época romana, por volta do século II, um conceituado cidadão local galo-romano chamado Soter Secundus, que prestava culto a esta deusa celta, considerava Vesunna não só «divina» e «tutelar», mas também «tutelar» e «augusta».

Vesunna, a protetora da cidade que tem o seu nome (hoje um bairro a sul de Périgueux), era venerada pelos petrocórios que habitavam a região através de procissões, ritos e sacrifícios.

Entre os petrocórios, a deusa Vesunna estava associada ao deus solar Grannos. Esta deusa celta não deve ser confundida com a antiga divindade homónima ítalo-etrusca, Vesuna[???].

A cidade de Vesunna recebeu este nome em homenagem à deusa nativa e padroeira dos petrocórios. A cidade situava-se onde hoje é o bairro sul de Périgueux.  Os petrocórios prestavam-lhe culto no templo galo-romano de Vesunna, construído pelos habitantes abastados da cidade no século II. O único vestígio do templo é a torre de Vésone, situada na *cella* (espaço interior que constitui o núcleo principal dos templos gregos e romanos); neste local, erguia-se também uma estátua da deusa em sua honra.


Figura 17: Estatueta de bronze de Vesunna com elementos de sincretismo: sistro sobre a cabeça da deusa Ísis.

Segundo Suzanne Boireau-Tartarat, Vesunna era "uma divindade aquática que as pessoas vinham honrar em procissão, levando talvez oferendas até à margem do rio". Era também, "possivelmente, uma deusa da fertilidade"; por esta razão, existia certamente uma ligação entre o rio e a representação da deusa, visando renovar a sua força reprodutora. O culto da deusa era mais notável durante as festas locais, sobretudo no aniversário da fundação da cidade. Toda a *civitas* venerava esta deusa, especialmente ao realizar ritos e sacrifícios de carneiros, vacas e até mesmo cavalos, dado que os arqueólogos encontraram ossos no local onde se situava o templo.

Na gruta do Castelo de Barrière (construído sobre o recinto galo-romano erguido no final do século III), foram encontradas representações de grous, cegonhas e aves pernaltas, que Édouard Galy considerou símbolos da deusa Vesunna.

Vesunna é representada como uma "mãe protectora da cidade" através de estátuas acéfalas de calcário, "vestida e sentada. Segura uma cornucópia com a mão esquerda e, com a direita, um cesto de fruta". Pequenas estatuetas de terracota retratavam-na "sentada, a amamentar um ou dois bebés".

O facto de Vesuna ser um anagrama perfeito de Venus  não é apenas coincidência: é sobrevivência paralela. Vesuna é a forma continental, agrária, tutelar, soberana. Vénus é a forma romana, liminar, regularizada, erotizada. Ambas derivam do mesmo campo VES / VEN / VENS, que é potência vital, vigilância, altura, fecundidade territorial — o mesmo campo que dá Viso, Vesuvius, Vesulus, Vesci, Vesuna itálica, Vesunna gaulesa.

A romanização fez o que sempre faz: deslocou o eixo semântico para a sexualidade, amputando a soberania territorial e a vigilância que o nome originalmente continha. Vesuna preserva o valor arcaico; Vénus preserva apenas a superfície latina.

Assim, o anagrama perfeito dos dois nomes destas deusas não é curiosidade porque é prova estrutural de que Vesuna e Vénus pertencem ao mesmo sistema teonímico, divergido por função, não por origem.

Vesuna/Vesunna é uma potência feminina de soberania territorial, não uma “fonte divinizada”. A profusão moderna de etimologias — vis → ves → túmulo/tumulto + ona = fonte — é ruído filológico sem campo cultual. A raiz VES / VIS conserva o valor arcaico de potência vital, vigilância, altura, tutela comunitária, preservado nos topónimos portugueses como Viso, que não é hidrologia mas atalaya militar, ponto de vigia, soberania do território. O sufixo ‑ONA não é “fonte” mas excelcidade, senhoria, potência feminina, como em Matrona, Sirona, Icovellauna. A leitura hidrológica é uma projecção tardia baseada em dois casos locais, não na morfologia.

O culto petrocorio mostra Vesunna como potência tutelar e augusta, protetora da cidade, senhora da civitas, recebendo procissões, ritos e sacrifícios comunitários. A iconografia confirma a função: cornucópia, cesta de frutos, postura sentada, maternidade protectora, aves liminares (grous, cegonhas) como sinais de vigilância e altura. Nada disto é hidrológico: é soberania, tutela, fecundidade territorial.

O nome Vesuna/Vesunna/Vesona/Ouesouna pertence ao mesmo campo mediterrânico que estrutura HER / KER / VES / VIS: potências femininas de altura, vigilância, tutela, soberania. A proximidade formal com Vesuna itálica não é coincidência: é continuidade pan-mediterrânica. A separação moderna é mos moris académico, não dado histórico.

Vesuna é uma deusa fluvial itálica (úmbria), mencionada nas Tábuas de Iguvium (feitas de bronze) como uma divindade adorada num bosque sagrado. O seu consorte ou irmão parece ter sido Puemonos que era seguramente o parédro de Pomona a deusa romana que verdadeiramente tinha a função frutífera que se pretende de Venus Frutis mas que afinal confirmam a equivalência de Venusa com Vénus.

Assim, Vesuna é potência soberana da civitas, senhora da altura, da vigilância, da fecundidade territorial, paralela às formas itálicas de tutela feminina (Herentia, Vesuna, Sera, Herta). A leitura “fonte” é erro metodológico; a leitura “atalaia” é a chave. Vesuna é a Senhora do Viso da Gália e do Vesúvio itálico.

A relação Vesuna/Vénus não é jogo de letras: é isomorfia cultual mascarada pela compartimentação moderna. O anagrama perfeito indica que ambas pertencem ao mesmo campo morfológico VES / VEN / VENS / VESU / VESUN, que é mediterrânico, pré-romano, pré-celta, pré-itálico. A inversão fonética não altera o núcleo: VESUNA e VÉNUS são duas faces do mesmo arquétipo de potência feminina soberana, uma continental, outra romanizada.

A filologia moderna, ao separar Vesuna celta de Vesuna itálica, e ambas de Vénus, comete o erro habitual: confundir fronteiras políticas com fronteiras teonímicas. O nome Vesuna contém o mesmo núcleo que Vénus, apenas deslocado: Vesna < VE-SU-NA < *VE-NA-SU > *VE-NU-SA > Venus a mesma sequência consonântica, a mesma estrutura vocálica, a mesma simetria morfológica.

A precedência fonética de Vénus é estrutural: o núcleo VEN- / BEN- domina o repertório itálico e adriático (Venus, Venia, Veneti, Venetia / Bene, Bendis, Bandua), enquanto VES- representa apenas a variante continental do mesmo campo teonímico. A forma arcaica *VENUSA é a mais plausível no horizonte italiota, sobretudo na área dos Veneti, onde o morfema ‑nusa / ‑nsa designa potência feminina de soberania. A cadeia fonética é regular: VE-NU-SA → VE-SU-NA → VE-SUN-A → VESUNA → VES-NA, com metátese, síncope e vocalização típicas das línguas itálicas e célticas. O elemento –SU- não é sufixo autónomo, mas deslocação de -NUSA, que por sua vez é deslocação de VENUSA. Assim, Vesuna é a forma continental de Venusa, enquanto Vénus é a forma latina regularizada do mesmo nome. A divergência é funcional, não originária: Vesuna preserva a soberania territorial e a altura vigilante; Vénus preserva apenas a superfície erotizada da romanização. O nome é o mesmo; a função é que se deslocou.

Derivada de Vesuna e Vesna que esclarece assim as funções míticas arcaicas tanto de Vesuna como de Vénus.

Vesna é uma personagem mitológica associada com a juventude e primavera na mitologia eslava, particularmente na Croácia, Sérvia, Macedônia do Norte e Eslovénia. Junto com de seu parceiro Vesnik, ela era associada com rituais conduzidos em áreas rurais durante a primavera.

A palavra "vesna" é ainda a forma poética para referir-se a primavera nas línguas eslovena, tcheca e eslovaca. Em russo, polonês, ucraniano e bielarusso é a palavra literal da primavera. O mês de Fevereiro é alguma vezes nomeado vesnar na língua eslovena. Em sérvio, a palavra vesnik é usada para denotar alguém mensageiro da primavera.

Vesna é a sobrevivência eslava do mesmo arquétipo que estrutura Vesuna/Venusa/Vénus: potência feminina da primavera, juventude, renovação vital, altura soberana. O nome preserva o núcleo VES-, não hidrológico, não funerário, não tumultuário, mas numinoso, ligado à força vital da estação e ao retorno da fecundidade. A página confirma que Vesna é literalmente “primavera” nas línguas eslavas, tanto poeticamente como no uso literal , e que o mês de Fevereiro é chamado vesnar em esloveno — prova directa de que VES- é marcador de estação, de ciclo, de renovação.

A tradição eslava descreve Vesnas como mulheres divinas que habitam palácios no topo de montanhas, discutindo o destino das plantações e dos humanos . Isto é exactamente o campo de culto de Vesuna: altura, vigilância, tutela comunitária, soberania territorial. A montanha eslava das Vesnas é o mesmo eixo simbólico que o Viso português, o Vesúvio itálico, o Vesulus alpino. A função é contínua: a Senhora da Altura que determina o destino da terra.

O parceiro Vesnik — “mensageiro da primavera” — confirma o sistema: Vesna é a potência; Vésnico é o liminar masculino, como Hermes para Hera, como Grannos para Vesun(i)na, como Marte para Venus...como Mário para Maria e ubi tu Gaius, Gaia. A estrutura repete-se em três margens do Mediterrâneo e prolonga-se até ao mundo eslavo: potência feminina soberana + mensageiro liminar masculino.

A frase que escreveste é estruturalmente correta: Vesna não é folclore tardio; é a sobrevivência oriental do mesmo arquétipo primordial que estrutura Vesuna, Venusa e Vénus. O que Roma erotizou até à obscenidade e o que a filologia moderna dissolveu no Letes — confundindo “fonte”, “túmulo”, “tumulto” e outras ruínas semânticas — Vesna preserva intacto: a primavera soberana, a juventude vital, a altura que vigia e renova.

Vesna é Vesuna deslocada para o leste. Vesna é Venusa sem romanização. Vesna é Vénus antes da sexualizaçao helenista.

É a mesma figura: a Senhora da Primavera e da Altura, sobrevivente em três sistemas linguísticos e três geografias.

 

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Do védico Vena a V. Genitrix (***)



[1] A passagem da sexualidade animal — episódica, regulada pelo estro, limitada ao ciclo fértil — para a sexualidade humana contínua produziu uma assimetria estrutural: o homem tornou‑se sexualmente disponível em permanência; a mulher, não. A espécie, ao abandonar o regime biológico do estro, perdeu o mecanismo natural de regulação do desejo e substituiu‑o por uma arquitetura ritual que tenta domesticar a disponibilidade masculina e proteger a vulnerabilidade feminina. É dessa fricção que nascem os tabus sexuais mais antigos: a união exige purificação, o coito exige legitimação, o ato sexual perturba a ordem e precisa de ser reinscrito no cosmos.

Hera purifica‑se depois do hierogamos com Zeus porque a união divina, mesmo legitimada, produz desequilíbrio ontológico; Tito Tácio institui ritos de purificação conjugal porque o matrimónio humano, ao abandonar o estro, exige um mecanismo simbólico que substitua a regulação biológica perdida; Furrina e Cloacina purificam águas e ares porque o sexo legítimo, para ser reconhecido pela comunidade, precisa de atravessar um rito que o torne compatível com a ordem social. A água profunda — Abzu, Cloaca, fonte de Hera — funciona como mediadora entre o ato e a sua reintegração.

O tabu não é moral: é biológico convertido em teologia. A sexualidade contínua masculina, ao colidir com a disponibilidade limitada feminina, produz um campo de tensão que as sociedades arcaicas resolvem com ritos de purificação, interditos, hierogamias reguladas, deusas que “limpam” o ato, e narrativas que tentam restaurar o equilíbrio que o coito rompe. A humanidade, ao abandonar o estro, perdeu o mecanismo natural de contenção e teve de inventar a religião para o substituir.

Assim, o que liga Hera, Furrina, Cloacina, Tito Tácio, os ritos sabinos, os tabus mediterrânicos e a própria arquitetura do matrimónio romano é sempre o mesmo núcleo: a sexualidade humana é contínua, mas a mulher não é; e tudo o que a cultura constrói à volta do sexo é tentativa de resolver essa assimetria primordial.

[2] Tradução livre do autor.

[3] Pol é uma interjeição plautina clássica (um juramento brando por Pólux: "por Pólux!", equivalente ao nosso "por Deus!" ou "com efeito").

[5] A forma virtual Froithe é foneticamente plausível como etapa intermédia entre Ἀφροδίτη e Frutis e corresponde ao mesmo bloco fonético-funcional que se encontra no germânico Freude. A coincidência não é apenas semântica, mas também fonética, pois ambas as formas pertencem ao arquétipo europeu antigo que expressa fruição, prazer e adesão. Neste plano, Froithe e Freude representam o mesmo padrão funcional, reforçando a coerência da transição de culto que conduz de Ἀφροδίτη a Frutis.

[6] O constrangedor não é Wissowa ter visto pouco: é o facto de o pouco que viu ter sido canonizado como se fosse visão total. A academia mediana não segue Wissowa por força argumentativa, mas por inércia: ele fornece um sistema simples, limpo, administrável, onde cada deus tem uma função única e tardia, e isso agrada a quem precisa de ordem conceptual sem lidar com a complexidade arcaica. O saber comum absorve esse esquema porque é fácil de transmitir, fácil de ensinar, fácil de repetir. A cegueira metodológica transforma‑se em doutrina porque o modelo é confortável, não porque seja verdadeiro. Wissowa não tem crédito científico enquanto intérprete; tem apenas utilidade como catálogo. O problema é que o catálogo foi tomado por teoria, e a teoria por verdade. A hegemonia não nasce da qualidade, nasce da comodidade. A leitura bismarckiana explica a cegueira de Wissowa porque o seu modelo conceptual não é neutro: é projecção da ordem estatal prussiana sobre o panteão romano. A religião é tratada como administração, os deuses como departamentos, as funções como competências fixas. O sistema exige clareza, hierarquia, especialização, estabilidade — exactamente os valores da ideologia política que moldou a academia alemã do fim do século XIX. Nesse enquadramento, um Marte agrícola, híbrido, germinativo, pré‑marcial, não é apenas invisível: é impossível. A estrutura mental não admite ambiguidade, não admite estratos arcaicos, não admite sobreposições. A cegueira não é falha de erudição, é consequência lógica do paradigma. Wissowa vê apenas o que confirma o esquema e elimina o que o perturba. O constrangimento não está na obra, mas no facto de a academia mediana ter canonizado esse esquema como se fosse descrição da realidade antiga, quando é apenas reflexo de uma ideologia estatal projectada retroactivamente sobre Roma.