segunda-feira, 1 de maio de 2023

 

SOLEDADES

 

OU

 

HELIOMAQUIA   BARROCA

 

 

&

 

 

Terminado em 1993

 

 

 

Artur Jota Efe

 

 

 

PRÓLOGO

 

 

 

Em vez de ser

apenas do pavão a pena de alma,

e, das armas dos ladrões que vão de cana

atrás da dialéctica, cantar o varapau,

co´a moleta das retóricas lides por caneta,

da mais que conhecida, repetida e ignorada

antropo-metamorfose da cigarra girondina

em canalha guerrilheira, (sempre em farra até às tantas

nas sinistras gargantas das formigas trabalhistas),

eu hei-de lamentar-me do insulto,

luxo-lixo de pocilgas como pérolas de culto,

à beira do ribeiro de águas chilras

que passa como traça em toda a parte onde não for,

plangendo as cordas das guitarras penduradas nos salgueiros

pela dor de não ser nem vil macaco, nem poeta

e sofrer, qual mau gosto de pateta sensitivo,

do vício do desgosto com bom gosto sem estilo!

 

Cantarei, até que apanhe um cancro na lembrança,

a ilusão dos esquerdinos cavalheiros,

ora andantes à direita sobre cavalos de pau

feitos pedintes de vanguarda, com falinhas pouco mansas

que ressoam como palavras de mau sentido;

já pedantes sem herança, já sem garras varonis;

pendentes como dantes entre bolas de sabão

a encher a paz da albarda quixotesca

com dor-d´alma-de-palha de paixão livresca;

ora amantes dependentes da loucura mordaz!

 

Mas, já que à míngua de água benta vou morrendo,

à janela duma estética de páginas amarelas,

hei-de levar, em pose atlética afectada,

a cruz de guerra ao calvário literário

nos conselhos mundiais da paz na terra

aos homens e às mulheres de boa e de má vontade!

 

A verdade do torneio da vaidade que se lixe

já que o que é fixe é a pobre da desgraça

de ser engraçado no viver de borla!

Se o belo é de se ver,

mais feio é não ganhar uma taça qualquer

que a desgraça da nobreza d´alma ganha traça

quando é vã e malguardada,

não sendo amada em todo e em qualquer lugar!

 

O rei da Dinamarca, que de estilo é já figura, cheira mal,

perdeu reino e frescura,

e, do nascer ao pôr do sol em decadência entra

porque teve a indecência de andar nu na via pública,

ser feio, mal-lavado e... todo classe média rural e tal e qual

a sova encícl(ica n)o( cu )pede(-)a!

 

Ás mais antigas musas duma rua escura,

com o cândido bolor da mais antiga profissão

do desamar a prazo e a granel,

a técnica do engate insigne e dura,

com meus votos em pé de fim de página

em flor-de-folha-de-papel eu lhes imploro

e a infusa sapiência, nua, crua e sua

e, da arte do dislate, a lata que se baste

para difamar em verso a parte oculta do universo

que anda perdido em paixões pla(s)t(ico-radiof)ónicas

neste lado da onda à média luz

da lua da Noite Nova!

 

E Vós, Oh poetas da república desgraça

Desta praça dos eternos estudantes da incerteza,

porque tendes nos olhos a tristeza

dos sonhos dos adidos militares?

Se as belas flores à beira deste jardim desencantado

se foram mares adentro refresescar nas caravelas

as espécies de pétalas de amor em extinção

repescam-se no que resta das descobertas da memória!

Delas só resta a história de lendárias presunções,

água lustral de lágrimas saudosas

que quotidianamente e quanta quer

cada criança grande toma sempre a horas certas

para, neste país de insónia, adormecer

e depois acordar em sobressalto

à porta do paraíso de fiscal parcimónia

por que o imposto é roubo que temos que pagar numa cadeia!

 

Poetas visionários,

porque é que dizeis mal do próprio riso

quais legionários reformados pela santa liberdade

que esta Nação de Barqueiros, vagabundos generosos,

andou a vendilhar e a entornar de balde pelo mundo?

 

Oh, poetas quimicamente alucinados,

inculta geração de ínclitos nautas,

mitológicos filhos duma pauta sinalética

das notas falsas caídas de bolsos rotos

sobre as malhas do tapete descosido das benesses ideológicas

tecidas pelo império perdido num alcácer-que-há-de-vir !

 

Poetas da minha terra imaginária,

porque andais de boca aberta quais pardais á toa

na gaiola que restou do terramoto de Lisboa

quando a glória do loureiro, arrancado à taveirada

deste jardim transplantado em areais de sal,

foi, ad etenum e sem proveito próprio,

temperar um caldinho olímpico de letras

com que o atlético e poético Zarolho ganhou folgo

quando deu a volta à Índia em natação

na tentativa vã de fuga ao seu destino ruinoso

para fama dos octetos portugueses

que lavam a remela dos livreiros!

Os mestre-escola navegam neles e metem água

na tristonha ilusão duma grandeza genuína

perdida, como o foi o paraíso, sem razão!

 

Poetas desta terra dos sonetos perfumados,

porque arranhais as fauces contra as grades

à janela desta rua Áurea

da memória espúria do destino?

 

Fazer versos "a la façon" DADA

é coisa de imigrança e já vista por aqui

e se o souberes ainda diz-mo coração,

porque é que falam mal de ti?

Ao nascer tu já eras uma ova

ou a galinha do povo que, se dada a ê(/i)smo

mal se lhe vê o peso à columbina

logo fica depena(da) sem que entenda patavina?

Coisa fina e In(a) é pé...da, de, di, do, du...de cu de cabra

e pé... dgj...iz dada...de pé...dantismo gago...

de que Dante não se gaba!

 

O pior é que esta moda que se tenta agora

nestes anos 70 nem é ser dádá

de orgiástico furor, dos de trazer por casa,

nem é ser gágá com atraso de cem anos

mas pretexto de quem, não sabendo andar na rua,

nem na lua, nem nos algarves aprende a (espi)caçar inglês!

 

Neste tempo pós-modernos em que a traça

mais do que correr à boa vida

para a grande Lisboa...voa...voa, joaninha,

quem vai ainda inventar musas?

Nem a Terra canta o Mar á luz do cheiro

a velho candeeiro de petróleo

nem nos caiem do ar novos poemas de gazóleo!

 

Com coisas da Lua Nova já não se abusa

porque os USA têm mais em que pensar

e os poetas, que o não são sem o saberem

têm outras siglas, pocilgas e lugares,

outros temas que não o fazer poemas

como quem defeca a fé à maneira dádá:

no meio da rua e de pernas para o ar

com saudades da lua-cheia!

 

Ai, épicos poetas de tristonha face

porque cegos ateimais na tão bisonho procura

da alma que se perdeu para sempre

nas ruínas da lembrança

dum império decretado e nunca visto a olho nu

no olho do cu deste país do peixe congelado!

 

Quando a nau catrineta da saudade,

numa manhã de tédio e frio, se encalhou no Tejo adentro,

com o sebastianismo embalsamado a bordo,

a névoa do ocultismo nascional-fadista

espalhou-se como alpista pela casa portuguesa

aonde fica bem o vinho da pobreza sempre à mesa!

Aqui-del-rei, que andam à caça duma crítica poética

aos fantasmas dos polícias da Secreta!

Aprendei antes a gritar:

Gggg...olo! na própria baliza

contra a equipa da casa da Galiza

e abaixo a liberdade de perder o campeonato

antes da taça de Espanha!

 

Oh, escravidão da liberta liberdade!

Quem a tiver e sua que se guarde de sair à rua!

Assim tereis segura e de bandeja numa mão

a salvação da boa vida que se inveja

à sombra dum lugar comum numa poltrona

no Palácio da Reforma Agrária Antecipada

de S.Bento à porta!

 

A vida dos poetas vai difícil

nestes anos de setenta em que já nada é tentação!

Quanto mais se tenta um poema

para a co(r)n(e)a da prima menos rima ela tem!

Não há tema pós-moderno de esquizoide ostentação

que se eleve e se segure com ternura ao cu do céu

e, sem estilo, a má fama, não perdura, de ninguém!

Quem é que não sabe vender uma ideia feita em série

mesmo não tendo veia onde injectar um poema?!

O que faz falta é animar a malta de asas brancas

com as novíssimas técnicas da promoção de vendas:

"Sr. Suavíssimo poeta!...Aprenda a deitar fora

esses punhos de renda e estas penas de pavão

que agora já ninguém Usa!

Corra ao médico da Caixa e deixe por curar

o atávico complexo que lhe encaixa

e, de Ícaro, transforme-se num pícaro

que num golpe em voo de asa se desfeite em saco-plástico

à venda nos melhores supermercados

dos subúrbios da Babilónia

ou na Feira aonde ladram as vaidades!

É o último modelo ao serviço

da sua incontrolável fantasia!

Tem x pés em poder de elevação na hierarquia social

garantia na bolsa e & etc e tal...

Compre já, venda a seguir a alma num leilão

e o seu sucesso inevitável pagará depois!

Além disso está previsto num Decreto-Lei

reservar aos astronautas de carreira o Céu!"

 

Ai, o que seria dos tão delicados pulmões

dos poetas desta lírica terra

quando a última andorinha esperneasse de medo

e viesse morrer envenenada nas venta(na)s das cidades?

Que seria das belas palavras sublunares

quando a falta de fumo das cómodas cozinhas

dos modernos apartamentos de vidro e de metal

for poluir a intuição poética e electrónica,

milagrosamente preservada duma morte iminente

anunciada e adiada permanentemente

desde a primeira locomotiva a carvão?!

 

Afinal estes tipos sensitivos de percevejos

são sensíveis à beleza dos zumbidos

e até sabem o que sentem com os beijos!

Só que é difícil perceber a tempo estes poetas!

 

E, se só agora me confesso cínico poeta

de incrédula dureza de verdade

é porque andei no escuro entendimento, qual Diógenes ingénuo

alumiando o vesgo olhar

dos homídeos que procuro no escuro e claro dia

para neles me mirar sem ter vergonha de me ver!

Mas, cego para mim e para todo o Ser

vou deixar obscuro e por esclarecer este mistério

de nunca desistir de procurar o meu sabor

nem de me meter p´los olhos d´álma

dentro do meu tonel de amargo vinho!

 

Ninguém mais logrará vendar-me os olhos da razão

com a boa vontade dos que não tendo vis instintos

fingem amar a paz com ódios nas ideias escondidas

como ervas daninhas na minha complacência

de cândido inocente revoltado!

 

Nas esplanadas dos cafés das ruas da cidade

tantos pregam confusos parafusos de certezas,

compradas em vulgatas de terceira geração

sem que a vera verdade seja tida nem achada,

que já ninguém se sente em paz, e com razão!

 

Sem encanto na utopia de ir mais longe

do que a evidência imediata inevitável

de tropeçar nas armadilhas da verdade

dos deuses fabricados à mão

á imagem e semelhança da humana mediania

vou deixa-los vencer e tombar como as palavras

no fundo do esquecimento!

 

Fico quieto, surdo e mudo e sem sequer me defender!

Escondo a minha luz dentro dum poço,

vendo os olhos para ser clarividente

e mais ninguém terá a sorte de se armar em herói

em frente da minha morte!

 

Eu, feito um cínico pateta e lúcido poeta

bem me lembro de já ter sido agora

um outro e mesmo o próprio Diógenes

em ir apodrecendo

entre as tábuas do tonel do desencanto

bebendo o azedume das vindimas da ira

que me faz delirar embriagado com certezas

de me saber o escravo que ninguém há-de comprar...

nem deixar para revenda!

De cabeça quente e a barriga de vento

a voar-me no céu como balão de pensamento,

com as costas de chumbo a poisar-me no chão

eu canto de contente cada instante

de alegria e tristeza, como toda a gente,

diante das leis da gravidade universal!

 

Fabricante de bolas de sabão a coberto da inocência

vendo a minha consciência ao asno que ma comeu

num cardo aonde eu ardo de fervor,

a troco de foguetes de ilusões de amor por gaz mortal!

 

Já não conto com o horror da pompa protocolar

e faço por não ter mérito a féretro nacional

pois não mereço ser cantado em epopeia

na cadeia conceptual com que os jornais

amortalham e pervertem lentamente a humanidade!

 

Aos poucos perderia a gravidade dos bocejos

a troco de cabrestos de bom-senso

e albardas floreados de anormal normalidade!

 

Ninguém faz versos a animais felizes!

 

Ah, que eu tenho nos miolos tantas teias de aranha

e na garganta tantas pragas e preganas

que só não urro e dou coices de revolta

por saber que o meu destino

é chafurdar na merda da matéria universal

sem poder lavar-me da vergonha

de nunca perder a fé na salvação!

 

Porque o que eu quis foi sempre muito pouco:

que me deixassem ser louco ou até

mesmo um pouco suíno mas, alegre

e não este monte fino de estrumo

de restos de ilusões compradas a peso de ouro

em leilões de fim de século!

(Sempre que há terramotos sociais

os grandes jornais muito oportunos

fazem grandes liquidações com Peste & Sida

na história suicida da cultura ocidental !)

 


CANÇÃO I

 

 

 

 

 

Ai, triste coração, desconsolado e mau!

Mal te apanhas com fogo pelo rabo e ala!...

Lá te pões a galopar, sobre cavalos de pau

feito da carcaça de meus sonhos infantis mal enterrados,

qual relógio enferrujado que trabalha quando calha,

com sentimentos febris!

 

Pobre de mim coração, amante distraído

quando me apanhas e me trepas à sisífica montanha

com a sifilítica existência às costas...

já mais morte do que vida!

 

Ai, de ti coração, espostejado pela sorte,

que me entranhas de morte a paz-d´alma de palha

embalsamada de tédio e de agonia!

 

Ai, triste desengano!

Meus pulmões de bexiga de porco,

conspurcados por canduras de nicotina

não sobem ao ar nem respiram ideias puras

que mereçam ser cantadas!

 

Ai, de mim coração de anjo enjeitado,

alma penada de criança mal desmamada!

 

Ai, sombra apavorada de sonâmbulo

pairando extático fantasma da irreal beleza

sobre a mesa à luz monocromática do medo

às chamas deste inferno de desamores e paixão!

Entregue ao tédio das essências dos desenganos diários

enredas-te em fugazes desencantos

que te esperam solitários pelos cantos breves da vida

à entrada dos delongados anos

de todas as noites de insónia e pesadelo

às portas do sonho!

 

Ai, ai, coração,

se apertar a mão

e ficares p´ra aí

perco-me de ti!

 

Triste coração,

se me cais ao chão,

frágil como és

partes-te a meus pés

 

Ai, ai coração,

ficas a sangrar

de pernas p´r´ o ar!

 

Se confio ou não

fico a navegar

num mar de ilusão!

 

Ai, que do meu coração a alma se libertasse

dos delírios da razão

e dos olhos me tombasse a gravidade dos desejos

e os discretos ensejos de os sentir à flor da pele!

Porque eu, coração, divago à solta

pelo espaço vago e largo dos meus sonhos a fingir

com que tu te alimentas, estranho coração!

Neste refúgio da lúcida loucura

já nem sei se tanta sabedoria

é dom dos deuses ou, mera fantasia!

 

Triste coração, que, mal me pulsas os desejos,

já te ris de mim...e dos meus beijos breves!

Se voltar a deitar raízes aonde calha, coração,

ou te falha a corda da mania de existir

ou, pobre de mim, que ao suportar-te a teimosia,

semeio o vento destas horas

por longas noites de pressas e de breves dias de demoras,

até que às fúrias colha a tempestade

e que a esperança se esqueça da saudade

e das vagas ilusões, mais mal que bem, guardadas

nos recônditos recantos da memória,

de súbito, se rasgue a eternidade!

 

Ai, raiva de viver perdendo a vida

neste gosto de a sofrer em jogos inocentes!

Com medo de a perder entre os enlaces de morte

vou arriscando a sorte nos enganos da luxúria breve e pura

adiando a vida eterna nos desencontros da sorte!

 

Ai, ânsia de ser enfim, feliz...mesmo em desgosto!...

Ostentação de esbanjar toda alegria

num instante de dor, num recanto de nostalgia,

na exaltação fugaz da indignação...,

num êxtase de amor pela beleza da paixão,

na insensata lucidez por mero orgulho de certeza!

 

Ai, que em toda a parte eu ressoasse

à luz clara do Ser, nos infinitos céus!

Os véus da face se rasgassem à Verdade

e ressoassem, quais trombetas,

lânguidos soluços de revoltas mal contidas

até que com a idade se acalmassem

as vozes da eternidade

na ânsia da vaidade que alimenta a Vida!

 

Ai, que se calasse ao som o refrigério

do silêncio do tempo da ilusão perdida!

Da Aurora se apagasse a súbita magia,

da Noite se despisse o seu diáfano luar

e o Dia desbotasse na amplidão azul do céu!

 

Ai, coração, sequela edípica do Medo,

a quem de areia encheram, à nascença, os negros olhos

para então, não se deixarem muito cedo

encantar na lucidez da transcendência

nem depois, na terceira visão deste mistério

de sublime ilusão de mística indif´rença!

 

Ai, coração de cego-surdo-mudo,

se não desses ouvidos a tudo o que te digo,

quando saltas contente e distraído

no meu peito de eterno insatisfeito,

ou me bates os compassos semi-longos

da lânguida tristeza em que me enfeito,

revelava-te a certeza do segredo

deste meu ser tão só quanto fingido assim-assim...

tão real quanto prudente e...quão à toa!

Porque tanto se me faz deixar-me ou não levar na tua onda,

numa boa de ladino inconsciente,

como ficar de boca aberta ao ser levado à certa

pela minha acintosa estupidez!

Ai, coração, se te enfartasses de vez

c´o a minha angústia e te eu deixara em paz...

a mascar o catarro das essências que respiro...

teria tido razão ao amassarem-te no barro da ilusão

do reino em que sou desencantado príncipe

do princípio do mundo em que nasci fora de tempo!

 

Ai, e então...por fim,

nunca mais tivesse de voltar a replantar-me

num canteiro qualquer deste jardim efémero

para ter de bem parecer no cemitério da vida!

Então, teria paz e gosto eterno

para nem me despir do espectro nu do meu etéreo e puro ser

e, sozinho, deitar-me só comigo!

Enfim, amar-te-ia só a ti,

meu coração secreto de Narciso e fantasia

que me fazes entre lágrimas e riso,

solitária e permanente companhia!

Então, tudo em nós seria enfim, sossego e calma!

 

Mas ,ai de mim, porque eu...

serei desenterrado ainda a todo o tempo

e ficarei de novo e para sempre abandonado

com as raízes da alma ao sol

e o corpo todo ao léu!


CANÇÃO II

 

 

 

 

 

 

E é assim que me vou, estilhaçando

os cornos da razão de encontro aos meus botões

com que me apertam os co(rdi)lhões

às bolsas dos meus instintos

compenetrados em conceitos tão profundos...

tão fundos...tão fu(n)...didos...tão hum...dos que metem dó

que chega a dar-me ganas de me atá-los em nó cego

às tripas dos sonhos...

e atirar-me, como um prego, ao mar !

 

Penso e repensamos demais, meu coração,

e tanto e a tal ponto escrupulosamente

nesta transparente e séria indimensão

das coisas e dos entes

que, de tanto cogitarmos, coração,

é bem possível que estejamos dementes

e a esta hora já nenhum de nós exista realmente,

até porque não ser (ou ser, quem sabe o quê !?)

deixou de ser questão...

e é já mania de pagar juros de mora

à moda da certeza no par´cer!

 

Sim, mania de existir pelo delírio sado-manicaista

da indução permanente dos sentidos exaltados;

associações ocasionais de ideias pertinentes,

deduzidos da lembrança por desejos sublimados!

 

Má sorte de macaco tragicómico;

poeta com manias depressivas

e uma alma delicada encadernada

numa circunferência lógica

de espelhos de cristal estilhaçado!

De tanto maltratar este destino,

que à falta de melhor invento para mim,

ainda acabarei num triste fim

maquinado, sei lá bem por qual mofino inimigo

ou porque amante sem jeito ou distraído!

De andar à deriva, remoinho sem sentido

e, sem sair do mesmo ponto de chegada,

abraço-me de volta ao outro lado do mundo!

 

Agora coração, cá vou andando,

com saúde de pedra, pendurada

na amargura duma sina de poeta,

arrastando esta velhice prematura,

sorrindo-me dos anos com trejeitos

de garoto pateta que se cuida capaz de trapaçar a morte

metendo-a num bolso roto, de mansinho...de vagar...

co´a doçura do tempo que a alegria rouba à sorte!

 

Ah, que o dia triunfal do grande espanto

de deixar cair em pranto a raiva toda ao chão

me desse força e fé pela vontade de viver

e explodisse de repente o mundo todo em minha mão!

 

Ah, coração, que eu nem tivesse tempo

para fumar contigo com grinaldas a mortalha

do meu terno e etéreo amor perfeito

feito de púrpura e cetim!

 

Ah, coração, convido-te a descer comigo

ao fundo mais profundo que há em mim!

Ah, coração, intimo-te a chegar ao fim do mundo esquecido

num sepulcro de silêncio e conformismo

duma vida em comum como quem pulcro renascia

ingénuo e incerto, sem olhos mas, desperto

bem mais do quanto o permitia

a escuridão do seu destino!

Vem, coração ao jubileu do desatino!

Vem chorar de cor esta plangente melodia

dos fantasmas da memória em agonia!

Vem assistir à permanente indecisão

desta entrega, sem pejo e sem vaidade,

à vontade dos desmandos da razão!

Já liberto dos caprichos da ansiedade

vem, descansar, na paz-d´alma nua e crua,

da fadiga dos desejos, coração!

 

Depois...que eu não volte a suportar-te

o peso da dureza à fantasia,

nem eu, esta irritante e vã mania

de ter sempre razão antes do tempo da chegada

da longa procissão da nossa prolongada romaria!

Deitamos fogo às paixões e apanhamo-las nas canas da ironia

mal começa a festança da vitória

com que havemos de dar glória

aos nossos sonhos em vão!

 

E tu, meu coração, serás abandonado

sem engenho nem arte, qual relógio enferrujado

em qualquer parte da lixeira deste mundo-cão!

Não pares coração, antes da hora

da rega das palavras que te põe a andar à nora

porque hei-de ser de novo replantado

na solidão aonde mora uma criança eterna e terna

por se ter recusado a crescer mais

com medo de deixar de ter razão

antes do tempo de morrer!

 

Mil vezes arrancado da lembrança,

outras tantas enterrado na saudade

do que apenas ao de leve pressenti

à flor dos olhos dos desejos exaltados,

nos beijos mais secretos que escondi de ti,

neste impensável e impossível retrocesso

à pia dum baptismo virginal!

 

Ai, verdes anos de antanho

do tempo em que mal vivi

Ai, que saudades eu tenho

do que amei quando sofri !

 

Ai, raiva do que olvidei

na penumbra da lembrança

que ao de leve vislumbrei

à média luz da esperança!

 

Ai, quem me dera voltar a sofrer-vos

Oh, mais do que remotas ansiedades minhas!

Ah, se eu desejava revistar-vos o sono

num doce abandono ao ruminar da saudade!

Como eu queria reviver num desses dias

em que chorei, com o gozo das saudades solitárias,

os meus primeiros sonhos esquecidos!

Oh, raiva de não poder sentir sequer

o que neles ao de leve pressentia!

 

Mas, ai de mim que desta indecisão acalentada

pela falsa bonomia da indiferença das ideias

o pouco que vislumbro é fantasia e maldição

quando me dispo inacabado

em frente do reflexo orgulhoso do meu Eu

sem tempo que me chegue para o tanto que haveria a refazer-me

um sentido definido para a equivalência contrária aos meus motivos

nem sequer retomar o rasto aos meus esboços primitivos!

 

Ai, tristeza que é ter esta nítida incerteza

de que ainda que os voltasse a ressonhar

me encontraria neles tanto e por tão pouco tempo

como no perdido encanto dum louco pressentimento,

feito desenho ingénuo de insegura caligrafia de sorrisos

nos muros da memória antiga dos primeiros voos,

sobre as rimas da aventura da vida!

 

Depressa me acordaram para o sobressalto

deste salto mortal sobre a evidência

da volta sem regresso ao mundo da fantasia

nua e fria...desfeita em verso

no ar á solta...

envolta no silêncio do universo!

 

Coração, que ficaste encadernado

num caderno escolar esmaecido,

em que folha do livro da primária me ficou por acabar

a cópia desta alma de poeta que morreu pasmado

antes de crescer morto de tédio e de cansaço!

Algo quebrou o rosto da criança triste

que em vez dum susto esperava por abraços!

Acabrunhado sob o peso de projectos tão aéreos

demonstrou a vacuidade do que existe

circum-navegando os seus incertos sentimentos!

 

Inventando a Beleza Proibida,

qual dom intemporal que só valesse a pena dar,

joguei-a num destino diletante,

no inebriante embotamento dos sentidos

e no lúcido abuso dos desvios permitidos

á calma sensatez da idade da razão!

 

Ai, coração que ainda assim

o meu sorriso amargo é complacente

ao ver que o sem sentido disto tudo,

é tentar, sendo cego, surdo e mudo,

equilibrar a sorte com a falta de juízo,

fingindo iludir a morte sem ganhar sequer

a mera consolação de uma qualquer aparência de sorriso!

 

Ai, coração que até ficava satisfeito

se eu tivera o gosto e o jeito

de me enfeitar com as grinaldas da memória

das primeiras sensações originais,

ao sabor de correntes de marés e vendavais,

sem pressa de encontrar no absurdo disto tudo

motivos para gritar:

Ai, quanto é belo voar à toa

nos braços dum amor de malmequer

e de veludo!

Que bom que é a bela vida

navegando no mar dum qualquer beijo

ao luar!

 

Porém, depois de ter assim amado tanto o meu passado,

mesmo quando ali eu fui tão mal tratado,

continuo a amar-te a ti Oh, vida! A vós Oh, ilusões dos dias

nos ternos desencontros das demoras

na violência das despedidas

no aconchego do luar, na meia sombra

ou à torreira das cantigas em agoato

ou ao sol-posto na lembrança à cor esquiva das espigas

loiras trança de criança, olhos verdes nunca vistos

imparável carrossel das mágoas do devir!

 


CANÇÃO III

 

 

 

 

 

Coração, deixa-me em paz!

Não me arranques o cabelo com escrúpulos estéticos

nem me irrites os espectros duma ética qualquer,

razão técnica dos meros sentimentos!

Fiz tudo o que, de belo, bem parecia

para ser um bom rapaz e mesmo assim...

nunca fui capaz de ser enfim, mais feliz do que o nome!

 

Ai, de mim coração, que foi que eu fiz de errado

ao ter nascido prematuro e inacabado e com fome

de saber, que tanto vale a pena vir-me embora,

à tona d´água da luxúria dos desejos,

como ir-me por ai afora, atrás da sombra dos sonhos

de malmequer da Bela-Adormecida,

em qualquer margem do mar...

em qualquer esplanada do lado de cá da vida!

 

Ai, coração, pára de me bater no peito!

Tem mais jeito e deixa-me em sossego

pois, se gritei de dor ninguém me ouviu chorar,

porque motivo não havia de ficar

de costas para mim ou de pernas para o ar!

 

Ai, coração, que mal posso eu fazer

que não me tenha feito já sofrer!

Se eu sempre quis ficar igual a toda a gente

e não atino naquilo que é preciso para ficar contente,

com tino, acomodado e pensando ser feliz...

agora também, já não tenho tempo, nem razão

para desistir desta indiferença

do quanto se me faz ser assim ou então...

nem sequer saber se sei sorrir!

Ai, de mim coração, que devia ter mais fé

no ritmo natural, dos teus impulsos

feridos e já mais que referidos

pelos meus sentimentos exaltados!

 

Ai, de mim, coração !

Deixa-me !...Pára e fica a léguas dos bocejos!...

Mata-te e mata-me de tréguas !

Apenas quero paz nos meus desejos

e...quando morrer que seja devagar,...

bem ao de leve e sem sequer saber que parto

desta vida descontente!

Apenas tenho medo de me vir cedo de mais

deste degredo em que não sei viver

no logar que não pedi para ficar!

Temo mais agonizar de estupidez

do que ser apanhado nas rasteiras,

do meu próprio, sensato e cínico intimismo!

 

Coração, não devia arredar pé

desta mórbida espera inesperada pela Amante Negra

que nos levasse ás festas do solene plenilúnio

em noite triunfal de entrada póstuma

pelo jogo glória a sério enfrente!

 

Oh, derradeira, única e verídica ventura!

Ao rasgarem-se os véus desta inocência por demais violada

no fundo da lembrança, na amplidão dos céus,

na intangível dimensão dum outro além-lunar,

tudo é tranquilidade eterna e infinita!

 

As portas do paraíso de brinquedo, que procuro

na face inversa do mundo

da lembrança dos meus sonhos de criança,

abrir-se-ão, sem medo a este escuro

da revoada em alas dos arcanjos

de guarda eterna ao império azul do céu,

à rósea inocência recolhida na verdura

do mistério duma vida oculta na ilusão!

 

Tombarão chuvas de estrelas

sobre belas estátuas de cristal

de incorpórea alegoria inominata!

E das cinzas da memória hão-de saltar

os esfíngicos felinos

guardiões da solidão do estar além...

muito aquém do bem perto de mim...

e muito mais para bem lá deste meu mal!

 

À beira do abismo da ilusória identidade

cairemos na verdade do buraco negro, escuro

do seguro destino do ser e do não ser!

Da Ansiedade da verdade

de todas as vaidades nos havemos de achar nus

e, afundando-nos na fonte da sublime inconsciência,

lavaremos a inocência dos pecados uterinos

no sangue menstrual da original certeza,

na mãe d´água virginal do tudo-e-nada

com que germina a videira das idades!

Então, coração hás-de sofrer as dores de parto

do meu esquecimento derradeiro

desta sempre incompleta divindade

e nasceremos de novo do lodo da existência!

 

Ainda que me tivesse encontrado

e na palma da mão e abalasse de novo

para um outro lado,

qual ave de tardia arribação ou em serôdia descoberta,

não chegava a desvendar-te essa magia certa

ai, meu pequeno e caprichoso coração!

 

Ai, coração, se receio que te partas

sem poder esquecer-te os brincos das cerejas

pendurados nos meus olhos de criança sorridente,

de açafate de cerejas na mão,

então, é porque eu nunca quis

deixar de desejar de ser feliz assim!

 

Ai, coração quando enfim parares de me sofrer

e de mim reste a certeza de me ser e te não ser

na ilusão das contingências que nos fazem ressentir

a subtil ilusão da essência dos instantes,

dissoluta na poeira tão plural e infinita

dos espaços vazios, então....eu serei eu

e serei nada em todo O Ser !...

O, Único !...O, Divino !

 

 

Até lá, coração, ai...como anseio

por esse dia nessa hora ou neste instante

em que reviva noutro seio-espaço-tempo

neste corpo semeado contra o vento da existência

sem que esteja como, agora dividido e consciente do delírio

desta fuga sempre em frente, aos arrecuos,

feitos de amuos e euforias decadentes

com os quais invento a liberdade!

 

Vontade de me ser de qualquer jeito

sou cavaleiro errante pela selva do enfeite do discurso!

Rasando a incoerência bem pensante,

deito a mão às palavras mastigadas com desdém

e, com raiva e com amor, cuspo-as ao ar!

 

Escravos subjectivos, naturais e egoístas

do receio de murchar, breve botão de rosa,

antes do tempo efémero,

de raízes expostas vertiginosa luz

da inconstância dos sonhos

viveremos na ilusão deste sentir

original de ser um eu particular,

convergência abissal pelos desígnios da razão!

 

E, assim, não tendo nunca renascido

duma vez por todas,

jamais inteiramente morreremos

e aos poucos nos iremos dissipando

nos momentos de eternidade com que o Ser

nos faz seres à flor da pele destes efémeros desejos...

sublimes beijos de perfeitas formas,

até que ao Eu das coisas se dissolva a identidade

dos nós de finidade sobre o Ser de que emergiu!

 

Ah, que se ao menos este sol que se me esconde

por trás do nevoeiro das manhãs de tédio

me não perseguisses a sombra...partiria de vez,...

sei lá bem para onde !

 

O meu sonho seria levantar o acédio ao mapa mundi

povoado em demasia pelos sonhos e, depois, evaporar-me

ou, então, que podesse renascer ainda mais amargo

noutro lado qualquer do largo mar do tédio

sempre que, ao ser replantado, me cortassem as raízes

e deixarem cão sem dono

ao abandono das directrizes do medo!

 

Oh, soubesse contentar-me com felizes saudades

e recomeçar a vida noutro lado

onde ninguém soubesse o meu passado todo

e quieto me deixasse, no meu fundo

do lodo da memória solitária do que sou agora!

 

Nesta existência sonolenta

das mesmas cores de outrora

as mágoas quotidianas são as mesmas

das horas de outros dias

e nesta espera incerta do seguro desespero

jamais virei a ser alguma coisa séria

de agarrado que estou às nesgas de miséria

da esperança de algum dia vir a ser enfim, feliz !

 

Eu...que nem sei se acreditei

ou creio ainda neste engano

em que eu quis transformar a minha vida,

fingindo este solene cepticismo!...

Ao cabo e ao resto eu nem desejo nada!

Nada vezes nada dos sonhos que me penetram

como agulha de morfina!

 

Mas, ai!...Que o que eu  quero é mesmo nada...

ou, pelo menos, nada que eu não posso dispensar!

Ou melhor ainda, é tão inacessível o que anseio

que preço algum real da vida vale o regateio

de matar-me, ao lutar pela vitória da razão!

O mesmo que é dizer que, nesta palma da mão

a morte sufocante, com que existo em corpo e alma,

resiste ao sacrifício sobre-humano

dum instante de lucidez

o que até é de muito pouca graça

mas, é com ela que eu vivo e sou assim assaz...

a modos que mais louco que infeliz !


CANÇÃO IV

 

 

 

 

 

Oh, esta tão solene estupidez

que cada vez à vida mais se agarra

não poder compra-la ou dá-la de seguida

que então, é que instrutivo assim seria

o suplício de Tântalo ao contrário

a que indiferentes nos deitamos a afogar no mar da vida

sem dela poder desistir,

sem sentir arrepios de dor d´alma!

 

E, por cá me vou assim aguentando na labuta

pela meu quotidiano quinhão de vida eterna

alternando com o riso o choro e o sorriso

e, sobretudo, amando-a distraído a esta mulher da vida

das esquinas dos séculos!

 

Eis, que é chegada a hora do contraste crucial!

Já cadáver no esquife nupcial, meu corpo-rei vai nu

e tu, meu coração, de poros bem abertos

ás correntes de ar de incertos pensamentos

sobre o quanto se me dá na real-gana,

fica, qual sacana e com cara de pau

feito às crises de tensão

ou ataques de suor horripilantes

e convulsões de choro ou com vontade súbita de cantar,

exposto à expiação dos meus secretos vícios

pela virtude desta pública paixão pela verdade!

 

Fustigado fugitivo das insónias sem recurso

dos desencontros diários com a minha amante negra,

beladona irrecusável, imprevista e pontual

de todas as minhas noites de euforia e medo

é pela escuridão adentro que eu penetro nela!

Ei-la, que desponta do deserto da lembrança

de entre os dedos de areio do degredo sem esp´rança,

e é vê-la que se instalada rubra e nua,

descarnada de súbita alegria,

na intimidade vazia e descarada

dos cantos cardeais do meu quarto de insónias!

Ela, a sempre bela e feia...

A Angustia-Mãe chegou!

 

Só me resta bebê-la sem ter sede

já que pequei com ela para toda a eternidade!

Amo-a tanto que nem sei o que me impede

de com solene pompa a receber

com uma bebedeira de ansiolíticos

e um urro de foguetes nos artelhos paralíticos

e um pontapé no cu da consciência

assim ela o tivera de brancura imaculado!

 

Violá-la-ia até ás tantas com punhetas e bocejos

não fora ela frígida a meus beijos

e, Brígida imperfurada, não me humilhasse de dor!

 

Fútil Prostituta dos meus sonhos mais sombrios

amar-te-ia até ás fezes com ardor e lágrimas,

até sangrar de amor em verso branco,

até morrer de dor e de prazer

no reverso do deleite duma noite, no outro lado da cidade

acordada em sobressalto

sobre os abismos da minha falsa identidade!

 

Oh, tu Amante Negra à média luz do lúcido delírio

das minhas odisseias pelos mares do pesadelo

vem ouvir-me com desvelo bocejar com parcimónia

e chorar ás gargalhadas sobre o lírio duma lânguida saudade!

 

Mulher assustada e fugidia,

tão surda à melodia dos bocejos,

vem lamber-me no peito o ansiedade dos meus beijos,

espremer à mocidade o acne em que me sujo de desejos impossíveis,

tão cedo desflorados quão depressa são remorso!

Oh, Sombra solitária, Oh, Sonho leve

vem-te embalar no conto cor de rosa

da minha vida amorosa nos cantos da nostalgia!

 

Ai, Beleza carnal e obrigatória

prometida nos orgásticos suplícios sifilíticos

das fantasmáticas orgias da razão,

vem-te envelhecer comigo em versos grandiosos

no tédio dos desejos e bocejos odiosos

com a incontida revolta contra as penas pegajosas da paixão!

 

Como porcos mal amados nós seremos bem tratados

até à saciedade dos instintos anormais

e seremos tarados, esfolados

e tratados como anormais e depois...

comidos pela vida conformada de discretas armadilhas,

na paz de consciência da pública moral!

 

Se não morrermos de pasmo com espasmos repetidos

ganharemos bolor e cândidas nos sentidos

senão coisa pior e de raízes ao sol

viveremos o desfrute dum amor irregular!

 

Ai, cabra da vaidade! Ai...ai puta de vida,

amiga dos meus olhos onde miras o que é teu,

vem brindar ao meu triunfo de macaco e de poeta

e vai-te! Mas, deixa a porta aberta

à minha fé "naife" na virgindade perdida

em séculos perversos entre versos de pureza!

 

Ai, minha amada de estupor

companheira e amante neste meu degredo tão fingido

dança comigo o canto encantatório

com que se olvida o purgatório da verdade!

 

Ai, Mater dolorosa do deleite em frenesim!

Já de inicio foi a mais que à luz da lua me pariste

e me deixas-te só com esta alma que me existe,

neste corpo ao léu de rosto feio e triste

que perdeu os olhos e a razão

que insiste no receio do desgosto da paixão

e no gosto da indiferença primitiva

com que a qualquer preço se entregava

a ti...ao gozo de existir...e ao amor !

Oh, ao Amor qualquer em qualquer lado e a qualquer hora!

A ti Oh, mulher da minha vida

que me violavas, qual criança sonhadora

com receio de crescer,

quando te descuidavas de ser a namorada

da infância que não tirava os olhos das estrelas

à espera do condão dum arco-íris

nas auroras sublunares!

 

Ai, resmas de verdura em que se arruma a ramaria

da rima uma a uma que rumina este rumor

em que se arrima a romãzeira em romaria

da rama a esmo em que me lanço na planura

do remanço do rio que derrama no deserto a minha dor

de remar contra a maré sem rumo certo!

 

 

Sonhos que eu era! Oh, ilusões que eu tinha

réstias de sol...laivos de lua,

ideias lindas soltas pela rua...

risos no ar, à toa como bolas de sabão!

 

Ai, rio Douro, ai, ao léu

nadando quem me lá dera!

A culpa tivera eu!

Morto lá não me viera!

 

Sonhei-me cavaleiro andante e monge

dum convento encastelado e altaneiro

de onde se aviste ao longe a serrania

entre estevas de poesia espreguiçando

a sesta do guerreiro solitário

e em paz d´alma nua e calma transpirando

entre as pernas o cio deste estio

no sacrário da lembrança enamorando

das etéreas doçuras comungasse

num êxtase sagrado e inocente!

 

Cantigas ao vento,

espigas no chão,

esquinas do tempo,

suspiros de v´rão !

 

E assim se divertia esta criança distraída

divagando à sorte pela vida fora

até à hora de tanto te encontrar

a ti Oh, Morte...

Amante Negra que num longo sobressalto,

incauto me prendeste aos descuidos da vida!

 

Mas, ainda um dia hei-de encontrar em ti o meu amor,

no verso e no reverso destas pétalas

de flor do malmequer e hei-de casar contigo

quando em mim fores tu e eu, minha Mulher!

Mulher de sonho, mulher de insónia e aurora de mulher!

Nesse dia o mundo explodirá de dor de parto

e eu hei-de ficar farto de não ser original

na vontade de o fazer aparecer qual nova lei

no espectáculo sublime da igualdade

seremos tu, meu corpo de mulher e eu

a tua alma humana eterna e gémea!

E então, mulher eterna, deixarás de ser escrava

da aparência que te fez ter de parecer mulher

feita semelhante à imagem ausente

e motável como o tempo

dos desejos angustiados do ser homem!


CANÇAÕ V

 

 

 

 

 

 

Oh, vozes incisivas dessas forças inefáveis,

primitivas e translúcidas visões,

rumores misteriosos da memória,

reminiscências de fundo do ruído da existência

da explosão dos arquétipos do Amor!

Murmúrio ou eco e réplica doutro sino,

nostalgia deste lado da surdina do mundo

desde o dia em que nasceu, no fundo fim do mar,

o Deus-Menino...

O Sol Maior!

 

Oh, Grande Sol, diacrónico nos tons

das cores das melopeias ébrias e épicas,

nunca assaz venerado pelas insolações dos poetas!

Quem não sabe o teu nome passa fome de alegrias

e, se dança a mandar chuva, apanha calmarias

A uva é ácida

como maná da ira que, caindo das nuvens negras,

as vergas enferruja das industrias da moral

para glória do teu poder

fóssil, podre e poluente e triunfal!

 

Do teu brilho de vitória resta apenas na memória

a mortalha rasgada no veludo verde da Amazónia em agonia!

Porém, o teu encanto é nostalgia

do viço da luz mística da vida

ao sol dum v´rão eterno à beira-mar

nas costas do leão mediterrânico!

Entretanto cantarei o desencanto em si bemol

do Sol Ocidental envolto num lençol sintético,

em eclipse parcial de gaz sulfídrico e carbónico!

Que descansem em paz as suas réstias de luar

entre cinzas radiantes de ruína

dum belo apocalipse que, de súbito, seduz

quem sonhou incendiar o mundo em gasolina!

 

Oh, sol menor com saudades doutros mares do sul!

Acordado já tarde deste sono extemporâneo,

ficaste mal disposto até ao v´rão!

Geriático maníaco com crises de tensão

e (porque não?) da mera sugestão duma impotência sexual!

Maquilhaste o rosto em pó de giz

e expectorastes a cinza da manhã,

invisível a um palmo à frente do nariz!

 

Oh, sol da divina solidão,

irmão bastardo de Zeus,

filho duma anã-branca decadente e envelhecida,

enamorado da réstia de lua assolapada sobre o mar,

tu és a cor do derradeiro pôr-do-sol

entre as ruas das ruínas ensombradas das cidades

perdidas na memória duma história tão banal?

 

És tu a luz mortiça deste breve fim de dia

contente com coisa pouca, sempre triste, aborrecido,

fugindo da brisa fria, braço-dado com o medo

da tímida donzela que violaste de cabeça

atrás duma janela deste tempo da apagada e vil tristura,

perdido atrás dela, sem esperança

sem mérito nem candura,

com falta de beleza e sem juízo?

 

Consomes-te em migalhas de brancura dúbia

qual deleite derramado na pulquérrima planura

pela ovelha ranhosa da sagrada família!

Ciclópicos enredos os dedos das medusas

serpenteiam no céu e já Penélope

com eles se perdeu tecendo o véu

da verónica mortalha de Milão!

 

E o que será da fábula do lobo ribeirinho

que ficou com tanta gula do cordeiro místico

que faltou à rábula da missa soleníssima

em que as garras do milhafre transmontano

rasgaram o rosto envergonhado ao deus solar!

Depois o fim da tarde se ensombrou de medo

e no degredo dos cumes do Marão a raiva trovejou

e soltou-se o fio ao gume da navalha,

o grito ao frio, e o vento ao temporal!

Então, um nevão pintou a serra de branco

e luz voltou a ser por algum tempo mais o azul do céu!

 

Ai, sol ocidental já em crepúsculo divino,

solfejado num hino ao fogo posto à palha

pela língua da serpente do Doutor que prometeu

amar a humana condição com tal pureza da verdade

que de tanto a prometer também morreu!

 

Ai, triste sol doente por olímpica saudade!

Temendo, com a força da paixão, incendiar o mundo,

logo ao Ser do universo ordenaste

que das fúrias se apagasse o lume ao fogo do castigo

e ficas-te, fala-só nas brumas da memória,

creto-heleno-euro-orbi-moribundo,

estátua martelada dum Apolo ró-có-có

nos frontões rui-vermi-fungíveros da história

do solar da senhora dos passos

do tempo perdido a procurá-los

atrás da tua sombra indecidida!

 

Sol Barroco torturado de sublime compaixão!

Capitel salomónico de folhas acantonadas

nos cantos retorcidos num encanto sensual

em cantatas trocistas de prata em cascata

e casquinha dourada!

"Bel-canto del´arte", carrilhão de carnaval

à média luz aberta à melodia da expressão

do delírio em parte incerta

de rimas em ecos, de versos e sensações,

reversos de ideias...

e associações contra natura imprevisíveis!

 

E quando renasceste duma fénix prematura

tu tiveste a loucura de brilhar antes do tempo

e foste condenado nas fogueiras duma santa inquisição

por catarino masdeísmo hiper-judaico-cristão!

A espuma negra que se escorre duma vida efémera

em borbotões de seiva morta nas nervuras dos ciprestes

pelas enxurradas, junto às portadas dos jardins celestes!

Giró-flé...giró-fla pró pé do vale de lágrimas

das lamúrias uivantes de pragas e ladainhas!

giró-flá...para lá das fontainhas do Douro

passarás...passarás mas alguns sonhos deixarás

no giró-flé-flé-flé-flá...desta cerúlea letargia!

E gira tudo em redor da ventania

que vá de folia...que vá de mania...

pois desde a lua nova aqui ninguém bulia

atrás da nova moda literária!

 

Ai, esta luz mortiça, pó de pirilampo

que nos cai, figo lampo, sobre a sopa de pau-santo

como línguas de fogo no rabo

do gato esfolado pela sogra!

Não é raio que se parta nem é praga de luar

mas, é a névoa parva que ficou exposta

na porta da sacristia

da romaria da Senhora das Dores de Parto

com saudades das desgraças dum outro tempo

numa 6ª feira santa anticoncepcional!

 

Tanta poalha de gentalha enriquecida a esmo,

fastidiosa e fósforescentemente fogo-fátuo,

enfaticamente fétida por ter sempre o mesmo gosto,

gula piromaníaca de polícroma luxúria

das pérolas ao porco de cultura

com que se introduz no cu a inchundia da galinha!

 

Ah, mas há que falar também das revoltas da primavera

depois do vendaval de colorido regional duma canção

que por onde passou deixou desfolhadas as palavras

nas rosas de papel e sobre os cravos de aço!

 

E os cristais de marfim sintético

espalhados em patético desconcerto

são o que resta nos salões de inverno feitos capelas imperfeitas

em castelos de areia semeada pelo vento da vaidade popular!

Elevam-se inseguros, estrepando-se nos muros

num ar que se lhes deu, queixumes de ciúme,

raivas rubras ao lume, pragas que Deus nos concedeu!

Suspiros de espíritos insólitos que se fritam-se na sertã

e tombam cartas do baralho de batota

no sofá do fraudolento consultório

onde o ócio mitológico ficou qual letra morta

a aguardar o diagnóstico de bócio mesentérico

do tédio filosófico diário!

 

Com gestos certos de incertezas puritanas

e sorrisos de alho porro à flor dos lábios curvos

lá se apalpam as mamas ás tricanas catarinas

e as bonecas indiscretas ficam manas patarecas

de pernas abertas, a gritar, histéricas:

__ A tua, qual é ó meu!...

Filho da puta que te comeu a alma!...

A vaca sagrada que te pariu!...

O corno de oiro que te injectou

heroína no juízo com agulhas de insulina!

 

Sol e neve derramados ao de leve

pelos passos atolados nas valetas!

Inscrevem-se na lama da lembrança

rastos de folhas de violetas secas,

saudades murchas de fim de v´rão!

 

Distante do Mar Cáspio desagua o cuspo

das litanias inventadas pelo padre Inácio

para tratar a caspa das viúvas

que se constipam quando só tomam banho

na pia baptismal da água benta!

 

Empoleiradas as aves agoirentas esvoaçam

quais espectros tão baléticos em pontas de alcatruzes

nos topos bélicos dos mastros das antenas de TV

a rirem-se da triste e má figura

que se vê por todo o lado da cidade!

Nos épicos quadrados da vaidade

com os cantos embrulhados em papel de vil jornal

escondem-se os abraços enleados,

gatos mortos farpeados no arame da vindima!

Puxa-se-lhes o rabo e zás !...

Assim se trama este desmame da memória

ao longo da cartilha maternal

com que se vacina a diarreia d´alma:

"eles cruzaram continentes sem saberem astrofísica

e enfiaram baionetas no cu ao léu dos incréus!

Hoje descobrem planetas

mas, nas tetas da vaquinha de Belém e não no céu!"

 

De novo como dantes alguém há-de levar os justos mais incómodos

a sentar-se na vala mais comum do desencanto e do consenso

e os demónios são proletas, a grelhar em lume brando

numa noite qualquer longa de quando

esvoaçarem pelas praças da desgraça

os anjinhos da mamã, na brisa da manhã das asas brancas!

 

A grande tempestade das monções de paz de Fernão Minto

há-de atear o fogo extinto à China desde o muro da vergonha

até à grande muralha das lamentações!

Honra e glória às forças vivas das nações

que o são na constrição expiativa dos mortais,

paquidérmicamente banais mas,...divinas!

 

Ah, este Sol em pó, que já se compra em lata

misturado com azul de tornassol

em qualquer supermercado, é maravilha barata de electrónica

paga por conta e por esmola a prestações

ao deus do consomismo mais comum!

 

Este Sol não é luar nem mês de Agosto

nem desgosto à luz do dia,

nem é sequer o Inferno a seu contento

mas, uma lição de economia cósmica

para cursos de invernos rigorosos!

Sonhos afinal de aquém-e-de-além-mar

atirados areia para os olhos duma pura desrazão!

 

Este luar não é também nem clareira nem clarão

nem alvorada de clarim nem clarinete ou caldeirão!

Nem é chuva de malvas nem é queda de cu nelas lavado,

não é água de rosa que se cheire

nem caliça suja que penetre nas arcadas da memória

como cheiro a naftalina e sabonete!

Não é alma de sapato de defunto que se espere

nem sequer ande às avessas da candeia que esmoreça

à lareira aonde o caldo de nabiça amargo e verde se cozinha

para tratar a soledade,

doença profissional dos filhos da cobiça!

Enquanto se requentam os segredos duma aldeia típica

andam as bruxas e os duendes de empurrão

contra a pia baptismal!

E as beatas volteiam como baratas

em redor da lamparina da trinidade santíssima

desde que subiu o preço do barril ao litro do petróleo!

E em uníssono carpindo longas lendas lengalengas

languidas e lentas...loucas litanias

plangendo e esconjurando vão este destino...

porque até ao lavar dos cestos há uvas por vindimar

e depois do Advento há tédio e tempo quanto baste

para virar o andor

que a procissão ainda agora vai no adro

porque a salva-Rainha tem angina ao peito!

Por razões de saúde e de respeito foi levada de balão

e deixou-nos, por fazer, as bôlas do Natal!


CANÇÃO VI

 

 

 

 

 

 

Ai, este sol divino que desceu aos quintos dos Infernos

e ao terceira dia explode o caos dos instestinos

e ressuscita em harmonia com a longa noite de inverno

em agonia glacial!

Ressacou da recidiva etílica,

sentou-se à mesa do Café Nicola a beber Coca-Cola

com tremoços e pevides e ficou amarelo

quando apanhou um estalo da direita a paterna

por ter passado a noite na taberna

em esquerdices de filho pródigo!

 

E, de água vai em vinho vem, consagra missa a Samartinho

como tratamento genuíno da anemia d´alma

e para a salvação da Maria-João dos olhos verdes,

que se riem tanto deles, expulsou os vendilhões

da casa da moeda Lusitana a golpes de martelo

e num golpe de foice e génio deu o salto imortal

sobre a própria loucura deixando à escura a nossa história

ás voltas com a penitencia milenar

de ter de o adorar às sextas feiras

fazendo abstinência de guisado de serpente

depois da hora do jantar!

 

Num domingo de apertos com políticos

pendurou-se entre ladrões duma farmácia de serviço

e lançou à urbe esta sentença orbicular

de drogar o populacho com o próprio sangue!

É por isso que há quem ande de semana

disfarçado de cigana a ler a sina

com a cruz na testa e corra de festa em festa

a pregar o sermão da montanha russa

(estranha mania de enfiar a carapuça a quem a usa já

com o conto do vigário que roubou o pão à criancinha

num chão que já deu uvas...e agora,

nem que a chamem, um figo verde lhes dará!)

 

Ai este Sol sem viço...ai, o brilho que é mortiço

pairando como pardal esvoaçando enevoado

ou revoada de bucólico reverso do rosário

plantados no quintal do padre eterno!

Condenado a ir parar à boca da panela onde fumegam

as ternuras das caldas afagadas pelas madres

escondem os cochichos das comadres

no sacrário da capela da rainha santa!

 

À janela, o vizinho da donzela, de binóculos litúrgicos

viu vir-se embora com a espiga na garganta

o triste herói desta semana santa

apanhado com a boca fora da botija

e deixou cair da mão o riso ao chão

quando ouviu as gargalhadas que, ao partirem rua fora,

se atiraram à cara do consenso comum!

 

Este sol desencantado

que definha atrás das dunas

desta praia ocidental da pobretana

é a nau quatrineta que encalhou no porto da fuzeta

entre um futuro de treta a céu aberto

e o velho fausto oriental a persegui-lo

como o diabo acordado em sobressalto

de três noites de exausto pesadelo

a restaurar a loja que já foi um templo essénico!

 

Cravo ruivo na lapela da farpela domingueira

anda a espalhar mau cheiro...e o boato

de que abriu a caça ao pato de bico retorcido

e faz-lhe tomas e piretes e caretas

e outras pragas do Egipto

e abre-lhe a braguilha rota e descosida

e apalpa-lhe a impotência ejeculante

com a voz sonante dos metais em brasa

e atirou-se arrastando a asa à filha da luxúria dos mortais

e teria enrabado o refilante trovão da liberdade de expressão

se não tivesse havido greve no Inferno

quando caiu do muro abaixo de Berlim!

 

 

As vestais foram violadas

e vestiram-se de monjas outra vez

e, fartas de o não serem se tornaram enfermeiras

quando os padres que perderam vocação

subiram a doutores da mula russa!

 

As bacante não couberam no convento

mesmo tendo por patrono Santo-António e São-João

e andam perdidas a horas mortas e tardias

como bruxas sufragistas

e outras musas e artistas de profissão!

Lúbricos amantes de antigos e novos mitos

à chama vacilante do receio dos desejos

por ali ficaram a beber até ás tantas

da seiva amarga e doce da miséria humana

com que os deuses, quando perdem a razão,

se tornam car(ne em vinha-d´)alhos

e se metem em sarilhos e atalhos rituais

em fálicas procissões de gloriosa ostentação

com fome de poder e de outras formas de demência

(como falta de coragem no saber viver e envelhecer!)

 

Com todas as demoras à sombra do sol poente

talhou-se o leite ás tetas da Virgem-Mãe

e os sexos ao relento constiparam-se

e faltou a luz à potência fecundante

do farol das divinas e essénicas essências!

 

Depois de tanto ter sacrificado a Natureza

no altar da história universal da divinal metamorfose

ao espírito suicida e assassino

das crises de crescimento da razão

eis que se empalidece o Sol nos olhos dos convivas

do necrófilo banquete da memória

exumada por questão comum de delito de opinião!

Só lhes resta mordiscar gemidos

desgrenhados dos cabelos do instintos indomados

pelo fogo que não arde

nem se vê na escuridão!

Com medo de enlouquecer de tanto se consumir à toa

apagou-se na raiva do próprio ser!

 

Foi assim que, numa longa e triste noite de eclipse sublunar,

se queimou o sem saber nem desejar

nos círios dos cilícios da razão de estado

à volta da questão da quadratura

do Círculo Máximo de mínimos!

 

Encenador de mimos de poder e de paixão

restaurou as ruínas dos Impérios Milenares

com os suplícios da fé pura de gordura

de cristãos e outros acéticos cretinos

atirados à fera ditadura da prática da razão!

 

No local de qualquer parte de qualquer instante

onde os beijos de paz sejam sinceros

florescem como milagres da manhã,

lágrimas de orvalho de saudosa indignação!

 

Porém, ali ao lado, como pragas de bocejos

arrotados à mesa do cordeiro,

os delírios tomam forma de mistérios rastejantes

e pela noite dentro da cidade eterna

aberta ao pesadelo duma dúvida metódica

as almas se depenam dos despojos

duma efémera vitória, sobre o medo secular!

 

Acampadas no vale dos que já moram cá

desde o tempo que outrora não doía

nem fazia a comichão que tinham lá

vegetam com saudades das cebolas do Egipto

os que todas as passas do Algarve já comeram

pelo fundo do saco roto

da caridade envergonhada

com a mão aberta a quem lhes leia a signa

de apátridas a expensas das migalhas do orçamento

que da miséria resta das ruínas

de que a memória dos impérios se alimenta!

 

Depois destes dias de sol gemebundo

viciado nos desenganos do luar

em neurótica agonia de violada e velha tonta

A Virgem Mãe deixou-se vir em letargia

como as outras sobre os olmos descarnados

onde fica pendurado ao relento

o sonolento olhar da lassidão!

Ali foram desaguar à beira dos abismos

dos ribeiros da tristeza porca e suja

os crocodilos de lágrimas sagradas

choradas neste Outono sobre folhas orvalhadas

de crisântemos de morte em Flor de Loto

atiradas ao rio Nilo-Congo da saudade

dos heróis da guerra suja de aquém-terra!

 

Repicaram-se os brônzeos sinos noite dentro

de monte em vale, de serra em serra,

delongando e proclamando aos quatro ventos

raios e coriscos,

ceifando vendavais ao cancioneiro nacional!

 

Foi um delírio dançado em colectivo desafio

e ao romper da alva demorada e fria

veio a calma no silêncio da dor d´alma

acarinhada no regaço destes doces desenganos

comprados ao desbarato num leilão

de democrático feitio e ostentação!

 

Assim se fica em paz de consciência

descuidada no cardo que outro burro já comeu

na cova aonde iria uma católica ilusão

que nem se vem, nem chega a ir-se duma vez

entre as réstias que já é

das fatí(mi)dicas dúvidas de fé!

 

Os lampejos de vergonha numa esperança sem razão

guardados estão no sacristia

com a fé na identidade dos contrários

da caridade em campos de fora de piação das almas!

 

No alto dos campanários hibernam as ideias

trespassados como galos de Barcelos.

Toda a meia-noite cantam missa, garbosos e belos

até ficarem sem pio nem pinga de sangue

no fio do pavio do rito suevo

da imperial lembrança mal lembrada!

Ao romper da alva desnorteada

foram terminar a consoada

no prato da cabidela de Sé Velha

onde se cossam os colhões do padre Inácio

que mal os vê bem lhes cobiça o cu

e logo ali lhes canta a miçanga do galo

e reza pela pele e pela alma dos sapatos dele!

 

Entre as grades do cemitério das idades delirantes

foi a enterrar de novo este mistério

dos peixinhos de vidro em à água benta

que aparecem partidos nos charcos

onde os meninos tiveram o decoro

de lavar a pilinha como Pilatos na pia baptismal

antes de erguerem nos braços a heroína nacional

ao som da tabuada decorada lés-vez-dez

com as desventuras no meio do Sacro-Império!

 

Ficaram recordadas na capela

das alminhas depenadas das folhas esquecidas do saltério

com santinhos de pau carunchoso

atrás das grades do medo, à espera do entrudo!

Ai, este sol apocalíptico vestido de veludo,

esta lua violada pelas naves do inferno

com ciúmes dos anéis sem diamantes, de Saturno!

 

Este sol despeitado e displicentemente mudo

desde que ficou destronado do centro do Mundo

pisou as flores do mal como anátema divino

e amassou o trigo roxo no suor do seu focinho

talhado à imagem, semelhança do divino,

nestas rimas inversas de pé coxinho e de quebranto!

 

Ai, este sol sentado à porta do Inferno informativo

como estrela esquecida de cinema mudo

empoleirou-se em árvores metálicas à espera

do Inverno televisivo do nosso contentamento

(porque o inferno rima sempre com o inverno!)

 

Pasmado de tédio e de fervor serôdio

benzeu-se com a esquerda,

babou-se ás costas da direita

e deixou cair a placa dentária ao chão

e finalmente apagou-se o fogo ao céu

e a paz eterna e cinzenta

tombou na natureza morta de saudade

pelo tempo da fé perdida ao colo da mezinha

com a esperança nos beijos por caridade

pelos séculos da seca secular...

própria dos filhos da mãe pútrida!

 

Viva Portugal! Abaixo o Sacro Império!

Abençoado país do orgulho da Saudadosa Soledade!

(Tretas e montes de retórico entulho!)

 

Oh, Sole mio...!


CANTO VII

 

 

 

 

 

 

Hiperbórico nume, falocrata omnipotente,

fera assada em lume brando desde a Era glaciar,

Santo e seguro no altar do lar,

dupla imagem semelhante à mesma ideia

do amor do pai perdido no paraíso em fuga dos infernos

no tempo da grande guerra do poder dos afonsinos

no império dos sentidos e no reino da paixão!

 

Deus menino seminu, recém-nascido

acorrentado ás grades da moral e da razão!

Arcanjo Lucifer, com o orgulho ofendido,

Heli-El-Elim o Bom, o Belo e o Maior,

és tu o príncipe encantado e pequenino,

mimado e amuado mas, caído em desgraça,

caíste do trono abaixo e te roubaram ao amor!

 

Farol alexandrino, ficaste com vertigens nas pirâmides do Egipto

e iluminastes o mito aos deuses parri-fratri et homi-suicidáros

subterrados na torre da confusão dos terramotos linguísticos!

 

Zigurastes por milénios dos caldeus

na Torre de Babel onde Israel morreu

quando Amon-Rá se fez judeu

e, forte como touro, tourear-te em Creta e Meca

e fundido em ouro a raiva de Moisés

que te queimou os pés-de-lei na Sarça Ardente,

quiseste-te ariano velho-duro-pé-de-cabra

enquanto corneavas, Lucifer, qual capicórneo moiro-touro,

o pai dos homens todos da Anatólia aos balcões!

 

Disco solar, Astro-Rei triangular,

depois de escravizares os deuses pela trompa de Falópio

plagiaste-te a cabana lacustre do pai Noé

à velha Europa

dos ciclópicos ligures e, novo rico

dos alvores coloniais da História,

edificaste templo nas olímpicos montanhas

e atrelaste um carro desportivo ao cavalo que é de Tróia

e, Zeus mulherengo ou apolíneo paneleiro

inventaste na cama o ócio da Metanóia

da cerâmica de estilo que deu fama a Adão e Eva!

Solteirão inveteraro na amplidão do céu

Consomeste, cara de cú ao leu,

Em convulsivos oragamos termonucleares

Com que os terráquios fazem os ciclos solares.

A este Prometeste o fogo e o paraíso

e deste-lhe a desgraça no Inverno

e, por herança o inferno do pecado original

desta humana condição!

 

Quando neva na serra é já inverno

e dá-se a queda dos impérios aos romanos

e brilha o Sol do Inferno sobre a Terra!

 

Tonitruante Toro do martelo de Vulcano

andaste ufano a colher visco na Floresta Negra!

Zoroástrico fogacho, fogo fátuo breve e belo,

Senhor das ninfas regras, amainaste as tempestades

e da fúria duma mística lunar

foste a prima das causas para a força maior

sobre a terra e sobre o mar

e ficaste a meditar tal-qualmente

no Tao do pau de Zen ou a ferver de paixão

nas contradições castiças dos Hindus!

 

Depois, tentaste ainda a Jesus que não quis ser Júlio César

e em nome dos impostos falhaste o sinal da cruz

e acabaste triangulado espírito tributário

excêntrico ao sistema planetário do futuro!

 

Símbolo das letras da Suma Teologia

arquitectaste o medo da desordem

e acabaste Édipo-Rei-Sol da Nação moderna

porque em terra dos cegos que te olharam de frente

quem tem um olho é rei e faz-se gente!

 

Ainda és a mesma imagem da hodierna orfandade

nos delírios de Império, na queda das monarquias

e hoje em dia em vez incenso

fumas o ópio do povo!

 

 

Soma e Sumo da Sibéria da apagada e vil tristeza

desta tragédia que é comédia e não tem brilho

nem expressão de demográfica beleza

és motor de reacção a combustível proletário

quando tramaste o fim à história milenar

pela má consciência dos acertos da razão de estado

e gáudio do Primeiro Grande Chefe!

Premissa dos silogismos pequeninos

tamanhos poderes deste o pai nosso

que é nosso o colosso que de rodes

é o filho...do Patrão !

 

Hoje, és o Sol Moderno que em democrático saber

vibra de energia e poder num Instituto Politécnico

e vens-te sobre nós em cobre desfiado

por dentro da cidade!

 

Tu és um sol à mão útil e prático,

pó eléctrico enlatado nos telhados!

Da tua antiga a fé resta o enfeite popular

das típicas aldeias aonde morre nas candeias

o azeite da saudade pré-industrial

num vaso de manjerico, flor de estufa

salteada ao luar, fogueira de São-João!

 

Oh, diáfano mistério da luz e da ilusão!

Oh, leveza insustentável dos apertos da matéria!

Oh, ciúme delirante , fome e fé de todo o amor

desespero sem nome, miséria de te esperar

de mal amadas almas nas águas calmas do mar!

 

Oh, Sol! és Tu o Alfa e o Ómega

no instantâneo fotográfico do mesmo verbo Ser

conjugado na voz do lume que fumega vate e nume

no Logos das palavras do saber

em poeiras de nadas de infinito reviver

espalhado pelos fogos da paixão de existir

pelo preço da ilusão do espaço imaginado

para além do escuro

lá onde o impossível é pensável,

aí onde obscuro se esclarece

e tudo é nunca mais e o que virá a acontecer!

Depois de te inventar no azul do céu

fiquei zunindo à toa à tua volta,

perdi esta batata quente que comia e corri atrás da mão

que te pedia e intrigado, tu fugias-me também!

Olhei-te!...Eras um disco de metal de vil latão

tremeluzindo amarelo no sorriso, nu e só no azul do céu,

comboio de lata de brinquedo por comprar!

 

Ai, sol de inverno que de virgem não morreu

e não desceu ao meu inferno

e ao terceiro dia renasceu na minha origem

por despeito dos meus sonhos megalómanos

à imagem e semelhança do meu pai

que me partiu a cara de criança feita natureza

da puta que madrasta me pariu à força da razão

e na pura desrazão duma prática geral

marcou-me o funeral e eu...nem a sombra Te pisei, Oh Sol!

 

Assim eu aprendi que não valia mais a pena

olhar-te na penumbra paternal

e, descobrindo-te tão nu e roto no umbigo

vi-me nascido da semente dum Diabo Jesuíta

e apanhei esta doença da dor d´alma

que, com cio, se me põe de corpo mole

e triste ao luar e, por isso, fui expulso do que existe ao sol

e vim dar ao paraíso duma vida em ré bemol

e acabei por me encontrar com esta falta de juízo!

 

Se acreditasse em fantasias de mulheres a dias

e em meias melodias por cantar

nos cantos das capelas sem encanto de tabernas

onde as pernas dos perversos penitentes

se esfregam e entrelaçam como obscenos versos

já me tinha embebedado com o sangue vivo

dum místico carneiro e, com cara de pau, feito bispo Lusitano

e, por engano, ao almoço comeria

o corpo mole e moço da inocência

ou a alma duma criança por nascer!

 

É que um dia eu fui embriagado pelo mosto

duma mística esperança numa fé sem rosto

com que são baptizados os que da sorte são enteados

e embarquei à toa na arca do Noé da Catrineta

como proto-templário português e cavaleiro andante

condenado à morte atrás do taça da desgraça

do Graal de Portugal feito a granel

na mira de encontrar alguma graça

ao que de borla ninguém dá na CEE

nesta migalha ocidental da Geografia

que apenas inventou de divertido

o suplício quesiológico das rimas

dum zarolho ilustre que morreu sem primas

e, como eu, se perdeu nas caravelas dos outros!

E tudo pelo bem desta Nação e dos que dão

o cu e três vinténs por um naco de pimenta

num negócio de tabaco ou de canela!

 

E assim é que eu me encontro no homérico percurso

de sem mérito algum andar à vela no discurso

dum delírio silábico de Caríbides!

 

Procurando não escapar ao sol e ao ócio

do triângulo equinócio deste nosso amor ao mar

imitação do que serão as Caraíbas

todos perdem tecido ósseo por debaixo das Bermudas!

Meadas de idade, surdos-mudos e miúdas

tudo e todos lá se esquecem do mistério!...

Lá se tecem, cá se perdem

nas malhas do que foram neste império (s)e(s)colar!

 

Revoltando a areia das praias desencantadas

aperta-se-me a garganta numa crise de grande mal e asma

e espetam-se os nervos em mastros como improviso

desta vocação de navegante e de fantasma

de judeu errante em terras já conhecidas

mas que, de estranhas nunca assaz lembradas,

todos temem nunca vir a saber

que foram vistos a serem fodidos e fecundados

pelo espectro impotente do gigante Adamastor!

Só sabem fazer amor como escolares efebos,

dos que andam pelas valetas a beber

a loucura das punhetas coloridas

e acabam na pontas das baionetas

dos sebosos mancebos que já foram...à merda na Guerra!


CANÇÃO VIII

 

 

 

 

 

Ai, Galileu "galilei" filho da Lei de Prometeu

que de luneta em punho apunhalaste

a cega fé dos olhos poderosos

e libertaste o Sol da escravidão do mosaico celeste

aonde jusué se esqueceu dele

pasmado e acorrentado aos caprichos

da terráquea ilusão

e fizeste cair sobre os exércitos Suínos

de todas as Guerras Santas que hão-de vir

retalhos de bigodes de luar postiços;

Mandaste cair a chuva miudinha de planetas e cometas

e puseste o sol no seu lugar e tudo

e deixaste o mundo mudo

e a ver-se-lhe o cu, nu por um canudo fundo !

 

Este sol signo do poder inconsciente

da força da paixão da humanidade

louvado e escarnecido pela idade

do pensamento inconstante

e com mais olhos do que tripas na razão

há muito que se põe nu e indigente

nas praias dum azul e claro céu

de equações dif´renciais como as estrelas

com medo deste mundo em risco de extinção!

 

Ai, que a bela ideia etérea em verso

dum Sol que incendiasse o Universo de matéria

e de paixão não chega a iluminar caminho algum

nem mesmo o dos abismos do delírio místico

onde caiu a maldição da inveja

de quem teme ser picado pela víbora e deseja

adormecer enrolado nas raízes da mandrágora!

 

Loucos de fome e lucidez sem nome

passarão a eternidade a devora-se a cauda!

E no azul do céu que a custo respiramos

nasce um Sol moribundo de beleza especial

e aperta-se o cerco aos limites da certeza

grito de Cisne, belo de morrer

em estertores fanáticos, fantásticos de ardor

da dor térmica e nuclear

em sacrifício ao próprio Ser de renascida Phenix!

 

Já da grande ilusão da descoberta Cósmica

apenas resta a deserção monumental

em memória do cinismo do silêncio da história

circunscrita na ponta da caneta inconsolável!

Já a esp´rança de encontrar a luz do pleno dia

se dissipa na cauda dum cometa exp´rimental!

 

Mas, ai! Oh, decrépita grandeza!

Partilhamos enfim da glória efémera

de nos sabermos filhos ilegítimos do Sol

que fez ferver de vida a Terra Mãe!

Ai, Mito Solar cujo fulgor nos cega ainda os olhos!

Não te adoramos nas pirâmides mas,

e massacramos-te os mistérios nos anéis dum ciclotrão!

 

Descendentes dum deus menor e moribundo,

súbditos galáticos do Império Azul-celeste,

testamenteiros imprudentes deste mundo em extinção

dissipamos o ouro mitológico da Aurora

que, desde a hora em que a potência divinal

se anelou no firmamento

nunca mais o humano pensamento descansou em paz!

 

E no céu mora o Pai-Nosso que de zelo se devora

qual Phénix parideira, branca anã,

estrela da manhã de luz simbólica

com que o destino da memória se alimenta

de retórica energia na retorta de Platão!

 

Pai-nosso que no céu estrelejais!

Já tarde descobrimos a miséria que nos deste

e, mais cedo ainda havemos de morrer!

 

Ai, de mim filho bastardo deste Deus solar

criado semelhante à nossa imagem lunar

de caixeiros ambulantes sem bagagem

com que teimamos, sempre em vão, tentar a Deus

vendendo a alma ao diabo e Deus aos homens

acabamos por entregar, de mão beijada, a alma a Deus

e atirarmos com o diabo para as bocas deste mundo!

 

Oh, grande Roda Solar do desatino

da escuridão das noites de pesadelo,

por ti sou eu a luz que em ti nasceu

e deus serei quando em triunfo te enterrar

e encandear o mundo em teus segredos!

 

E de tanto semear a paz na Terra

colherei o amor volúvel da paixão

e a cor que me encandeia a face triste

do reverso embrionário da Memória alheia

ruída de desculpas nesta fé que não desiste

de acreditar nas maravilhas da História!

 

Tê-lo-ia inventado a este Deus Solar

da cósmica e infinita solidão do Ser

ou eu mesmo me faria estrela de cinema

ou General numa noite de solene bebedeira

se não tivesse sido convertido à brincadeira

da gaia Ciência do fazer comédia a sério!

 

E ao acordar do pesadelo do mistério da vida

achei-a mais comprida e divertida

e breve a agonia uraliana

dos ídolos deitados à lixeira

por séculos e séculos de vil progresso e brincadeira de cultura!

 

Porém, quem havia de acreditar ainda

que os Deuses Imortais possam errar

e distraídos, ter caído no pecado

de fazer-se de parvos e falar como os Humanos?

Sim, com os homúnculos terríveis

que amassaram por engano à média luz solar

do barro mais cigano que havia na Palestina!

 

As cabeças de faiança feitas à semelhança

da imagem da mioleira divina

ficaram mais duras

que a ditadura das Constituições Nacionais!

 

Mas, tudo se entenderia entre deidades senis

fartas da monotonia eterna!

Sim, qual seria o sempre jovem deus do céu,

Yavé hierático e burguês, aristocrático Jove

ou o Zeus Bé-bé Playboy, herói do olímpico alpinismo,

que desceria das brancas montanhas da neve eterna

em viagem de negócios por Espanha

sem se transformar em ventoinha

cada vez que a mesquinha humanidade

se lembrasse de vender-lhe a alma

por um pouco de pó do paraíso de heroina e cocaína ?!

 

Tenho cá para mim que os deuses, se falaram,

há muito que emudeceram, por orgulho arrependidos.!

(É blasfémia pensar pela cabeça da Primeira Premissa

que de tanto ter ido à missa

tenha perdido o juízo !)

 

Porém, o eco fóssil deste guiso que deixaram

nas sublimes palavras penduradas

nos salgueiros que dão flor de bem e mal dizer

não retine mais, na ferrugem dos ouvidos dos mortais

do que a súbita vertigem salutar

da hora de ter fome e ter onde ir jantar!

 

 


CANÇÃO IX

 

 

 

 

 

Ai, se ao menos este sol que tenho à mão

numa edição profana de Cosmologia

de todas as manhãs de tédio

à espera das previsões para o Verão,

não fosse um guarda-sol de praia roto

abandonado sem remédio

pela névoa sombria, desistiria de me perseguir,

como cão vadio com cio e cheio de frio,

a sombra da raiz quadrada que arranquei dos cabelos

partiria de vez de barco à vela à janela

do comboio fantasma dos meus pesadelos !

 

Ai, se eu pudesse evaporar-me o corpo mole

de raízes expostas ao Sol

deste lado do Mapa Mundi

povoado em demasia pelos sonhos,

mergulhava no fundo deste mar de fantasia

e renascia mais amargo ainda

sempre que sou replantado

num canteiro do jardim do cemitério da vida !

 

Ai, se ao menos eu pudesse um dia

voltar ao mesmo lado do começo

do fio emaranhado do destino...sem me recordar

do meu vago passado...do meu nome

e esquecido ficasse calmo em qualquer lado...

e fosse fácil morrer sozinho !

 

Ai de mim, que não me livro nunca de mim próprio

nem dos versos de rimas e trocadilhos,

nem dos impreciso e cadilhos divertidos!

Mesmo sendo a toda hora abandonado

nesta minha apagada e vil tristura

da candura diária e repetida

dos mesmos e pequenos vãos triunfos,

nos erros de sempre...(ai, banais e monstruosos !)

continuo com esta falta de ar e sem vontade de morrer

nem desistir desta existência incolor

vivida por amor quotidiano à mesma hora,

igual aos mesmos gestos de outros dias

sem jamais chegar a conseguir vencer-me ao desafio

que a mim mesmo lanço ao dissolver-me

nas vagas de pequenos nadas em que anseio tudo !

 

E fica o tempo a meio de caminho

nas esperas inúteis por amor

que não faça murchar a flor no vaso

nem dê aso à dor de vir a acabar sozinho !

 

Ai, eu que me atormento neste engano sério

já nem sei se creio em mim ou se deliro !

Neste fingimento de solene cepticismo

ora pasmo de tédio à tona caprichosa dos sentidos

ora morro afogado na corrente da razão

infiltrada como veneno

no meu pequeno e pobre coração

e no fim, lá bem no fundo

nem sequer penso nada sobre mim !

 

Sim, nada e mesmo nada que não possa dispensar

Ou melhor, é tão inacessível o que anseio

e é tão denso e imponderável o que penso,

tão normal e sublime o que eu desejo

que afinal, nem valerá a pena pensar mais

nesta fútil ousadia da procura

dum sentido qualquer que justifique estas aventuras

de lutar por um lugar no carrossel da morte

apenas pelo efémero prazer

de passar um dos três dias desta vida à luz do Sol !

 

Ai, que esta inconsciência de jogar aos dados

para andar, por amor, a enamorar-se da má vida

e acabar , por conv´niência, casado com o próprio umbigo

para sobreviver à força da razão

não é um mar de rosas nem sequer uma miragem

do suplício de Tântalo em filmagem

a que indiferentes nos deitamos a afogar !

 

E assim, é que vamos nos deixando ir

dando pulos de contentes como bolas de sabão,

cantando e rindo, faça sol...haja luar,

alternando o choro com o beijo,

dependendo do pão quotidiano como da existência

prostituindo-nos à esquina

dos mais breves desenganos

e, por amor à vida, leves nos deixamos

enganar pelo bom-senso da vaidade !


CANÇÃO X

 

 

 

 

 

Ai, de mim coração que não te entendo

o batalhar enferrujado do teu tic...tac

nem te sinto o rico-tico...tic-tic do teu riso

neste mundo circular em torno da girândola

dum pensamento profundo e impreciso !

 

Ah, se eu gostava de saber se vivo !

Porém, se é que eu nasci não me recordo

e todo me remordo e não me palpo

e sinto muito mal, mas...ai de mim

nem eu próprio sei se minto

quando persisto no vago sentimento

insidioso e fora do comum

de nunca ter sido visto nem achado em lado algum !

 

Pressinto não saber sequer se existo

ou se me invento a sorte quando me desminto

para contento do meu medo de pasmar !

 

E à força de insucessos sucessivos

com que imagino o ludíbrio diário

de trocar os passos ao passar do tempo

da morte dos instante repetidos

até faço de conta que é a sério

que assim mesmo me angustio

sempre que me perco neste sem sentido

de teimar saber porque procuro

ainda agora, sempre e apesar de tudo

a voz balbuciada no escuro

das coisas que comando atrás do muro

da existência fugidia dos instantes !

 

Ai, quem me livrasse de secar de tédio

quando fico para aqui a remoer

culpas sem remédio, mágoas sem doer

desculpas, raivas, iras e vinganças

pragas sem esperança cada vez

que à míngua de aguarrás, zás,

me regam as raízes com urina !

 

E então o meu sorriso fica liso e amarelo

e o meu canto de espanto só é belo em sendo feio !

Já nem sei se me lamento para meu contentamento

ou se tenho nostalgia das cebolas do Egipto

de onde fugiu a minha infância

atrás do tempo perdido !

 

E tudo isto dito e feito em brincadeira séria

com trocadilhos de miséria e sentimento

e assim fico enrimado e ensarilhado de mau gosto

e perco o rosto, a graça e o respeito

e fico a falar muito e só resmungo

e o meu intuito de acabar com este mundo

faz-me ficar a chorar ás gargalhadas,

sem dizer nada de jeito !

 

Ai, este maldito anseio de me ser e de sentir

nisto tudo ao mesmo tempo

e ter receio de morrer a contratempo

e não ousar por tédio ser ridículo

em sendo mal recebido, quando nu, em público !

 

Porque um dia, se calhar a ter coragem

de me deixar desfolhar pela aragem das rimas

e ficar sem parra e pouca uva ao Sol e à chuva,

hão-de-se rir de mim !

 

Ou, pior ainda, haverá quem tenha dó

deste pobre fala-só, raivoso e mal amado,

vaidoso da verdade antes do tempo,

descarado e mesquinho amante da beleza sem idade !

 

Mas,...se eu próprio não me importo

de estar ainda aqui de pé

ou andar morto de tédio e cansaço

que se riam! Ou então, nem se lembrem mais de mim !

Quem me achar louco e me chamar poeta

por ser pouco isto que eu valho em ser pateta

é sinal de que não têm quem lhe sirva por espelho

onde se mirem no que todos temos sido

ao ser cretinos que se ignoram

no medo de falhar e ser comidos pela sorte

e mais tarde ou mais cedo

nós todos nos havemos de espalhar bem ao comprido

nos tapetes da morte aonde em desespero se manobram

os freios frágeis da loucura !

 

E é por isso que eu tenho estes ataques

de lúcida estupidez e de mania

de me atirar de pernas para o ar com altivez!

Transplantado-me do chão do meu cómodo sossego

cá me deixo ficar no doce enlevo, de raízes ao Sol !

 

Sequioso de beber a vida num só trago

me embriago a gozar a solidão

na terna companhia amarga e doce

da eterna complacência da ilusão !

Ao dar assim, comigo triste e só

tenho dó da criança que não quis crescer em mim

e fico-me a acenar impaciente como lenço de saudade

ao doer-me a Nostalgia

de sentir os meus desejos inocentes !

 

E a pouco e pouco dou comigo em louco

encontrando-me na idade dos bocejos

cansado de querer-me me existir

e com vontade de dormir...dormir

e ir-me embora para sempre!

Então...todo enrolo-me

à doce melancolia

dos sonhos acordados e divago em fantasia

e acabo nu e só, deitado-me comigo !

Porém, pobre de mim, ainda que me atirasse,

com fúria de cão esfomeado, à vida e vagueasse

por esse mundo fora feito outra gente

pela frente a memória me trairia

dando-me a farejar a Nostalgia

das horas gastas pelo rasto umbilical

das primícias das origens uterinas !

 

Ai, ai de mim...alecrim aos molhos

por causa de eu ser assim é que os meus olhos

se embaciam de tristura na verdura

dum Horizonte impreciso e distante !

 

Ai, ai de mim...alecrim doirado

que nasci no fim dum tempo vindimado

pelo canto amargo da ira e...do diabo

ou dum raio divino que o derreta!

Gostando de viver junto ao encanto do inferno

temo queimar-me nele e a ele eu me condeno

neste diário purgatório que abjecto

quando deixo que me expulsem

do paraíso de inverno

do meu desconcertado conformismo !

 

Por vezes já me julgo edificante

qual castelo de espuma construído pelo ar !

Porém, das dimensões dos cantos cardeais

que me sustentam em pé

sorvo o sabor da porcelana velha

quando, mal acordado, bebo o meu café

com cara de sacana inconvincente !

 

E é há hora da sesta que mais suo

as gotas do martírio em pensamento

pingando como lágrimas de efémero cristal

do meu firmamento em súbito delírio

quando o sol se me põe do outro lado do céu

à medida em que o tempo perdido a imaginá-lo

se me vai pintando em verso o véu do rosto distraído

no reverso do cenário que anuncia o fim do mundo !

 

Ah, porque é que eu não caí ao poço do delírio

da vaidade de buscar-me um ser maior que o meu?

Porque não vai ao fundo do vazio

o vão orgulho deste desatino estético

que é nunca decidir enfim ser eu ?

 

Mas, ai de mim que o desvario não tem fim!

nesta sorte desgraçada ou mal nascida

hei-de ser fumo sem fogo, alma de fumo,

fogo fátuo e dor de alma de palha!

A minha maior pena é não ser cinza

nem já fumo nem sequer feito de nada

e ter a alma pequena em demasia

para que não canse suportar-lhe a companhia

da suprema e insensata ambição

de sempre desejar e ter razão !

 

Ai, de mim que sou tudo sendo nada

e ainda que o próprio nome me olvidasse

por toda a parte a fome de viver os meus desejos

me haveria de encontrar no desajeito e nos ensejos

com que me hei-de arrastar a sombra da lembrança

que uma onda sinuosa de trejeitos e bocejos

tracejam e projectam sobre mim !

 

Ai, de mim que do alto da ambição de me encontrar

levito sobre a ponta dos meus olhos

sempre abertos à beira dos abismos da ilusão!

E é fugindo dos escolhos da existência

que a mim mesmo me atiro e afogo em complacência

num pântano de ideias movediças !

 

Ai, de mim que jamais me vou ao fundo

nem imundo me venho à superfície

de mim nem de ninguém!

E todo me remordo e não me palpo.

Se me toco, nem me perco, nem me agarro

quer à flor da pele dos meus sentidos exaustos

quer na intimidade

dos incautos segredos tenebrosos!

Que eu nem nos nós dos dedos sinto a dor de corno

nem nos cotovelos o adorno da razão !

De alto a baixo me disfarço a imprecisão

e logo do avesso me desfaço em rimas !

 

Desde a planta dos pés de malmequer quebrados

à raiz dos cabelos ouriçados de matrona e manjerona arrependida

coço o desassossego mas não ando bem

nem me mando andar !

 

Falo e calo por calhar e fico mudo

para tudo o que me faça ouvir o canto das sereias

num mar aonde nem sequer serei as saudades

do pranto das basleias que se vão comigo

ao fundo da extinção do mundo antigo !

 

Ai, ai, ai de mim que não me iludo enfim

nem me vou ao ar, nem largo tudo ao chão

e deixo-me pasmado em qualquer lado

a ver passar os navios da ilusão

de ser cavalo andante e pau mandado

sonhando correr mundo em altas cavalarias

fingidas, tristes e desgraçadas

e sem graça alguma!

 


CANÇÃO XI

 

 

 

 

 

 

Um destes dias faço as malas, vou à vida

ou imigro para os antípodas da utopia!

Por enquanto fico a meio da viagem

ao sabor da aragem dos meus cais de embarque

para a outra banda do tempo perdido

mastigando a fome de desejos

com os cabelos do peito

e acho de bom gosto feito de cinismo

este desdém que cultivo com a raiva masoquista

que me resta por cicatriz indelével

da juvenil castração educativa!

 

Sempre aquém do pranto mais sincero

desespero em eternas ninharias

e lembranças sem um rosto definido

que só de as murmurar

se me parte a compostura falsa

de adulto com falta de vergonha

e a criança tristonha no âmago de mim

desata a chorar

e eu...fico assim...sem jeito nem juízo!

 

Ai, que um deste dias perco a cabeça

e despeço-me da escassa coragem

e parto em viagem

Qualquer dia espreguiço-me da  alma

com tal força que a desfaço em mil pedaços

pelo mundo todo em nadas repartida

e estico os nervos, gastos de sentirem

os laços do tempo, num solene estoiro!

 

Qualquer dia tombo nos meus braços

e adormeço-me de vez neste regaço

da identidade que me descuida o ser

e deixo-me caído sobre mim!

 

Ai, de mim ébrio de místicos delírios

abandonado ao prazer de adormecer tão solitário

quanto ás sombras enterradas entre os lírios

da virgindade perdida num sacrário profanado!

 

Ai, de mim que vomito a própria alma

que se esfuma em turbilhões de pesadelos

pela calma raiz quadrada dos cabelos!

Ai, pobre de mim que defecando estou

a minha nobre vocação

de macaco poeta impuro e malcriado!

Se me evacuam pelos olhos os miolos orgulhosos

e desfaço-me monturo de mau cheiro

em detritos sólidos, líquidos e gasosos!

 

Depois que devorei a Lua cheia de velha história

fiquei com ela indigesta na memória

e a cada passo apanho uma camada de maleitas

e diarreia de alma em frases feitas

e queixo-me de insónia e cefaleias de tensão

e hei-de acabar por rebentar de choro

ás gargalhadas e granadas como balões de São João

se não perder de vez a estupidez

por excesso de juízo!

 

Em vão me lavarei, na inconsciência líquida

dos meus íntimos anseios de pureza,

do viço pegajosos dos desejos sem beleza,

da vontade dissolvente de os sofrer!

De pouco importaria que da alma me despisse

os espírito malignos da vaidade de ser eu!

 

Ainda que passasse a passear a consciência nua

à noite, à luz dos públicos luzeiros da ilusão

uivando à lua aí, sem dó de mim,

seria sempre a minha solidão a fazer-me perene companhia!

 

Se andei a perder tempo atrás da pouca sorte

foi depois de ter sido condenado a ser assim

a modos que de costas para o Norte,

com o pecado original pendurado nos testículos!

 

Mal parido à pressa e ás escuras,

filho duma mãe que me abortou entre cubículos

e me enrolou a pele do rosto e o juízo

num pano roto de lã sujo de mel

e deixou-me perdido, por atraso

no pagamento da renda, ás portas do paraíso!

 

E teria pasmado a vida inteira

ao calor da fogueira deste Inferno que se odeia

se não tivesse caído ao chão

e perdido o fio à fé, o prumo aos instintos

e o prumo à bitola da razão!

E já nem peso, nem medida me equilibrariam os passos

com que arrasto o padre nosso destes dias todos

desfiando-me um terço de bocejos

e um quarteto de abraços nesta noite

em que dei comigo em agonia

aos beijos num espelho de fantasia

estilhaçado por sete anos de azar e distracção!

 

Nesta digressão de labiríntica saudade

pelo espírito maligno da minha contradição

não me tendo redimido nem me tendo resgatado

olvidando-me julgando-me encontrado

eis que vou congeminando

a morte lenta da eternidade

embalando-me na dança diletante dos abraços fugazes

nos instantes efémeros pelo tempo perdido a procurá-los!

E é lá onde todos passam simplesmente,

sem pensarem lembrar-se disto mais;

lá onde colhe a gente, sem dar conta,

a miragem da verdura do sorriso

e da vaga imagem o êxtase perene à flor da pele

no despontar da bela aurora

à tona dos olhos d´água e nos lábios de mel,

nas margens dum rio e à beira dum mar

eu canto com voz feérica, como a pedir esmola

o enterro triunfante do meu Estro

e choro de saudade pela homérica viola!

Maestro!...raspe daí a valsa fúnebre!

Pudesse antecipar-me à glória póstuma improvável

do meu próprio luto não temendo

da máscara o esgar nem da nudez,

decrépita dos anos, o público sorriso!

Mas, ai de mim que nem mesmo as aves do paraíso

me farão poleiro no meu mausoléu

nem vão subir ao céu os meus sorrisos mona-lísios

descobertos por compaixão num caco de Bordalo

de penico de bordel pelos ventos alísios!

Ai, nem os meus heróis de banda de cordel

me embrulharão a alma incurável

numa folha de jornal dominical

e o meu corpo retalhado e nu

por toda a parte em mil pedaços repartido

há-de ser esborrachado no chão

dos necrotérios que são os grémios literários!

Ai, de mim que me alegro e arrefeço

e sou e não me existo e sou ninguém

enquanto não desisto de ser Santo ou Vil Diacho

e não passo a ser humano sendo alguém!

Ai, de mim que me contento na tristura

desta ternura doce e calma

que mais do que doer-me a alma me anestesia

de acre-doce e melancólica saudade

pelos raros instantes de felicidade da lembrança

que mais do que ensombrar-me um futuro sem tardança

me iludem na linda maravilha

duma presença assim vivida

e que de prolongar-me com a idade não se finda

a perversão dos gostos com os desgosto da vida!

 

Ai, que este desvario não me larga

nem se perde atrás do fumo do cigarro

com que escarro distraído, o sem sentido

do pouco da vaidade com que sou o que não sou

suspenso dum qualquer prumo!

Ora pisando o risco em qualquer linha

ora sonâmbulo equilibrista!

Suando a incerteza em sangue e dor

seja cheio de tédio

seja exangue....e sem amor!

 

E estas rimas de impropérios dum ático sabor

jamais servirão de pretexto a exercícios

de contexto temático e tauromáquico

para que os alunos do terrestre império

se masturbem a preceito em soleníssimas sessões

de gerais desflorações da ingenuidade

debutando nas artes fraudulentas

do orgulho e presunção

em nome da vaidade da Nação!

 


CANÇÃO XII

 

 

 

 

 

 

Uma grande maçada estrepitosa é o que isto é!

Nesta mascarada de girândolas e gritos

ando a descer comigo ao cemitério

vestido de esfinge sem juízo!

E, depois que me encontrei bem pouco descritivo,

fartei-me de enigmas

e deixo inacabado este mistério

do incesto perverso e primitivo!

 

Ai, se o meu mal é sono eu deveria ir dormir

para acordar em sobressalto, bem ou mal disposto!

Porém, sem que eu gostasse do meu rosto

fiquei narciso enamorado dos meus sonhos

e acabei em pesadelos mais medonhos

do que o susto do velório dos meus dias

onde como os demais lá vou matando as horas

na dança das delongas e demoras

da procura de ser o que parece ser

e nunca saberemos se somos o que é

até que nos rebente na cabeça

o balão da fantasia e aconteça o que acontece

sermos afinal crescidos em demasia

para andar a dar saltos mortais

por cima das armadilhas incertas e indiscretas

da memória que nos tece a consciência do ser!

 

E assim, nunca me encontrando certo

nem sequer indefinido até ao fim,

nem seguro do meu digno desatino

de indivíduo dividido...traço a traço...

nas tintas em que me estou

de inútil salvador do que me resta de mim

abraço o fim do mundo em que nasci!

 

Prolixo e sequioso ...e de valor variável,

para aqui me deixo triste, coração,

no desleixo de me pintar um rosto ansioso

ao de leve...E assim se existe

sofrendo o abandono das promessas

duma morte breve...quando esta se prolonga

quanto se alonga a vida!

 

Ai, se pelo menos eu pudesse adormecer

sem sobressaltos por ter medo de acordar!

Ai, se eu não tivesse a alma esfarrapada

por excessos de mania em melhorar o pensamento

de certo não metia as mãos nas teias dos sonhos

pelos pés de meia dos desejos ás aranhas

contraídos em bisonhos sentimentos

noites dentro e por dias após dias

à beira da estrada do desespero!

 

Ai, se eu fosse a calma desse estar p´ra ai

em qualquer lado da linha indecisa do horizonte

na vastidão imprecisa de tidos os possíveis

ou à sombra desta esta árvore impassível

despida pelos dedos do vento

ou fora a linha argêntea e cristalina do ribeiro

e andasse satisfeito, feito cão rafeiro

ou fora ovelha dum rebanho de gente

em tarde de passeio de domingo!

 

Ai, se alcançasse enfim as soluções de pensamento

para nem sequer as pensar!

Nem saber senão esta inefável evidência

de nada entender das íntimas razões

que nos levassem a ficar aqui e não ali!

Concordante com as minhas incertezas

aceitasse por destino a condição de condenado

à vocação dos encontros sublimes da ilusão

que me encobre na angustia do ser e do não ser!

Ai, que então já não seria eu a desejar-se

o próprio orgulho inconsistente e desmedido

da evidência do vazio nos limites infinitos

da dependência ontológica dos gritos dos sentidos

vão suporte da ilusão dum corpo indefinido

na vertigem de vir a possuir-se

na origem dos seus próprios sorrisos fugidios!

Ai, este inferno mórbido de fatídico delírio

este olhar-se para dentro e dar consigo dividido

oco, intangível e sem sentido!

Ai, este remoinho dum em si profundo

vortex imundo que a si mesmo se devora

trajecto incerto fora pela cauda dum buraco negro

aberto no coração do próprio ser!

Ai, fosse assim eu mesmo sendo apenas isto

sem que me perdesse na loucura em que persisto

ao dissolver-me em raciocínios sem começo

num saber de que padeço como lógica mecânica

dum complexo de culpa cultivada e titânica

num jogo de cefaleias de palavras cruzadas

em todos os sentidos ao sabor

dos vento contrários do destino!

Porém, a tempestade dos lamentos passa

com os últimos lampejos da revolta dos intentos

e eu regresso à guerrilha dos instintos

aos mesmos gritos e suspiros metafísicos

aos renovados sorrisos da impotência da lembrança

e a crise desta angústia da existência

volta a acelerar-me a dança do coração!

E , sem dar conta, aos poucos vendilhando vou

a alma a Deus e ao Diabo e, ai de mim,

pelo menos não fora ao desbarato!

Ah, que a ter de viver assim...suspenso

da minha própria inércia

deveria primeiro devorar-me a consciência

ou alcançar quem me despisse a alma

e me lavasse o sarro do bom senso e da razão!

Ou, então que me tivessem crescido

em vez de, bem nascido e bom mamífero,

pêlos, garras e escamas sobre a pele do corpo

e no lugar dos cabelos, espinhos

e onde me escorre a voz, saísse um pífaro

e dentro do meu crânio...nada...

a não ser a ideia fixa de viver ou de morrer!

Ah, que não desisto de sonhar-me menino semideus

que por engano o pai mimou cedo demais

e logo arrependido deixou nu

e displicentemente triste e belo

sentado na revolta mal contida

ás portas do sol poente e abandonado

atrás das grades da prisão da própria liberdade!

Ah, porém, se me devoro sou pudim de gelatina

moldado numa teia de invisíveis dedos

gratuitamente abstractos...

desesperados e fúteis em demasia!

Ah, fosse eu da fúria a força que percorre

as veias venenosas dos possessos

tivesse leite azedo em vez de linfa

e, nos miolos vinho, azeite e fel!...

Ah, que era então que eu me comprava ao desbarato

ou me vendia deus em minhas mãos

à vida de beato diletante em que me esbanjo

como agora pelos cantos desta hora

onde padeço de tédio sem remédio

agarrado aos fósseis vivos da saudade

dos amores e dos amigos que esqueci

Ah, se pelo menos eu soubesse ser

um badalo do sino do rebanho ressoando

qual livre cidadão mação e bom cristão!

cordeiro submisso, omisso me quisesse

a vegetar sem qu´rer saber demais,

nem ter os olhos despertos sobre a morte

que transpiro pelos poros da ansiedade!

Ah, quem me dera não ser alma de poeta sensível

ou tê-la mas muito bem embalsamada

numa conta bancária grande e bela!

Ah, que eu fosse bem capaz de ressonar

como porco burguês levado a assar

com enfeites metafísicos e sem desculpas

nem escrúpulos políticos nem pruridos estéticos

nem utópicos receios de moral e presunção!

Ah, e sobretudo que eu perdesse esta mania

de sempre ter razão antes de a ter

mesmo quando me descubro a lucidez

de que eu sou somente o burro racional

que o não sabe muito bem, nem é feliz!

Ah, não ter desejos de grandeza de alma

nem maior ambição do que aprender a morrer

envelhecendo nos recantos esquecidos

do muro da memória ao lado dum amor certo e seguro

e, como todos, viveria de ilusão e de fadiga!

Assim desesperado nunca perco a esperança vã

de acordar um dia de manhã com sorte

tendo ganho à morte, na lotaria!

Conformado com a leis seguras do acaso

continuo a imaginar que possa um dia

triunfar para sempre

sem primeiro morrer desta agonia lenta!

Assim, não sabendo respirar em vão

mergulhando no fundo das promessas da alegria

sem suspeitar no começo o riso cadavérico do fim

da minha vocação de imperfeito vencedor de fantasia

eis-me enredado nas malhas do meu ser

que tudo se deseja não sendo coisa alguma!

Afogo-me num mar de sapiência vã

arrastado nos enganos incertos dos instantes

dum presente repetido no futuro da lembrança!

Sem coragem para ir até ao fim

na busca impossível da verdade em desalinho

deveria leiloar-me a qualquer preço

se eu não sofresse de vaidade sem orgulho

e não fora a marioneta do destino

nas mãos dum esboço de incertos projectos

da cínica invenção dum desvario contido

pela minha condição de humano distraído

quando atento ao medo sem sentido

dos momentos inconstantes em que o ser se perpétua!


CANÇÃO XIII

 

 

 

 

 

Passo a vida de abalada para outra vida de aventura

mas não vivo em nenhuma esta procura

dum ponto de fuga para onde se me escape a alma

num outro lado da curva da estrada da ilusão

duma outra dimensão do pensamento;

E assim perco o tempo a imaginar o espaço

da entrada triunfante no regaço dos desejos

dum sonho de vitória sobre a morte

da triste sorte do meu dia a dia

monótono, sem graça e sem memória!

E cá me vou deixando mais a andar do que a ficar

sempre...sempre sem chegar a ter coragem de partir

nem que fora para não voltar de parte alguma

já que não consigo imaginar-me a desistir de vez

nem me conformo com o gosto do inconformismo

nem ao desgosto da sábia estupidez

a que afinal me encontro condenado!

E tudo isto assim sem rosto, eu amo

como outrora e amarei até ao fim

tanto e sei lá por quanto tempo mais ainda

e quão mais longe e fundo o ódio me doer

dos que na lembrança desdenharam deste etéreo amor!

Ai, que eu amo e odeio tudo e todos com tal dor

que promíscuo habito nos espaços do sonho

com as sublimes e imundas essências da vontade

de ser dócil senhor da vida

e duro escravo da verdade!

Nem sei se o que abomino mais

nesta angústia dum passado sem história

é o que do Amor/Ódio na memória me resta,

se o saber que as rugas na testa

não são nada do rasto do que fui,

se o rumor que das vagas se dilui

sem conseguir fazer florir

os sentimentos da saudade,

se, o lamento que me deixa a ruminar

remorsos do que não valeu a pena

e, se calhar, me poriam a sorrir agora!

Ai, deveria ter deitado fora a minha infância

quando ainda não sabia ser assim tão infeliz

em teimar não ir perdendo a inocência

com a minha secreta virgindade

do ser que eu amo ser, não sendo nunca

ainda antes de o ser assim negado pela idade!

Estou doente, infectado de gracejos e azedumes

apanhados como balas de mil beijos

na guerra dos instintos de explorados vaga-lumes

da dor e do amor, de ser e de sofrer!

Sou nada, e é tão certo nada ser

quanto é seguro que os meus sonhos mais lembrados

se perdem na ilusão de não ter tempo

para os voltar a sonhar mais outra vez!

Pó do tempo que passa na miragem do saber

sou tudo e nada e tanto e tão pouco tempo

e quanto mais ainda sinto a indecisão

do que nem sei se fui de todo este excesso

que esperei chegar a ser um dia!

Nem Deus nem o Diabo me consolam

nem eu me salvarei de ser o nada que já sou

porque Aquilo que é Ser é tudo quanto existe

e do real do qual se sabe tudo pouco resta!

Do conteúdo do mundo sobra a sombra

do que somos no reverso da moeda

que se troca pela face da aparência

nos encontros concorrentes dos instantes

que em instável conjunto se completam e contrastam

e de alterna exclusão se integram na existência!

Do que se ignora se vislumbra a identidade

da insustentável ligeireza do ser

que apenas permanece como rasto na memória

nas formas da inconstância da aparência

da mutável contingência

do espaço e do tempo das coisas!

Das vitórias da vaidade celebrada

já as cinzas da lembrança se espalharam

sobre as tumbas orgulhosas da vontade!

Semeadas aos quatro ventos da paixão

renasceram nesta dor das idas alegrias

que nos deixam a penar em lágrimas de orvalho

desde o nascer do riso ao abandono do Amor!

Oh, insondável imanência da lúcida demência,

pitagórica mistério da sagaz filosofia!

Se afloramos os cumes do inefável

a verdade nos derrama nos abismos da incerteza!

Ah, saber sublime que nos põe a delirar

sobre o vortex que se rompe

sobre as fendas incisas numa dúvida infinita!

Se a clarividência não nos aniquilar pela loucura

mata-nos de dor de encontro à berma

da valeta do real duro e tangível!

E eis-nos no alto da brancura das montanhas

nus e gelados de saber aterrador

fascinados de estranheza na beleza da morte!

Procuramo-nos nas coisas desta obscura vida

e a verdade oculta da razão

no voo majestoso duma águia tão surreal

quão sublime, a amplidão do céu do pensamento

e eis-nos lançados ao sabor do vento

atraídos por certezas desde a origem do tempo!

Oh, Deuses que jamais seremos!

Oh, Ser de que já somos

esta efémera emergência dum só eu!

Ai, Vida impossível sem a morte dos instantes

Ai, Amor que se destoa ao mitigar a raiva!


CANÇÃO XIV

 

 

 

 

 

E a esperança é vã sem esta lucidez,

sem a fé na vitória sobre a guerra invencível

contra a nossa miséria de eternos insatisfeitos!

E ai, de quem se deixar distrair

com discursos generosos!

Nas costas dos oprimidos

ocultou-se sempre a sombra do poder da ordem nova!

A voz que decretar a extinção da tirania

já anda à noite na calada e em surdina

a cavar a sepultura dos Heróis

e a vala comum onde havemos de enterrar

os sonhos imortais ceifados um a um!

E depois a revolta há-de cansar os justos

e havemos de ansiar pela própria sujeição

quando nos fatigarmos com as incertezas

das certezas e loucuras próprias de cada um!

Porém não desesperes visionário da ambição

de ser maior que o ser de todo o mundo

porque a sede de vontade

sobe ao alto e desce ao fundo

para olhar pela pirâmide invertida de Moisés

e toma por panorama a vitória de Ramessés

sobre a quadratura do fuso!

Mas, como quem, qual rã, inchar e ao céu subir

como balão festivo há-de estoirar

há quem se gaste de avidez numa existência dura

invejando da miséria a ligeireza irresponsável

duma dura servidão imaginada de doçura!

Ter orgulho e dignidade e ser humilde ou indigente

é tudo quase...quase equivalente

a muito pouco ou nada, que ninguém quer confundir!

Por pior que seja o verso que deste real se canta

cada um se espanta com o reverso

da sorte que nos couber!

Com nobres aparências se constróem qualidades!

A alteridade das formas invariantes

realçam a diferença que reforça as igualdades!

De coisas vis se veste a glória deste mundo

e se nada valerá tudo, nem é tudo igual a nada,

bom ou vadio, alto ou mesquinho,

com mais ou menos tempo de fermento ou de tempero

consegue-se um bom vinho

para beber antes de azedo

ao tirar-mos as medidas ao nosso próprio caixão!

Com saudades do jardim das maravilhas

atiramo-nos ao ar e partimos o sorriso

das caricaturas com que mascaramos a alegria

para não chorarmos de surpresa

quando o céu nos cai em cima da cabeça!

E em glória e agonia suportamos o prazer

da hemorragia de viver perdendo a vida

tanto mais pressurosos quanto mais nos alivia

com a idade a vontade de sonhar!

Julgando fugir à morte é mais depressa

que nos braços abertos nos deitamos nela

desde o dia em que nascemos finitos e mortais!

Ai, de nós filhos dilectos da má sorte

de olhos abertos para a imperfeição das formas,

carentes da completa saciedade dos desejos,

famintos inconsoláveis de ilusão!

Oh, Ente intransitivo e inefável!

Oh, Ser que só te existes em perene mutação

e se definha assim que pára de inventar-se!

Em cada instante nos promete a um novo céu

e acabamos por cair no mesmo inferno diário!

Deitaremos o fogo ao inverno e afogaremos o estio

e por teimarmos assumir forma divina

criamo-nos demónios à lareira

moldados à imagem semelhante aquela

com que deus nos ilude a identidade!

Uma maçada complicada e divertida

esta coisa de existir no pensamento

por força desta lei universal

da relativa desrazão das relações

peculiares dum real em desastrado

e imparável movimento!

E ao mesmo tempo comprovamos a contento

a unicidade dos plurais

na indiferente igualdade dos gerais!

Ah, que mais que a plenitude do vazio

se me agarra à garganta o asco sem sentido

das palavras que se formam e transformam

sobre o pó dos sons iguais a tudo e a nada!

Só assim é que é possível encontrar

em cada termo a justa sensatez

com que se passa a ser de tudo um pouco

sem que se chegue alguma vez a descobrir

o sentido original de coisa alguma!

E o mais divertido é que este mundo é sisudo

quando não nos convertemos num pouco de coisa séria

sendo um tanto de nada e outro quanto disto tudo!

E á hora e no lugar mais condizente

lá vamos ingerindo mais um trago

por qualquer continente o conteúdo certo

e a seu tempo até mandamos tudo aos Malmequeres!

E assim não sei se a vida a que me agarro

de tanto me pesar me sobra em pranto

ou se um quanto de escarro e de má sorte

me infiltra e tolhe os passos desde que nasci!

Porque afinal a existência resume-se a bem pouco

lutar contra a corrente inglória

das forças do contratempo

conseguindo apenas atrasar o fim da História

entretendo em passatempo o pensamento!

Se sinto é que pressinto em demasia

ou pelo contrário minto

e finjo ser um triste com espírito

ou um pobre diabo de rabo alçado e sem graça!

Já nem nos nervos a ilusão se apaga

e os sentimentos deixaram de os pressentir

e do mundo sorvo o mal e o bem que me convém!


CANÇÃO XV

 

 

 

 

 

Ao parir-me a minha mãe guardava um burro

e ao picar-se num cardo deu um urro de susto

e deixou nele o busto e a minha consciência

que nunca mais deixei comer nem ganhar surro!

Já me plantei e arranquei de ponta a ponta!

Já me dei ao trabalho de viver na inconsciência

mas pecador me confessei vezes sem conta!

E se eu me justifico logo fico arrependido

com o dito por não dito e o efeito por fazer

e se prometo me arrependo e se me emendo

deixo sempre outro soneto inacabado!

Tanto faço o que não devo

como caloteio o que me empresta a vida

que penso decidir não fazer nada

ou dar-me um tiro na testa!

Francamente, não é desta ainda

que eu irei ficar de bem

com a pele da minha consciência!

(como se algum dia alguém o tenha estado!)

Ah, e muito menos sentir-me na dos Deuses Imortais

sem ouvidos venais para a calúnia infinda

da crítica em cadeia dos jornais

onde qualquer notável desgraçado

tem a sorte de passar por tudo

a não ser que seja mudo

ou não saiba escrever!

É este o mal de se ser Analfa-bruto:

não ter nome de defunto a defender

nem azar por ser astuto!

E pouco menos sou eu

nas tintas com que me estou

para pintar o fim do mundo das ideias

e que me chamem cobarde e o que quiserem

que só temo a morte estando vivo!

E não ser um gato maltês

com sete bofes de freguês da drogaria

para arriscar na lotaria nacional!

Porém, não é sempre neste meio

que a virtude se mascara

porque então é que eu seria educativo!

Não!...Virtude é que eu não tenho! Nem na cara,

a menos que tivesse a vara de Moisés

que então...passava vida nos Cafés

no grande empenho de lavar dos miolos humanos

os restos dos dez mandamentos.

Bah, que desejais de mim, pregadores de más noites

tranquilo como estou desconsolado à mesa do Café?

Bah, e eu próprio que me quero

nesta permanente e escrupulosa complacência

de penitente que sou quando um pouco macaco

e um pouco menos louco e mau poeta!

Pateta é que eu não sou

ora fascinado ora condoído

por abraços e chicotes de palavras!

Mas que me querem então?

Que me cale de vez

e encha a boca de orações ideológicas

ou preferem que me atrele ao carro eléctrico

aos ouvidos do consenso universal?

Bah, se soubessem o que trago

na ferrugem dos miolos...não teriam dó de mim

quando faço honestas concessões ao bom senso comum!

Ai, de mim, que nem sei se era assim que acabariam

por deixar-me ruminar em paz

os meus próprios exorcismos!

Bah, na caixa craniana há muito se enterrou

a múmia do molusco prematuro da minha alma!

Já "in útero" me apertavam os testículos

e agora que começo a não estar a mais

nesta casa de malucos lúcidos

e de cegos, surdos-mudos que é a Humanidade

aos saltos mortais pela memória universal

eu farto-me de rir e começo a chorar!

Ai...ai...ai, de mim! Disciplina mental, Eu?!

Era o que mais me faltava agora!

Bem me bastou andar à nora

da irrecusável repressão paterna!

Metido na prensa heráldica

duma rígida educação Católica Apostólica Romana

sacana, puritana e diabólica

sei lá que merda de filosofia de vida

destilaria eu se não tivesse

dito Amem à histeria bem educada

da pequena burguesia!

Ah, mas enganei-os bem aos profetas da família!

Há muito que eu desisti da herança castradora

da miséria bem gerida e socialmente bem cotada!

Na asneira de tomar a vida a sério

e passar à concha cúbica do lar

e apanhar bolor a dois...ou três...ou em comuna

antes do tempo, é que eu não caio!

Bom pai de família eu? Não me façam chorar de gozo!

Errei a vocação de capador

ao engolir de susto o meu apito

quando o filho da puta do dito

me quis capar fora de tempo!

Se tiver que ser pai...ou mãe...

ou outra qualquer causa genética de alguém

hei-de matar-me o pai tirano por paixão

de ver passar filhos, cadilhos e pessoas

que me quiserem seguir

nos caminhos inóspitos da minha liberdade!

Mas, assim que hei-de eu fazer?

Passeio-me na Praça da República

e leio os "momentos" que a República Pública

sem ter que defender os ideais republicanos!

Passaram tantos anos desde a Queda da Bastilha

que já ninguém pensa sem uma cartilha qualquer

nesta terra onde se esconde por vaidade a fome!

Ser Anarquista de nome e Pacifista

sem fazer o que se quer

não é melhor do que ir à guerra suja e ficar puro

e não morrer por ter amigos com poder

ou saltar o muro e fugir para França

para ser terrorista à toa e em Lisboa, burguês

ou então ter em África uma lança

e andar por cá na dança Anti-Fachista

porque o mundo é dos cães polícias

e apenas sobrevive quem tiver cabrestos coloridos!

Comodista eu?...meus anseios são modestos

Se o baptizar-me fosse o necessário

para ser o que nem sei se sou

até me chamaria dicionário

só para evitar que me arrumassem na gaveta

dos assuntos liquidados

com a etiqueta mortal: Reaccionário!

e venceria numa drogaria a rotular veneno!

Ai, Coração que se eu fizesse reacção

mesmo num pequeno motor a quatro tempos

não ficava tantas vezes com o rabo entalado

em histórias levadas do diabo!

E tudo por remar contra a maré?!

o que de facto não é de grande sabedoria

para quem perdeu a fé na própria razão!

Como é que hei-de acreditar no fim

da História da Salvação transfigurada

na fábula bucólico-folcolórica

onde nem falta o lobo bobo alcoólico

entre ovelhas ás parelhas e aos saltos!

Comigo nem vale a pena insistir

pois, eu dou a toda a gente a glória de ter razão

já que os que a julgam ter me fazem rir!

Só peço, por favor não me mordam na alma!

Não sei se tenho desses luxos

mas se não tenho voos altos não me enrolo na lama

que o que eu quero é calma...muita calma

e gosto de cama e dum café bem feito!

Bolas, não teremos pelo menos o direito

a nos treinarmos a aguentar de pé

na cela que nos dão na frigideira que é a terra?!

Pois então que façam festas e guerra...

mas sem mim, porra!

Se querem que eu morra esperem pela minha vez

que eu próprio me encarrego da minha ração

de poluição ideológica diária!

De resto até direi que sim

se não for muita maçada (mal iria!)

com cara de relógio de sorrisos!

Afinal esta estrumeira cultural

nem está bem, nem mal...pelo contrário,

cheira é muito mal mas, como há

quem tenha o nariz metido onde não deve

ainda há quem com ou sem ideias leve a melhor

ganhando ás damas e fingindo fazer

a revolta do sermão da montanha

que se emprenhou de fé e até pariu um rato!

Ai, de mim que no fim destas histórias

só me restam memórias a esquecer

nas ideias diligentes da panela ao lume

e o Arroz de Marisco que fica sempre duro!

e a Merda...que feia! Fica sempre a cheirar mal

com ou sem alguma verdade por digerir

pois quem morde sempre o isco é o mexilhão!

E ouçam que eu confesso a derradeira asneira:

a melhor maneira de acabar com este mundo de cão

é não deixar que ninguém o purgue

com uma revolução qualquer!

Aqui-del-rei! Porque afinal, nem há-de tardar

a ir-se embora com o rabo entre as pernas esfoladas

se chegar a passar por Portugal!

É que eu um dia julguei...

(julguei? Ai, quem sou eu para julgar?

Por ventura já fui Rei

ou Procurador à Câmara Concordativa

do Tribunal de Menores de S.Bento?)

Sei lá se julguei ou se pensei

O que eu sei é que nestes tempos

há males bem piores

do que o do crime de lesa Majestade

de arriscar pensar por conta própria!

Ora bolas, sei lá...supus que podia sonhar

(E...que grande bronca! Se julgar em causa própria

dá mau juízo e risco de prisão então sonhar sem mais

dá pesadelo pela certa ou ilusão).

Enfim...eu que sou o mais bêbado dos parvos

dos filhos de Prometeu...que prometeu...prometeu

e por ai ficou a prometer

os ossos dum ofício político

com que nos tapam a boca duma vida de cão!

Ai, só eu feito macaco é que me havia de lembrar

da barbaridade de sonhar e pensar ao mesmo tempo

para aproveitar o ócio das bichas de roda da sorte

para a sopa de caridade

nas cantinas da Universidade

e nos cinemas para cartões de estudantes

lá pelos fins de semana com a morte!

Pois é!...Um dia ousei sonhar

e foi nisto o que deu...

Tive um pesadelo de coisas de pouca dura

tais como: a queda da dita(sempre tesa e)dura;

a transladação das relíquias de S.Tomás

para o panteão da estrela decadente;

o fim da história Ultramontana Submarina;

e o triunfo da Grécia Antiga em Portugal

e que no mundo acabassem as lutas fratricidas

e reinasse enfim a caridade na Irmandade Universal!

Ai, sei lá o que eu sonhei de impensável!

Por exemplo e mais perto de mim

iria trabalhar num jardim escola

para os filhos do povo

já fartos de serem miúdos de cu roto

e andar aos ninhos na quinta velha do Estado novo!

Mas isso sim, e nunca mais deixaria de esperar

pensar até fundir a lâmpada de Aladino

e daria em maluco se escapasse a ter de esperar

pelo fim dos meus dias em Caxias!

O que teria acontecido se não fora acordar

e voltar a pensar melhor

que o que eu tinha a fazer

neste país do fim do mundo

era deixar-me de sonhos sem futuro

e aprender a habitar aos pesadelos da vida!

De resto até se pode existir

limitado a respirar fundo a confiança

de que sol não se irá esquecer

de amanhecer no outro dia

e oxalá lá não nos venha encontrar esborrachados

contra o muro do destino e de barriga vazia!

É que nesta terra de Prometeu

que de tanto prometer a S.Lázaro

também se finou

é mais fácil dar a volta a Portugal num só pneu

do que ter sorte ao esperar

pelo fim dos novos ricos

e da velha Burguesia de chuto!


CANÇÂO XVI

 

 

 

 

Entretanto cá me vou deixando-me ir,

ora a rir ora a chorar, mais tropeçando

do que andando! P´lo chão ou pelo ar

que a toda a hora se me dá pelos buracos da razão;

ao sabor do vento e do momento;

conforme a lua que passar na rua e me tiver à mão;

atrás da pouca sorte

que é ter que agradecer o acaso à morte

por cada vez que sou corrido a pontapé

de todos os canteiros destes cemitérios

de impropérios aonde teimo ainda entrar de pé!

 

Replantando-me sempre e uma vez mais...

ainda mais teimoso e paciente do que dantes,

agarro-me ao que encontro pelo chão

deste real descaramento com desdém e com paixão

e, aonde alguns se urinam todos a marcar terreno,

eu acabo no pequeno pesadelo de julgar que é meu

e sem jeito nem proveito sofro a fama

de mal fazer a cama ao meu destino

e deito-me sozinho com o corpo todo ao léu

sob o céu desta existência sentida sem sentido

atrás da dependência dum acaso de improviso!

 

Lacaio deste Império dos sentidos exaltados

pelo riso imaginado de mistério de Mulher Fatal

corro atrás duma hora de animal à solta

e hei-de acabar por conquistar-me

um susto de indiferente ausência

para sentar à mesa do Café da indecisão

na solidão da tarde dos meus dias

de indif´rença dissolvente e universal!

 

Ai, que a minha signa de cigano bem pensante

não dá pr´a muito mais

do que andar aos saltos mortais

atrás do rasto vaginal

da aventura da verdade e da mentira

num mundo tal e qual e sempre à toa

ou seja: esta lúcida loucura é bem pouco divertida

mas, sinto-a tão boa e tão bem consentida

como se me fora agrafada e premeditada

burocráticamente numa bola de sabão!

 

E foi assim possível aprender bem cedo

o quanto é já difícil ressonar sem medo

e depois urrar e dar saltos mortais

sobre um universo em permanente sobressalto

sobre o Suicídio da Razão!

 

Ah, que a demência normal é o mesmo que o bom senso

a ter neste destino de improviso

e, que sei eu, quiçá a única maneira

de não perder o siso duma vez

sei, lá para doentes como eu a sensatez

é ainda abrir os olhos à razão que cai do céu

embalando em corda bamba a preguiça dos meus dias

e no fundo do abismo, o mundo...a náusea...

o tédio duma vida que se iguala

na ilusão da fantasia da diferença!

Se acaso me acordasse de repente e em sobressalto

do pesadelo em que me esforço por entrar ao alto

transfigurava para sempre a minha vida num inferno

e os meus desejos num suplício!

Porém, o sono só não é tranquilo de abandono

porque o sonho é fugidio

e a inconsciência anseio de placidez

eternamente a tiritar de frio

com receio de se deixar adormecer de vez!

 

Ah, que nem mesmo a raiva duma ofensa

ás mãos desse inimigo que se ignora

nem deste outro que outrora me olvidei se existe

ou nem sei se vai nascer me põe triste!

Nem é mesmo a angustia da derrota injusta e certa

que me aperta a garganta à força da impotência

deste corpo de paz d´alma de palha

mais pequeno do que a falta de calma da ambição!

 

O que me deixa bem mais triste e pesaroso

é esta inconsolável sensação da ingratidão

do meu próprio esquecimento

que me faz suspirar por um amor desconhecido

e o receio subtil de vir a descobrir

que nunca tenha havido o paraíso!

 

E o pior que nos pode acontecer, ai coração!,

será morrer de tédio e de velhice

sem perder a patetice do pecado que é sentir

nunca ter sido amado nem jamais sabido amar!

Porém, em maré baixa ou no mar alto

foi em vão que procuramos

o encanto das sereias, belo e trágico,

no canto das baleis que levamos à extinção!

 

Descobriremos enfim que outro pecado nos faz falta

e pescaremos em águas turvas os riscos do sorriso

pois amar pode matar e fazer mal à Saúde!

Neste pântano de ideias movediças

onde em vão equilibramos a histeria hipertensiva

da Balança da Mudança das ideias,

da perfeição das Qualidades,

não tarda coração e estouram-se-me as tripas

porque a forma também é um conteúdo!

 

Levas-me nas ventas com o cheiro

a bafio bem falante

exaurido ás fugas fétida das fífias

das sanitas cerebrais onde caiu

o relógio enferrujado da memória

a bussolar-nos cada instante

adiantado ao fim do nosso eterno recomeço!

 

E o pior será uivar de boca suja

as límpidas palavras da amargura

duma boa vontade ingenuamente maltratada

pela pulha toga desta que é a arte de viver!

E por favor não me mordam o pescoço aos tornozelos

porque o que eu quero é versos e fazê-los a todos

encantar como bolhas de sabão no ar

e outras palavras de ilusão

e que me deixem ir morrendo de vagar

num calmo conformismo entediado

de indignada sensatez!

 

Deixem-me curtir os meus juízos

na Lixeira do Museu do Pensamento

cultivar o vício das charadas elegantes

e inebriar-me os nervos com vinagre metafísico!

E partirei então D. Quixote endulcinado

por uma "Belle Epoque Demodé"

arrancada a uma estampa da cartilha maternal

e armado de bengala surrealista

até dou a impressão de ser artista de variedades

sendo um zé-ninguém expressionista

mascarado de Anarco-Socialista!

Partirei à reconquista da bitola universal

ou dos restos placentários

que uma vida de cão me devorou na testa

quando a gente-bem veio na moda a esta festa

do povo como o lobo e picnic(o)aram os cordeiros

espalhando o boato de que andaram

a fornicar a Virgem-Mãe nos relvados uterinos!

 

Velhos tempos em que as armas e os varões

se assinalavam nas cortinas das janelas

quais anúncios necrológicos homéricos

nos jornais da capital do fim do império!

Oh, anos verdejantes em que nos regavam

as raízes dos dedos com urina vaginal!

(entretanto eu mijava nos lençóis

enquanto fazia o mesmo em pesadelos místicos!)

Depois, a desditosa aprendizagem

da derrota na difícil lição dos meus instintos

do domínio fisiológico dos olhos e buracos

e os primeiros passos atrapalhados

nos caminhos complicado do escada de (in)sucesso escolar!

Ah, o despertar para os encantos lúbricos

da história universal do capuchinho vermelho!

Apanhei estilhaços de olímpicas façanhas

e apanhei maleitas com o cheiro das castanhas

das crises pubertárias de proleta e pobretão!

Do jogo da cabra cega com a lógica formal

e das batalhas navais da geometria racional

guardo o hábito infeliz da falsa amnésia

e a certeza de que a via empírica mais experimentada

não é a única mestra da estratégia

e a necrofilia, a mais nobre profissão!

 

Ah, ser guardiões dos túmulos dos deuses imortais

dessa tão monumentais ruínas

das entranhas da memória

essas épicas derrotas repetíveis

na razão directa das vitórias prometíveis

ao sabor dos caprichos da fantasia literária!

 

É por tudo isto que nas bibliotecas nacionais

onde o tempo se engorda de utopias

que é mais bela e fecunda a ironia:

Do estrume fermentado em geração expontânea

vermi-geram professores fungíveros de história

obrigados a comer a fome de saber das criancinhas

ao pequeno almoço numa inglória fama

de manterem o povo na cama da ignorância

de barriga cheia de desejos de miséria.

O povo rico encaixilha-se de glória

para exemplo das formigas

e eu, prenhe de cultura vã

atiro-me ás urtigas!

 

Junto ao muro vergonhoso da moral de pacotilho

os épicos discursos são escarros

de bazucas sem certeza no gatilho

e infectam-me o canto e a graça de catarro

e apetece-me arrotar com nacional fervor!

Entretanto deixarei que se me parta o eco

desta derradeira gargalhada altissonante

pelos becos da memória alucinada

até que este sabor serôdio de constante passadismo

seja bem amargo na metáfora fecunda

duma garganta funda a devorar

o tácito estribilho deste prolápso-lingua!

A inconstância da girândola do riso

e o soleníssimo desprezo transitório e democrático

dum destino trágico de tauromáquica invenção

contra os cornos da igualdade

faz de todos nós lúcidos saltimbancos

malabaristas mancos saltando como dementes

contra as portas dum parque de campismo

onde começa consentida a popular concentração!

E assim nas multidões promíscuas dissolvidas

somos cheiro aliáceo nos sovacos

e sabor acastanhado a sementes espremidas!


CANÇÂO XVII

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu, guerrilheiro metralhado por ideias

numa luta inglória contra a repressão da solidão

na história subjectiva da cultura nacional

instituída ditadura subversiva universal e saloia

abro os braços contra o sol da clarabóia

no meu refúgio sótão e desço das colinas

de telhados que alma me espiam

por centenas de antenas de tê-vê inimigas

ao encontro da cidade sitiada

pela opressão abafada deste estio Coimbrão!

 

No café do Mandarim já mandam os que lá estão

e quando o porco do patrão lá vai

a gente sai e só depois é que então eu entro

e sento-me em frente do reflexo lindo e liquido

do meu rosto gelado numa nobre, imperial

e imortal cerveja de Coimbra...pimba!

 

O que eu desejava era estar

deitado no pedaço de verdura que resta

da floresta primitiva

na Piscina Municipal deste tão chorado

paraíso do olvido estudantil!

 

Entretanto sorvo a brisa imaginada fria e calma

e procuro resistir ao desconforto em brasa

das vozes e zumbidos distantes ao meu lado

que me vão adormecendo o pensamento

nesta jaula à mesa do Café!

Ah, esta aragem a escalar-me a espinha!

Uma pedra lisa e leve em sonolência vaga

neste premente sussurro sem assunto

de ter de subir ao cume da ambição

das constrições imediatas

para ao chegar ali olhar sem rumo definido

para o ser sem sentido, ilimitado

e vir cair de novo aprumo

no inferno deste eterno recomeço!

 

Este pairar acima da ironia complacente

que me circunda de gesticulação muda

até que a tarde tombe de cansaço

e a noite moribunda expluda de calor!

Entretanto evito imaginar-me

a morrer qual cão vadio baleado por ideias negras!

 

Ah, esta brisa verde enrodilhando-se no chão

do jardim da Sereia onde serei a ideia que não canta

a minha perdição desencantada!

 

Esta frescura de folhas orvalhadas pela rega

a desejar-se onduladas pelos corpos quentes!

Meus olhos voam como as andorinhas

e vão poisar-me as ideias imprecisas

na indecisão dum açafate de cerejas

desejadas como beijos duma paz longínqua!

 

Vou para casa esquecer-me numa sesta heróica

desta tarde de cobre cintilante

porque o vento é nostalgia doutro mês de Maio

e a impossível alegria deste tempo revivido!

Ai, deuses tutelares e pequeninos esquecidos

como estátuas calcinadas pelo Sol

refrescai-me a memória

no ar semi-puro que nos fica desta tarde!

 

Oh, Almas sensíveis e sublimes, voltai a sonhar

com a virgindade perdida no paraíso!

 

Lembrai-me dos dias das gargantas esturradas

de sede de cantigas entre espigas loiras

e deixai-me beber o prazer da frescura

pelo púcaro de barro das belezas efémeras!

 

Amanhã talvez tenha que acordar para o desânimo

e sentir quanto deste estio vigoroso

for calor o cheiro a podridão!

Ai, antes de morrer de pasmo ou, sem saber,

de susto, guardaremos o insulto

para aquela tarde de luto

em que a brisa seja o último suspiro

da derradeira andorinha

arquejando num céu de chumbo derretido!

 

Oh, garras da multifacetada arma cravejai o rosto

informe da revolta que faz guerra e fogo posto

à nossa incauta paz de consciência má!

E o que será da minha adaga praguejante?

Cardo que se murche entre os caninos dentes

crivados com abcessos de desejos obscenos

depois da profissão de fé à mesa do Café

na nova cartilha ideológica revista e ampliada!

 

Oh, quem se abrir ensanguentada a Profecia

escarrarei as pragas do Egipto

e o anátema das chagas do Anti-Cristo

sobre o olhar d´água nunca visto dum amigo!

 

Ah, em que futuros se há-de erguer

o alicerce mais seguro

para os novos impérios de mil anos?!

Aonde se abrirá a vala para os canos da vingança

da cagança da vergonha planetária!

Onde erguer o muro ao inseguro orgulho

de sepultar na memória o luto dos agravados

que não tenham a mesma cor da dor!

 

Guerrilheiro perseguido e logo venerado

abre a palma da mão e cospe-lhe o desvario

da juventude perdida entre os dentes da decepção

e beberás nas veias de inocentes

a raiva de Ciam por ter amado Abel!

 

Eis o custo da paixão de justiceiro

da indignação que transformou esse assassino

num acto glorioso em nome dos mal julgados

pela mesma fome de fé no mesmo amor!

Oh, mas não deixe o sentimento nobre

vacilar o teu punhal de vingador

porque o cheiro do loureiro à tua porta

já de há muito que anuncia a tua sorte

na impiedade da sentença dos que a morte

não recorda por falharem no destino!

 

Enquanto a mó pesada da memória

atar os pulsos que seguram este mundo

a tua arma de palavras falsas,

imaginadas de suprema salvação,

irá ao fundo do mar

e a tua esperança tombará

como a noite sobre a aurora

ou, explosão solar na solidão do chão da tua rua,

destruirá no céu a Lua-Nova!

 

Oh, almas tão sensíveis e sublimes voltai a sonhar

com a pulcra virgindade que perdeu o paraíso!

Lembrai-vos dos dias das gargantas esturradas

pela sede de cantigas loiras entre espigas e papoilas

e deixai-me beber o prazer duma frescura breve

ao de leve pelo púcaro de barro das certezas efémeras!

 

Amanhã talvez tenha que acordar para o desânimo

e sentir quanto deste estio vigoroso

for calor, o cheiro a podridão!

Ai, antes de morrer de pasmo ou, sem saber,

de susto, guardaremos o luto

para aquela tarde em que a brisa seja o último suspiro

da derradeira andorinha

arquejando num céu de chumbo derretido!

O veneno que um velho amigo preparar

para beber por ti

ora será o teu remédio de loucura

ora o licor que abrasará a tua dor

no crânio dum herói anterior a ti!

Das tábuas gloriosas da desgraça

fabricamos relicários e caixões

e das armas das vitórias impossíveis

estátuas que estilhaçam com mau tempo

e com que se armadilham novos templos

dos mistérios trocados deste mundo:

o réu sai sagrado justiceiro

e o cordeiro expiatório é degolado imaculado

pelos dentes do juiz que faz perjuro

sobre as tripas do assassino redimido!

Oh, que seja hoje que há-de ser escarnecido

quem disser mal de ti para meu bem!

Nem que seja necessário trucidar

o crítico independente dum diário inoportuno

por ter irritado o herói da página primeira

ao mandar procura-lo pela lei

nos cabeçalho do meio!

Sepultar-nos-ão junto aos limites insondáveis

dos impérios celestes de mil anos

reconstruídos dos sonhos de infortúnio

até que venha o dia em que os teus filhos

pagarão com a nossa a sua mesma sorte

e na praça onde fizermos os comícios

de vingança ou de vitória

virão a ser a dedo apontados como escravos

se, traídos, não tombarem inocentes

na vala mais comum dos abortos e falhados

que a história recolher antes do tempo

ou do lado errado duma guerra suja!

Das cinzas da derrota dos eternos condenados

pela luz crepuscular dos orgulhosos

despontará a mítica ilusão

da luz do cogumelo da vingança do Diabo

e das ruínas dos Impérios milenares acordará

a besta que parir por toda a parte o novo ser

sobre cardos de ideias e entre lírios de dor

e a paz eterna há-de vencer e dominar a Sociedade!

Ai, doce respirar de essências místicas

destilamento inebriante de papoilas em fogo!

Furtaremos os dias aos fantasmas do futuro

deitados à sombra das sementes do Diabo

queimaremos o estômago com ácidos propósitos

e iremos vomitando pesadelos de papel

espilrando gritos e fragrâncias coloridas

dançaremos drogados e rotos como cadáveres

de estrelas decadentes em noite de carnaval

numa orgia infernal de orgasmos mascarados

até que o esperma jorre verde

e as virgens cheirem mal e permaneça tudo

grandiloquentemente igual e ordinário!

Então à manhã será a madrugada prometida

a acordar dos pesadelos do futuro

e há-de arrombar-se a porta dos corrais

dos lúbricos suínos já cevados pelo ópio popular

que hão-de estrumar a terra com a boa nova

acumulado em séculos e séculos de enganos!

E, ao som dos hinos fanfarrões electrizados

despontarão roseiras bravas nos fuzis

frutificando quais viris donzelas

entre vagas de pragas de pregões ás janelas

e em toda a parte há-de ficar a segredar-se

da próxima chegada do comboio do progresso

expresso cósmico liberto na amplidão

da inglória escravidão da liberdade humana!

Já despem o linho branco os sacerdotes indignos

das vestes negras dos albinos núbios

e as amazonas vermelhas couraçam os seios

com coletes de Vénus de metal em brasa

e no altar das forças das obscuras origens

afia-se o bico das aves com vertigens

e as águias de capoeira se depenam com pena

da sorte negra das brancas pombas da paz!

Quando ateias são alvo de tiro aos pratos

se beatas, leiloadas pelos papas

nas criptas das igrejas dos cambistas canibais

Do sangue do cordeiro há-de fazer o lobo sarrabulho

e servi-lo com entulho modernista ao povo

liberto do poder incerto das iminência pardas

num sabático festim neo-proto-visigótico

ao som de multidão da confusão geral!

Quando as trombas dos bizantinos ídolos

forem lançados ás sanitas de avião

ide-los pescar Ho, fermento de Hereges

como mandam as "leges artis"

para tocardes os hinos em trombetas de Plutónio

porque o demónio anda correr de Lamborguini

na colunata de Bernini ao sol-posto!


CANÇÂO XVIII

 

 

 

 

 

Ai, do ignóbil mistério a revelar:

Soltou-se das escolas à tardinha o dinossauro

e anda feio, de pau feito Joanino a meter medo

às criancinhas que sonharam fazer da escola um jardim!

Às horas de ponta e mola

salivando-se de gula por miolos bempensantes

vagueiam num tráfico ilícito de santos inocentes !

Ao virar duma esquina das cidades

deste século de orgulho democrático

um novo festival de espectros se desenha:

Os cavalos do Apocalipse Joanino

fartara-se de esconder o segredo de Fátima

e soltaram-se do livro branco do mistério

e fumaram haxixe e: um anda a puxar carros

de assalto na guerrilha dos deuses metamórficos

na quarta parte do mundo.!

O segundo urinou-se no deserto de Sael

e na décima parte desta terra

fez avançar o deserto e na outra

fez cair a chuva azeda e o terceiro é garimpeiro,

abomina ecologia e transpira gás sulfídrico

por um motor a vapor de vários tempos !

O quarto acaba de nascer duma semente suicida

dos amores entre Apolo e Dioniso

e o seu sustento é o pânico venéreo

entre alegres amantes duma fruta proibida !

Em maré de caça ás bruxas com bolor

já ninguém faz cultura com amor

com medo do peste(e)sida

e haverá masturbações gerais no terreiro do paço

em vez de ejaculações per cóccix

no traseiro do banco dos taxistas

e nas barbas do profeta !

E o mais cómico de toda esta história

é que acabo de me ver excomungado ab eternum

do paraíso terrestre do futuro na Sibéria

por não ter acreditado nos mistérios da ciência

Tudo começou numa taberna de vinho a martelo !

Ninguém gostou da nova bebedeira !

Começou por brincadeira entre gente ingénua

com a mente feita em água benta

pelo cheiro milenar dos castiçais

e acabou na revolta sangrenta duma aposta

num final feliz da fábula do lobo e do cordeiro !

Não tarda e os proletários revoltados

andarão mais mansos do que os bois capados

e serão sacerdotes ou pastores da serra

e prevejo mesmo a confusão que é não saber

quem há-de declarar a guerra ao fim da história !

De momento é pelos desmesurados olhos

da secura literária

que devoro a eternidade do saber empacotado

numa folha de jornal de poluição diária !

Ah, cedo apanharão bolor os meus instintos

que perderam o viço de amachucados

como andam no suor de cada dia sem sentido !

Oh, ingénua mania de esperar ainda salvação

para a doença da dor de alma !

Mas quem nos lavaria da lembrança

este sabor a sangue ?

Ai, qual o juiz supremo a declarar-nos

inocentes para toda a eternidade

dos gestos assassinos

(insuportáveis por serem dependentes

deste incómoda liberdade de decidir à toa

sob a pressão da vontade dos outros)

cometidos sem saber

em nome da lei da convivência natural ?

Ah, quem nos dá a beber das águas claras

da fonte da verdade das origens esquecidas

secos com o tempo...como os nossos desejos...

como os nossos anseios mais ingénuos ?!

Quem nos vai apagar na dúbia percepção

dos olhos, a translúcida visão

infiltrada como praga no mais fundo do ser

até à inconsciência reflexiva

mesmo nas mais belas ilusões

e nos mais hediondos desesperos !

Ai, enfim que sem fé em nada mais

como me quem me hei-de afastar da encenação,

monótona na variada repetição do tema,

duma vida fascinada em demasia

pela poesia secular da expiação

da verdade empoeirada de mentira !?

Enganado pela fé na razão pura

caio nas rasteiras da impostura

da efémera beleza dos instantes

sem que chegue a ter nojo ou decepção moral

do mau gosto de teimar respirar

este vício de forma que é ainda crer

na nobreza de alma de viver o sacrifício

de ser filho do homem !

Condena-se quem culpa o seu destino

e assim se faz indigno de desculpa

assumindo o seu lugar de desatino

escolhendo o caminho à sua própria loucura

entregando-se ao carrasco por volúpia,

procura dar a volta e torna mais culpado ainda !

Desde o dia em que os Penates foram de penantes

que é tudo como de antes de Dante o ter inventado !

Que são as nossas culpas ao pé de outras

cometida pela história em nosso nome !

Nada!...porém a nossa fome de vaidade

obriga-nos a pôr no nosso mundo a qualidade

que cada um souber e for capaz de construir !

Tudo é lícito enquanto é ignorado ou for omisso

na vontade dos juizes porque a lei é cega

e não consegue ver no escuro o crime solitário

e tudo o mais que não seja necessário

para calar a voz da indignação comum

da social conveniência

e cada ética tem a sua moda estética

e os vícios privados, o preço a pagar

pelas públicas virtudes !

Ao crente é tão difícil a verdade

quanto é cara a liberdade

a quem se perde de paixão!

Almejar a salvação antes dum palmo do nariz,

ver a fé lançar raiz insidiosa sobre a testa

eis a esperança do martírio: transportar em festa

o que, de tanto se roer e já delírio triunfante!

Já mem sequer se sente o que se arrasta às costas!

Ai, que digno de mera compaixão

é só mesmo o simplório verdadeiro !

Temer ser condenado

ou indigno de salvação

só pode desculpar-se se no crime

houver inépcia de intenção

ou jactância de forma e incauta presunção !

Na gestão deste homérico negócio

de não nos afogarmos num mar de ócio permissivo

falecemos nas mãos da impiedade divina

ao sofrer o castigo da nossa ideia de justiça !

Enfim, viver não é castigo...

e o perigo vem da nossa fantasia !

Contra os golpes dos desencontros

inevitáveis da sorte

inventamos o reflexo de defesa

que é a morte em fogo lento

ás mãos impiedosas da moral e do dever !

Mas se tenho virtude é por andar ás voltas

da existência com a cruz da consciência ás costas

atadas por complexos de desculpas e pecados

e impotente ao desatar o nó deste segredo

de me saber culpado do degredo que escolhi

duvidando sem saber dos vícios da memória !

Porém, não tendo garras nem da forma o engodo

nem as armas da artística aparência

capaz de dar-me consistência,

nem fama nem fortuna

(e muito menos glória) alcançarei um dia !

Consolo-me sabendo que afinal

só nos condenamos se escolher-mos o suicídio

ou se andarmos distraídos em caminhos apertados

ou tivermos nascido alegres inimputáveis

por nada dito fazer sentido

ou se recusarmos por capricho a mão do acaso !

Contra os enredos deste amor à vida

enleamo-nos nas malhas deste medo

de deixar de ser o ser que não sabemos ser

e, o Império do desejo de existir nos tece !

A vida o que é? Ai, quem o sabe...

um pouco disto tudo e nada é

e muito mais ainda quando nela temos fé

e o que dela não queremos rejeitar

e só se cansa de sofre-lhe a dura carga

quem dum trago a pega enquanto dura e logo a larga

ou quem não finda de a ter por praga

a ela se entregar pelo prazer de a perder !

Bah, que se este céu de chumbo derretido

não fora poluído e não tivesse estrelas de latão

eu até seria chulo ou bom marido da existência

ou capataz da minha própria servidão !

Porém, a pouco e pouco é que eu me afogo

no néctar da vingança universal

e em vão me salvarei sonhando-me liberto

da vaidade da verdade, de corpo sempre aberto

ás caricias do tédio !

Á força de em vão nos desejarmos mais felizes

envelhecemos de rancor e de ilusão

num chão que se dissolve nos delírios da razão

onde perco as raízes dos meus nervos !

Ah, que lucidez é uma doença incurável !

Apanhamos o vicio desta dúvida metódica

e nunca mais se volta a ter sossego !


CANÇÃO XIX

 

 

 

 

 

Glória e louvor a ti

divina Terra-Mãe da Natureza

"per secula seculorum"!

Castamente despida da aspereza

dos ventos do fim do inverno !

Dissipando das nuvens os medos e degredos

vens derramar-te em flores de bem e mal parecer

pelas brisas das demoras

e nos abraços das horas breves do quintal,

nas fendas das fragas da montanha

e nos regaços do vale !

 

A ti, Oh terra mãe me rendo e adoro

ajoelhado-me as raízes em teu solo

e os pesadelos do meu sono

nos cabelos vegetais do teu regaço montanhoso !

Nestes tempos de terror velado

há que ressuscitar-te,

Natureza morta em vias de extinção !

E a história deste mundo recomeçará

no marulhar das águas novas do ribeiro

entre um coro de ervas úteis e daninhas

fecundadas de verdura e de frescura

pelo orvalho da aurora

no rito original do despontar da Primavera !

E o frio da invernia já distante

range os fortes dentes no dorso da serrania

enquanto estala no ar a gargalhada vegetal

desta manhã chuvosa como mês de Abril !

 

Ai, enjeitado coração de poeta melancólico

feito alcoólico bucólico por doença de saudade

há que inventar a poesia a toda a hora

nos meus olhos derramada

em molhos de nabos, grelos e tristeza

e outra hortaliça do quintal

estrumado de miséria humana todo o ano !

 

Ai, coração se ainda restam cardos

onde perder a consciência deste mundo moribundo

há que adorá-los como deuses pequeninos

enquanto a terra não morrer de susto

ou atolada de tédio ou sufocada em sucata

pela vil monotonia dos sonhos mercantis !

 

Ai, canta coração ferido de poeta mal nascido

a mãe coragem desta terra transmontana

abandonada à histórica pilhagem

das corujas citadinas peregrinas;

despovoada pela fome hemorrágica

dos filhos da sua mãe pródigos de saudade

que partiram...voltaram...

partiram...e nunca mais voltaram !

 

Ai, coração de alma perversa

de aprendiz de adivinho sem juízo !

Tu, que te quiseste deus em minha mão

tomba e apodrece a meus pés

e fecunda as raízes neste chão !

 

Ai, canta coração a Natureza Megalítica

Diva Mater das essências uterinas

consubstanciadas no pão que a pega não comeu

escondido no fundo duma arca de cereal

arrombada pelo fisco endémico;

consagradas nos lagares das uvas

que a perdiz não viu no vinho

que se o padre cura não bebeu

lhe pôs a Igreja em cima;

iluminadas no azeite da candeia

que a coruja não bebeu!

E entretanto coração amolecido, é com raiva

que se esconde entre pedra e troviscos

no seu ventre empedernido

o mistério do paraíso perdido !

Só a pega aristocrática riria

por me sentir em teu agreste destino

qual imagem primordial transformada espécie

em vias de extinção !

Quem poderá condenar-me por te amar de longe

ideia arquética do mundo original

condenada a sufocar de medo

em meu degredo de exilado urbano !

 

Ai, quem ousaria apagar-te

da minha memória de visões menstruadas

meu berço de giestas que urinei floridas

ao aprender o gozo do teu nome, minha terra !

 

Ai, minha ciclópica e Megalítica deusa

esculpida na melhor cantaria da serrania

semeada de mirífico rosmano !

Em teu regaço já murchou a flor da laranjeira ?

O teu o mosto azedo deixou de fazer rir ?

Voltará o sol por muito tempo ainda

a por o fogo ao xisto do casario

e as rolas vão fazer ainda o ninho

na rama das oliveiras ?

 

Ai, coração fugi de casa um dia

com a saudade feita esta dor de barriga

e agora dói-me a alma perseguida

pela pressa de chegar ao fim da história antes do tempo !

 

Ai, coração andarás de gatas pelo chão

atrás do rasto virginal

desfeito na poeira das lembranças ígneas

em busca desse cheiro umbilical

a queijo com sabor a folhas de carrasco !

 

Ai, coração hei-de lembrar-me

imaginado parido e enjeitado entre espigas

por trás das montanhas do calcanhar do mundo

mesmo quando o solo moribundo do planeta terra

me envenenar ou me embotar as narinas.


CANÇÃO XX

 

 

 

 

 

 

Ai, irmão, que fizeste ao nosso mundo?

Será verdade o que pressinto acontecer-lhe?

Apodrecem-lhe os ossos na palma da mão!...

Um pus vermelho e espesso purga-lhe da testa

e a falta de verdura lhe envenena a alma!...

 

Ah, irmão, que veneno deste ao nosso mundo?

Que é feito da voz da festa

que costumávamos dar nos solstícios do verão?

Esse estio glorioso que nos geme esburacado

do terror dos nossos sonhos?

E os versos...os nossos versos encantados?

Que e feito dos versos pendurados

nos galhos dos salgueiros, meu irmão?

 

Ah, irmão, o que fizeste aos nossos dias?

É certo isto que eu vejo?!...

Nossos dias contados e recortados

como bagos de vindima à pálida cor dos astros

que esmorecem de dor ao pé destes instantes

de lenta agonia que o são já !

É o fim do nosso canto

de promessas ingénuas, meu irmão!

Fizeste das cidades uma fábrica de loucos

com prisão de ventre e cólicas horríveis !

 

Enlataram o sol numa fornalha de progresso

que nos devora a paz e nos apaga e enferruja

e faz da terra um chão deserto

onde os passos encalham no ruído

e o silêncio nos entulha de ruínas vivas !

Os olhos da manhã já se não abrem

porque sofrem pesadelos dum Inferno de Dante

com estios como invernos nucleares!

Chove vinagre nas florestas onde os vermes

enrodilhados em plásticos sufocam de calor

e os carros que transitam funerários já vomitam

gás sulfídrico no ar que empesta o mar!

 

Ai, meu lascivo irmão, tu descobriste o Mar

que embarcou nos teus amores em caravelas !

A Grande Mar que resta da matriz primordial

do Oceano Ultramarino nunca tanto navegado

por esquadras de naus foi penetrada a fundo

pelas tuas armadas couraçadas de ir à guerra !

 

Depois de tanto usada e abusada

deixaste-a abandonada à sorte de negreiros

que a violaram como fósseis submarinos nucleares

em super petroleiros porcos, mal lavados,

e foste namorar a ecologia

à proa de navios que são luxo tóxico !

 

Por isso é que ela sofre como um câncer uterino

e menstrua corrimentos de alcatrão e invade as praias

com marés negras de chumbo !

E os rios...Ai, as veias lacrimais dos teus poetas

são cloacas já fétida e feias

que desde as serras vão morrendo de moléstia mole !

 

Nestes tempos que se escorrem para a Morte

os anos já não têm primaveras

nem os negrilhos, a sorte de florir !

Ai, irmão o que se passa com os sinais

dos tempos que não virão a ver o estio...

porque nestes proibiste o brio do teu riso

e os olhos secos das crianças pisam-se nas ruas

onde a toda hora passam funerais de esperança,

de cães atropelados pelos carros apressados

e pardais !

Nas próximas noites ficaremos acordados

atónicos ao olhar a lua couraçada

com mil projectos atómicos !

Já se tranca em casa o medo e adormece-se com ele

e as aves se não acordam sufocadas pelo ar

apodrecem vivas quando poisam no mar !

 

Ai, meu irmão, meter-nos-ão a todos

numa manta de retalhos

de arame farpado com buracos subterrâneos !

E para quê se tínhamos a cor azul do céu

antes de haver Isótopos no ar ?!

Nestes dias de medo indivisível

ninguém se mira ao espelho com receio de te ver !

Depois que amassaste o sol

num disco vermelho de pragas e fúrias de Vulcões

para nos aniquilar na noite derradeira

da tua apoteótica loucura,

da tua vil e vergonhosa vitória

apocalíptica e final !

 

Ai, meu amado irmão, quem devorou os teus miolos

e deixou em seu lugar

esta bomba de relógio enferrujado

a bater horas letais

pesadas como chumbo e a gangrenar o ódio

destilado a conta gotas nas gargantas roucas

dos que cantam em surdina velhos hinos de embalar !

 

Ai, meu irmão, os teus crimes imortais

são ainda mais feios do que os conta a nossa história!

Não ficaste contente em teres comido

ao pequeno almoço, o moço efeminado e o belo Abel

e já mandaste empalar o cão raivoso de Caim

por ter afuçanhado, sem pagar, as próprias tripas

e ficaste...Oh !...caim !...caim !...

com inveja de Nitsche que num golpe de rins

de entendimento encomendou ao Super Homem,

num leilão de mitos académicos

a alma que ao diabo tu vendeste em Ego

por trinta e três vinténs

e assim sublimemente aniquilaste o mundo

num crepúsculo divino !

 

Ai, meu querido irmão doido varrido pelo vento

semeado ao relento nesta terra quente

dos homens e das gentes que com fome são a carne

dos heróis para canhão que vão sem nome

à guerra sem saber que são semente

podre, poluída, doente e envenenada

pelo odre da revolta

inundando uma após outra todas as nações da terra

para que colhêssemos os cardos da suspeita

das ideias desta peste antiga...

num monte de relâmpagos sangrentos e fatais !

 

Lembras-te meu irmão, do filho que te morreu ?

Bebeste toda a noite o riso à gargalhada

dos amigos de infância

que abandonaste ao romper da madrugada

para entrar na ânsia dos negócios

da batalha do progresso !

De regresso, ultrapassas-te na curva

dos excessos alcoólicos da vida

a morte dos teus filhos

que agora são notícia trágica diária !

 

Mil anos que renasça e não me esquecerei

do cheiro a óleo que senti no ódio derramado

sobre o pez da estrada incendiada

quando arrastei o cadáver dos teus filhos pródigos

pelas fragas do deserto traiçoeiro

onde enterraste os nossos sonhos de outrora

misturados com o sangue que raiava a aurora!

Nas mãos sujas de pólvora apertavam um rastilho

e uma agulha de heroina nas virilhas

infectada de vinganças atrasadas

contra todos nós !

 

Quis lavar-lhes o rosto incerto

da lama, da blasfémia, do destino que escolhemos

mas havia veneno em todos os ribeiros

e o cheios dos abutres que extintinguimos

e ali ficou só, insepulto e amortalhado

sob um manto de raiva e de ignomínia !

Ai, irmão porque é que transformaste o sono humano

num ressonar sobressaltado de Terror ?

Estes passos de aço perdidos na rua a horas tardias

sustos, socos, tiros, gritos !

Latas e chapas retorcidas de automóveis;

flaches de néon e sirenes de polícia;

panfletos com sida, agulhas de insulina,

guerras de asneiras e violência por satélite

a meterem-se no sono de mãos frias !...

Algo é duro e corta...

Lâminas de barba, armas brancas...e punhais...

e mais sangue nos umbrais da porta !

 

Ah, meu irmão que os nossos belos pesadelos

enchem de lodo os rios e estiolam as fontes !

Deixam cruzes e suásticas nas pontes

cobrem a relva de papel de jornal

e secam os prados !

Matam as feras e os gados,

inundam as cidades e as serras

e tingem de vermelho os oceanos,

espalham-se no ar e incendeiam o céu!

 

Pegam fogo à lua-cheia, explode o Sol de susto

e tudo se afoga em luto e nada poupam !

Extingue-se a luz da vida e se apaga a aurora

e do canto dos homens faz-se um ronco de terror !

Porque tombam fulminadas como espigas verdes

as cantigas das ceifeiras dos nossos pesadelos

com os gritos de dor das mulheres

que ficam por fecundar ?!

 

Quando as amo é com terror e palpo-lhes o medo

no suor viscoso com que transpiramos

a paixão destes jogos de degredo e morte !

E fumamos escarros pela ponta de cigarros

apanhados no lixo do cinzeiro da sorte

para espantar as dúvidas horríveis que sentimos

quando tropeçamos nos dedos, nos membros

e nas carnes divididas e nas poças de sangue

escorrendo das morgues dos hospícios da loucura !

 

Ai, irmão quanto me dói o nosso fim

que pressinto encrespado nos teus lábios

ferro-em-brasa como a boca dos vulcões

vomitando cogumelos venenosos

dos abcessos dentários de pus verde nuclear

nos ramos descarnados das videiras

dos nossos sonhos de andorinha

a que cortastes as asas !...

Será a agonia lenta a prolongar

o frio e o vazio do universo !

Será a tua e a nossa triste morte!

Será o fim do mundo em verso de quebranto !

 

Porém, meu irmão, quis para ti um outro canto

e apenas proclamar em toda a parte

a sorte dos teu louros de vitória sobre o mal !

Aos teus anseios desejava bons agouros

se não visse a tua estrela estilhaçar-se

contra o muro da tua odiosa mentira !

Se as tuas belas cidades não tivessem já

as entranhas corrompidas de ambição !

 

Quisera ver-te rei e coroado de beijos;

bailar em tua honra nos terreiros;

cobri-te de emoções ! Oh, anelar-te os dedos !

Ver nos teus olhos o brilho dos desejos

e ouvir contigo o canto alegre dos poetas !

Talhar-te semideus por minha mão,

fazer-te romarias , lindas catedrais

e enlaçar-te o cabelo com grinaldas

e oferendas imortais !

 

Sonhei o teu futuro inscrito nas estrelas,

profetizar em verso os teus beijos espalhados

no rosto dos teus filhos a brincarem

c´o a magia das forças do universo !

Quisera ver-te rei e coroado de beijos;

bailar em tua honra nos terreiros;

cobri-te de emoções! Oh, anelar-te os dedos!

Ver nos teus olhos o brilho dos desejos

e ouvir contigo o canto alegre dos poetas !

Talhar-te semideus por minha mão,

fazer-te romarias , lindas catedrais

e enlaçar-te o cabelo com grinaldas

e oferendas imortais !

Sonhei o teu futuro inscrito nas estrelas,

profetizar em verso os teus beijos espalhados

no rosto dos teus filhos a brincarem

c´o a magia das forças do Universo !

 

Ai, porém meu irmão, para ti e para nós...

temos mãos ensanguentadas!

Ai, como havemos de abraçar os nossos filhos ?

Ai, quem nos há-de amar ?!

E ai, como dói o nosso fim já próximo!

Como sofre o ar envenenado e o mar!

E a flor que na ira desabrochar...

e a brisa das searas sem segadas...

e o verso...o verso por concluir !

 

Ai, irmão o verso...dos nossos versos

feitos a brincar à luz da Lua !

Que fizestes desses versos de criança

pendurados nos teus olhos de cereja ?

 

Ai, meu irmão que um dedo escuro

irá ceifar em teu nome a nossa história !


CANÇÃO XXI

 

 

 

 

 

Coração, talvez um dia, já cansados

sejamos apanhados pelas garras

dum qualquer lobotomista em formação intensiva

a quem tenhamos vendido a pele e a alma

e então talvez tenhamos enfim calma

ou cirúrgica e infalível sensatez!

 

Já dizia o poeta que a ansiedade

era um comboio de corda com que brinca o coração!

Se lhe salta a mola do real desejo

desata a bailar qual percevejo

e só para na última estação do desvario!

 

As enxurradas de águas passadas

chocaram-me as raízes...as minhas mimosas rimas

de pé quebrado e de quebranto

que regava com urina a todo a hora!

 

Ah, que a teimar neste mórbido propósito

de chegar ao fim do tempo antes do fim

não tarda e acabo em vinha-d´alhos

ou então, Napoleão de cera e naftalina

ou múmia faraónica ou fóssil tecnológico ou eu...

pois os pesadelos da clarividência continuam!

 

Irei gera-lo em mim esse temor

que venha sufocar-me a ideia

pois mais breves que as caricias duma velha

são os dedos leves das minhas invenções!

Mais lesta do que a morte oculta

nos esgares que o sorriso dificulta

foi sempre a lucidez das gargalhadas amargas

e mal o tempo murcha os beijos de acidez

logo os olhos se renovam de luxúria

e assim persisto e insisto nesta louca cabra cega,

cegarrega de existir porque é preciso

ludibriar o tempo em fantasia!

 

A graça da desgraça de ganhar a vida

é arriscada a todo o tempo neste jogo,

no vício, no delírio simulado, no recordado olvido

dos lampejos fugazes cintilantemente repetidos

e sempre insidiosamente imaginados

como sendo para sempre e únicos...

mesmo sendo o que são:

sequências da vontade de existir do Ser!

 

Ah, que não fora o rodopio desta extática visão

da lânguida lassidão de tão orgásmica refrega

da inconstância dos constantes desencontros

gozados em premeditada e vigiada inconsciência

e já o tempo seria eternidade;

Ah, brincar aos nascimentos

das instantâneas emergência sem sentido

como jogos de morte na vidraça do sorriso!

E nós, esbanjadores da dádiva do sonho

já nos teríamos perdido neste cósmico deserto

aberto sobre a quieta eternidade do vazio infinito

e, gota a gota do suor da vida,

de suspiro em sorriso de delírio em fantasia

pagaremos com a vida os dias de loucura;

dos beijos a ousadia à tona dos desejos

como pétalas dum sonho derramado ao vento;

como efémeros anseios de purpúrea vontade;

famintos traficantes de ilusões!

 

Mas, ai coração dói tanto ser assim

constantemente replantado

das raízes virginais dos meus sentidos

e sempre para o mesmo renascer

diferente e eternamente repetido!

 

Oh, aves de arribação que se enganaram no bando

tombadas do beiral do conformismo

apanhamos com o susto atirado pelo chão

da luta desigual de ter sempre que fazer o ninho noutro lado!

Ah, esta grande culpa original a ter de inventar de novo

para tirar ao povo o medo da inocência

depois de tanto mal que já foi dito

e feito em seu favor!

 

Fosse dada liberdade ao impossível sonho de Utopia

e se atrelasse as revoltas pelos cornos da Entropia

ao carro eléctrico da história!

Fosse a ferros provocado o parto da premissa

desta piramidal rotundidade da mentira

a engordar as belas pernas

da histeria burguesa e democrática!

Reinventássemos a cura antes do tempo

da neurose humana

e o sacramento laico duma unção extrema

para um mundo em risco de extinção

transformando o sangue imundo em vinho

e, em licor o sabor igualitário

e a carne dos canhões, em pão saloio!

 

Mas, ai dos heróis eleitos pela morte

que, na noite dos tempos primitivos comerão

os olhos e os miolos deste povo eleito!

Eia, grande parvo este povo!

se tu não existisses inventavas-te de novo

na plástica massa duma humanidade média

elástica matéria-prima renovável

ao dispor dos impérios como lata ou papel selado!

Eia, mexilhão sempre lixado!

Comestível é preciso mastigar-te bem

e cozinhar-te um tacho ad hoc ou de improviso,

atar-te ao pescoço um guiso e o siso que convém,

rachar-te a cabeça não importa como

e se protestas comes fumo colorido

e depois...Há que cortar-te ás postas

degolar-te as tuas mil cabeças que te nascem

quando te apertam os calos e envia-los de bandeja

ao primeiro presidente vitalício que aparecer

para te fabricar novo destino!

 

Eia, populacho de inormíssimo costado

de fogacho no cu sempre apertado

hás-de ser enrabado e não gostar

e apenas praguejar e mesmo assim

sem que te peçam desculpas

se não calhar hão-de fazer-te agradecido!

E distraído vais fazer revoluções nas ruas

que voltarás a desfazer se for preciso

como vaca parideira que se presa

e a história há-de engordar à tua custa

e os jornais, espaço e qualidade literária!

Voltarão outras estátuas para as praças

e de ti meu grande povo, pequenino e parvo

dirão as leis que é p´ra teu bem

que tudo isto te farão!

E voltarás a casa porque és bom rapaz,

tens a mulher doente e os filhos p´ra criar

e farta-te depressa a confusão!

 

Porque a barbárie nem és tu que a fazes

mas, alguém que não tem ases por debaixo do verniz

e faz batota por um triz da tua própria indecisão

deitando a perder o teu labor de paciente construtor

de cidades nas areias do deserto!

Entretanto, dar-te-ão um Hino e uma bandeira

e um festival da Canção Nacional!

 

Heróis e santos para pendurares na sala de jantar

e em teu nome...e da Nação

voltarás a passar fome de desejos

e os filhos a quem davas beijos de vitória

por tua causa vão mandá-los para a guerra!

E, se não calhar, até te lançarão à perna

na taberna da tua terra a cadela da lei

porque tu és estado e metes medo

e não cumpres como deves

o sacrifício diário do degredo e do trabalho!

 

Por tua causa fundirão no bronze novo

os mitos futuristas de outros tempos

e hão-de vomitar-te a cara com louvores à tua alma

beijando-te uma mão com mil promessas

e mordendo na outra com os ossos

do cão com que te irão tapar a boca!

Hão-de romper-te os bolsos

e farás jejum da liberdade sete dias por semana

e doze meses no ano comerão da tua pele!

Se não pagares imposto depenar-te-ão as asas

para tua salvação ou de outra coisa qualquer

que à milénios que te fazem esperar

pela tua e pela nossa salvação!!!

Dirão que fumas ópio nas igrejas

e, a bem ou mal, o que é verdade

é que esse vício virtuoso

até te tira as dores de parto...

o teu corpo está farto de gerar os medos

que alimentam os fetos mitológicos!...

E a dor d´alma...

Mexelhão alapado

artilharás a própria lua com projectos nucleares

para que os lobos, em risco de extinção,

não lhe possam uivar na tua rua!...

E a dor de corno...e ainda te dás ares

de raposa tinhosa na vindima

e farejar o mau cheiro da cona da tua prima...

Oh, meu grande povo ouve-me esta profecia:

Há uma culpa que ninguém mais te perdoa!

Em teu nome tu deixas-te assassinar

os teus filhos mais queridos, os teus irmãos amados

os teus grandes amores e os teus melhores amigos,

os teus vizinhos e os teus conhecidos!

 

Será esta a tua eterna expiação:

Seres povo para sempre...

e o júbilo de todos os senhores presentes e futuros!

E o meu pior quinhão de desespero em tudo isto

é não ser Cristo e ser igual a ti

quando parte integrante do destino

de emigrante neste mundo!

Desde terras sem nome

e do vale ao mais alto

trespassaram assalto

as fronteiras da fome!

 

E da vez a primeira

morderam no asfalto

calando de bem alto

a destino que os fez!

Por serem zé-ninguém

foram raça em modança

e por terras de França

julgaram-se alguém!

 

Mas, tão loge eles foram

foi tão funda a esperança

que na Europa uma lança

faz o chão onde moram!

 

Já não vão a penantes

e se cá são franceses

lá são portugueses

quando são emigrantes!

 

Inda sorvem a sopa

mas; dão filhos ao mundo

como outrora ao mar fundo

e inventaram a Europa!

 


CANÇÃO XXII

 

 

 

 

 

E é assim que eu sou contigo

um povo bruto, pobre, amargurado e triste

por ter deixado já de ser senhor antigo

sei lá de qual império que nem sei se existe

e em que lenda esquecida se perdeu!

 

Sei que aqui vim parar desenterrado

para as terras do degredo, esfarrapado e velho!...

Aqui vim ter de assalto como gado de contrabando

na minha dor de ser pedinte com fome de liberdade

numa terra sem Sol onde me expor as raízes!

 

De cheirar mal nos comboios estrangeiros

e no metro do progresso em que não sei andar

e ter bolor e só saber pensar nos francos

que não tenho a tilintar nos bolsos rotos

para ir mercar o palheiro do vizinho rico!

 

Quando nasci não tinha pai, nem casa,

nem minha mãe aonde me embalar!

No inverno, o aconchego era uma brasa na lareira

tão primeira como a lua de Janeiro

porque havia ainda mato e rosmaninho

e no estio adormecia como a sesta

o cio entre o rolheiro da vizinha,

que nada do que eu tinha era meu!

 

Meu, era o céu azul que Deus me deu

e a perdiz que nunca se fez verde

e era minha a andorinha que não ia pôr o ninho

no beiral da casa do vizinho!

 

Ah, e minha...muito minha era a tristeza

de ser pobre e ter de andar contente

mesmo só, pequenino e não ser gente!

O resto...era tudo do vizinho!

Olhem, que eu nem o sei ler

nem falar, como bem canta estrangeiro!

 

Não foi por ser pobre que não tive escola

mas, por ser uma esmola não saber!

Os campos eram grandes, tinham dono

e ninhos e o meu pai não era nobre à muito tempo

e pôs-me a trabalhar mal aprendi a andar.

 

Sei lá! Bebia vinho e tinha sono

e nem sequer aprendi a falar!

Sei que sou pobre, e foi depois de velho

que eu vim perdido a esta terra!

Não que eu quisesse assim fugir à guerra, não

porque as há em toda a parte!

 

Oh,...que aqui corriam francos nas valetas,

que era só apanhá-los com pás e picaretas

mesmo tendo que ser escravo num pais dos outros

eu que escravo fui da minha escassa liberdade

no meu próprio Portugal dos pequeninos ricos

mesmo tendo que me vender o corpo e alma

já que mais nada tendo e nada sou!...

 

Ah, se não fosse necessária tanta papelada

para me deixarem trabalhar no meu enterro!

Mas mesmo no desterro fui sempre um deserdado

porque os ossos da miséria

de ser o burro dos outros

esses foram-me deixados abonados!

 

O meu compadre que Deus o tenha

esse teve melhor sorte que o levou a morte,

ao passar de assalto a fronteira de Espanha!

 

 

Ai, que se eu sentisse que valia a pena

não ter a alma de palha nem pequena

e eu até cantava como quem trabalha

alegre e com saudades da terra

em que um dia e por menos se fez ao mar!

 

E não regressava e ficava e a sofrer

esta dor de não ter o Sol da minha terra

mesmo só, e senhor duma guerra em África

dum passado lendário e sem nobreza

mas aonde ao menos era livre

de ser um pobre poeta

sem ter a tristeza de o saber!

 

Mas não posso ficar...

Nesta terra não há Sol...nem há azul no Céu

nem as coisas que Deus não me quis dar!

A gente desta terra é complicada demais

e isto de câmbios e contratas

e outras coisas estrangeiras pataratas

é para gente nova e mais esperta

que aprenda a ser senhor e, bem falante!

Já nem mesmo invejo o palheiro do vizinho

e perdi o sentido ao lameiro regadio!

Não penso mais na vinha à beira rio

e já me esqueci das agruras do caminho

que levava aos casais e à quinta do vizinho!

Afinal nem era muito o que sonhei

no meio de tanto que não herdei da sorte!

Tenho mulher e filhos e quer o senhor que eu minta?

 

Não, não tenho medo da morte

nem de não ter nome para deixar aos meus filhos.

O mar é salgado em Portugal e tem sardinha

e nas serras há amoras e medronhos

e um naco de milho chega para enganar a fome!

 

Ai, a fome sem nome que me perdeu!

Meu filho mais novo ainda chora coitadinho...

mas não é com fome graças a Deus

porque a minha mulher tem boas tetas

ele é tão pequenino ao pé do outro

que já se tem nas canetas nem parece irmão

e não pesa grandes quilos!

 

Mas estes fi´-los eu com a minha mulher,

que isto de andar longe

e ter vida de monge nem é vida sequer!...

 

Já vou ficando velho, são cinquenta estios

pelas eiras dos casais, Janeiros frios

gelos e vendavais! Que quer mais...

mesmo nos corrais eu tenho feito a cama!

 

Já foi tempo, compreendem. Nesta idade

o que apetece é uma cama bem feita!

Ai, se eu mercasse o palheiro do vizinho

linda casa ali faria...de cal e cantaria!

 

Ai, não se importem comigo

que há muito que eu não sei já o que digo!

E choro porque lá na terra,

eu tinha um violão que me deu o compadre

que Deus tenha em boa morte como contei já!...

 

Muito obrigado meus senhores,

com este...como diz...Ah,...passaporte

vou poder encomendar a alma ao meu compadre

fazendo chorar o violão!

Será meu então o Céu e o que Deus não me deu

e esta canção, o pão

do meu rebanho de sonhos contentes!

(Ai, de mim, que não tenho

com que pagar-lhes o trabalho!)

 

Pela alminha dos seus...eu sei que os senhores

também foram meus vizinhos

e se a coisa não rende...compreendem?

Obrigado!...Muito obrigadinho!...

 

Com este passaporte vou de Serra em Serra

e passo à minha terra a esperar a morte

e hei-de contentar-me com ter Sol

e jamais me esquecerei do que me disse:

 

"Sou um povo bruto, amargurado e triste

sei lá patrão do que quinta da fome

senhor dum velho império que já nem existe

e ninguém quer saber quando fui nobre!

Hoje sou este pobre diabo que nem nome tem

perdido aquém-serras de Espanha!

 

Eu, que fui à guerra em toda a parte

e até nas serras fiz pomares

perdi honra e fortuna, o engenho e a arte

já que escravo sou do fantasma de Alcácer!

 

Tenho no sangue todo o sal dos mares

e mais a sorte insossa de ser pobre

a amargar-me as sete partes do mundo!

 

Eu, que pari o mundo ao mundo

que sulquei fundo em meu suor

sou vagabundo entre estranha gente

e ando a cavar fora de casa a minha morte!

E assim canto a minha dor de ser pedinte

e não ter pão de sobra e não ter sorte

e precisar de me exilar numa terra sem Sol

onde sou marginal e fora da lei

para, sem presente que me identifique,

já nem ter nome de gente!

 

Aqui vim ter na minha dor de ser pedinte

do pão que me não dão na quinta do vizinho

e aqui me faz morrer sem Sol e com Saudade!

 

Ai, que eu juro que há-de ser de agora

que eu vou saltar por cima do Carvalho

e mostrar quanto valho ao vizinho.

Com este passaporte de repatriado

desço à pátria que me fez envergonhado

e espero pela morte que me vingue!

 

Meu corpo moribundo há-de ser

o espinho na garganta dos herdados

da sorte deste mundo que não me conhece!

Serei o escarro vivo que semeia

no palheiro aonde nem sei se ali nasci

como ideia da vingança que há-de vir devagarinho

trazer enfim o sol ao céu de toda gente

ou o fim do amor ao próximo vizinho !


CANÇÃO XXIII

 

 

 

 

 

 

Porque há os que de medo aos poucos se amortalham

nos nervos esfranjados pela espera

no silêncio solitário dos cais,

donde a vida não parte nunca a horas,

lançamo-nos saudosos mortos-vivos

à corrente distraída dum devir

em constante desatino e desrazão

e adormecemos à mesa do Café

e, na calma da tarde, a digestão arrasta-se de tédio !

Entorpecem-se-me os sentidos na doçura

larvar da comunhão de outros desejos

suspensos do temor duma existência aérea

dos gracejos da mesa de café do lado !

 

Oh, ser o marulhento arrolar das vozes e sussurros,

das suaves gargalhadas suspiradas pela brisa breve

ao de leve atiradas de outro modo para o ar

e respiradas noutros climas !

 

Oh, ser esta indecisa lassitude dos eternos fala-sós,

a imprecisa e descuidada irreferência

espacio-temporal dos passos esquecidos

à beira destas grades dum destino em sugestão

dum portão engalanado de glicínias de veludo !

 

E além da imagem intima, a frescura

desta aragem olfactiva leve e pura

do jardim da moradia aonde mora

a mulher dos meus sonhos desta hora!

 

Ela é um desejo, ela é uma rosa

ela é...um sorriso atrás da porta que procuro

na rota do delírio onde inseguro se navega!

Aurora radiosa que nos despe e faz a cama

depois duma semana de procura e solidão,

ela é um beijo breve levemente respirado

imaginado eterno, terno e lindo

e, no fim, a solução deste mistério

do amor em forma e conteúdo de mulher!

 

Sonharam todos tê-la nua e sua, de exclusivo

virginal, imaculado Malmequer,

de brancura vestida, lavando-nos da loucura

com que o medo e o degredo

nos apressa a salpicá-la !

 

A ela quase todos entregamos quase tudo:

nossas as armas de furtivos caçadores

incondicionais deste delírio de veludo

feito doce escravidão duma paixão !

 

Maravilhosamente bela e de cetim vestida

com jóias a cobrimos de vaidade

orgulhosos partilhando-a com a inveja deste mundo

julgando fazer dela a nossa própria identidade !

 

E é desde o dealbar das consciências soltas

e das pulverulento estruturas indivisas

entre a incisa indecisão dos limitados corpos

e a vastidão dos horizontes da memória

que, difusa e intangível, se insinua e se percebe

a opacidade táctil inefável

dos brancos desejos a corar ao Sol !

 

Ah, ela é a extensão prolif´rativa

de infinitos seres finitos

na ressonância ilimitada da aparência das coisas !

 

Ah, que o nos impele à ânsia de tocar a flor da pele

da presença concreta e necessária e pontual

da pélvica certeza dos instantes do amor

é apenas o receio de morrer sozinhos ?

Se me dissolvo em leves incertezas

delimitantemente ilimitadas

é pelo gosto de ser outrem a viver sozinho

nos infinitamente grande e pequenos nadas

do teu ser eu: " Oh,...meu amor !? "

 

E se me abraço a ti e em mim te aperto

de encontro ao nosso espaço de vontade de existir

certifico-me de ser e de estar vivo em ti

em corpos onde existem eus sujeitos

que se encostam a si mesmo

até que a concha opaca dos objectos se desfaça

como areia entre os dedos

ou gotas de orvalho à flor dos lábios !?

 

Ah, que ou nos soltamos pela aurora fora

quais botões de rosa...abertos às mãos do Sol

ou seremos a chuva miudinha sobre o pó

da terra que lavramos com os nossos olhos

ou salpicos de sal à beira mar !

 

O horizonte entardece de presenças evocadas

por esta solitude da emoção

de ser pó ou quase nada

e ser a alma etérea encarcerada

na ilimitada ausência de aparência

e a presença das forças que dão vida

a fazer-nos uma eterna companhia !

 

Ah, que a viver para sempre ai,...que o fosse

numa tarde de Maio e embalados

pelo marulhar da aragem entre os plátanos

junto à linha do Douro com imagens verde-mar

a ver passar os navios de comboio

e um verão azul ou então a navegar liberto

da humana gravidade em tualhão cinzento

brauneano fandango entre o começo...de mim

e o fim da solidão dos nossos corpos

limitados por essências impalpáveis...

continências etéreas de vagos conteúdos !

 

Negaremos o medo descobrindo-nos sozinhos

correndo apavorados entre a imensa multidão!

Nesta encruzilhada de estradas sem saída

galgamos prego a fundo numa fuga de cinema

ao encontro do destino deste egocentrismo

insatisfeito numa torre de marfim imaginário

onde a morte nos espreita pela porta do receio

de virmos a ser apenas letra morta

num buraco a mais na manta de retalhos da existência !

 

Ah, pudéssemos viver a vida toda duma vez

ou então num instante a morte nos devorasse

que nem ainda assim deixávamos de ser

os fantasmas solitários

que somos sobretudo acompanhados !

 

Porém, o meu egocentrismo é tão profundo

que do mundo sinto apenas nos meus braços

a fadiga de o sentir

e as entranhas ávidas do néctar

que me deixassem a dormir, mesmo a sonhar,

mas, para sempre !

 

E o universo? Oh, é me tão estranho

como os verso que faço para eu mesmo ler !

Vivemos condenados à perpétua condição

de máscara de concha inquebrantável

da liberdade da nossa solidão fora do Ser !

 

Somos formas limite à flor da consciência

atormentada com o fim do seu começo

e na ilusão de andar acompanhados

com o gosto da miragem de apenas vislumbrar

o próprio rosto à flor doutro sorriso !

Ah, não reter das margens incorpóreas do meu ser

mais do que as imagens vagas das essências

dum saber indefinido!

E assim me lanço contra factos e juízos,

contra os abraços de aço-pélvico do amor

a dividir-me palmo a palmo

pelo tempo-espaço dentro!

Ah, o amor...esta tontura...esta vertigem,

extático mergulho nos abismos duma origem

no fundo inacessível do teu corpo, meu amor !

 

Ah, lídima união de beijos narcisistas,

desejos anatómicos palpáveis e sensíveis,

fecundas discussões de sentimento,

indivisas emergência do mistério

de sermos afinal um átomo a mais que se elevou

da poeira cósmica do Ser !

 

Ao fecharmos este abraço, meu amor

sobro o espaço dos limites dos sentidos

dos entes dérmicos que somos, pelas formas

dos limites opressivos deste nosso egocentrismos,

pelas mãos da solidão destes desejos

a separar-nos e a atrair-nos...

procuramo-nos apenas indivíduos...

nos contornos difusos arrancados à poeira da existência...

como individuâncias deste Ser indivisível !

E seremos aparências de nós mesmos para quê ?...

Por quanto tempo mais...

viveremos separados, meu amor ?

 

Ainda que escarrássemos a peste,

na cara que não nos responde,

a besta do destino, que é malfeita e feia,

não tem focinho aonde pôr um nome !

Nesta estrumeira de saber acético

toda a opressão estética é mania

e basta ou não basta de loucura

e deixemos à tragédia da comédia a decisão !

 

Neste lençol de vermes e toupeiras

que é a humanidade aos saltos e soluços

na subconsciente memória da cultura

fincar os pés ou bater a porta e não sair

é o mesmo que ficar em qualquer lado

de pernas para o ar ou bem sentado

à espera dum lugar melhor no outro mundo !

Mendigar igualdade num sonho moribundo

antecipa a humilhação dum iluminismo sem razão !

 

Cada vez que me mudaram de canteiro ou cemitério

foi sempre este impropério de indiferença...

e um dente a mais arrancado à consciência!

Sempre que ladrei à vida desatenta

taparam-me a garganta com os ossos do ofício

de vidente e cego de nascença!

De tanto rastejar atrás da decepção da salvação

ganhei calos nos miolos e escamas nos sentimentos !

 

Ah, que eu dava um laço no pescoço

ou deitava-me a um poço feito gato e lagarto

em vez de replantar-me neste vale de lágrimas

onde os lobos apanham os cordeiros

a beber a náusea e depois, em romaria,

lá vamos cantando e rindo à tosquia

e saímos tonsurados não importa quando

pois só nos resta a liberdade

da escravatura consentida

renovada e melhorada de geração em geração !

 

Mas, pensamos demais...ai, coração

e tanto que esgotamos

os trunfos da vingança...e depois da lucidez !

Ah, cortar as raivosas raízes dos meus pés ?

Oh, sim furar os olhos não vão eles assustarem-se

com as fábulas, parábolas e rábulas da história

cantando o hino da alegria do avesso,

rastejando o subsolo mole da terra

onde os deuses apodrecem imortais !

 

Junto ao muro do orgulho das ideias belicosas

juntamos os espólios da vergonha

e os Centros Culturais são Mega-catedrais do esquecimento

saudades desenterradas como esp´ranças vãs

que cirúrgica e metafisicamente assassinamos!

Choraremos em vão os companheiros afogados

nesta  grande marcha do silêncio

ou no dia da vitória breve contra o medo !

Ah, camaradas, onde estão os vossos nomes

escritos nas artérias da vingança da lembrança

da minha tão inútil mas, eterna, indignação !

 

Ah, cortar as minhas lindas raízes ?

E dai? Secando ao sol, à espera do futuro

já deixamos de esperar ?

Acordados pela história já deixamos de sonhar?

A filoxera nuclear infectou-nos de ansiedade

e é cedo demais para alguém cantar vitoria

e é ainda mais tarde para alguém chorar !

 

Ai, aqui, nesta pátria do desencanto,

limite do jardim deste deserto do mau tempo

plantado à beira mar onde já foram navegantes

os sonhos naufragados de imigrantes

da descoberta do fim do recomeço do mundo !

 

Aqui, ao fim e ao cabo atormentados

somos profetas do azar

e espectros errantes da finis terra !

Aqui, quero ficar ! Aqui, e vivo ou morto!

Coração, só nos resta escolher entre o lodo da memória

e o cascalho dos instantes !

 

Ou encalho as raízes nas areias,

nas veias ganho vento e, água salgada nas artérias

até que na cabeça me apareça um par de belos unicornes

e, nos cabelos, algas verdes, venenosas...

ou fico para aqui como retalho de batráquio

a esconjurar o fim deste mundo terráqueo

que se esvai masturbação de mil palavras de cultura

e que se vem prostituindo pelas ruas da amargura

mirando-se, como o Eu, num mar, em rodopio de ilusão

no sonho deste orgasmo libertário...

de literárias e solenes soledades!

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 3 de julho de 2022

ECO e a equidade, por Artur Felisberto

 


Equidade (em latim: Aequitas) era um conceito latino que evocava a noção de justiça, igualdade, conformidade, simetria. Na Roma Antiga, pode referir-se tanto o conceito legal de equidade ou justiça entre indivíduos.

Foi desenvolvido no direito romano dentro do âmbito do "ius honorário", forjado pela jurisprudência dos pretos, a fim de se desviar das regras rígidas e ritualistas da "ius civil" em nome de um princípio de equidade entre as partes.

Cícero dividiu a equidade em três partes: a primeira pertencia aos deuses acima (ad superos deos) e que era equivalente à piedade, obrigação religiosa; a segunda que pertencia aos Manes, os espíritos do mundo inferior ou espíritos da morte, que eram sagrados (sanctitas); e a terceira pertencia aos seres humanos (homines) sob a forma da justiça (iustitia).

Durante o Império Romano, Equidade como uma personificação divina era parte da propaganda religiosa do império, sob o nome "Equidade do Augusto" (Aequitas Augusti), que também aparece em moedas. Ela é retratada em moedas segurando uma cornucópia e uma balança (libra), que era frequentemente mais um símbolo da "medida honesta" para os romanos do que de justiça.



Figura 11: AEQUITAS AVG, Aequitas standing left holding scales and cornucopia.

A deusa equidade era identificada coma a deusa Moneta.



Figura 12: OBVERSE: IMP DIOCLETIANVS P F AVG, laureate head right. REVERSE: SACR MONET AVGG ET CAESS NOSTR, Moneta.

«Igual» < aequ-alis < Lat. Aequus < aiquos

< proto-itálico *aikʷos ou *aikwos < de origem desconhecida.

Cf. no entanto, a tribo itálica Aequī, Aequīcolī (+ raiva), e os topônimos Aequum Tūticum (Hirpinia), Aequum Faliscum e Aequī Faliscī (Etruria), Superaequum (Samnium), em alguns dos quais o substantivo aequum (“planície”), em outros talvez o adjectivo "arrasado" possa ser visto. Provavelmente não relacionado à unidade sânscrita (aikya, “concórdia, identidade, mesmice”).

Aequus (aecus, Pac. 32 Rib.; Lucr. 5, 1023 Lachm. e Munro; AIQVOS, SC de Bacch. 1. 26), a, um, adj. anteriormente referido a ΕΙΚΩ, οικα, mas Pott o conecta com o sânscrito. ēka = um, como se fosse propriamente, um e uniforme; outros o consideram semelhante a aemulor, q. v..

Εἴκω = colher, ceder passagem < De uma forma mais antiga ϝεικω : weikō. De Proto-Indo-Europeu *weyk- (“curvar, dobrar; trocar”)

Εἴ-κω < ϝει-κω < wei-kō< ??? *weyk- (“curvar, dobrar; trocar”)

Ἔοικα = “parecer-se com” <Formas alternativas οἶκα (oîka) – Jonico

Et tempore et loco aequo,” Liv. 26, 3: “tempore aequo,” Suet. Caes. 35. —

Aequo = «adequado» < ad-aequāre

«Adequado» = 2. Que é bom ou próprio para determinado efeito, lugar ou objectivo. = APROPRIADO, CONVENIENTE, PRÓPRIO, ADEQUADO.

Tudo aponta para que «equidade» derive do conceito do que “é próprio dum lugar” (ou seja, uma ideia primitiva e intuitiva de moralidade relacionada com o que faz parte dos hábitos, tradições e costumes de um lugar ou comunidade.

Aequus < aiquos < proto-itálico *aikʷos ou *aikwos, < Ἔοικα

= “parecer-se com (Jonio oîka)< *Eu-oicos < οἶκος

 

Ver: DA ÉTICA À ESTÉTICA (***)

 

Já a alternativa εἴκω = colher, ceder passagem < forma mais antiga ϝεικω : weikō  < Proto-Indo-Europeu *weyk- (“curvar, dobrar; trocar”) será um falso cognato derivado de *εu-ἴκω > Ue-ἴκω > ϝεικω.

Ἵκω < *seyk- (“alcançar (para)”). Os sinônimos ἱκάνω (hikánō) e ἱκνέομαι (hiknéomai) são da mesma raiz, com sufixo nasal. Possivelmente cognato com ἥκω (hḗkō, “ter chegado, estar presente” Aqui!).

Ἥκω < Incerto, mas parece vir do proto-indo-europeu, talvez *seyk-. Compare ἵκω (híkō, “vir”).

«Eco» < Grego Ekhó

EKHO (Eco) era uma ninfa Oreiad do Monte Kithairon (Cithaeron) na Boiotia. A deusa Hera a amaldiçoou com apenas um eco por uma voz como punição por distraí-la dos assuntos de Zeus com sua tagarelice sem fim. Ela era amada pelo deus Pan, e ela mesma se apaixonou pelo menino Narkissos (Narciso). Quando o jovem rejeitou seus avanços, ela definhou, deixando nada para trás além de uma voz ecoando. Na antiga pintura de vasos gregos Ekho foi retratado como uma ninfa alada com o rosto envolto em um véu.

Pausanias, Descrição da Grécia 2. 35. 10 (trad. Jones) (livro de viagem grego C2 d.C.): "À direita do santuário de Khthonia (Chthonia) [ou seja, Deméter da Terra, na cidade de Hermione, Argos] há um pórtico, chamado pelos nativos de Pórtico de Ekho (Eco). É tal que, se um homem fala, reverbera pelo menos três vezes."

Eco era uma das Oréades, as ninfas das montanhas, e adorava sua própria voz. Como Zeus gostava estar entre as belas ninfas, visitava-as com grande frequência. Suspeitando dessas ausências do esposo, Hera veio à terra a fim de o apanhar em flagrante delito com as suas amantes.

Sendo a prolixa Eco a única do grupo que não se divertia com Zeus, intentou salvar as suas amigas, tagarelando com a esposa de Zeus ininterruptamente, de forma a possibilitar que o deus e as outras ninfas escapassem. Finalmente a deusa conseguiu livrar-se dela e, chegando ao campo onde os amantes estavam, encontrou-o deserto.

Zeus havia usado do dom de Eco falar fluente e eloquentemente pelos cotovelos para distrair a esposa, a fim de continuar os seus adultérios. Hera logo descobriu o ardil e condenou-a para sempre a repetir apenas as últimas palavras das frases que os outros diziam (ecolalia). A ninfa perdia assim seu mais precioso dom da tagarelice, aquilo que mais amava.



Figura 13: Eco & Narciso. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles (inv. 9380); fresco de Pompeia (45-79 dC). (Restauro cibernético do autor).

Enquanto vagava em seu sofrimento, encontrou um homem chamado Narciso que era tão belo que tanto as mulheres quanto os homens se apaixonavam logo por ele assim que o viam.

Mas Narciso, que parecia não ter coração, não correspondia a ninguém.

Certo dia, vagando pelos bosques, Eco encontrou o belo mancebo por quem logo tombou de amores. Como não podia falar-lhe, limitou-se a segui-lo, sem ser vista.

O jovem, porém, estando perdido no caminho, perguntou: "Está alguém aqui?"

Ao que obteve apenas a resposta: "Aqui, aqui, aqui…".

Segundo outras fontes, Eco era uma ninfa que tinha maravilhosos dons de canto e dança, que desprezava os amores de qualquer homem. O deus Pã dela se apaixonou, mas obtém-lhe apenas o desdém. Tolhido em sua lascívia, Pã se enfurece, ordenando aos seus seguidores que a matem. Eco foi então estripada, e seus pedaços espalhados por toda a Terra.

A Titã Gaia incorporou os pedaços da ninfa, com os restos de sua voz, que repetem as últimas palavras que os outros dizem.

Em algumas variantes dessa versão, Eco e Pan chegaram a ter uma filha, chamada Jambe, de que derivou o nome dos versos jâmbicos (pé de verso formado por uma sílaba longa e outra breve).

«Eco» < Lat. Ēchō < ηχώ < ἠχή (ēkhḗ) < ἦχος (êkhos, “sound”) < Ἠχώ

            > Lat. ecce (homo)!

«Eis» < Lat Ecce < etimologia incerta. < Eia A-qui! (Ki = Terra), quase de certeza ou seja próximo da etimologia do Eco.

São fortes os indícios de que o mito de Eco é uma variante de várias deusas de amor e fertilidade particularmente Anat / Istar / Isis...e Ishat.

Ísis, Aset ou Eset, é uma das deusas mais importantes do antigo Egipto. Seu nome é a forma grega de uma antiga palavra egípcia para “trono”, ou melhor, sede ou assento. Não podemos garantir se foi o trono que deus nome ao assento por correlação hieroglífica ou, como seria mais lógico, se foi o nome do trono da deusa mãe ou de qualquer lugar onde esta se assentava. Como sabemos, primordialmente a deusa mãe era a terra e por isso qualquer lugar em cima da terra era um aqui onde a deusa mãe estava presente e sentada. Este conceito parece ser o que se manteve na mitologia do nome da deusa Eco: Aqui! Aqui! Aqui!

A relação desta mitologia com Pan e reminiscências de sacrifícios humanos arcaicos de fertilidade agrícola parecem garantir antiguidade desta deusa que acabou destronada por Hera das funções de deusa mãe como era Isis.

Ishat é uma deusa fenícia do fogo (seu nome significa simplesmente "Fogo"), chamada de "a cadela dos deuses". Ela é mencionada no Épico de Ba'al como um dos inimigos do Deus que é destruído por Anat, a Deusa guerreira. Ishat é chamado de "o ígneo" e é evidentemente uma deusa do fogo e do calor; como Ba'al é o Deus da chuva e do relâmpago (personificado como as deusas Talaya e Pidraya, respectivamente) Que traz umidade vivificante para uma terra seca, talvez Ishat represente o calor ardente do verão que faz com que as plantas murchem e morram.[1]

Quando uma deusa é destruída por outra é sinal de que a substituiu porque eram variantes da mesma entidade mítica.

Formas alternativas ᾱ̓χᾱ́ (ākhā́) - Dórico < ??? Do proto-indo-europeu *(s)wehgʰ-.

Cognatos são difíceis de atribuir com certeza, mas provavelmente incluem latim vāgiō, sânscrito वग्नु (vagnu), inglês antigo swōgan (inglês sough).

A etimologia indo-europeia não faz sentido quer porque não ressoa a nada quer porque não leva a nada que faça sentido.

Então teríamos:

Ἠχώ < ήχος (íchos) < ἠχή < Echat < Achat < Ichat.

             Ich-Ki < Ichat = Ich-Ati

Ἰξίων < Ich-Ki-ão.

“Ixion era filho de Ares, ou Leonteus, ou Antion e Perimele, ou o notório malfeitor Phlegyas, cujo nome conota "ardente”, ou seja, tem conotações com Ishat.

ῐ̔κέτης • (hikétēs) m (genitivo ῐ̔κέτου); primeira declinação (épico, ático, jônico) Aquele que vem em busca de ajuda ou proteção, suplicante = Aquele que vem em busca de purificação depois de ter assassinado alguém: comum na Ilíada e na Odisseia.

Ver Orestes e Recordar o «Adeste Fidelis!» Ou seja chegai-vos e sentai-vos Aqui no chão que é o seio da Terra Mãe!

Esta deusa do fogo fenícia Ichat seria também a deusa da crepitação que fazem as achas das fogueiras quando ardem ou dos relâmpagos quando troveja. Se os fenícios exaltaram o lado fogoso desta deusa os gregos retiveram o lado sonoro. No entanto há muitas semelhanças em ambos os mitos desde logo o facto de Eco ser possivelmente uma variante evolutiva de Eos e ambas formas de uma deusa do amor violento e incontido.

 

 



[1] Ishat is a Phoenician Goddess of fire (Her name simply means "Fire"), called "the Bitch of the Gods". She is mentioned in the Epic of Ba'al as one of the enemies of the God who is destroyed by Anat, the warrior Goddess. Ishat is called "the Fiery" and is evidentally a Goddess of fire and heat; as Ba'al is the God of the rain and lightning (personified as the Goddesses Talaya and Pidraya, respectively) Who brings life-giving moisture to a dry land, perhaps Ishat represents the burning heat of summer that causes the plants to wither up and die.

sábado, 11 de junho de 2022

DESENHOS DE VASOS GREGOS, James Millingen Ancient Unedited Monuments, por Artur Felisberto

 Desenhos ciberneticamente restaurados por Artur José Felisberto da obra: ANCIENT UNEDITED MONUMENTS. PAINTED GREEK VASES, FROM COLLECTIONS IN VARIOUS COUNTRIES Of PRINCIPALLY IN GREAT RRITAIN, ILLUSTRATED AND EXPLAINED By JAMES MILLINGEN.