sábado, 17 de maio de 2014

HISTÓRIA SEMÂNTICA DA NUTRIÇÃO, por arturjotaef

Subsídios para a

HISTÓRIA SEMÂNTICA DA NUTRIÇÃO

 

por

 

Artur José Felisberto

 

 

Edusa = The Roman goddess with whose help small children learn to eat < Ethusha < Ekusha < Enki-isha, lit. «filha de Enki/Ea, Ishtar» => Ea-at => Engl. «eat».

 

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A alimentação racional é «ficar a pão e laranjas» com uma «vaca leiteira» por perto.

 

«Nutrir» < Lat. nutrire < Netur-ir < Ant. Egip. Neteru, epíteto de Hator, a deusa «vaca» do amor e da fertilidade, enquanto Mãe Natura (= Natureza) < *An-Kaur.

«Alimento» < Lat. alimentu < Harime-Antu < *Kaur-Ama-Antu => Karmen-tu, Lit. Carmen, a que sustenta o «filho de deus», o Minutauro

=> «Sarmento», o sustento da uva.

 

Sumário:

·       _______________________________________________________________

·        

·       OS DEUSES DO FOGO DA TERRA E DO CÉU

·       O APARECIMENTO DAS CASTAS GUERREIRAS e O INÍCIO DA ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL.

·       A GUERRA DE SEXOS

·       O CULTO DOS MORTOS

·       A ORIGEM DOS TABUS ALIMENTARES

·       O MITO DO PARAISO PERDIDO & O CONTO EGÍPSIO DE SETNE

·       SOMA VÉDICO

·       NINNANA, (A DEUSA DO KHULUPPU E DA BOA FRUTA.)

·       OS CULTOS AGRÁRIOS DA DEUSA MÃE

·       GESHTINANNA, A DEUSA SÚMERIA DO VINHO

·       DE *KIMA AO QUIMO

·       DA ESPUMA DA CERVEJA DE KA-*KIMA A *ASHMA

·       ARTEMISA, S.ª DA SAÚDE

·       SALKET, A DEUSA DO PODER PURIFICADOR DO SAL

·       ATENA, A OLIVEIRA E O AZEITE.

 

_______________________________________________________________

 

OS DEUSES DO FOGO DA TERRA E DO CÉU

A primeira forma de civilização, que, por ter acontecido nos alvores dos tempos, foi seguramente discreta, terá começado pela utilização do fogo do mesmo modo que toda a cultura, terá começado também com seu domínio.

 

Data

Acontecimento

-100 000 a -30 000

Homem de Neanderthal

-30 000 a -10 000

período Paleolítico superior

Aparição da arte rupestre

-10 000 a -8 000

período Mesolítico

Fim dum período glaciar

Domesticação do cão

-8 000 a - 7 000

Domesticação do porco na Anatólia

Primeiras divindade

Primeiras aldeias de agricultores

- 7 000 a -6 000

período Neolítico

- 6 000 a -3 500

período Calcolítico

- 3 500 a -2 700

período da idade do Bronze

 

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Admitindo a coincidência do aparecimento da utilização do fogo com uma época de glaciação e ambos estes fenómenos com a arte rupestre estamos em condições de poder afirmar que esta, a arte rupestre, aparece, afinal, como primeira expressão de espiritualidade humana. Desde logo porque as cavernas aparecem como refúgio contra o frio e o calor do fogo domesticado como aconchego adicional. Ora, nem um nem outro fenómeno teriam sido relevantes em climas tropicais ou fora de épocas de glaciação.

Se é verdade que a necessidade aguça o engenho ainda é mais razoável pensar que só poderiam ter sido carências colectivas súbitas as únicas que teriam despontado o processo civilizaçional. Se não fosse o postulado cientifico da existência de grandes flutuações climáticas seria aceitável imaginar que o homem, ao longo dos milénios da sua evolução biológica, se teria adaptado gradualmente a todos os climas sem particular sobressalto. Porém, uma glaciação súbita, para mais em latitudes onde anteriormente os climas eram amenos, obrigaria a alterações bruscas nos comportamentos colectivos. Ora, por princípio histórico empírico como foi o marxismo, são as alterações críticas que são revolucionárias e criativas.

É duvidoso que se pudesse imaginar com razão que se poderia ter dado o caso de nenhum homem ter descoberto as soluções técnicas necessárias à sobrevivência em latitudes de intensa glaciação não se tendo então dado sequer o início da civilização, caso fossem necessários os pressupostos anteriores. No entanto, se algo é inato na espécie humana será precisamente esta particular plasticidade adaptava do homem baseada numa criatividade intuitiva que obviamente já vinha de longe, pelo menos desde o tempo em que os primeiros homídeos começaram a lascar pedra.

Ora bem, o homem primitivo começou por utilizar como armas de caça e defesa o «pau e o calhau», tal como a natureza as oferecia. Tanto é assim que ainda hoje o imaginário rural tem como crime de homicídio mais comum o que corresponde aos instrumentos contundentes actuando por «espancamento», à paulada e à calhoada! A condenação à morte por apedrejamento, de que Cristo ilibou a mulher adúltera, seria assim já um manifesto arcaísmo rural da tradição judaica.

Como não seria racional coleccionar o que a natureza desvalorizava com abundância seria de esperar que o homem primitivo não guardasse tais armas contundentes. A passagem da utilização do pau de lenha e do calhau rolado à pedra lascada e ao varapau, limpo, afiado e endurecido pelo fogo, introduziu no processo instrumental da adaptação humana um primeiro precedente de artificialidade. No entanto, parece que este primeiro passo em direcção à civilização, enquanto adaptação social por artifícios e artefactos, não só foi ainda tímido como foi paradoxalmente incompleto pois que as armas que assim se fabricavam não eram ainda guardas sendo assim pouco correcta a sua designação da machados de mão. A justificação para o facto de serem esbanjados os esforços humanos de fabrico dos machado de mão, que os arqueólogos encontram ao desbarato em jazidas pré-históricas, ao ponto de ser de regra acreditar no seu fabrico sempre que necessários seguido do seu abandono logo que deixavam de ser utilizados, parece residir na facilidade do seu fabrico pelo homo habilis. Porém, em minha opinião, se o fabrico destas armas poderia ser fácil e rápido por quem estivesse adestrado (e nada obsta a pensar que o homem primitivo seria tão hábil então quanto o continua a ser agora!) já a escolha dos seixos adequados para matéria prima destas armas não seria sempre nem fácil nem rápida nem sequer sempre disponível localmente pelo que, outras explicações terão de ser encontradas para a quantidade dos machados encontrados pelos arqueólogos. A acumulação de tipo sedimentar ao longo dos prolongados séculos de actividades humanas paleolíticas nos mesmos nichos ecológicos poderia ser uma das explicações para o fenómeno do aparente esbanjamento de pedras lascadas, se não se dera o caso de que, se fora assim, já a estratigrafia o teria revelado. No entanto, aceite a tese, por falta de provas em contrário, de tal esbanjamento de machados de mão não poderia este ter correspondido a uma permanência ritualizada de hábitos anteriores dos tempos de utilização da pedra natural?

Tenha sido do modo que foi, o certo é que a prática da lascagem da pedra foi seguramente o ponto de partida para a descoberta do fabrico do primeiro método para atear o fogo, quanto mais não fora na sequência do que poderíamos considerar os primeiros e recorrentes «acidentes de trabalho» artesanal. Então, a incidência transforma-se em reincidência e o fogo terá passado a ser premeditadamente ateado e entretanto outros métodos terão sido inventados na certeza porém que a posse de qualquer um destes métodos para acender o lume parece ter passado a constituir um secreto poder tecnológico de primacial importância. Se foi este poder que gerou a ideologia religiosa elaborada em torno do espectáculo das fogueiras acesas na escuridão das noites e das cavernas, ou a inversa é pouco relevante como o é toda a questão em torno da polémica do ovo e da galinha. O certo é que o fogo parece ter constituído a primeira fonte de poder tecnológica decisivo a partir do qual se elaborou a ideologia mágico-religiosa da adoração dos «deuses da luz e do fogo» que o iriam fundamentar no imaginário social.

Ora bem, a invenção do fabrico do machado de mão não chegou a ser fonte de acumulação de poder tecnológico pelo simples facto de que, tal como qualquer um pode ter acesso ao calhau rolado, também um qualquer acabaria mais tarde ou mais cedo por aprender a lascar à mão o seu própria machado de mão! No caso contrário sucumbiria de fome ou de ignomínia!

Porém, o mesmo já se não terá passado com o fogo. À primeira impressão parece que estamos perante um apriorismo indemonstrável ao tentar saber porque razão é que a posse dos métodos para acender o lume não foram também alvo de apropriação comum tendo, pelo contrário, permanecido no exclusivo de uma casta de iniciados a que viemos muito mais tarde a chamar magos (que nem só por mero acaso eram também sacerdotes persas do fogo!) mas que eram na altura os primeiros homens de saber mágico-religioso, os feiticeiros da tribo ou os xamans.

Pois bem, esta afirmação não constitui um mero apriorismo porque, na verdade, a sacralidade do fogo corresponde a uma longa tradição histórica que vem até às festas da «bela-luz», arbusto que com a giesta era preferencialmente utilizado no Alto Douro nas fogueiras de S. João.

Depois, porque a explicação deste fenómeno, embora pouco evidente, acaba por ser tão simples como o ovo de Colombo. O espectáculo do fogo é feérico e assustador! Os tasmanianos, os mais primitivos dos povos que foi possível estudar na actualidade, receberam os primeiros europeus com archotes acesos pensando que assim os afugentariam!

Ora, tal como a posse actual da tecnologia nuclear tende a ser ou uma arma medonha, mais dissuasiva que efectiva, ou uma tecnologia de produção de energia que quando não é altamente controlada corre o risco de gravíssimos acidentes como o de Chernobyl, também ao fogo paleolítico terá acontecido o mesmo pelo que a sua posse e manutenção terá sido reservada durante muitos milénios ao circuito do lar, sob a protecção de sensata e puras virgens vestais e só depois, a iniciados, primeiro «feiticeiros e xamans», depois a uma casta sacerdotal (de que os magos foram a mais evidente expressão) e só terá passado para os ferreiros militares com o advento da tecnologia dos metais.

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Figura 1: Guerreiro alpino da época dos metais.

Nesta linha de pensamento, os deuses da época do ferro como Vulcano e Hefesto, expressariam já esta apropriação do fogo dos ferreiros pelo domínio poder militar. Com o culto do fogo outros poderes e saberes foram sendo acumulados não sendo no entanto demais lembrar que o advento da arte rupestre não é mais do que a expressão visível da cultura mágico-religiosa relativa ao culto do fogo incluído na economia recolectora e de caça da época glaciar. De facto, um dos primeiros pigmentos utilizados na pintura primitiva foi o negro de fumo e do carvão de lenha.

E tudo aponta para que tenha sido precisamente nesta época que, nos sopés dos Pirineus e dos montes alpinos, começaram as primeiras formas de acumulação de bens alimentares no meio do Outono (caça e peixe fumados, feno e frutos secos, etc.) como única forma de sobrevivência aos rigores dos invernos glaciários. Esta primitiva acumulação sazonal de alimentos terá constituído a primeira acumulação de mais valias que terá contribuído para o desencadear em bola de neve do processo de civilização imparável a partir dai. As alterações climáticas da glaciação, só por si, tinham já levado à escassez da caça o que determinou a necessidade da ultrapassagem para a fase da caça vigiada na qual o homem primitivo não se limita a caçar o que encontra à mão como passa a segui o rasto das espécies preferidas deslocando-se com as manadas, estudando-lhes, de forma mais mágica e ritual do que empírica, os hábitos e ciclos vitais. Será assim nesta altura que o homem primitivo adquire a obsessão religiosa pelos animais que deifica.

O animismo é, sob o ponto de vista antropológico, a fase cultural da humanidade durante a qual se acreditava na alma divina dos animais que o homem incorporava quando os comiam e na recíproca, de que os guerreiros mortos na caça se transformavam na alma dos animais que os matavam ou comiam.

Esta relação mística entre a alma e o corpo dos animais teria que levar por um lado a sua divinização enquanto «sacrários vivos» da «alma dos antepassados» e por outro ao «complexo de culpa» decorrente da morte de animais que os primitivos expiaram com os rituais de sacrifício, banquetes sagrados em que até vidas humanas acabaram por ser imoladas para aplacar a fome de carne e a sede de sangue de deuses sanguinários criados à imagem e semelhança duma alma humana atormentada pelo fantasma do pecado original do deicídio. Em torno desta mística dos sacrifícios cruentos, afinal duma intuitividade tão nua e crua quanto arcaica e primitiva, iriam florescer os «ritos de passagem» que permitiam transformar os jovens em «guerreiros», na medida em que os «limites da liberdade» de todo o homem primitivo estavam dependente da sua auto-suficiência alimentar a qual só era possível, sobretudo em ambientes críticos e adversos, apenas enquanto vivesse em confronto constante com os recursos escassos do seu «território de caça» por causa da defesa e expansão do qual necessitava de viver em violência cíclica com os seus vizinhos.

A mística dos «ritos de passagem» iria degenerar em mistérios de morte e ressurreição nos alvores da agricultura cujo paroxismo degenerou nos sacrifícios humanos centro-americanos e veio a ser sublimada pela eucaristia cristã pela qual se transfere a responsabilidade do pecado original de deicídio totémico para o povo eleito de Israel na pessoa dos judeus doravante responsáveis pela morte do Filho de Deus que a todos nos remiu do mesmo complexo edipiano.

Deuses agrícolas como Damuz e Osíris e todos os cultos órficos e dionisíacos aparecerão mais tarde durante a revolução neolítica que culmina a lenta, mas segura, progressão pré-histórica do paleolítico.

Como nas latitudes glaciares a rena era dominante terá sido então o animal mais caçado e concomitantemente mais adorado nesta fase cultural de xamanismo.

Do mesmo modo, o nome dos Pirineus reflecte uma homenagem semiológica aos deuses primevos surgidos nesta altura do paleolítico, pelas bandas das grutas de Altamira ou, mais distante, na zona dos grafitos do vale do Côa.

In the myths relating to Prometheus, the lightning-god appears as the originator of civilization, sometimes as the creator of the human race, and always as its friend, suffering in its behalf the most fearful tortures at the hands of the jealous Zeus. In one story he creates man by making a clay image and infusing into it a spark of the fire which he had brought from heaven; in another story he is himself the first man. In the Peloponnesian myth Phoroneus, who is Prometheus under another name, is the first man, and his mother was an ash-tree.

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Figura 2: alces dos Alpes da idade dos metais.

Assim se explica que o veado tenha sido o animal totémico dos deuses supremos durante as fases mais arcaicas da pré-história anatólica. Dos Alpes (alphis > alwis < lat. albus = «branco») se diria que receberam o nome do monte branco. No entanto, a presença de representações rupestres de cervídeos em rochas alpinas permite a suspeita de que o nome destes montes andou relacionado com os cultos alcinos da Anatólia e então temos: «Alces» < Alkis > Alphis, de que deriva o nome dos animais de «Alfeu», assim como o nome da primeira letra do alfabeto, em grego.

Mas, nos primórdios da oralidade, a natureza polisemântica das línguas era de regra pelo que os Alpes podem ter sido apenas Al-kis, lit. as terras do senhor das alturas < Kur-Ki-ish, lit. «os montes gémeos, filhos de Ki, a Deusa Mãe»!

Como tenho por convicção que os deuses começaram a ser adorados «com as crianças à volta da fogueira» aceito que passaram a ser representados com a arte rupestre que teve início em volta do sopé dos Pirineus e nos montes Cantábricos. Os cultos do fogo passaram para as ilhas do mediterrâneo, através do que seria do istmo de Gibraltar (< Kiwra + altar, lit. «colunas altares, de Kiphura»?) que na época pré-diluviana seria uma larga faixa de passagem entre a Europa e a África ocidental, onde se desenvolveu a ideologia dos reis sacerdotes, precisamente em volta do domínio secreto das tecnologias emergentes do fogo e que culminariam em Creta com os cultos telúricos e vulcânicos das «deusas das cobras».

Pirineus < Phyr-an Theos < *Kur-An Kius = *Kur Anu Kish, montes de Iscur-an, o filhos da Deusa Mãe Terra, Ki e de Anu, o deus do céu».

Ora, para An (genério de Sr. e deus) º Ama, a Deusa Mãe => Phoroneus º Pro-Ama-Theos > Prometeu.

Ora bem, um acréscimo de recolha para acumulação determina forçosamente uma modificação de mentalidades. Pela primeira vez na história o homem foi forçado a encarar a questão da produção de bens de consumo para além das necessidades imediatas questão precursora da aquisição dos conceitos de bens e valores económicos, de pecúlio em gado [1], riqueza e «mais valia». A necessidade de aproveitar os poucos meses de verão deve ter incentivado a passagem dos mecanismos antigos de recolha de vegetais selvagens à pratica sistemática do cultivo assistido de certas espécies selvagens de crescimento rápido como embrião da agricultura. A eficácia destas práticas deve ter andado, lenta mas progressivamente, ao lado de outras tantas alterações adaptavas nas tácticas de caça que levaram à pastorícia.

A mesma necessidade de sobrevivência aos invernos gelados levou à recolha do feno selvagem para atrair a caça vigiada, depois para alimento da caça cercada e, em breve, da pastorícia de inverno, facto que foi seguramente um antepassado tanto da domesticação de animais como do cultivo de cereais.

Este mesmo mecanismo explicaria a maior sobrevivência aos rigores do inverno dos que engordavam mais durante os finais de verão e do outono explicando deste modo o culto de que «a beleza era formosura» das gordas deusa mães das época arcaicas que iria permanecer até ao neolítico das ilha de Malta e na arte até ao sec XIX.

A passagem da caça indiscriminada à caça vigiada, que levaria inevitavelmente ao início da pastorícia, assim como a práticas de recolha alimentares programadas para médio prazo, terão exigido os primeiros rudimentos de diferenciação de tarefas que terão constituído os primeiros esforços sérios de vida social organizada, de tipo rural. Esta diferenciação, que começou por ser mais de estatuto social do que de profissão, terá permanecido durante um longo período arcaico apoiada apenas nas diferenças biológicas naturais de sexo e idade.

Esta primeira diferenciação por sexos, ainda na fase da caça/recolecção, longe de ter sido desvantajosa para o dito sexo fraco, ter-se-á constituído em torno da evidência natural do poder fantástico da maternidade. A ideologia justificadora desta primeira organização social foi assim o matriarcado com as suas primeiras manifestações megalíticas de culto organizado à Grande Deusa Mãe. Só muito mais tarde, com o advento das castas guerreiras, se terá passado a uma diferenciação artificial, ainda na mera base do estatuto social, na linha da trifuncionalidade dumeziliana, do chefe com o seu corpo de guerreiros permanentes, do comum dos homens livres e dos escravos de guerra.

Seria a progressiva generalização deste tipo social de auto-organização de tipo militar, afinal inelutavelmente intrínseca ao ser humano, que viria a ser o padrão em torno do qual se viriam a desenvolver as necessidades e os hábitos de civilização que em breve iriam levar à revolução agro-pecuária, cujo clímax marcaria alguns séculos depois o aparecimento da cidade e da história escrita.

No entanto, a arte rupestre permanece a manifestação duma economia de caça em expansão que iria terminar na invenção da agricultura dos tempos pós-glaciares.

Esta expansão ia a par e passo com os progressos nos domínios colaterais da tecnologias do fogo, particularmente com a produção da cerâmica e com os cultos funerários do paleolítico superior. É sabido que a arte esteve sempre ao serviço das manifestações religiosas. Assim sendo, a arte rupestre é a primeira manifestação religiosa necessariamente relacionada com os primeiros rudimentos de organização económica conhecidos e centrada na tecnologia do fogo.

Os deuses do fogo terão sido assim os primeiros a aparecer na história!

Ora bem, os primeiros esforços sociais orgânicos teriam sido impossíveis sem inter-relação informativa e diálogo que nesta fase do desenvolvimento humano teria que partir do grau zero da oralidade. As primeiras manifestações humanas de actividade social organizada reveladas pelas espantosas e ciclópicas construções do neolítico teriam que corresponder a uma fase já adiantada de oralidade que terá começado e ser esboçada com o aparecimento das primeiras manifestações de arte rupestre. Em qualquer dos casos, seria lógico pressupor que primeiras palavras da humanidade tenham sido nomes de deuses e deste o primeiro pode ter sido o da Grande Deusa Mãe, Ki/Gi ou Phi que viria a ser a rainha do céu e da terra das civilizações megalíticas das ilhas do mediterrâneo. De Gaia, a Natureza Terra Mãe, surge a vida e a energia ígnea que tanto pode destrui-la quanto protege-la purifica-la, razão pela qual se compreenderá o postulado da universalidade do Ka derivado do nome da Grande Deusa Mãe Terra (< Ki + a = «agua, fluxo vital da terra, vida»). Atestado no Egipto este conceito é explicitamente confirmado no Xi da energia vital do budismo Zen e no facto de o Ka sumério significar centro e intimo, ou seja entranhas alma ou coração.

Dicionário Sumério:

Árvore Para Lenha

= U-|Suh

< suki

< |* kuki < Kiki

Fogo

= Ag < aki

< haki

< *Kaki

Fogo

= Bil > deus do fogo e da luz dos celtas.

< wir

< Kur

Fogo

= Gira[2]

< Kirra

< Kur ra

Fogo

= Izi < Isk ki[3]

 

 

Lenha

= U

 

 

Nusku = A Sumerian god of light and fire, and the messenger of Enlil, his father. He sets fire to the steppes, and is called upon to destroy witches and demons with his fire. His son is the fire-god Gibil. The lamp is his attribute. Ishum (Hendursanga - 'lofty mace') - He is the god of fire, and is adept at using weapons. He lights the way in front of Erra and the Sebitti.

É evidente que Nusku não é o nome original deste deus, que não seria também originalmente o mensageiro de Enlil mas de Enki, se é que não era o próprio Enki, consorte de ki, ou mesmo filho deste o que significaria que: (A)nu ish Kiu <= Anu Kiku. Quanto a Ishum ( < Uskun < Nusku) é mais do que evidente que corresponde ao mesmo nome anterior ou seja a uma mesma invocação ao deus da luz que foi Kius. De resto, a variante deste nome, Hendur sanga = «pendão[4] sublime» (<= Phian Kur sanga <= misanga < saga = água doce da fonte, do interior da terra; íntimo < Kianka?) pode não passar duma adaptação duma antiga referência à soberania do deus Pan, e Enki das aguas doces, sobre o Kur.

Gibil deriva, por sus vez, dum conceito que poderia ter sido a primeira tentativa racional para entender o fogo. Gibil < (mandeieno Kiwel [5]<) Kiwil < Kiwir = > Kur.

Sendo «lil» a entidade volátil do vento, Kiwil corresponderia à inconstância febril e apaixonada do poder da terra que era o fogo, ou seja a um conceito equivalente à volatilidade do vento reportado ao fogo da terra mãe. Em boa verdade, é bem mais plausível que Gibil seja uma variante tardia de Kur o que nada tem de relevante já que se tratava do nome do deus dos infernos sumérios onde foi suposto existir até aos nossos tempos o fogo eterno que alimentaria os vulcões. O interessante deste nome reside no facto de ele nos permitir aceitar como plausível a suspeita de que o nome do deus sumério Enlil deriva de Uri. De facto, Enlil = An + Lil => Lil < lilu < Ulilu < Uri + lu, por exemplo.

Kakka (< Kakika) =: Vizier of Anshar and Anu. Messenger of the Sumerian god Anu; he brought the god's food to Ereshkigal.

=> Kakiko = o «deus menino, filho» do fogo lunar? Mensageiro dos deusa foi Hermes que os gregos identificavam com o babilónico Ea/Enki.

Se levava do comer do céu à rainha do inferno sem lá ficar retido eternamente é por que de facto era o que o seu nome sugere: um deus infernal.

Cacus and Caca = Fire deities, brother and sister. Cacus, three-headed and vomiting flames, was a son of Vulcan. Cacus "Originally a pre-Roman god of fire, who gradually became a fire-breathing demon".[6] Cacus. = A fire-breathing half-human creature who ate human flesh and nailed the heads of men in the doors of his cave. Offspring of Hephaestus. Was killed by Heracles.

Assim sendo, temos já para possíveis nomes dos mais arcaicos dos deuses o casal latino Caco/Caca, que de tão arcaicos foram desprezados e se tornaram depreciáveis! De tal modo que, as fezes, enquanto algo que não é comestível, é «caca» como «cacos» são, para as crianças, os pedaços de barro (ou pó de terra seca) partidos quais pequenas pedras e cacos é feio ou porco em grego.

Porém, a variante mais plausível seria o casal formado a partir de Ki, a deusa Mãe das antigas culturas matriarcais mediterrânicas:

Ki => K(aeiou) => v.g. «Caio/Gaia», etc.=> Kiw(er) => Deus e Zeus, etc.

Ki => K(aeiou)k(aeiou) => v.g. Kako/koka => Foebus e Hebe, etc.

Ki => K(aeiou)k(aeiou) k(aeiou)  => v.g. Kakiko/kikita. => Dahaka, Daksha, etc.

Dahaka (< Kakaka) = Or Azhi Dahaka, the three-headed dragon of Persian myth, he struggled with Atar, son of Ahura Mazdah, who finally bound it with strong chains on a high mountain. Dahaka was however destined to escape near the end of the world, and destroy a third of the world before he was slain. Daksha (< Kakika) = One of the Rishis, Daksha was the son of Brahma, springing from the god's right thumb, but he was condemned to go through a rebirth as a result of a curse laid on him by Shiva, his son-in-law.

Ora bem, de todos os nomes possíveis para o primitivo casal de deuses do fogo pelo menos um deverá ter sido o antecessor do nome de Deus, enquanto deus da luz, emanante da sarça ardente. Caco < Kiku > Kihu > Kiw(er) => Thiu /Ziu / Diu => Dyau > Teos / Zeus / Dius > dia e Deus.

Como tenho por convicção que os deuses começaram a ser adorados à volta da fogueira aceita-se que passaram a ser representados com a arte rupestre que teve início em volta do sopé dos Pirineus e nos montes Cantábricos. Os cultos do fogo passaram para as ilhas do mediterrâneo, através do que era um istmo de Gibraltar (< Kiwra + altar, lit. «colunas altares, de Kiphura»?) na época pré-diluviana, onde se desenvolveu a ideologia dos reis sacerdotes, precisamente em volta do domínio secreto das tecnologias emergentes do fogo e que culminariam em Creta com os cultos telúricos e vulcânicos das deusas das cobras.

 

O APARECIMENTO DAS CASTAS GUERREIRAS e O INÍCIO DA ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL.

O homem do paleolítico era um caçador/colector que tinha a agressividade biológica própria de um animal predador com um forte instinto de territorialidade grupal. Aquilo que se passava então não terá sido muito diverso daquilo que a antropologia tem conseguido esclarecer através do estudo de sociedades primitivas em estádios de evolução que seriam os equivalentes dos tempos primitivos. De resto, nem será necessária muita simulação histórica para imaginar estes tempos porque deles o cinema nos tem dado magistrais lições na forma de filmes de cowboys onde os índios norte-americanos são mais ou menos bem retractados e de forma dinâmica no seu habitat natural, ainda na fase de caçadores de bisontes.

Numa fase intermédia entre a do selvagem caçador e a do futuro pastor-agricultor deve ter existido a fase intermédia, vaga e difusa, do caçador que aprendeu a domesticar as crias de certos animais que caçava. Num ambiente de relativa abundância de caça pode ter acontecido que algumas crias, depois da morte dos seus progenitores, tenham sido apanhadas e levadas vivas para o acampamento onde ganharam a afeição da tribo, talvez pelo menos a das crianças ou dos mais jovens, e assim se descobriu o fenómeno, importantíssimo na história da humanidade, da domesticação dos animais. Daqui a descobrir-se que este fenómeno poderia ser alternativo à escassez crescente das reservas naturais de caça decorrentes, ora da caça intensiva ora das variações climáticas, foi apenas o passo que as necessidades ecológicas impuseram com o nome do fenómeno histórico da pastorícia.

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Figura 3: O treino dos guerreiros.

Ora bem, o caçador era, por inerência de técnica e funções tácticas, um guerreiro ao serviço dum bem colectivo que era a defesa da reserva comum de caça. Enquanto não havia alternativas económicas à caça todos os homens eram caçadores e logo, eram todos também guerreiros por natureza. Assim sendo, mesmo que, já nesta época, alguns tenham tido tendência para serem, por temperamento ou a reboque de estratégias psicossociais de incipiente manifestação de força de carácter e personalidade, mais aguerridos do que outros, o certo é que não existem evidências de diferenciação social, a não ser, quanto muito, em relação ao chefe da tribo, cuja posição resulta exclusivamente dos mecanismos de hierarquização psicossociais intrínsecos à espécie “homo sapiens”, baseadas mais na respeitabilidade da idade, numa «personalidade forte» e numa «boa estrela» do que numa particular bravura de instintos. Na verdade, os mecanismos de selecção natural inerentes a todas as espécies fazem apelo a todas as qualidades que possam contribuir para a longevidade individual sobra a qual se alicerça, por decorrência, a da espécie e que no homem deve ter sido pouco diferente das que se manifestam nos primatas superiores e ainda nas atitudes espontâneas da espécie humana. O culto da «beleza física» Apolínea inerente ao vigor da juventude versus a sensatez hermética que só se alcança com idade marcam os limites em volta dos quais terá andado a identificação dos fenótipos que determinam as vicissitudes da selecção psicossocial dentro da espécie humana.

Com o evoluir dos tempos viria a aparecer no período neolítico o fenómeno da pastorícia exclusiva ou preponderante facto que veio alterar sensivelmente as coisas em termos de novas relações de produção.

Pois bem, para uma alteração histórica de atitudes culturais seria necessária o aparecimento de alterações estruturais que as justificassem. Ora, as alterações de ralação produtiva são determinantes nas convulsões históricas não por mera evidência marxista mas porque é tautológico dar conta de que as relações económicas dependem das leis da economia que seria como dizer que as alterações na ecologia antropológica encontradas na história teriam que ter explicações de tipo ecológico. Pois bem, a economia não é mais de que a expressão, mais ou menos consciente mente explícita, da ecologia nas sociedades.

A possibilidade da figura do pastor exclusivo ou predominante, ainda que mantendo fortes instintos de caçador, além de ter permitido também o aparecimento em contraponto da figura do guerreiro possibilitou o aparecimento da primeira acumulação de riqueza, na forma de cabeças de gado, ou «pecúlio» (do lat. pecus = gado)! Ora, qualquer forma de acumulação de riqueza atrai a cobiça e determina, mais tarde ou mais cedo, o aparecimento duma diferenciação de classes quanto mais não seja na forma mais fundamental e simples de quem defende o tesouro da tribo.

Como se trata duma «reserva alimentar» então a gestão da sua distribuição constitui a primeira fonte de riscos de injustiça e a primeira justificação social do poder de estado. A mera possibilidade teórica do aparecimento duma maioria de caçadores exclusivos separados dum grupo de guerreiros que, mantendo-se no respeito das velhas tradições de caçadores e guerreiros continuam a garantir a defesa externa do grupo abriu a possibilidade de estes passarem a ter a necessidade de garantirem a sua própria sobrevivência, tanto em termos alimentares quanto de prestigio social, à margem e em prioridade em relação ao resto do grupo social, progressivamente mais vasto e menos coeso por relações de sangue, assumindo assim posse do estado e constituindo a primeira oligarquia de tradição militar assente no poder económico da pastorícia. Os ecos das tragédias resultantes das relações instáveis e de transição desta fase da história permanecem em alguns mitos clássicos como o é o caso do expressivo mito do «Roubo do Gado de Apolo» e do 10º trabalho de Hércules, o roubo do «gado de Gérião».

De facto, se podemos considerar o mito do roubo do «gado de Gérião» com a uma óbvia versão do mito do roubo do «gado de Apolo» então Hercules foi, como se demonstrou, Hermes e Apolo foi Gerião. Que este gigante foi um mito solar seria fácil demonstra-lo.

Todas las leyendas relacionadas con los orígenes de la vida, atribuyen su generación a la acción de una divinidad solar que, de fuerza o de grado, traslada a nuestro mundo su propia potencia vital. De este modo, o bien el Sol se aviene a fertilizar a la Tierra, o bien la intervención de un hijo suyo, deseoso de sucederle, provoca la mutilación y muerte del astro rey, con su consiguiente caída sobre nuestro Planeta y el alumbramiento de la vida al calor suyo.

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Figura 4: Atenas dá assistência estratégica a Hércules na sua luta com Gerião.

De este modo, unos suponen a Gerión - el Sol - siendo postrado por Hércules sobre la geografía española. Otros, como Silio Itálico, pretenden que Inaco fue postrado por Hércules sobre las tierras de Iberia - Inaco significa Sol y es nombre derivado de anaco: cisne-. Y unos terceros, en fin, suponen que el dios sol Faetón, tambien llamado cisne, se habría ahogado en algún lugar determinado de la propia Península Ibéria.[7]

Tudo pode ser verdade no vasto campo das incertezas, até a hipótese plausível de os deuses terem começado a nascer no Paleolítico junto à foz do Côa < Kauha < Kaka, lit. «o deus do fogo e do espírito vital dos animais. O mais plausível é ser verdade que, só na aparência, é que a Ibéria não participa nos alvores da história porque estas paragens deveriam fazer parte do império marítimo cretense e deve ter sido apenas em resultado do cataclismo de Akrotiri, que ditou a sentença de morte deste império, que o ocidente se separou temporariamente do oriente que a época moderna começou a juntar de novo visto não se encontrar completamente junto ainda!

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Figura 5: Gravuras de animais votivos da Canada dos infernos do vale do Côa

Sea como fuere, al dios Sol le es amputado, bien un testículo o bien el miembro viril, el cual cae a la tierra incándose en ella. Esta es - sencillamente - la explicación a los menhires y a los obeliscos.[8]

O certo é que o gado dos Tartéssios seria o mais famoso dos tempos antigos precisamente talvez por se ter iniciado nas Ibérias a domesticação do «touro de raça», segundo alguns aficcionados, único no mundo! Com o evoluir dos tempos viria a aparecer, no período neolítico, a figura do agricultor/pastor já inteiramente incompatível com uma actividade guerreira a tempo inteiro deixando o campo livre para a fulgurante ascensão das castas heróicas e inicio da história das diferenças de classe.

Assim podemos esquematizar: Caçador e guerreiro. => pastor e caçador eventual + possibilidade do guerreiros de profissão => Aumento da rentabilidade económica da exploração pastorícia => primeira acumulação pecuniária => Estado => Guerreiros de profissão para defesa do Estado => Aparecimento das castas heróicas => Aparecimento das aristocracias militares => Oligarquia => Agricultor/pastor e guerreiro eventual + guerreiros de profissão => estruturação definitiva das sociedades patriarcais estratificadas em classes sociais de forma trifuncional: poder religioso, poder militar e, o restante poder do número, «o povo». Deve notar-se que o poder militar se intromete entre o sagrado e o profano o que denota a possibilidade de ter sido este poder que instituiu a ruptura entre as forças sobrenaturais e o mundo natural que inicialmente se encontravam apenas virtualmente separado. De qualquer modo o poder simbólico já existia quer na esfera do sagrado quer a nível das virtualidades biológicas da espécie na organização hierarquizada das comunidades de primatas. O chefe de grupo e os indivíduos dominantes sempre existiram!

Esta diferenciação social permaneceu apenas virtualidade económica por falta de poder económico. Assim que este surgiu com a primeira acumulação de riqueza permitida pelo método da pastorícia apareceu a primeira oligarquia de base heróica e militar. Como é óbvio a desigualdade social nasce da desigualdade económica e não o inverso. Ora, contrariamente ao que seria de esperar, e apenas por falta de atenção no senso comum, é o progresso que gera a desigualdade, pelo menos em relação ao estado em que anteriormente estava a igualdade, e não o inverso. De facto, o progresso só é desejado como tal na medida em que facilita a criação de riqueza. Como uma situação limite de generalização da riqueza disponível seria equivalente a um igualitarismo neutro, a pobreza nasce no primeiro instante e com o primeiro quantum de riqueza social. Daí que seja evidente a dialéctica da história, já prevista pela divina sagesa de Cristo quando este afirmava que «pobres sempre os tereis»: a procura do progresso material, mesmo correndo o risco inevitável de a riqueza gerar a pobreza, nasce como condição da procura do progresso espiritual enquanto verdade que garanta a justiça das ralações sociais, a igualdade de dignidade de condição e natureza garantida em direitos e, sobretudo, a preservação da liberdade criativa dos sujeitos.

Na verdade, se é certo que na comunidade primitiva a identidade eu = nós era quase total também deve inferir-se que tal só era possível num clima de igualdade virtual entre os sujeitos, pressupostos detentores de uma individualidade ainda soberana. Daí que as leis instintivas da espécie individual se tinham que transpor de forma mimética para a comunidade segundo mecanismos psicossociais que garantiam a autonomia dos sujeitos apenas na condição de as regra sociais espontâneas impedirem as diferenças de papeis. Os homens primitivos permaneciam iguais na medida em que se mantinham auto-suficientes e pluripotenciais pelo que as comunidades teriam também que tender à auto-suficiência em relação a si mesma e à independência total em relação ao exterior => absoluta igualdade interna/total autonomia externa.

Refere Marcel Gauchet: “(...) existe uma distancia da sociedade em relação a ela mesma, uma ruptura interna do tecido social sem a qual não haveria sociedade. O elemento constitutivo do social é a sua divisão em relação a ele mesmo.

Desta cisão, a religião é ao mesmo tempo uma expressão e uma neutralização. (...)

É que a separação não é uma qualquer. Corresponde, muito precisamente, à estruturação política originária do facto social, cuja dado central pode ser enunciado como se segue: o lugar a partir do qual a sociedade é capaz de se pensar, de se dotar de sentido e de agir sobre ela mesma, está fora da sociedade.” do mesmo modo que a identidade da pessoa tem sido colocado na impessoalidade da alma!

“Por cisão constitutiva da sociedade devemos entender, noutros termos, a segregação primeira de um ponto de vista do poder. A determinação religiosa de votar a sociedade a uma entidade diferente dela mesma intervém, justamente para neutralizar o aparecimento efectivo de uma instância do poder, neutralização que vai até ao ponto de a esvaziar de todo o sentido.

O discurso religioso afirma, ao contrário, que existe uma sede de poder onde radica a origem e a razão  de ser daquilo que os homens fazem, uma sede dos poderes invisíveis que comandam o visível. Mas esse lugar, ao menos no caso das sociedades primitivas, coloca-o ele em posição tal relativamente aos homens que nenhum dentre eles pode pensar validamente em o ocupar.(...)

Nenhuma separação política deste tipo é possível dentro da sociedade (primitivas), nenhum homem se pode apresentar como diferente do resto dos homens, como aquele que os comanda em consequência da separação instaurada entre os homens e os outros, os do invisível aos quais tudo aqueles devem quanto a maneira de viver. Todos estão unidos e iguais em resultado do seu comum desapossamento. “Foram os antepassados que no-lo ensinaram" : por trás desta certeza positiva, é necessário descortinar uma outra, negativa: “ninguém há entre nós que possa dizer: “advirto-vos que deveis comportar-vos desta maneira”.

Ora bem, só na mente dos teóricos é que pode perpassar a ideia de que existiu um dia a idade de ouro do igualitarismo paradisíaco. Mesmo que reduzido à sua melhor expressão teria sido um comunismo de miséria e de “comum desapossamento”. O que se pode afirmar é que não existiam condições materiais que permitissem um grande distanciamento socio-económico entre comunidades ao ponto de se tornar substancial a conceptualização de diferenças substanciais de posse e riqueza e logo, de diferenças sociais que justificassem também as diferenças de classe. Logo que começaram a existir diferenças socio-económicas regionais resultantes de diferenças no nível de desenvolvimento por transição de fase civilizacional, o risco das diferenças sociais aparecerem e tornou-se uma fatalidade contra a qual as sociedades primitivas chegaram a manifestar alguns mecanismos de defesa.

Um desses mecanismos terá sido o aparecimento da ambição guerreira pelo saque, pirataria e rapina, que foi canalizada para a cultura do heroísmo, engodo em que caiam os coleccionadores de escalpes, troféus e louros, antes de se voltarem contra a comunidade onde poderiam introduzir a diferenciação social. Porém, a possibilidade de diferenciação existia quanto mais não fora em consequência de desigualdades naturais de vigor físico e psicológico indispensáveis à mestria do guerreiro!

 

A GUERRA DE SEXOS

De facto, se é certo que “a sociedade primitiva é uma sociedade para a guerra[9] então “o homem primitivo seria, por definição, um guerreiro[10]” se não fora também verdade que a sociedade tribal era “ao mesmo tempo e pelas mesmas razões, uma sociedade contra o guerreiro” pelo que, nestas circunstâncias, “só uma minoria faz a guerra de forma permanente[11]Este facto, só por si era já uma desigualdade circunstancial que mais tarde ou mais cedo se transformaria numa desigualdade de fundamento. Mas, a par desta desigualdade de situação existia uma prévia desigualdade de condição que era a que resultava da antinomia homem/mulher.

·       Mulher, «mãe» = ser para a vida <= produtora de vida.

·       Homem, «guerreiro = ser para a morte <= produtor de morte.

·       Casal = «seres para a vida social» porque gerador de sociedade.

Se algum fundamento antropossocial existe para o conceito da trifuncionalidade dumeziliana só pode ser encontrado aqui!

“Se, escravos da morte, os homens invejam e temem as mulheres, senhoras da vida,” é porque pressentem que é delas o futuro da vida em sociedade na medida em que são elas que impõem o estilo doméstico da civilização enquanto conjunto ordenado e limpo de fogos e lares em torno do templo, que é a casa dos deuses, construída por trágica ironia, nos campos santos dos cemitérios dos guerreiros mortos em honra da Grande Deusa Mãe.

“Fraqueza, desamparo, inferioridade dos homens em relação às mulheres? É o que revelam, um pouco por toda a parte, os mitos que fantasiam a idade de ouro perdida ou o paraíso a atingir como um mundo assexuado, como um mundo sem mulheres.”

Ora, se a lógica destes mitos não residisse na denegação freudiana, resultante do complexo de inferioridade afectiva em que os homens pressentiam o seu trágico destino, o paraíso deveria ter sido povoado de anjos femininos. O mais correcto seria pensar que, nesta primeira fase da consciência cultural da humanidade, as diferenças entre os sexos levaria antes a uma sensação incómoda da nudez, de que o Génesis se apercebeu ao de leve, a partir da qual ambos os sexos se interrogam:

Que há no outro que eu não seja (complexo de diferença/inferioridade)?

Que mal fiz eu para ser diferente (complexo de castração)?

Que partido e que vantagens devo tirar das diferenças de sexo (complexo reactivo de superioridade)?

Todas estas questões pressupõem uma relação de recíproco amor/temor entre os sexos num clima que antes foi descrito como tendo sido de autonomia individual! O facto de nas sociedades primitivas, de pendor fortemente guerreiro, as mulheres tenderem a recusar a maternidade pode ser interpretado como um indício da recusa da sua própria condição maternal e um temor desejoso do poder viril o que, aos nossos olhos coloca ambos os sexos dos povos primitivos na mesma humana condição do “infortúnio do guerreiro selvagem/infortúnio da mulher do guerreiro selvagem[12]. Evidentemente que este fenómeno tem sido observados em épocas modernas em situações em que existem condições anómalas, resultantes de abruptas diferenças de estruturas civilizacionais e de níveis de desenvolvimento cultural, de tal amplitude que os fenómenos da actividade de caçador se pervertem na função extensiva a toda a tribo de guerreiro exclusivo de cariz profissional. Claro que nesta situação o papel da mulher, geradora de vida condenada à morte inevitável e precoce, acaba por se tornar esquizofrénica e doentia.

Ora, esta situação antinómica era já um primeiro passo para a diferenciação de classes macho/fêmea que serviu de paradigma para todas as futuras diferenciações classificavas do progresso cultural de base dicotómica, que no caso foi no decurso imediato, homens livres que se torna guerreiro em oposição aos que acabam servos e escravos quando são vencidos no campo de batalha ou, mais tarde já em sociedades mais estruturadas pelas condições da organização das actividades agro-pecuárias, condenado por crimes, quase sempre mais de dívida do que de roubo ou homicídio, como se depreende da análise genérica de códigos penais sumérios.

Se bem que se demonstre que nas sociedades que permaneceram primitivas os guerreiros profissionais não alcançavam nunca um estatuto de classe à parte que lhe permitisse um eventual acesso ao poder para mandar e explorar os outros, o certo é que constituíam o germe da diferença e um dia...

acabará por se dar uma reviravolta crucial na história deste dispositivo. Num dado momento, deixando de evitar a separação entre aquele que fala com conhecimento de causa e os que, em consequência, lhe devem obediência, a fractura religiosa com o Além virá, ao contrário, justificar a divisão entre os homens”

...que, como se viu, existia implícita nos guerreiros permanentes.

Esta ruptura deu-se precisamente com o início da domesticação dos animais e o consequente aparecimento da economia pastoril geradora da primeira fonte de acumulação de riqueza. Dentro da comunidade ninguém se destruirá impunemente como acontece no reino animal. Mas, como a sociedade primitiva marca o fim do império dos instintos impõe o início das relações competitivas entre grupos em substituição da competição entre indivíduos.

Tais relações começam por ser conservadoras e apenas de dois tipos: afirmativas em relação a trocas amistosas entre amigos e aliados (poltach) e negativas (retaliativas e de saque) entre os outros. [13]O primeiro sinal de instabilidade social começa precisamente aqui. Nenhum dos tipos de relação poderia ser exclusivo e total porque poria em risco a sobrevivência social. A troca sistemática levaria à dissolução do grupo e a guerra total à sua aniquilação mútua. Amigo/inimigo, nada mais instável e a ecologia acabava por fazer o resto de tal modo que as sociedades de caçadores pré-históricas pouco diferiam das diversas sociedades animais de que, aliás estes mantinham a nostálgica saudade duma total mas impossível identificação.

O totemismo foi assim a religião da nostalgia do paraíso perdido que na verdade deveria ser identificado com o desejo dum regresso a uma comunhão com a natureza, idêntica à sujeição dos outros animais às chamadas «leis instintivas da natureza». Até ao advento da revolução agro-pecuária do final do neolítico o homem selvagem viveu a tragédia dos heróis: A vertigem do absoluto e a loucura dos extremos tornou o «bom selvagem» prisioneiro da lógica da glória. Se a guerra era a política das sociedades primitivas, que dependiam do saque, o guerreiro era o seu instrumento político que dependia da estima social de que o troféu era mero símbolo, materialmente tão inútil como uma coroa de louros ou uma obra-prima, mas cuja riqueza espiritual era tal que, um selvagem que matasse e não recolhesse o seu escalope não seria tido como um verdadeiro guerreiro.[14] Este era um dependente da glória que a sociedade só concedia na forma de troféus aos guerreiros que permitiam os melhores saques o que fatalmente levaria a uma escalada competitiva a que só a morte poria termo.

...como existia entre virilidade e heroísmo.

Questão crucial: porque é que só o homem caça e mata por mero prazer e sem ser para comer? Porque manifestavam os jovem primitivos uma profunda paixão pela guerra tal como hoje pelos desportos de violenta competição?

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Figura 6: Treino guerreiro. (Manipulação cibernética do autor de figura de vaso grego).

“O homem primitivo encontra-se, pois, por definição (da condição de guerreiro) marcado pelo seu destino: em maior ou menor grau ele existe para a morte.(...) pela mediação da morte, existe uma relação intima, uma vizinhança essencial entre masculinidade e morte”

Primeiro, porque somos biologicamente omnívoros e logo, também predadores por natureza e segundo, porque só o homem manifesta as condições biológicas para a dependência psicológica ou seja, para se deixar dominar por razões psicológicas como sejam a ambição enquanto dependência do prestígio social.

Dito de outro modo, só o homem se pode enredar nas teias da emulação e da lisonja tornando-se dependente duma hétero-estima reflectida pelo espelho da opinião social. Claro que os animais doméstico, e, entre estes, particularmente o cão, manifestam características deste tipo mas, só o homem se deixa enfeitiçar pelos sorrisos e enredar nos elogios dos seus pares ainda que nem todos cheguem ao ponto da intoxicação psicossocial.

Mas, será apenas a dependência psicológica da glória, decorrente da vitória, o único factor da paixão guerreira? Existem razões para suspeitar que, sendo o guerreiro «um ser para a morte na medida em que vivia da morte», a própria vertigem do risco da derrota, implícita nos perigos da guerra, deveria constituir um factor, a que hoje se chamaria de stress, produtor de fenómenos directos de dependência psíquica por intermédio de complexos mecanismos da bioquímica neuronais mediados pelos sistemas de adrenalina/endorfina e de fenómenos directos de dependência física pela compulsão ao consumo de substâncias mágicas dopantes responsáveis pela mitologia das «poções mágicas».

 

O CULTO DOS MORTOS

Neste clima de elevada mortalidade geral, menos por acidentes de caça e mais nas lides de guerra, a tragédia era a regra pelo que era inevitável a cultura colectiva dos mortos. E assim aparecem os primeiros cultos megalítica tumular. No entanto, há que notá-lo de forma clara, que estas culturas só apareceram depois do início do fenómeno da domesticação e com o apogeu da economia pastoril. Nem podaria ser de outro modo pois que para que a primeira grande economia não produtiva da pré-histórica, que foi a funerária, pudesse florescer teria que existir já uma prévia economia de base produtiva. De facto a economia tumular, só por si, deu início às primeiras necessidades de divisão social na produção de túmulos e de acumulação sumptuária de riqueza para os justificar no plano ideológico e pagar no plano das realidades sociais. Mas, quem realmente pagou a economia tumular foi a economia pastoril. Porém, a arte funérea do megalítico reflecte uma vaga profunda de religiosidade trágica que, entre outra razões apareceu por necessidade de justificação ideológica da separação de poderes duma casta guerreira em ascensão e que a religião animista já permitia compreender com a crença nas realidades sobrenaturais. O culto dos mortos não apareceu por mero diletantismo ético ou estético nem para manifestação do virtuosismo a que a técnico dos mestres canteiros do neolítico havia chegado! Como corolário do culto dos antepassados foi a garantia da legitimidade da herança que a riqueza pecuniária permitia e sobretudo a causa do grande pressuposto mítico da legitimação do poder enquanto doação sobrenatural. De facto, não seria por acaso que o primeiro deus do céu da Suméria foi An e o primeiro soberano e senhor foi En!

Quanto à religião, já presente desde há muito no xamanismo animista dos exorcismos encantatórios propiciadores de boas caçadas, essa ganhou poder e prestígio com o culto dos mortos que uma elevada mortalidade geral fomentava e iria criar o precedente da crença na possibilidade da vida para além da morte! Assim, do mesmo modo que neste mundo os vivos e, no outro, os mortos (e depois os deuses) também...

“de um lado, aquele ou aqueles que participam da essência diferente dos poderes do além, do outro lado, a massa comum dos que devem inclinar-se diante da verdade sobrenatural materializada de qualquer modo no seio da sociedade. 0 homem do poder nasceu; uma criatura de dentro, mas impregnada da diferença soberana do exterior, e, pela sua natureza mesma, rejeitada à distancia infinita do homem comum. Momento enigmático da separação do Estado, isto é, do devir - diferente dos homens uns em relação aos outros, conforme tenham direito de mandar ou dever de obedecer. Quanto às razões porque concretamente se efectua esta inflexão decisiva, desconhecemo-las.”

Se o trofeu era o ópio do guerreiro como o saque era a dependência económica do povo selvagem. Com o tempo, e um pouco de boa sorte e condições geográficas e climáticas favoráveis deu-se início às civilizações agro-pecuárias nas zonas férteis das grandes bacias hidrográficas, a importância e variedades de saque permitiu hierarquizar as formas de prestígio e a criação de castas guerreiras que acabaram por gerar grupos de pressão que acabaram por tomar o poder.

“Mas, tomando em considerarão a dimensão religiosa, alguma coisa poderemos perceber das condições que a explicam. Segundo é possível discernir, o nascimento do Estado corresponde a uma inversão na utilização da dimensão de exterioridade do fundamento social. De instrumento de igualdade, a separação entre os vivos e as forças fundadoras e legisladoras que regulam a sua existência transformam-se em motivo de sujeição. Nas sociedades anteriores ao Estado: todos podem invocar a sabedoria dos antepassados, os feitos dos heróis míticos, a vontade dos deuses por virtude da qual as coisas existem tais como as conhecemos e devemos continuar. ninguém dentre os homens está do lado dos ancestrais, dos heróis ou dos Deuses para ditar a lei sagrada aos outros, representar as últimas razões de ser do universo e impor a submissão aos fins últimos. Com o advento do Estado: aparecimento entre os homens de um representante do invisível e dos senhores do sentido. É sempre aos deuses que se deve o sentido, mas é aos deuses através de um intermediário e na pessoa de outros homens. O Estado surge fazendo refluir contra a sociedade o dispositivo de diferença destinado inicialmente a defender a sociedade contra o Estado. Mas é manifesto que não é o Estado que cria a exterioridade do fundamento pelo qual ele justifica a sua separação. Ele limita-se a explorar um reconhecimento, já constituído, de que a lei das coisas está fora do domínio dos homens.(...)

A este título convém dizer que a religião foi historicamente a condição da possibilidade do Estado.(...) “porque foi a primeira forma institucional de expressão ideológica e os sacerdotes, os primeiros políticos de profissão.

“Não existe nenhuma sociedade que seja naturalmente una”[15] ainda que as sociedades pareçam funcionar como tal. Considerar a pluralidade social como uma unidade será sempre uma concessão ao rigor. Uma comunidade primitiva, por mais reduzida que se manifeste no numero dos seus elementos é sempre um conjunto de pessoas ou seja um ser plural. Mas é também verdade que as comunidades parecem funcionar como entidades singulares em, e sob, determinadas condições.

Para que tenha sido possível o aparecimento da primeira célula social, quer esta tenha sido a família quer a gens foi necessária que o animal social renunciasse à soberania da sua liberdade biológica. Assim sendo a questão lógica a colocar à antropologia da evolução social é esta: como pôde o selvagem aceitar dissolver a sua individualidade na unidade da primeira comunidade social?

Não basta afirmar que tal facto tenha sido necessário para que o começo da história fique explicado! Há que entender que o que levou o selvagem a renunciar espontaneamente à lógica instintiva e egoísta da liberdade individual em prol da doutrina reflexiva e altruísta da ética da sobrevivência do grupo, resultou da tomada de consciência da sua vantagem prática, pelo segurança e conforto que confere aos homens de paz e pela glória do prestígio social que reserva aos jovens apaixonados pela guerra.

As explicações para esta transição de fase, decisiva na evolução social serão, quanto a mim, sempre insuficientes porque é aqui que reside o busílis da condição paradoxal do homem que, enquanto animal social, é, no plano da evolução, o último dos mais perfeitos, o mais inacabados de entre os mais bem adaptados, o mais racional dos animais mas é também o primeiro elemento, por isso mesmo, condenado a ser sempre o mais primitivo agente da nova realidade social que começa no e com o homem e dele depende inteiramente, enquanto agente dinâmico único da consciência cultural e da vida em civilização!

De qualquer modo, um sacrifício da liberdade individual no altar da sociedade não se faz sem contrapartidas e exige pelo menos explicações no plano ritual e simbólico que em princípio terá que ser exterior ao sistema das referências instintivas da biologia.

No caso das sociedades primitivas é um dado conhecido que foi no seio do animismo que se deu a primeira estruturação totémica da sociedade. O culto dos animais como paradigma da divindade resultava, em parte da constante preocupação que os animais exerciam no homem, deles dependente em termos alimentares, primeiro durante o período paleolítico da caça e depois durante a pastorícia e mais tarde em todo o período agro-pastoril que veio até ao nosso tempo. Esta homenagem aos animais é apenas a nossa maneira racional de encarar a lógica das acções humanas com a sua cultura. Na verdade, esta relação animista do homem com a natureza deveria ser bem mais complexa e panteísta. Na prática era uma forma de simbolizar o equilíbrio ecológico a que o homem se sentia sujeito. Na verdade a história dos sacrifícios animais revelam um componente das liturgias religiosas que é bem mais complexa e difícil de racionalizar! Dito de outro modo, a morte dos animais, sem os quais a sobrevivência humana teria sido impossível, deve ter gerado tremendos complexos de culpa colectivos responsáveis pela crença no pecado original que é o fundamento constitutivo de todas as religiões.

 

A ORIGEM DOS TABUS ALIMENTARES

De facto não foi a morte do pai que gerou o complexo freudiano da humanidade mas o da morte do deus totémico enquanto animal doméstico predilecto da tribo.

Os complexos tabus por interditos alimentares não são senão uma resposta simbólica aos temores gerados pela culpa resultante da matança de animais sagrados. Ao receio pela teofagia juntava-se a possibilidade da antropofagia quando se acreditava na metempsicose. A forma encontrada para ultrapassar este sentimento colectivo de culpa foi a expiação religiosa na forma do sacrifício aos deuses e na teofagia mística de que a comunhão católica é um remanescente arcaizante.

Na verdade, a religião é sempre o único lugar a partir do qual a sociedade é capaz de se pensar a si mesma facto que é indispensável à transcendência necessária à justificação do impossível, como é o caso do auto sacrifício!

Assim sendo e contra a lógica dos raciocínios marxistas não é a evolução das condições materiais que sugerem a super estrutura religiosa mas é esta que aparece como condição necessária a qualquer forma de início de estruturação social. A religião é o lugar transcendental e a condição da consciência social!

A religião teria que aparecer como ideologia de «sociedades guerreiras», que as sociedades toleram por vantagem na medida em que fazem com elas a guerra mas que por outro lado segregavam de forma conservadora para impedir o contágio com os riscos da sua estouvada juvenilidade. As sociedades guerreiras nascem de forma revolucionaria por amor extremo à liberdade individual e acabam paradoxalmente por serem o baluarte do conservadorismo e da repressão social. O outro paradoxo da realidade primitiva era a que derivava da recusa do Estado, por paixão anárquica à liberdade individual, e que acabava nas carnificinas guerreiras decorrente da loucura colectiva, gerada pela penúria, decorrente da falta de organização social.

Tudo somado permite compreender a dialéctica teológica fundamental de que todos os caminhos étmicos nos levam a Kaur(an), o primeiro deus neolítico da cólera e dos exércitos e dos sacrifícios humanos => Kar/Sacar => deus do amor que nos expiava das culpa da morte dos deuses totémicos/ deus dos mortos.

Não deixa no entanto de ser curioso que os rigorosos interditos de natureza alimentar dos judeus que proibiam o consumo de sangue, tenham acabado no conceito fundamenta de carne «sacher» vendida nos talhos medievais como sendo a única que respeitava as condições de rigorosa sangria uma vez que era absolutamente proibida a caça e o consumo de carnes de animais mortos por sufocação. Como se supunha, e genericamente bem, que o sangue era a vida dos animas, ao evitar o seu consumo evitava-se o risco do antigo pecado da teofagia totémica. Como vantagem indirecta e seguramente inconsciente podemos apontar a maior resistência das carnes á putrefacção e o menos isco de contágio de zoozenoses veiculadas pelo sangue.

Pois bem, «sacher» < Sakar, o deus morto do sol posto dos canaaneus, equivalente de Socar/Osíris=> sacra-mento!

 

O MITO DO PARAISO PERDIDO & O CONTO EGÍPSIO DE SETNE

[16]O filho histórico de Ramsés II, Setne, sumo sacerdote de Ptah, é neste conto apresentado como um mago cujo êxito ao ganhar um livro de encantamentos ao espírito de um mago já falecido o conduz ao infortúnio. Esta narrativa existe actualmente num fragmento de papiro conservado no Cairo e que data do Período Polemico.

O príncipe e mago Setne estava uma vez conversando com um dos conselheiros do Faraó que parecia duvidar dos seus poderes. Em resposta às suas cépticas observações sobre a eficácia da magia, Setne ofereceu-se para o conduzir a um local onde encontraria um livro dotado de poderes mágicos e que fora escrito pelo próprio Toth. Esse livro continha dois poderosos encantamentos: O primeiro podia encantar todo o universo e era tão forte que todos os animais, aves e peixes lhe obedeceriam; o segundo habilitava um homem sepultado a ver Ré subir no céu com todo o seu círculo de deuses, a Lua a nascer, acompanhada de todas as estrelas do céu, e os peixes que estão nas profundezas do oceano.

O sábio, muito naturalmente, indagou então de Setne qual era o repositório desse maravilhoso livro; Setne informou-o de que ele se encontrava em Mênfis, no túmulo de Nefer-ka-Ptah. E Setne partiu, acompanhado por seu irmão, e passou três dias e três noites em busca da sepultura de Nefer-ka-Ptah, que finalmente encontrou.

Pronunciou umas palavras mágicas sobre ela, a terra abriu-se e ambos desceram à câmara do túmulo propriamente dito. O livro, depositado sobre o sarcófago, iluminava o local com uma luz tão intensa que não eram precisos archotes. Setne percebeu, a essa luz, que naquele túmulo não estava apenas o primeiro habitante mas também a sua esposa e o seu filho - os quais, embora sepultados em Coptos, haviam ido morar, na forma dos respectivos kau, com seu esposo e pai. Setne declarou-lhes que desejava levar dali o livro; mas Ahura, a esposa de Nefer-ka-Ptah, rogou-lhe encarecidamente que o não fizesse, explicando que a posse desse livro já tinha causado a infelicidade de outros.

Seu esposo, que dedicara à magia a maior parte do tempo de que dispusera em vida, comprara-o ao sacerdote de Ptah, por cem peças de prata e dois requintados sarcófagos, o segredo do esconderijo de tão maravilhosa obra.

O livro estava em Coptos, dentro de um cofre de ferro, enterrado no meio do rio; no cofre de ferro estava outro e bronze; no cofre de bronze estava uma caixa de madeira de palmeira que continha, por sua vez uma caixa de ébano e marfim na qual se encontrava uma caixa de prata em cujo interior havia uma caixa de ouro: o verdadeira, receptáculo do livro. O volume era guardado por bandos de serpentes e de outros répteis nocivos de todos os tipos; enroscada em seu redor, havia uma serpente que não podia morrer.

Nefer-ka-Ptah dirigira-se, com a esposa e o filho, a Coptos, onde obtivera do sumo sacerdote uma miniaturas de jangada e umas figurinhas de operários com as respectivas ferramentas. Recitando sobre eles umas palavras de poderio, ganharam vida; e com eles descobriu, pouco depois, o cofre. Nefer-ka-Ptah pôs em fuga, com palavras mágicas, os répteis que rodavam o cofre e por duas vezes matou a grande serpente que estava enroscada em volta do cofre de ferro; mas de ambas as vezes ela voltou a viver. A terceira vez, todavia, ele cortou-a em duas e lançou areia entre as duas metades, que desse modo nunca mais puderam reunir-se.

Abrindo as sucessivas caixas, Nefer-ka-Ptah retirou o misterioso livro, em cujas páginas leu o primeiro encantamento. Ficou assim, a saber todos os segredos do céu e da terra. Estudou atentamente o segundo e viu o Sol nascer nos céus acompanhado de toda a sua comitiva de deuses. Copiou depois os encantamentos num pedaço de papiro sobre o qual espargiu incenso, dissolveu tudo em água e bebeu-a para desse modo ter a certeza de que a sabedoria daquelas fórmulas se conservaria nele para sempre.

O deus Tot, contudo, estava zanzado pelo que ele fizera e informou Ré do sacrílego acto. Ré decidiu então que Nefer-ka-Ptah, sua esposa e seu filho nunca mais poderiam voltar para Mênfis; e, no regresso a Coptos, Ahura e o filho caíram ao rio e morreram afogados. Pouco tempo depois, Nefer-ka-Ptah teve idêntica sorte. Esta narrativa não dissuadiu, porém, Setne, que estava decidido a possuir a livro. O falecido Nefer.ka-Ptah propôs-lhe então que a posse do 1ivro fosse decidida par uma partida de damas: quem ganhasse ficaria com ele. Setne concordou com isto e Nefer-ka-Ptah fez o melhor que podia para ganhar, primeira, com honestidade e depois por meio de fraudes; mas acabou por perder a partida. Setne pediu ao irmão, que o acompanhara ao mausoléu, que subisse ao lugar superior e lhe trouxesse os mágicos escritos. Feito isto, os encantamentos produziram os seus efeitos em Setne, o qual, pegando no maravilhoso livro de Tot, logo subiu aos céus com uma admirável leveza. Quando ele partiu, porém, Nefer-ka-Ptah fez notar à esposa que dentro em breve o faria regressar. A profecia de Ahura, segundo a qual Setne seria infeliz se persistisse em conservar o livro, realizou-se, de facto, por completo: Setne foi atormentado por uma bela súcuba que não só conseguiu seduzi-lo, fazendo-o transferir para a sua posse tudo quanto tinha, como ainda o persuadiu a matar os seus próprios filhos a fim de garantir a transferência. Foram tais os seus infortúnios que o Faraó o mandou restituir o livro a Nefer-ka-Ptah.

O interessante deste texto reside no facto de não ser apenas um conto alegórico mas um verdadeiro mito sobre a origem da sabedoria. No conto Nefer-ka-Ptah é a alma do primeiro habitante da terra, ou seja o equivalente de Adão. Neste conto, as analogias com o mito hebraico do Génesis vão ainda mais longe. Em ambos os relatos a serpente guarda a sabedoria; que aqui é um livro de magia e no Génesis, uma árvore. As ambas as situações a posse dum certo tipo de saber proibido (possível alusão de tipo indicativo e esotérico) acaba por levar à morte não apenas do próprio como dos próximos, o que no Génesis acabou na expulsão do paraíso terrestre.

A mitologia do paraíso perdido, equivalente da idade do ouro, enquanto ideia recorrente nas mitologia primitivas tem que ter uma explicação que não seja apenas histórica na medida em que, sendo também recorrente na psicanálise, deverá corresponder a uma estrutura antropológica relacionada com a natureza humana ou pelo menos com a natureza da sua cultura.

Ora, a natureza desta cultura envolve não apenas o sentimento de perda do paraíso quanto a pulsão da sua busca que, só o cristianismo e mais tarde o marxismo ousaram colocar no futuro ora do «reino do céu» ora do «fim da história». Já nas histórias míticas o paraíso esteve sempre nos tempos originais. Esta saudade proustiana do tempo perdido reporta-nos às crises da adolescência para o simbolismo da tranquilidade duma infância protegida no aconchego materno. A esta suposta felicidade da inocência infantil chamou-se o paraíso que não é senão uma possível projecção cultural das reminiscências individuais do tempo pré-natal psicanaliticamente acoplada ao traumatismo do nascimento da expulsão uterina de que resulta o mítico sentimento do pecado original.

Quanto ao paraíso original bíblico, que é equivalente da idade do ouro greco-romana, tanto pode corresponder a uma recordação idealizada da estrutura sociocultural do matriarcado como a uma mera elaboração mítica da infância durante os ritos de passagem. De facto que pecado congénito é o da humana condição que nos tivesse merecido não apenas a perda dum paraíso real quanto ainda o da sujeição ao sofrimento e à morte?

Na verdade, nunca se tratou de uma questão de pecado mas da condição cultural de aquisição do pensamento enquanto capacidade para a construção das armadilhas e miragens do sentido em substituição da perda da harmonia dos instintos.

Ora, são precisamente as armadilhas e miragens do sentido que fazem com que a humanidade tenha tropeçado nos equívocos do pensamento analógico levando-o à paralogia abusiva, ao pensamento mágico redundantemente inútil e sobretudo às mistificações e aos erros grosseiros. O homem perde os instintos de protecção individual quando se socializa e adquire costumes de vida comunitária. Se os instintos são as garras da individualidade o verniz de cultura com que a civilização as recobre corresponde à perda do instinto natural e do direito à supremacia da liberdade individual sobre o direito de o grupo impor a violência legítima do tabu. O mito substituía o instinto o que, dito de outro modo, confirma mais uma vez que a religião começou com a necessidade do reencontro do saber, oculto no lugar dos instintos perdidos pela espécie humana. Daí a grande admiração que o homem primitivo do período animista/animalista demonstra pelos animais, que pressentia em perfeito equilíbrio ecológico com a natureza dos seus instintos, ao ponto de os ter transformado em paradigmas de comportamento perfeito e logo de seguida em deuses tutelares! Assim, os homens tiveram que de deixar de obedecer às sua leis internas (instintos) para passarem a obedecer aos instintos míticos (tabus) do seu animal totémico. Onde a falta do instinto mais cedo se fez sentir foi precisamente quando o adolescência teve que enfrentar o primeiro de todos os tabus que foi o do incesto.

Instintos de sobrevivência individual => tabus de sobrevivência tribal => mandamentos religiosos > normas éticas > Leis penais.

A verdade é que, se, como ficou dito, o paraíso era uma forma de nostalgia duma mítica felicidade intra-uterina, a actividade sexual, pela penetração vaginal, constituía o regresso, no mínimo simbólico, ao espaço intra-uterino e, pelo orgasmo, o reencontro, ainda que fugaz, com uma felicidade aberta no corpo dos instintos. A sexualidade renovava (como ainda renova e irá renovar ad eternum , como as estações) na alma dos adolescente o sentimento de reencontro com o paraíso perdido e com os espíritos dos animais e divindades que aí viveriam de forma mítica! Assim, a religião começou com a necessidade cultural da reaprendizagem da sexualidade à luz das conveniências éticas impostas pelos tabus sociais como primeira consequência lógica espontânea da harmonização da liberdade individual com as responsabilidades impostas pela vida em comum. A sexualidade humana foi sempre uma questão ética e as religiões começaram de facto no terreno mítico e instável da ética sexual.

Qualquer homem tem a intuição de que a sobrevivência do grupo depende da procriação e esta da sexualidade. Na medida em que a religião corresponde à mais elementar das forma de fazer política o princípio universal da sobrevivência da espécie, materializada no conservação do grupo ou na tribo, (na forma do Amor a Deus) foi sempre a ideologia básica de todas as religiões.

Esta lógica simples consubstancia-se por um lado na aceitação elementar do princípio da necessidade da reprodução implícito em todas as religiões monoteistas, na forma dum rígido e imperativo «tabu natalista» e por outro na evolução do mandamento primevo, quase instintivo e sexista do «crescei e multiplicai-vos» quando em condições de apogeu da idade agro-pastoril, para formas laterais que permitem antever a vantagem dum certo investimento na «mais valia da pessoa emergente» que irá consubstancializar-se em leis de tipo vitalista como na formula mosaica do «não matarás»!

Como é obvio, esta passagem do princípio da sobrevivência individual para um análogo de tipo social não sexista marcaria o começo da socialização humana que começou por hipervalorizar a sobrevivência dos reis e senhores e só depois iria estender o direito aos homens livres. Os escravos ficariam de fora até ao cristianismo na ordem moral e no direito até à revolução francesa. A vertigem da descoberta do valor social da sobrevivência de alguns eleitos seria levada ao paroxismo delirante entre os Egípsios que, não penas divinizariam o Faraó em vida (fórmula mágica de imortalidade doutrinária que permitia criar o interditou da intocabilidade dos soberanos) como iriam condicionar toda a actividade social numa espécie de mono «industria fúnebre» em torno da construção de condições objectivas, fundamentalmente resumidas nas «técnicas de mumificação» e construção de «túmulos e pirâmides», que permitissem a sobrevivência do faraó para alem da morte.

Mais tarde, já na época helenística e m condições de início de excesso populacional em ambiente de vida citadina, dar-se ia a redescoberta da lógica vitalista que na sua forma elementar de tipo metafórico e alegórico, do tipo das fábulas de Esopo e das parábolas cristãs, permitiria dar início ao progresso das doutrinas sociais baseadas na síntese dos princípios anteriores ou seja, no regresso ao principio natural natalista na sua versão vitalista. Dito de outro modo, o mandamento do «amai-vos uns aos outros como Deus vos amou», ou seja sem sexo, foi, afinal, a mais hipersublimada das evoluções do princípio da conservação individual por amor de Deus e da humanidade!

O tabu do aborto é simultaneamente resultado do imperativo vitalista (não matarás!) e do imperativo procriador pelo que deveria ser defendido em simultâneo por promotores duma sexualidade orgiástica e promíscua, o que prova que nestas coisas a lógica da fé não é a lógica formal corrente. De resto, a forma como estes imperativos têm sido defendidos variam com as modalidades éticas o que não anula o valor que a sexualidade tem tido em todas as religiões. A anti-sexualidade típica de alguns esoterismo albigenses e catarinos e de neo fanatismos puritanos não é mais do que a prova pelo absurdo do papel da sexualidade na vivência religiosa que, no mínimo, pode estar perversamente disfarçada de misticismo assexuado e no máximo de anti-sexualidade. Mesmo a negação histérica da sexualidade pecaminosas própria dos acetismos ou a renuncia da sexualidade por uma castidade sacerdotal e sacrificial provam o quanto ela é importante aos olhos de Deus. Céu e pecado, Sexo e sofrimento amoroso, Eros e Tánathos, são dualidades paradigmáticas da luz e das trevas que começam na descoberta de Deus como Mater Genitrix, Verdade criadora e Amor salvífico e acabam nos deuses da morte na fome na peste e na guerra, do «dies irae» e da condenação vingativa às penas eternas do inferno!

É verdade que, no conto mítico antes referido, as consequências a que o herói Setne foi sujeito ainda hoje são motivos de tratamento literário por continuarem a provocar dramas deste tipo em idênticas situações de escolhas de rumos de vida temerários.

Este aspecto dramático da vida de todos os tempos põe-nos na pista de que o esoterismo teria tido origem na busca do saber oculto que permitia ao homem primitivo o controle espontâneo das forças instintivas de que a sexualidade era a mais dramática expressão e, assim, regressar ao paraíso da felicidade perdida. Num ambiente de tradição judaico-cristã de repressão da sexualidade, considerada genericamente impura, poderá fazer sentido perguntar: como pode a sexualidade ter estado relacionado com os deuses e com o Éden?

Pelo contrário a psicanálise poder-nos-ia dizer muito sobre as motivações que levaram à fobia da sexualidade. Porém, independentemente dos aspectos específicos do contributo da psicanálise para a compreensão da evolução das estruturas de pensamento simbólico relacionadas com os processos de sublimação colectiva dos instintos, saltas à vista que o anátma contra a sexualidade das culturas piedosas e bem pensantes que, ou a denegaram, como foi o caso da cultura egípsia, ou a vituperaram como é o caso da cultura judaica, e foi o caso do masdeismo, resulta duma atitude global que não difere muito da que hoje é tomada contra a droga.

Se, como diz o autor latino “toda a comparação erra”, eu adianto que, no essencial, a analogia é útil para uma primeira abordagem de fenómenos complexos. Ora aquilo que assusta na droga é mais a iminência da loucura do desregramento dos sentidos, que se teme disfarçada por detrás da irrupção da ubris na consciência clara dos sentimentos, própria das viagens virtuais pelos mundos desconhecidos da alucinação química, do que, a dependência que ela provoca. Sobretudo porque, no caso das drogas clássicas, como é o vinho e o álcool, como só pontual e tardiamente estas levavam ao delirum tremens a prudência do senso comum só se apercebia dos seus riscos na forma do pecado da intemperança! É certo que no que respeita a consequências de abusos de consumo de alimentos ou bebidas promotoras de dependências, tudo é questão de «falta de tempero» e de regra no uso!

Na verdade, em dependências várias anda qualquer cultura enleada e, sem dependências não há gostos nem desgostos, nem sentimentos duradouros. O que a cultura moderna iria descobrir tragicamente é que as dependências físicas determinam a tolerância aos vícios e o embotamento dos sentidos, com a inevitável escalada do conflito dos sentimentos que, ou determinam o desespero e a morte por desgosto de viver, ou a morte pela entrega orgiástica à paixão da overdose!

O fenómeno do embotamento dos sentidos por excesso de prazer foi pressentido pela cultura romana da decadência magistralmente descrita por Santo Agostinho nas suas «Confissões» o Santo que iria fazer do suplício do seu próprio drama libidinal a glória do ascetismo e da moral de temperança do cristianismo.

Ora bem, foi o pânico psicossocial da «ressaca», que tem por denominador comum a atracção histérica da realidade dionisíaca e orgiástica do «sexo, droga e dança» (da ideologia do «rock and roll»), que fez com que a questão subjectiva da felicidade e do prazer fosse pressentida pelos povos primitivos como matéria mística e um instrumento de divina loucura com que os deuses tecem o destino dos homens. O lado perigoso dos prazeres da vida fez com que o homem clássico tivesse chegado à bela metáfora do pressentimento de que «os deuses tinham ciúmes de quem era feliz nas sua paixões»!

Porém, ao lado do risco de insanidade que os vícios sexuais potencializam vislumbrava-se um risco muito mais difícil de definir e consensualizar que era o risco de morte por doença sexual. Esta intuição da natureza neurótica da sexualidade como fonte ambivalente de prazer e morte deve ter sido uma das matéria curriculares da iniciação sexual inerente aos «ritos de passagem dos tempos xamânicos» e causa dos primeiros mitos do paraíso perdido que são afinal a mais ingénua das descrições do fim dum caso de amor.

De facto, o medo das doenças sexualmente transmissíveis infiltrado na moralidade do senso comum não é um neologismo decorrente do convívio surdo com a Sida dos tempos pós modernos. O que torna o sexo impuro e o prazer num risco de corrupção só pode ser a doença e a morte que lhe anda associada. A associação causal intuitivamente empírica entre doenças venérias, corrimentos sexuais e promiscuidade deve ter sido muito precoce ou pelo menos datada dos tempos dos tabus da impureza sexual que levaram à circuncisão entre os Egípcios. Antes do pânico da Sida existiu a fobia da Sífilis e antes desta a que se relacionava com todas as doenças relativas à intimidade com mulheres impuras descritas pelos autores bíblicos em termos tais que iam desde o «tabu do sangue» menstrual à intuição da relação de certos corrimentos genitais com a blenorragia.

Regressando ao paraíso perdido verificamos que numa doutrina religiosa começada com os «ritos de passagem» da puberdade em torno da nostalgia dos tempos de «doce enlevo» materno-infantil o primeiro Deus teria que ser a Deusa Mãe.

A razão porque se revelou então com a forma da Cobra só pode ter sido como resultado óbvio do tabu do incesto numa época de descoberta da importância da actividade agro-pastoril. Não sendo possível amar sexualmente a própria mãe teria que ser encontrada uma alternativas digna desta que só podia ser a Terra Natal enquanto mãe de todas as coisas vivas e lugar nostálgico de todos os entes queridos! Numa relação tal com a natureza em que o animal era tido como ente em perfeita comunhão de instintos, natural seria que um animal viesse a ser escolhido para mascote da deusa mãe.

De qualquer modo, se o primeiro deus foi a Terra, o seu fonema Ki pode ter sido primordialmente sibilante como o sopro da Cobra, o seu primeiro animal totémico.

 

SOMA VÉDICO

Entre os indo-europeus o Soma foi mais lendário que o Graal.

O Soma védico teria que ser substituído por outros produtos á medida em que os indo-europeus se fixavam junto ao mediterrânico onde o vinho, que “laetificat cor hominis“, veio a ser a droga institucional. Nas zonas temperadas foi a cerveja que teve esse papel de «vicio popular». Ora, é interessante verificar que cerveja vem do lat. cervisia o que tanto nos pode reportar par Ceres, a deusa dos cereais de que ela é feita, como ter outra origem mais sugestiva. De facto, dos cereais também se faz o pão que é muito mais importante para a sobrevivência comum e nem por isso honra o nome da deusa. Parece assim que o que é de interesse comum é banal por natureza e não necessita de honrar os deuses! Porém, a cerveja é feita a partir da fermentação da cevada e esse facto poderia ser motivo para agraciar a deusa dos cereais dando o seu nome à bebida espirituosa que permitia falar com Ela. Ora...

Ceres < Keres < Haures < Kaures

O que quer dizer que existe a possibilidade de o nome da deusa ser posterior invenção da cerveja que seria, seguramente, a celebrada poção mágica, pelo menos dos guerreiros celtas. Então, cerveja não viria de Ceres mas de Kar, deus dos exércitos. O étimo da cerveja *cer- < *Ker- > *Her- => «beer», tem o deus Kauran em comum o que reforça a ideia de que a cerveja foi denominada entre os latinos como cer visia, = o vício dos guerreiro, < her vishia, a poção do mágico «poder de fogo», (doping) < herw kia, da terra mãe ao serviço dos heróis, guerreiros de Kar. De passagem se descobre-se a origem do termo «cirurgia» (< kirurkia) que apareceu seguramente no instituição militar por ter sido ai primariamente útil e por conter no seu nome referência à divina bebida que tanto permitia a euforia da coragem como a anestesia da cobardia. O lendário desprezo do guerreiro pela morte pode ter uma explicação cultural na forma de filosofia de vida mas a coragem da resistência à dor física, na ausência de milagre, só pode ser humanamente superada com a ajuda de drogas e daí o prestígio das poções mágicas que, afinal não passavam de drogas naturais, as primeiras das quais foram as bebidas alcoólicas! E foi a partir da descoberta e utilização xamânica das poções e filtros mágicas que começou a investigação médica e farmacológica.

A «Poção Mágica» dos druidas que tinha no «Soma» védico a sua maior analogia deve ter correspondido a um fenómeno ritual magico e místico de tal importância sociocultural e de tal antiguidade histórica que a tradições religiosas não poderiam deixar de forçosamente a ele se referem.

A investigação do papel das drogas, enquanto substâncias psico-modificadoras dos estados de consciências, na criação das mitologia místicas dos primórdios das religiões xamânicas está longe de ser um terreno livre de tabus e de preconceitos morais mas, vai dando os seus frutos!

Desde logo porque permitem aceitar que o fenómeno das drogas e da toxicodependência só na aparência podem ser considerado um exclusivo da modernidade. De facto, se algo existe de inteiramente original no fenómeno actual da toxicodependência, para além do termo, é a massificação do fenómeno pelo refinamento da produção de drogas e a perigosa democratização dos consumos. Em qualquer dos caso, já tinha sido a procura de melhores acessos aos mercados orientais de drogas que tinham levado os portugueses «à descoberta do caminho marítimo para a Índia» e, não será que, já na altura, a nomeada da pimenta constituía um disfarce para outras especiarias mais raras e perigosas como seria o caso do ópio?

Pois bem, O Soma védico tem sido considerado um derivado de certos cogumelos (amanita faloide?) e fungos alucinogénio. Como seria de excreção urinária preferencial, e as renas se alimentavam destes fungos ou cogumelos alucinogénios, para os quais as renas acabam por adquirir, parece, uma particular apetência, a deste animal, quando bebida, quiçá acidentalmente e depois, como acontece em todas as experiências com drogas, por curiosidade ou prazer, tornava-se num alucinogénio relativamente seguro, por corresponder a um fluido de origem animal, e  numa fonte xamânica de produção de «poção magica»! Daí até à divinização do veado como Elphian foi um passo reforçado pelo aspecto fálico do cogumelo mágico cuja sopa era fonte do divino «Soma», primeiro na qualidade de «sumo» urinário de renas dependentes de fungos alucinogénios e depois como essência de perigosas ervas medicinais ou como mero vinho ou cerveja, pelo menos antes da sua vulgarização, e depois como «destilado mágico» e alcoólico de bebidas fermentadas. O veado foi o animal totémico por excelência dos indo-europeus o que não terá sido pela prosaica motivação decorrente do papel das renas na vida dos homens do norte. Mas, o cavalo também foi o animal indispensável entre os citas e nunca foi divinizado!

Une grande bataille eut lieu entre les dieux et les démons (les Daitya-s sorte de géants monstrueux) qui barattèrent l'Océan Primordial en compagnie du démon Rahu. C'est pendant cette bataille que naquirent d'une part les éclipses de lune et le médecin des dieux : Dhanvantani et d'autre part la célèbre Amrita : l'eau qui assure aux mortels la vie éternelle.

Amrita < Enkurita < Am(ph)rita > Amphir(ti)t

De facto é suposto o «veado» (< Lat. venatu, lit. «filho da deusa mãe, Vénus»?) ter sido, na língua virtual indo-europeia, o nome *Elen- < El An = Senhor Deus.[17] De facto foi Alef (> «alce»), a primeira letra do alfabeto grego o que prova a sua arcaica importância mítica. E um deus tão importante que os seus adoradores indo-europeus se vieram a autodenominar Alanos, como adiante se verá.[18]

Ora bem, a evolução natural da pesquisa alimentar teria que esbarrar necessariamente com os venenos naturais dos quais os animais estão livres por instinto ou resistência genética.  É óbvio que os alimentos venenosos eram nefastos e até mesmo mortais pelo que tiveram que ser criados mecanismos socioculturais de prevenção dos riscos da sua ingestão pelo que talvez tenha sido a partir desta necessidade socialmente básica que se tenham começado a instituir os primeiros cuidados primários de saúde na forma, obviamente mais espontânea do que institucional, de magia xamânica.[19] De facto, aquilo que não é de aceitação comum redunda em excepção que terá sempre que ser socialmente gerida.

A primitiva gestão cultural dos «riscos alimentares» serviu por um lado para a criação da primeira instituição cultural de saber de base sanitária que foi a magia xamânica que obviamente teria tanto que fazer em termos de prevenção de riscos de intoxicação alimentar quanto de cuidados, senão curativos pelo menos paliativos. Ora, foi esta função terapêutica do xamanismo sobre os envenenamentos acidentais por contacto com animais (particularmente cobras) e alimentos naturais, seguramente mais frequentes em tempo de carestia e fome como era ainda há bem poucos anos o caso do ergotismo por ingestão de centeio contaminado pela cravagem, que levou à possibilidade da investigação empírica dos efeitos colaterais dos venenos cujo aspecto mais revolucionário terá sido a descoberta intuitiva do quanto a relação dose efeito da ingestão de certos produtos naturais pode marcar a fronteira entre a vida e a morte, seja em termos de veneno, seja de cura medicinal, aspecto este que marcou decisivamente o triunfo definitivo da magia xamânica como pedra angular do cultura humana, de que tanto a religião quanto a medicina e a maioria dos saberes técnico-cientificas são os naturais herdeiros.

Possivelmente a principal preocupação dos primeiros curandeiros foi com as cobras, de que as víboras são a espécie venenosa mais frequentes no clima mediterrânico, que levaram por um lado a que o culto da serpente fálica O-Phian tenha sido a mais antiga prática religiosa instituída com início nas ilhas mediterrânicas de Malta e Creta e, por outro, ao facto de ainda hoje a medicina se reportar simbolicamente ao «caduceu» em provável homenagem ao mais antigo dos curandeiros que terá sido alguém que curou uma mordedura de cobra ou alguém que aprendeu por sua conta e risco a utilizar o seu veneno com fins terapêuticos.

Ao saber empírico, quase sempre de trágica experiência feito, seguiu-se inevitavelmente o da descoberta e uso dos venenos, e logo o abuso pela possibilidade dos envenenamentos criminosos que tanto papel tiveram na política antiga e tanto contribuíram para o poder e prestígio dos bruxos das cortes. Porém, em termos mais sensatos e comuns, a descoberta do saber empírico das ervas levou tanto à medicina natural, de que as modernas medicinas alternativas são os herdeiros fósseis, quanto à superstição, ao charlatanismo e à bruxaria. Claro que nos primórdios da civilização a fronteira entre os aspectos positivos da bruxaria eficaz e do puro delírio mágico eram ténues. Porém, a existência duma ritualidade exercida com convicção e mestria faziam da magia um assunto socialmente tão sério à época da pré-história quanto hoje o é o exercício competente de qualquer arte e saber.

Quando o prestigio excessivo duma arte leva à sua vulgarização por gente sem vocação nem génio perde-se o lado criativo e de «magia branca» dessa arte que se degrada em ritualismos ocos de «magia cinzenta» e ineficazes por falta de autenticidade na sua expressão ou mesmo perigosamente «negra e mortal». Como é sempre isto que acontece em épocas de transição de fase histórica, foi este apesto degradante em que caíram velhos e outrora prestigiados institutos que levaram à imagem negativa da bruxaria e do xamanismo antigos nos tempos do helenismo tal como depois foi esta a imagem que o paganismo veio a ter com o advento do cristianismo.

Mas, voltando ao assunto das poções mágicas importa dar conta de que a descoberta da fermentação alcoólica das uvas e da cevada teria que se tornar inevitável na história humana facto que constitui um marco histórico de tal magnitude que quase todos os povos antigos têm um mito qualquer que reportam o início da cultura da vinha aos sobrevivente do dilúvio.

Uma possibilidade explicativa simples para este mito pode ser a que resultaria da aceitação do facto virtual de entre os refugiados da catástrofe telúrica que destruiu a civilização minóica se encontrarem os primeiros enólogos na qualidade de xamans possuidores dos mistérios báquicos ou mais seguramente de sacerdotisas da deusa mãe dos mistérios do vinho e da agua e do fogo, Potkina, antecessora da deusa micénica Potinija e da deusa do fogo hitita, Tapkina! Potinija < Potkina > Tapkina.

Porém, muito tempo antes a «poção mágica» inicial não terá passado duma qualquer bebida fermentada com poderes mais espirituosos do que espirituais. É certo que a urina de veado era uma forma natural de obter uma bebida psico-modificadora com fins xamânicos mas as migrações para sul deixaram os xamans sujeitos à importação do cogumelo seco e logo à necessidade de lhe arranjar substituto o que só terá vindo a acontecer com a descoberta da água-ardente.

A verdade é que a história antiga nos revela o encontro de duas tradições religiosas distintas no início da história. Uma, matriarcal de origem mediterrânica, ou talvez mais arcaica ainda e de origem africana, centrada nos cultos fálicos da cobra e da deusa mãe sem casta sacerdotal hierarquizada e na qual se enraízam as tradições civilistas e outra, patriarcal centrada no culto dum deus da guerra representado primitivamente pelo veado e depois por animais substitutos de tipo taurino representada pelo xamanismo de que resultaram todas as castas sacerdotais.

Pois bem, foi na promiscuidade do xamanismo com o culto dos ideais guerreiros que surgiu a primeira fundamentação socialmente funcionante do primeiro uso abusivo das drogas enquanto «poções mágicas». Do mesmo modo que a estratégico do culto dos trofeus de guerra, alicerçado na filosofia do sucesso social a qualquer preço, serviu para que a sociedade conseguissem prender os guerreiro aos desígnios políticos das sociedades heróicas também a «poção mágica», logo que tecnicamente possível e disponível, surgiu como risco de perversão inevitável para ajudar o guerreio a ter coragem e força em tempo de guerra! Quer isto dizer que a questão do “doping” não é de facto uma questão marginal decorrente da degenerescência do ideal Olimpo a não ser na medida em que este foi introduzido nas sociedades modernas de forma artificialmente sublimada e à revelia da tradição social vigente. De facto, nem o espírito olímpico grego tinha sido tão angelical e ético como se pretende que o seja na modernidade nem as elites aristocráticas onde foi introduzido correspondiam à alma social vigente. O resultado foi que com a massificação desportiva moderna as vantagens inerentes às vitórias deixaram de ser um mero ramo de loureiro a engalanar de forma diletante o rosto de, nem sempre belos, meninos bem para passarem a ser o ouro que permite comprar o sucesso social tanto ao mais comum dos mortais quanto aos mais mal paridos! A filosofia da estratégia dos trofeus regressou às arenas da vida social e o risco da necessidade das «poções mágicas» regressou! Por estas e por outras regressões históricas deste tipo é que as sociedades pós-modernas se debatem com o problema do «doping» dos desportistas e da «droga» das estrelas decadentes, dos falhados do sistema educativo e de todos os vencidos da vida!

Pois bem, a «droga e o doping», que faz hoje parte dum fenómeno tão cínica, hipócrita e ingenuamente malvisto, chamava-se «poção mágica» Potinija nos primórdios da história!

Seja como for, o denominador comum destes fenómenos culturais trans-históricos tem residido na necessidade mítica que a juventude, quando sujeito à pressão alienante da competitividade social desenfreada, acreditarem na existência de tónicos de juventude. Como corolário, são os homens de saber, outrora xamans e hoje profissionais da saúde e das indústrias química e farmacológica, que acabam por ceder às angustias da juventude com soluções mediadoras, outrora ritualizadas em torno do caldeirão mágico e hoje medicalizadas quando não psiquiatrizadas. Porém os mesmos recursos, medicamentos legais ou drogas leves, podem acabar por descambar no abuso que outros sabedores de menores escrúpulos facilitam senão mesmo substituem por drogas mais activas e duras no pressuposto de que o que importa é de facto o resultado imediato em termos competitivos. Se certas substâncias psico-modificadoras, ao produzirem ainda que apenas a sensação de vigor anímico ou a ilusão de força física, estimulam e auxiliam o atleta na busca da vitória que tendência estatística lhe poderia resistir por muito tempo se é certo que tudo o que é possível acaba por acontecer independentemente da insensatez dos resultados?

Aceitando que o étimo *pot- deriva etmicamente dum deus fálico protágono de toda a epifania mística (Phot < Phiat < Phiash < Kiash < Ki Kaki, Vénus de fogo sexual, filha do fogo da Terra Mãe) e a quem se reporta o paradigma da potência sexual enquanto referência mítica do poder e da força em geral a verdade é que a «poção mágica» veio a receber um reforço étmico adicional que fez com que este se viesse a reportar ao conceito de tudo o que corresponde ao elemento líquido e à água!

O xamânico vulgarizou-se a tal ponto que terá levado a que o consumo de «poção magica» em formas comuns de bebidas espirituosas do tipo da água ardente ou «água viva» (au de vie) se tornasse tão comum que o termo «poção» passou a ser sinónimo tanto de água como de força. Esta dualidade não foi generalizada a todas as línguas e pode permitir utiliza-lo como marcador da propagação geográfica de fenómenos culturais. De facto *pot- tem conotações com a «força» na tradição latina e com a «água» na tradição grega mas o nome dos deuses das água destes dois povos manifesta uma nítida reunião deste dois significantes no étimo *pot- = «força» + «água».

Ora, o único semantema que conjuga estes dois sentidos (*pot- = «força» + «água») é a «poção mágica» cuja existência real só pode corresponder às bebidas espirituosas, particularmente à agua ardente!

Claro que as misteriosas aguas quentes termais também podem ter tido a sua influência no correlacionamento entre os deuses do fogo e da água.

A maioria dos termos portugueses com radical *pot- reportam para conceitos de poder mas alguns existem que guardam velhas referências aos líquidos que sugerem a «poção mágica»

«Pote», (Lat. *pottu); «potabilidade» (= que pode ser bebido); «potério» (greco-latino = copo); «potassa»! Para uns do germânico potasch, = «cinza do pote?» mas, quanto a mim, constitui uma autêntica palavra fóssil que já significou potash = agua de fogo, conceito que tanto pode ser reportado à agua ardente como à solução aquosa de potássio. Na verdade já na Suméria era assim;.

nañ, na8: = to drink; to water, irrigate; drink.

naña: = alkali, potash (used as soap) (nañ + a).

«Potreia» (= bebida desagradável);

«potra» (= bolha de água);

«potagem» (sopa francesa). É certo que o português revela influencias linguísticas poliglóticas mas, para que em tantas destas referências, sejam elas francesas germânicas ou gregas, surjam indícios de que o étimo *pot- significou tanto o continente quanto o conteúdo de líquidos, ou seja tanto o «pote» quanto a «bebida», é necessário pressupor uma situação em que ambos os conceitos possam ser permutáveis. Ora, isto costuma acontecer quando a bebida é de tal modo importante que nem sequer é necessário referi-la já que para bom entendedor meia palavra (e um bom contexto retórico) bastam! A expressão tão vulgar de andar nos copos com o significado de andar a beber...vinho é o exemplo acabado desta figura de estilo e do poder que ela pode ter tido na perversão dos sentidos semânticos ao longo da história! Claro que o falso purismo linguístico ajuda a manter o equivoco pois quem usar a simplificação “beber um copo de vinho” recebe por reprimenda a indicação de que os copos podem ser de vidro, ou de outro material, mas nunca de vinho!

Nada obsta a pressupor que a «copa» castelhana (lat. cupa), tal como o «copo» português tenham tido em latim o «pote» equivalente que degenerou no moderno pote de barro também eufemismo do «bacio» (lat. baccino. De facto, Dioniso andava sempre nos copos e de copo na mão. Como tinha também o nome de Baco, ao seu «cântaro» de libações passou a chamar-se báquico (< «baquiano» => baccino) e com a queda em desgraça do paganismo degenerou no bacio de mesinha de cabeceira ou vaso de noite! Porque seguramente os copos latinos eram de barro e seguramente de maior capacidade do que os actuais, pois que então os vinho serias mais baptizados, os «potes» (Prov. pot < Lat. * pottu, s. m. = grande cântaro para conter líquidos;) referir-se-iam não à «cratera» das libações mas ao continente que guardava a bebida! Pelo menos no caso dos «copos» assim foi pois as cubas de que descendem tinha a capacidade de mais de duas pipas (cupa < cuba)! Na transição dos tempos do baixo latim o «pote» terá sido ora o vasilhame ora o copo, porém entre os gregos cedo terá passado a ser apenas o conteúdo inicialmente licoroso relacionado com a deusa micénica Potinija e depois com os líquidos em geral e com a água por antonomásia. Na verdade, o Grec. potamos = rio = literalmente «liquidame» tomando *amos como o equivalente do sufixo português *ame de pluralidade de coisas. Assim, entre o «pote» continente e a potabilidade do conteúdo se desenvolveu a história deste étimo o que tem implícito o pressuposto dum período em que a ambiguidade foi não apenas possível como naturalmente frequente. Como no étimo de *pot aparece um significante de «força» que não está implícito nem no conceito aguado do conteúdo nem no fragilidade de barro do continente há que colocar a hipótese de a força semântica derivar dum conceito intermédio que só pode ter sido o conceito e termo «poção» mágica que os arianos utilizavam com o nome se Soma em rituais liberatórios de iniciação guerreira antepassados remotos das actuais bebidas espirituosas.

Sendo assim a «potio, onis» latina seria tanto a bebida dos deuses da eterna juventude, servida pela Potinija Hebe (< Ki we < Kiki)[20], quanto os seus sucedâneos naturais! Tanto o caldeirão mágico onde era preparado pelo deus do fogo, Hefesto, quanto o cântaro de barro onde era guardado!

Os filtros de amor e morte seriam designações de paralelas virtudes mágicas de outras drogas e poções de que os xamans antigos eram já conhecedores. As poções mágicas, os filtros de amor, os elixires da longa vida e os venenos eram a final um vasto arsenal da farmacopeia do médico primitivo que era o xaman. Quem julgar que a droga e a toxicodependência é uma realidade exclusivamente moderna engana-se desastradamente porque à luz das evidências que o contexto cultural da poção mágica pressupõe só se pode concluir que a apetência por bebidas e substâncias de estranhos poderes sobre o controle da mente sobre o corpo remontam às origens da cultura xamânica de que deriva todo o saber químico e agro-alimentar moderno. Adiante se verá que os deuses da água e do fogo andaram relacionados por complexos abraços míticos.

*Pot- = bebida espirituosa > líquido > água > «MAR» > força > poder!

Da força da sua magia os latinos retiraram o étimo pot-, do poder. Mesmo quando velhos deuses se esqueceram e aos ritos antiquíssimos se perdeu o sentido, a reminiscência do pote e da poção mágica do Soma dos xamans arianos, que continha os segredos do vigor físico, permaneceu em mitos e lendas como é o caso da demanda do santo Graal que não passa da cristianização desta remota memória cultural de que o sangue divino de cristo do cálice consagrado seria o neologismo mítico mais adequado.

 

NINNANA, (A DEUSA DO KHULUPPU E DA BOA FRUTA.)

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Figura 7: Ofertório de primícias agrícolas a Ninana.

Entre os Sumérios a Grande Deusa era conhecida como arvore da vida enquanto «cepa-mãe da videira» o que pode ser uma variante de Ninana, que na figura 6 seguraria cachos de uva em vez de tâmaras. Por alguma razão os hebreus chamavam à sua congénere canaanita Astarte, a deusa do «lenho sagrado», Tamar = A Tamareira.

Baba (< Wawa < Waka, a divina «Vaca» < Kaka) - An alternate form of the goddess Inanna.

Seguramente numa homenagem inconsciente a Inana a deusa desse amor, o poeta popular latino-americano diz que a «banana es lo unico fruto del amor!» Pois bem, nos falares do povo luso o «banano» seria um pau grosso, seguramente idêntico ao falo de Enki com que Inana se divertia! Ora, a verdade é que Wawa + Inana = Wawa-Nin-Ana < Kaka Nanna, a lua cuja forma de um dos seus crescentes se parece com a forma duma banana > Wawa-Nanna Wauanana > wanana > «banana»!

Nammu: sumerian birth-goddess, mother of Ea, associated with fresh water. Goddess of the sea, who created heavens and earth.

Pictigraficamente esta deusa alada poder ser assim a deusa mãe primordial de que se suspeita Inana ter herdado quase todos os atributos se é que não se trata da mesma entidade que apenas foi alterando de nome e genealogia por contingências ideológicas sem, de facto, nunca ter deixado der a Grande Deusa e Terra Mãe de sempre! O facto de ter passado de Mãe a filha de Enki, sem nunca ter deixado de ser sua esposa só prova o quanto no mundo dos deuses mesmo o impossível era verosímil!

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Figura 8: Ninanna, "a form of Inanna which means "lady of the date clusters". Restauro computadorizado de imagem considerada de Inana/Ishtar.

Um dos aspectos mais interessantes desta representação de uma deusa oriental que segura cachos, supostamente de tâmaras, como símbolo redundante da sua exposta fertilidade primaveril é o estranho «par duplo» de asas que mais se assemelham a asas de díptero do que de ave. Quiçá por se tratar duma clara referências aos insectos da fecundação das palmeiras se tenha confundido premeditadamente com uma abelha ou mais seguramente, e por uma relação mítica com a metamorfose das lagartas, com as «borboletas»! De facto, as larvas das varejeiras, que as donas de casa asseadas abominam, tanto ou mais do que as cobras e os ratos, e as lagartas das hortaliças devem ter constituído um dos primeiros mistérios da natureza

Nummu (= Ninsar < Nin Shar < Nin-kur? > En-kur > Engur): The Sumerian goddess of plants, daughter of Enki and Ninhursag. She became a wife to her father and gave birth to the goddess Ninkurra, who married her grandfather, Enki, and gave birth to Uttu. Her mother warned her to avoid the advances of her father Enki. When Enki made advances on her she demanded cucumbers, apples and grapes as a gift. Enki supplied the fruits and as a result of their union eight plants spring forth. Enki ate the plants, as he was a god of both creation and destruction, and was cursed by Uttu, subsequently becoming ill in eight different parts of his body. => Nummun-Su = «semente» = Numun < *Num-mu-an!

De forma expressiva esta figura de Astarte (?) exemplificaria uma arcaica e profunda simbologia dos Anunaki como sendo incarnações dos espíritos dos antepassados no belo e efémero corpo das borboletas.

Annunaki were seven judges of hell (nether world), children of the god Anu, who also sat before the throne of Ereshkigal (the wife of Nergal), she was the daughter of Demeter, Greek Persephone, Roman Proserpine, Gnostic Kore in other mythology. The Annunaki are regarded by some as the Sumerian ‘fates,’ where they waited at the gates of hell to judge the newly-arrived souls. [21]

Tal como era deusa da fertilidade animal Ninana/Nana/Inana seria também deusa da terra fecundada na primavera como viriam a ser várias deusas florais romanas (Maia, Fauna & Flora, Pommona, etc.) e Clora na Grécia, todas reconhecíveis como variantes de Vénus/Afrodite. Na Síria, a deusa dos mitos primaveris dos namoros com Adónis foi Astoreth, a deusa que, de facto, vem representada na figura 3. Era também Ninannak < Inana Ka(ki), forma que revelará a deusa do «ananás». [22]

Early on in the history of Uruk, the primary economic base was in dates, and while Amaushumgalanna was the date harvest, Inanna was the storehouse of the dates (Jacobsen Treasures 135).  Here she is the "Lady of Date Clusters" and her home, Eanna at Uruk, is "the House of Date Clusters" -- (Jacobsen Towards 27).[23]

Assim, nada espanta na relação de Inana com as tamareiras que, não apenas segundo a lógica simbólica da importância vital desta árvore na economia de regiões semi desérticas como as do crescente fértil, mas também segundo indícios míticos encontrados por alguns autores, foi a «arvore da vida» das culturas semíticas antigas e talvez o Huluppu de Inana, se é que se poderia fazer camas e tronos dos troncos das tamareiras, como fez Gilgamech para sua irmã Inana. Mas, terá sido mesmo seguro que Ninana significa «senhora dos cachos de tâmaras» ou será apenas num contexto pictórico deste tipo que este epíteto de Inana foi lido?

De todas as árvores frutíferas, uma das mais conhecidas, cultivadas e estudadas em todo o mundo é a laranjeira. Como todas as plantas citrinas, a laranjeira é nativa da Ásia, mas a região de origem é motivo de controvérsia. Alguns historiadores afirmam que os cítricos teriam surgido no leste asiático, nas regiões que incluem hoje Índia, China, Butão, Birmânia e Malásia. A trajectória da laranja pelo mundo é conhecida apenas de uma forma aproximada. Segundo pesquisadores, ela foi levada da Ásia para o norte da África e de lá para o sul da Europa, onde teria chegado na Idade Média. Da Europa foi trazida para as Américas na época dos descobrimentos, por volta de 1500. -- Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos.

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A propósito do nome das laranjas se pode dizer que também neste caso a etimologia oficial pode não andar muito afiançada. Em primeiro lugar haveria que saber se foram os árabes que introduziram as laranjas na Península Ibérica. Na verdade os gregos não tinham nome para a laranjeira ainda que já tivessem conhecimento do limão! Por outro lado, os romanos chamavam medicas à laranjeira e mala, Assyrian à laranja[24] o que põe um pouco em causa a versão anterior sobre a origem da laranja no extremo oriente na medida em que esta fruta já tinha chegado à caldeia nos tempos históricos. É obvio que sendo assim os romanos conheciam a laranja como nós hoje conhecemos certos frutos tropicais exóticos, como frutos de importação! Também não se estranha-se que tenham sido os árabes a introduzir o plantio da laranjeira na península ibérica porque foram também os portugueses que levaram a laranjeira para o brasil pois, cada povo colonizador tenta adaptar a ecologia das terras que coloniza à da sua terra de origem sempre que tal lhe é possível e desejável!

Sendo assim, os romanos não terão sabido o verdadeiro nome da laranja, talvez apenas porque o não quiseram, e preferiram usar uma expressão displicente das que se costumam usar para coisa exóticas: maça da assíria, porquinho da índia, galinha de angola, ouro da china, etc. A única coisa estranha nesta história é que de à cerca de mil anos a esta parte já existam pelo menos três versões do nome da laranja: duas na origem ibérica «laranja e naranja» e outra, por origem no «orange» fracês, nos restantes paises europeus.

«Laranja» [< Al (n)aranja < Esp. naranja < Ár. naranj < Pers. naräng < Anarankia <= An Kaur-Enki? «fruta» (Phur-utu, sol posto, que ressuscita com a aurora como as sementes dos frutos na primavera?) sumarenta, logo cheia de líquido de vida do deus Enki].

Porém, não ficaria nada admirado se viesse a provar que os portugueses teriam trazido o nome da laranja directamente do golfo de bengala onde esta ainda era a fruta da bela aurora a «laranja» < *Laurankia/Laurenkio => «Lourenço» e a ilha de Lancerote (< Urankurish, a ilha de *Urankur, Urano do Kur ou *An-kurkur, o esposo de Kurkura, Herkala, esposa de Hercules, a aurora da dupla montanha de Gibraltar, o logar dos dois altares da *Kiwra ou *Kiphura, da deusa mãe dos cretences)!

Sendo assim, já então seria provisão natural de agua doce dos antigos marinheiros ao serviço do mesmo deus Enki dos povos do golfo de Bengala, os mesmos povos que propagavam a mesma fé de navegantes e marinheiros ao serviço da expansão da fé do deus dos mares e da aurora. Fé que tinha sido iniciada nas ilhas mediterrânicas, exportada para o Indico, depois para oriente até aos mares da China de tal forma lenta mas progressiva que quando os descobridores modernos em veleiros mais velozes chegaram à longínqua ilha de Páscoa no extremo do Pacífico oceano até parecia que essa arcaica vaga neolítica de primeira civilização mundial em início de escrita ideográfica dava indício de lá ter chegado poucos séculos antes!

 

OS CULTOS AGRÁRIOS DA DEUSA MÃE

A Agricultura, enquanto amanho da terra, foi uma sequência evolutiva da componente dita colectora que era a contrapartida feminina da caça da época paleolítica. Assim sendo, a agricultura era um culto feminino. No entanto, o étimo *Agri < Agar < Kar < Kaur, provém dum deus suposto masculino facto que reportaria a agricultura para uma invenção patriarcal se não se desse o caso de Kaur ser, literalmente, o «guerreiro da Terra Mãe». Na Etrúria a deusa das hortas era assim mesmo, a Horta (< kaur ta) nome em que se mantêm com a mesma ressonância animal, ou nem tanto assim. De facto, etmicamente «horta ou horto» podem ter andado próximas de nomes como «corte» = "• (Lat. cohorte, pátio), s. f. residência do soberano e localidade onde essa residência se encontra; • pessoas que vivem na companhia do soberano; (...)".

Sendo assim, a «horta foi primitivamente o pátio cercado onde se cultivavam os legumes das tropas, o mesmo que o quintal da «coorte» = "• (Lat. cohorte, m. s.), s. f. parte de uma legião, entre os Romanos; • porção de gente armada; (...).Porém, na zona de Foz-Côa, o termo «corte» tem o significado de «curral do gado» de que o diminutivo «cortelho» e testemunho fóssil. Como curral e curro vem obviamente de K(a)ur nada ha que admirar que «corte e coorte» também andem. A relação miliciana de Kur e já conhecida. A relação deste deus com a agricultura fica assim esclarecida como relacionada tanto com a horta das casernas como com os corrais dos animais da cidadela militar.

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Figura 9: Glorificação da agricultura. Pormenor de uma pátera de prata da Aquileia. (Kunsthistorishes museum, Viena)

Dito de outro modo, a origem da agro-pastorícia tal como a cidadela, de que se gerou a cidade e a civilização, aparecem etmicamente como apêndices da vida militar organizada.

Assim sendo, podemos inferir que o aparecimento das castas guerreiras autónomas e organizadas constituíram o primeiro passo para a diferenciação social que desencadeou a história humana.

Horta "An Etruscan goddess of agriculture."

De facto, a terminologia mítica deve ter começado muito antes do início da civilização agrícola pois todos os nomes divinos apelam para uma desinência animista de tipo taurino, compatível com contemporaneidade com as épocas de caça da arte rupestre!

A cobra ou serpente, apesar do seu aspecto fálico, foi sempre do género feminino como a Terra Mãe, pelo que é A esta que deve ser atribuída a proeminência fálica que, ainda que pendente e saliente no homem, era culturalmente manipulada pelas mulheres e em nome daquela deidade. Porém, se o aspecto fálico implicou sempre alguma virilidade, algum espírito aguerrido teria que ser também invocado à deusa mãe, vulcânica e leonina. Ora, tal ânimo nunca a esta lhe faltou, ora repleto de magia sombria e aterradora, como a tradição das Gorgonas o atestam, ora acolhedor e virginal como as deusas vestais do fogo doméstico. Na verdade, todas as guerras são justas quando começam com a justificação da defesa dos deuses da cidade e dos lares.

Muitas são as representações guerreiras da deusa mãe e uma delas, de nome Agrona, é celta. Outro é um epiteto agro-pecuário de Artemis a Agrotora.

Agrona “The Cltic goddess of strife and slaughter. The river Aeron in Wales is named after her.”

Agrona < Hakerona < Kakaurana => Kaphurana.

Agrotora "is another name for the Greek goddess Artemis, under which title she was regarded as the patron goddess of hunters ."

Porém, o mais aguerrido e taurino de todos é afinal o nome de Ceres que vem directamente de Keres < Keures < Kaures.

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figura 10: Ceres, a deusa romana da agricultura numa encenação típica de Deméter.

Esta representação dum carro de procissão alegórico, em estilo romano, retoma o tema do triunfo da Agricultura em nome de Ceres que abriga ao lado da sua vitória, publicamente expressa, a de um qualquer general romano. Deste modo se define a civilização romana como sendo sobretudo a de uma potência militar de forte e nobre tradição cultural agrícola e cerealífera pois de Ceres veio o nome dos Cereais. Estamos assim de novo em presença de cobras aladas que parecem transformar-se em colos de cisne ou em dragões e que nos fazem lembrar os mitos centro-americanos das cobras emplumadas, tema que retomaremos a respeito do mito da Esfinge.

Claro que Ceres não nos reporta de imediato para nenhuma cobra mas antes para o étimo dos exércitos (< Keres >) *Her-, raiz de nomes e deuses  militares (Hércules e Hermes v.g.) e de Hera, facto semântico que nos permite reunir num só semantema duas das principais deusas romanas uma das quais suposta esposa de Zeus e logo, rainha dos Campos Elísios celestiais!

O facto de Hera e Ceres poderem ter andado relacionadas pelo lado do poder militar será de explicar não apenas pelo aspecto universal da deusa Mãe mas pelo facto de haver a suspeita de que a primeira grande revolução agrícola, do final do neolítico, ter explodido na Suméria depois da invenção da cerveja que foi, a par da invenção do vinho, uma das primeiras poção mágica dos exércitos desde os tempos pré-históricos!

De facto, não faria grande sentido relacionar a primeira revolução económica com a mera descoberta da agricultura pois, como se pode ver noutro ponto destes estudos, a agro-pastorícia foi sempre conhecida pela humanidade desde, pelo menos, as épocas antropológicas chamadas de caça e recolha. Claro que Ceres foi antes de mais a Deusa Mãe da fartura alimentar, primeiro em caça e depois cerealífera. Foi Deméter (< Dia Mater) na Grécia e Ati Cel na Etrúria. Ora, Ati |> Tia > Thia > Dia| Cel |< Cer > Kaur > *Ter > Tel > Tellus > Tella (> «terra»).

Ati Cel [Mother Tellus] the Deep-Breasted, the Fruitful Earth

São múltiplas as variantes do nome da Deusa Mãe desde a tradição hitita até ao nome da lusa Terra.

«Telecheia» < Telechena < Telchines < *Kur-Ki(na)-Ki <= *An-Kur-kika => Kere-kika > *Tere-Hiha > Teleia > Telia > Tella > Terra Madre = Tellus-Mater = Telephaessa < Telephassa < Telekisha > Telehush > *Tellish > Tellus > Teles.

Figura 11: Triptolemos, Deméter, Persephone (FR). From Furtwängler & Reichhold, pl. 106.[25].

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Um mero aumento da procura de pão, como é o caso da explicação corrente para o fenómeno histórico do começo da agricultura, não faz muito sentido primeiro, porque corresponde a uma petição de princípios que sempre poderiam ter acontecido mais cedo e depois, porque, sob o ponto de vista económico, deixa de lado a questão da mais valia que explicaria a motivação socio-económica para o investimento intensivo, particularmente novo, na cultura cerealífera, quiçá ainda antes de grandes descoberta no fabrico de pão fermentado.

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Figura 12: Um carro de cobras aladas transportando um deus solar, seguramente Triptolemos (< Tyr-Ophito-Remus < Kar-Ophit-Urmashu, supostamente o guerreiro das três cabeças como Gerião mas que seria lit. «o guerreiro da deusa mãe que transporta a cobra solar alada»!

Triptolemos = Said by some to be the first person to whom Demeter revealed her mysteries in Eleusis, he spread Demeter's agricultural arts to new lands by teaching people how to use a plow and to grow wheat and corn. Demeter gave him a chariot drawn by winged dragons for his travels. After his death he was worshiped as a god (Classical Mythology Online).

Para que ficasse explicada a razão que levaria toda uma sociedade a investir no cultivo intensivo de cereais, para além do necessário para a sua própria subsistência, seria necessário aceitar que tal sociedade seria capaz de representar tal atitude como vantajosa para si própria ou seja, como uma mais valia intuitiva e natural. Ora, pressupor para o começo da história a percepção empírica das leis do capitalismo moderno seria pura e estulta petição de princípios. Na verdade, para que fosse rentável, nos alvores da história, uma agricultura intensiva com técnicas primitivas, ainda antes de haver um comércio agressivo como seria no caso da história dos fenícios, por exemplo, teria que haver adicionalmente algo mais do que fome e penúria económica generalizada, como seria o caso duma situação de aumento de procura de cereais para fabrico de pão em consequência dum brusco aumento da população no final da época glaciar. Na verdade, aumentos brusco de população podem gerar outros tipos de progressos mas, só por si e sem uma outra qualquer mais valia adicional, económica ou cultural, são apenas geradores de catástrofes ecológicas e humanas.

De facto, a cultura intensiva de cereais poderia ter sido intuitivamente rentável se com ela viesse a ser possível obter mais do que o que era habitual. Para que os cereais pudessem ser vendidos a bom preço havia que haver quem os pagasse. Ora, não seriam esfomeados por excesso populacional que haviam de ter dinheiro para comprar pão a qualquer preço a menos que tivesse havido um aumento particular de metais fiduciários o que não parece ter sido o caso.

A revolução agrícola só coincidiu com uma época áurea no mero plano simbólico e este na medida em que veio a ser causa de acumulação de riqueza. De facto a Suméria não revela um grande aumento de fluxos metálicos nem o ouro abundava nos rios mesopotâmicos. Como estamos nos alvores da história nem sequer podemos falar na condição da situação prévia duma economia de rapina como seria mais tarde a do império assírio e a dos espanhóis do sec. XVI. Na verdade, a motivação para a produção intensiva de cereais não podia ter sido de natureza económica mas apenas de tipo cultural.

A melhor tese só poderá ser a de que foi a procura de cereais para o fabrico de cerveja, espontaneamente desejada pelo comum da população e particularmente apetecida pelos jovens guerreiros, que iria servir de motivação cultural e estímulo endógeno para a produção de excedentes de cereais que determinariam o primeira revolução económica da história pela acumulação capitalista de riqueza agrícola.

Na verdade, as grandes revoluções civilizaçionais costumam ter sempre uma génese militar. A cobra alada, enquanto símbolo da agricultura, poderia ter tido como epíteto lusitano o nome de Kar Allyum, «alho porro (< pollo < Apollo?)» de Kar, idêntico às alcachofras das folias dionisíacas, > Carallium de que deriva por obvia etimologia o calão português mais carregado de interditos sexuais!

 

GESHTINANNA, A DEUSA SÚMERIA DO VINHO

Pour alléger son sort, la déesse Inanna autorisa Geshtinanna (< Kiast Innana, Innana enquanto deusa do fogo), la soeur de Dumuzi, déesse du vin à prendre sa place tous les six mois par alternance. Inanna la Reine du ciel, devient elle aussi un symbole de la résurrection, comparable aux pouvoirs de légende détenus par la déesse égyptienne Isis qui a fait revivre son époux Osiris assassiné et déchiqueté par son méchant frère Seth et s'est même fait féconder post-mortem par l'esprit de son époux d'un fils qu'elle nommera Horus.

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Figura 13: Desenho estendido do cálice ritual de Gudea de Lagash.

Gishzida (Gizzida, Nin-gishzida): a Tree-God, sometimes viewed as a God of the Dawn, name means "sturdy timber" or "trusty timber". Sumerian god paired with Dumuzi, son of Ninazu, consort of Belili, doorkeeper of Anu. Cult center: Gishbanda, between Lagash and Ur. Symbol: Horned snake. (Gilgamesh’s ancestor Ningizzida or Ningishzida, was mother and wife of Dumuzi). Seen below is the Libation Cup of King Gudea of Lagash (an ornamental Sumerian ritual cup) ca. 2000 B.C. Sumer, one can view two composite beasts of a type called "lion-birds" who are drawing back the portals of a shrine (sanctuary) to reveal the great Mesopotamian serpent-god Ningishzida in his dual aspect, entwined about an axial rod as a pair of copulating vipers. If this is the serpent-god then this explains why Dumuzi-absu, Tammuz was called the "child of the abyss." Geshtinanna - The sister of Dumuzi the sheperd god, she interprets dreams as one of her mediums, along with being a demigoddess of the grape harvest used in the making of wine, every year she descends into the underworld to replace her brother to allow him to cause the Earth to be fertile again.

A ingenuidade mítica chega a atingir as raias da desatenção infantil. Sendo intuitivo que o primeiro casal divino só poderia ter sido formado por dois irmãos, na mesma lógica do poder solitário que obrigava os faraós a casarem com as irmãs, Damuz deveria ser irmão de Inana pelo que Geshtinana (< Gesta < Kiast Inana) ou era literalmente Inana enquanto Vesta, Hestia ou «gesta» que alimenta o fogo celeste ou era também irmã de Inana o que já faria irmandade e compromissos familiares a mais, mesmo entre deuses! Na verdade, dizer-se que Geshtinana era a «deusa do vinho» sendo este papel reservado às deusas da água e do fogo das estâncias termais, em virtude da relação do vinho e das bebida alcoólicas com a aguardente, é já suspeito de estarmos diante duma das facetas Inana Nim-me-sar-ra, "Senhora de uma miríade de ofícios" entre os quais estaria o do fabrico de bebidas fermentadas que na suméria seria a cerveja por ser ali mais popular do que o vinho.

Siduri (Siduru, Sabatu): Goddess of brewing and of wisdom. Word "alewife", "sabitum", may also mean "woman from the land of Sabum." - the barmaid, the Babylonian equivalent of Hebe, the goddess of divine wine, who is depicted as seated in heaven in the shade of her vineyard - the barmaid, is a manifestation of Ishtar who dwells at the lip of the sea, beyond which is the Land of Life, where Utnapishtim lives. She speaks with Gilgamesh. She wears a veil."

Seria improvável a existência de duas «deusas do vinho» em contextos semânticos tão ambíguos como este em que Geshtinana se manifesta com «gestos» foneticos de Inana! Sendo assim é legítima a suspeita de que Geshtinana não seria mais do que um epiteto de Inana/Ishtar, autonomizada por artifício mítico, fosse para exaltar doutrinariamente Inana dispensando-a de funções que se começavam a perfilhar como subalternas, fosse para a libertar da incongruência de mortes sazonais que lhe eram astrologicamente imprópria e que a lua de facto não manifesta!

Nin-A(n)zu => Anzu > An + Xu. Nin-Gishzida => Gishzida Lit. o «deus Ratão[26] < Urah-An, cozido e gizado no caldeirão» < Kiash-Zitha. *Kiash já sabemos que se refere à deusa mãe do fogo telúrico que viria a ser Vesta. «Zita», que ainda hoje é nome de gente mas do sexo feminino, derivaria de Ki-Uto > Phi-Uto [27]=> Shuto.

Razão pela qual o nome da irmã gémea deste deus era Gest-Inana <= Gest < *Kiash a deusa da árvore da vida e uma mera manifestação de Inana.

Geshtinanna = Inana irmã gémia de Damuz = Nin-Gishzida

Ora, um dos factos mais espantosos que podem ser revelados por esta forma de análise comparada da mitologia antiga é a possibilidade de Jesus Cristo corresponder à evolução da mística do sacrifício do «filho de deus» que teria dado o seu «corpo e sangue» para a salvação da humanidade num rito de morte e ressurreição pascal!

De facto, a partir da analise comparada dos nome de Nin-Gishzida e sua irmã gémea Geshtinanna chegamos à conclusão de que o núcleo semântico e étmico que unia os dois irmãos era Gi-Xu < *Kiash > Gest, correspondente à deusa micénica Potinija e ao egípcio Ptah, os diachos do «fogo vital» nas epifanias da «sarça ardente» e na fácil combustão das giestas nas queimada das trovoadas da primavera mediterrânea.

Ora, nem de propósito, o deus sumério que sacrificou o seu «corpo e sangue» com que os deuses da criação, Enki/Khneum e Ptah, deram vida ao barro amassado com que foi criado o corpo e a alma do homem era, nem mais nem menos Geshtu, seguramente o esposo da Giesta.

Geshtu-E - A god of intelligence who, at the creation of man, gave his blood and flesh as a starter for the seed of Mankind.

«Em política o que parece é»!

Que a religião é o substrato doutrinário da política antiga já só os ingénuos o não admitem pelo que, em conclusão, Jesus Cristo já era virtualmente possível no tempo dos sumérios correspondendo assim a uma realidade misteriosamente mística que já vinha do princípio dos tempos.

John 1:1, In the beginning was the Word, and the Word was with God, and the Word was God. John 1:2, The same was in the beginning with God.John 1:3,All things were made by him; and without him was not any thing made that was made. John 1:4, In him was life; and the life was the light of men.

                                           G-eshtu-E > Ge-Xu-E > Jesueh > Jesus.

Iscur > Kur-Ish-tu > *Kar-eshtu > Cresto > Cristo.

Há quem ponha em dúvida a historicidade de Cristo com a mesma sensata desfaçatez com que os cristãos duvidam da existência de Hércules e com o mesmo grau de provas históricas com que se suspeita da falta de fundamento da guerra de Tróia. No entanto, não se pode duvidar da universalidade criativa do «gesto» de fogo da PALAVRA DE DEUS.

Jesus Cristo, o «Alfa e Omega» do alfabeto grego, padrão de toda a literalidade das culturas do livro, tenha ou não sido também uma, ou parte de algumas personalidades históricas concretas, a verdade é que assim se demonstra vir a sua Substância Cultural do princípio dos tempos dando razão, no plano da grande retórica ideológica, aos teólogos que determinaram que o «filho de Deus» procede do Pai desde toda a eternidade!

E foi assim que quando Jesus Cristo na «Última Ceia» tomou o pão e o vinho e o deus aos seus discípulos e disse: «fazei isto em minha memória» que foi renovada a antiquíssima tradição da Kurbana, nome da «missa» em caldeu,

Primeiro porque a Kurbana < *Kur-Phana < Kurkina > Kikurana, a cerinónia em louvor da divina *Kiphura da árvore da vida e da sabedoria acabou sendo a liturgia em que «berbum caro factum est» pelo viático do sagrado alimento do «pão e do vinho»!

Depois porque «Caro» <= Karus < Kauro < Kur, o «filho de deus» pai do céu, o «Sol Invicto»!

Os rituais pascais de morte e ressurreição dos deuses solares precisamente eram mistérios agrários primaveris relacionados com arcaicos mistérios de «passagem» porque os deuses solares eram mortais, tais como Urash / Gishzida / Damuz / Osíris / Atis / Adónis / Dioniso / Cristo, estavam relacionados com as vindimas e a preparação das bebidas espirituosas. De facto, a iniciação juvenil, militar e civil era conseguido sob o efeito de antigas poções mágicas que não eram mais do que drogas facilitadoras do desafio da morte aparente por simulações psicossociais. As bebidas alcoólicas eram, tal como ainda hoje é a cerveja na queima das fitas dos caloiros lusitanos, as drogas de iniciação mais conhecida na cultura mediterrânica.

a)      As Potnias eram de facto deusas das bebidas fermentadas.

b)      Geshtinanna era uma deusa da «vinha do céu».

c)      A «videira» < «vide» < Lat. vite > vita > «vida», deve o seu nome ao facto de ter sido seguramente a metáfora mais comum da «arvore da vida», aliás considerada como tal por muitos autores gnósticos e que, pelo menos em francês, justificou o nome de «agua da vida» dada à «agua ardente» das deusas do fogo.

d)      Damuz/Nin-Gishzida era um deus dos cultos de fertilidade de morte e ressurreição pascal. Particularmente Nin-Gishzida era considerado um deus da «árvore da vida», como Ashera na Canaaneia, ou seja um deus da videira como Dionísio.

e)      O vinho e a cerveja, além de serem «poções mágicas» de vigor e ânimo e «filtros de amor» por alegrarem o coração dos homens, eram também considerados fontes de inspiração e inteligência, como o atesta o senso comum ao denominar espirituosas as bebidas licorosas.

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Figura 14: Dionísio, o deus da «vida eterna» cujos louros eram parras!

Estas crenças e preconceitos derivariam da loquacidade comum dos ébrios e do combustão quase espontânea da «aguardente. Não foi Cristo acusado de convivência com publicanos, ébrios e prostitutas?

Sendo assim, estamos aptos a identificar este deus como sendo Urash, o «Puto», o «Deus Menino» Dionísio que foi assado como os animais das queimadas do princípio do verão, filho das giestas floridas de Maio e das amarelas maias de Vesta, a deusa mãe do fogo telúrico! Ora bem, no campo da mitologia não existem propriamente incoerências nem contradições pois que no tempo em que os deuses reinavam no mundo tudo era maravilhosa e fabulosamente imaginável.

Sendo estes seres o protótipo do bestiário das disformidades míticas geradas pela deusa mãe do caos lamacento primordial há que pensar que tais mitos traduziriam o trauma infantil duma humanidade que via aparecer por geração espontânea do fundo do lodo as mais estranhas metamorfoses de batráquios tal como se espantaria com o maravilhoso fantástico das mais belas borboletas que se geravam partir de estranhas metamorfoses de lagartas, formalmente descritas como cobras. Por outro lado, estamos perante um mito de nascimento primordial ladeado por um bestiário de guarda-costas sagrados mas agora mais próximo dos Aker Egípsios porque já não se trata escorpiões. Sendo assim, há que pensar que o termo lamashu poderia ter acabado por se aplicar a todas as bestas míticas da deusa mãe que tinham o papel de serem guardiões das portas do sol.

 

DE *KIMA AO QUIMO

Esta entidade terá estado presente na fundação da cidade de Carquemiche (< Kar Ki me ash < Kar Ki me Kaki, lit. «o sol posto no seio da terra e as leis do fogo»?) de que Artemisa teria sido a padroeira.

Carchemish was the eastern capital of the ancient Hittite empire. It was a highly strategic military and commercial center of Northern Syria for many centuries, under one ruler or another. It lay on the Euphrates river, about 65 miles northeast of Aleppo. There were several battles fought at Carchemish, the most decisive of which is the so--called "Battle of Carchemish," in which the Babylonians under Nebuchadnezzar defeated the Egyptians, who were led by Pharaoh Necho.

Do mesmo modo, Artemisa terá dado o nome a Cachemira (< Kakimeura).

While Kali is dark and Lalita is bright, Jvalamukhi is both and neither.

Jvalamukhi < Shiwarmukaki < Ki Karma ish > Kar Kima ish > Artimísia!

Ora, o interessante é encontrar neste estranho e compósito conceito mítico, implícito no nome da antiga cidade de Carquemiche, o étimo Ki-Ama de toda uma metafísica das artes do fogo relacionada por um lado com as artes culinárias, primeiro antepassadas remotas da «alquimia» e depois com as «ciências químicas» (Ki-Ama > *Kime- => «Quimica»).

One of her designations is shem b`l, Name of Ba`al, as reconstructed on the basis of KTU 1.16 VI 56 and in KAI 14:18. The element shem appears as a deity at Ebla. It is common in 2nd and 1st millennium personal names in Amorite, in Akkadian names from Ugarit, and in Phoenician and Hebrew names. It might be argued from this evidence that shem originally represented a separate Semitic deity who was identified secondarily with the goddess as an expression of her relationship to the god with whom she was most commonly associated. The same view might apply to kbd (< Ki-Wath? > Hebat), "glory," attested at Ebla and in Amorite personal names as a deity and in later West Semitic tradition as a hypostasis.

·       Ka-ma => Damuz, o amante humano de Innana > Kama = odeus hindu do erotismo e do desejo sexual => «cama» o espaço portugês onde o desejo se cosuma.

·       Ke ma => gr. «themos» de tema > *demos de povo e democracia.

·       Ki-ma => gr. «kimos», o alimento > «Quimo» > gr. «Zimos», o fermento, > gr, Thimos, os sentimentos.

·       Ko ma => gr. «komos», o banquete => «comer» > Soma => «sumo».

·       Ku ma => o «cume», a chamine no tecto é o sinal evidente da cozinha e o indício seguro do lar => lat. «domus».

Comus - God of feasting and revelry, and nocturnal carousing; During his feast, man and women cross-dress. He is represented by a handsome young man crowned with flowers and holding a torch.

Kama - o deus hindu do érotisme, do desejo sexual e do amor apaixonado!

Claro que a «cozinha» rústica nos reporta para o «domínio» domestico da casa e do lar, de que a «domus» foi a expressão latina e dama/damu a mais arcaica referência aos donos da casa, de que o casal Innana/Damuz teria sido uma das representações mítica do início da revolução agrícola. Na cozinha rústica se manipulava toda a química alimentar com que se preparavam os banquetes (Grec. komus) e a «comida» e onde se iniciou a arte do controle das fermentações alimentares que levariam à descoberta das bebidas alcoólicas. É obvio que estes factos só foram possíveis quando o homem primitivo começou a fazer reservas alimentares e se defrontou com a deterioração fermentativa dos alimentos vegetais frescos e com a inevitabilidade da putrefacção dos alimentos cárneos que apenas o fogo e o sal conseguiam atrasar. De qualquer, a realidade da fermentação foi correlacionada com o fogo, quer pelo calor que produzia quer pela espuma ebulitiva que a acompanha pelo que, pelo menos na língua grega, o termo zimos deriva do conceito mítico *Kima, a Mãe das «leis da Natureza», a Terra Mãe! Na Grécia este concito teve em tempos arcaicos o nome de (*Kima > Thi-Ama > ) Damia > Deme + ter = Demeter.

Damia An alternative form of Demeter in ancient Greece. Her daughter was Auxesia, similar in kind to Persephone).

Auxesia (< Hekate < Haushekia < Kikakia >) Hit. Kauskia.

Eumênides (< Haume-anithes < *Kimê-Enkias) = Antigos espíritos da terra ou deusas associados à fertilidade, mas também tendo certas funções sociais e morais. Tradicionalmente em número de três, as Eumênides eram adoradas em Atenas e em terras fora da Ática. Embora seu nome por vezes queira dizer "as benevolentes" "as graciosas," e "as veneráveis," as deusas eram normalmente retratadas como as Górgonas, criaturas com cobras ao invés de cabelos e olhos injetados de sangue. Sua aparência vai de encontro com sua identificação, em outras lendas, com as Erínias, três deusas vingativas do mundo inferior.

Na cozinha rústica se manipulava toda a química alimentar com que se preparavam os banquetes (Grec. komus) e a «comida» e onde se iniciou a arte do controle das fermentações alimentares que levariam à descoberta das bebidas alcoólicas que quase sempre levavam as pessoas do leito do banquete ao leito da alcova!

Comus - God of feasting and revelry, and nocturnal carousing; During his feast, man and women cross-dress. He is represented by a handsome young man crowned with flowers and holding a torch.

Kama - o deus hindu do érotisme, do desejo sexual e do amor apaixonado!

As cozinhas arcaicas eram seguramente mais poluidoras do que as modernas. Ora, as técnicas de transmissão de informação por sinais de fumo não deve ter sido exclusivo dos ameríndios pelo que se aceita como evidencia o facto de a «Fama» («fumo» < Phime < Ki-Ama) ser um heterónimo duma deusa do fogo! E como não há «fumo sem fogo» Artemisa foi uma deusa do «fogo» pela simples e mera razão de ser esta uma das mais arcaicas funções divinas relacionadas com a deusa mãe desde os primórdios da humanidade, logo, Artemisa enquanto arcaica Deusa Mãe esteve sempre as par de todo o saber tanto o que ficava no segredos dos deuses guardados por Enki, como eram seus os saberes da magia e daí que o termo Sumério me derive muito simplesmente do seu nome ma, de mãe!

Dai que o mito da falsa dádiva de Enki a sua filha Inana «muito amada» das sagradas «Medidas, Motes e Mesuras»

(INANNA AND ENKI)

Enki, swaying with drink, toasted Inanna:

'In the name of my power! In the name of my holy shrine!

To my daughter Inanna I shall give the High Priesthood! Godship!

The noble enduring crown! The throne of kingship!’

Inanna replied: I take them!

'Truth! Descent into the Underworld! Ascent from the Underworld!

The art of lovemaking! The kissing of the phallus!'

Inanna replied: I take them!

Enki raised his cup and toasted Inanna a third time:

‘In the name of my power! In the name of my holy shrine!

To my daughter Inanna I shall give the holy priestess of Heaven! The setting

up of lamentations! The rejoicing of the heart! The giving of judgements!

The making of decisions!’

(14 times Enki raised his cup to Inanna

14 times he offered his daughter the mes

14 times Inanna accepted the holy mes)

Then Inanna, standing before her Father,

Acknowledged the mes Enki had given to her.

Refeito da bebedeira preparada pela própria filha Enki pretende os «segredos dos deuses» de volta e envia o seu servo mensageiro Isimud (< Ish-ama-tu => Tamuz) para os retirar a Inana!

Therefore, it is my view that this part of the myth refers to historical facts mentioned earlier, when in 4,000 Before Common Era there was a shift of religious power from Eridu to Uruk, where priests and priestesses shared religious and temporal power. The root and ground for equality, and without acknowledgement of the other's holiness and wholeness no Sacred Marriage can take place. -- Presented in Philosoforum, London (UK) and a follow-up for the thread on Men vs Women (Babylon Forum) of Ancient Sites, by Lishtar.

Nada será possível opor a esta tese de que o mito se reportou a factos reais, já lendários à época em que o presente mito foi escrito, relacionados as celebérrimas «guerras entre sexos» iniciadas desde o começo do mundo! Na verdade este mito servirá mais tarde de base teórica, e de partida, para a uma espécie de revisão da história, no mito de Marduque, aliás suposto filho de Ishtar/Inana. O importante é suspeitar que nesta revisão nem tudo será inteiramente falsificação e manipulação pois aí se confessa implicitamente que Tiamat, a Deusa Mãe primordial foi a detentora dos poderes supremos que Enki, seu filho herdaria! Ai se refere que She gave Qingu the Tablet of Destinies to facilitate his command and attack.

Entre o termo Qingu < K(au)-Enku = «bestas de Enki» não haverá muitas diferenças semânticas. Dito de outro modo, as leis que Inana roubou ao pai eram os arcaico segredos de cozinha da Deusa Mãe e pode ter sido esta a razão que levou inana aos calabouços do inferno no mito do «Decesso de Inana»!

 

DA ESPUMA DA CERVEJA DE KA-*KIMA A *ASHMA

Boreasmas = Festas atenienses em honra a Bóreas, particularmente venerado na Ática.

Claro que não é necessário ir buscar ao termo sumério gidim a relação de tëmu com os espíritos porque esta relação podemos encontra-la no mesmo étimo da «Fama» sem a qual os oráculos eram improdutivos por ficarem ignorados!

«Fumo» < Phime < *Kima < Ki-Ama> «Fama».

                          Ka-*Kima =>

ð     *Ash-ma > aestma > Gr. ásthma, respiração curta, penosa > Lat. asthma > «asma».[28]

ð     *Me-Ash-ma > Gr. míasma, exalação impura > «miasma», pestilência!

ð      *Ki-Ash-ma > Gr. chíasma «disposição em forma X [qui] como a lenha na fogueira? > «quiasma»!

ð      *Ki-antu-ashma > Gr. phántasma, visão do «icon» de Pan = «pânico» > Lat. phantasma > «fantasma».

ð      *Ma-Ur-ashma < Gr. marasmós, «magreza extrema» > «marasmo».

So the Soul (Nishimta < Anu-Ishmat < *An-ashma-at < Anat-Asma, lit. «o sopro fumo de Anat?) entered the body of Adam and he stood erect and talked, and Hiwel Ziwa taught him reading and writing, how to marry, how to bury the dead, how to slaughter a sheep, and all knowledge. Ruha saw this, and she wished that she might have her race, her people, and her portion. -- from E.S.Drower: The Mandaeans of Iraq and Iran, Clarendon Press, Oxford,1937. Mandaean Stories and Legends.

Num conjunto de termos etmicamente tão próximos e semiologicamente tão díspares (quão tenazes na manutenção dum mesmo significante que chega ao termo mandaieno Nishimta para alma) seria de procurar entender qual teria sido a lógica semântica que da sua formação ou até mesmo qual a unidade etimológica, necessariamente subjacente, de todos eles! Quanto a mim tudo começou com a Deusa Mãe Tiamat, a deusa das fogueira e dos «quiasmas» das encruzilhadas da sorte e da morte e sobretudo da criação da natureza a partir das caóticas lamas do fundo do poço do vortex da infinita indeterminação primordial!

Hokhma  = Jewish name for the personalised wisdom, that assisted God in the creation.

Hokhma < *Kau-Kiki-Ama < Ki-At-Ama > Tiamat.

Dito de outro modo, a mitologia judia disfarçou-se de teologia e foi mais um dos contributos culturais para a criação de termos genéricos a partir do nome de Deus.

De facto foi o lado subterrâneo e telúrico de Antu que emprestou a conotação negativa a todos estes termos. No entanto, manda a lógica do nexo de causalidade que tudo deva ter começado com a «asma» enquanto a «falta de ar» que faz com que os mortos acabem num «(mau) que se lhes deu»! A conotação de «mau ar», com que o povo aplicava antigamente, sem o saber, a teoria miasmática hipocrática, mantem-se na origem erudita de «miasma! Porém, os «fantasma» da erudição lembram-nos que o pânico relativo a súbitas aparições de «bruxas e lobisomens» fazia com que os deuses telúricos da morte se transformassem no fumo das fogueiras da noite dos tempos! Ora, a inalação directa do fumo das fogueiras se não mata por asfixia provoca sensação de «falta de ar», ou seja, de «asma». Pois bem, terá sido a partir da fixação deste significado de «falta de ar» no termo da «asma» passou a ser aplicada às acalmias marítimas perniciosas para a navegação à vela, ou seja «marasmo» = «mar« + «asma» = «mar com falta de ar» => «estagnação» na navegação => «esgotamento» das reservas alimentares e das bebidas em alto mar > • fraqueza geral > • apatia profunda > • magresa extrema! Se não foi assim seria «ben trovato» se fora!

Na verdade, sabendo-se que as línguas latinas modernas são de certo modo o cemitério do "lixo" semântico da história (ou pelo menos o repositório das vicissitudes duma prolongada e repetida miscegenação linguistica) natural seria encontrar uma reminiscência étmica destes factos na língua portuguesa. Ora, do étimo afro- temos apenas a referência ao neologismo «afrósina» que é uma óbvio tradução literal do grego.[29] Mesmo assim, o seu significado de demência aponta para a possibilidade de estarmos em presença de uma referência ao sintoma mais evidente dos doentes epilépticos (ou histéricos e até demenciais) que se espumam durante os ataques. Mas, a relação entre o acto de estrebuchar e espumar e o étimo afros- pode derivar duma relação com as cobras cuspideiras, também de natureza médica empírica mas, que viria já dos primórdios da medicina. É que, os envenenamentos alimentares e por áspides costumam provocar vómito, aspiração de vómito e componente asfíxico; sintomatologia agónica de "cogumelo de espuma" e reacções vagais de sialorreia (vulgo espumar pela boca).

aphruktos, on, unroasted, ·  and so, crazed, frantic,; silly, foolish,

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Figura 15: Urania e Clio em versão maneirista.

Com a mesma semântica de algo que fermenta se relacionam os «ferimentos» que entumecem de inflamação e que, por isso mesmo reportam a origem da medicina para as artes femininas da farmácia (< Kar-Ama-kakia > Artemisa) e da culinária alquimíca (< Ar kime) do culto mágico das cobras que permanece no símbolo do caduceu!

Mas, a «espuma» do mar é a porção flutuante da acção das vagas o que apela para o conceito de flutuação como componente fundamental destes termos.

Desde logo por ser suspeito de que metaforicamente a espuma do mar foi associada com o esperma do deus dos oceanos necessário à fertilidade da fauna marítima sob a responsabilidade de Enki pelo que, no fundo, apenas se está a insinuar que Afrodite era filha de Urano, razão pela qual ela era Afrodite Urania. Deste modo, a transformação de Urânia na musa da astronomia deve ter resultado de um equívoco posterior de eloquência que esqueceu que as musa teriam sido outrora «ninfas» (An Enkias) e filhas de Enki como Innana/Afrodite/Urnia.

Na verdade, este sentido de coisa leve que flutua vamos encontra-lo em étimos com fro- (supostos derivados do latino flu-, fru e fro-) em palavras como [30]«frota, froco, fronde e fronha». Porém, suspeito que a relação mais arcaica e expressiva destes sentidos tenha andado relacionada com a espuma da cerveja, senão por forma primária pelo menos por reforço secundário. Na verdade, em português arcaico e, ainda hoje, nos falares correntes do povo do Alto Douro o frumento é uma forma fonética de fermento (< segundo ao dicionário universal da Texto Editora do Lat. farimentu). Ora, tal etimologia é estranha pois o dicionário do The Perseus Project, fornece para este sentido 19 palavras das quais uma é literalmente fermento mas, nada para farimento. Aceitamos no entanto a possibilidade de tal estranho facto sem nos admirarmos muito até porque a farinha (eng. flour), sendo a flor dos cereais, pode conter o étimo far- < fla- < flo- < phro-, o que do mesmo modo nos reporta para os deuses anfíbios pois em grego pode ter o nome de amphimasta, amphithalês em latim a flor da farinha pode ser atacinus (< ata? Kian), cibarius (< Kiwerius), corycus (< Karikus), laganum (lacus?), navius (< ankius) entre outros termos mais ou menos enkianos.

Para fermento, os termos latinos mais referidos são lacus, aestus, ferveo, e tumeo e, com apenas 6% de frequência, fermento enquanto que os termos gregos mais referidos são: aganakteô, meteôros, oideô e, com apenas uma frequência de 1/1500, aphubrizô. Claro que de aphubrizô (= aphur- wizô < kaphur isco > aphro zêo) se poderia chegar próximo de aphro- e, na inversa, a algo com ressonâncias enzimáticas. Porém, tal precurso leva a uma época tão arcaica da oralidade helénica que de tal virtualidade só restará um pálido rasto de 1/1500 na escrita grega. No entanto ele revela-se em termos como ana-phurô < phurô seguramente que relativo ao amassar do pão!

ana-phurô (mix up, confound) phurô ·  mix something dry with something wet, mostly with a sense of mixing so as to spoil or defile. II. metaph., jumble together, confound, confuse, ·  Pass., to be mixed up, 2. Med., mix with others, mingle in society 3. confound, 4. Pass., metaph., to be mutually befouled  (Prob. cogn. with porphurô.) aphurtos, on, unmixed. Adv. -tôs Nic.Dam.au=Hsch. =lr D.

No entanto, a simples possibilidade de chegarmos a algo parecido com kaphurisco como arcaico conceito de fermento (literalmente fogo de kaphura) e também, ainda por cima, próximo de effervesco, um dos termos latinos para fermento, é já só por si, algo de espantoso! De facto a cerveja, como o vinho, «fervem» (> lat. deferveo, effervesco, ferveo e fervor) quando fermentam e ganham gazes, espírito (aestus em latim, meteôros e pneumatoô em grego!) e, por isso, espumam.

Em Horácio o lupanar é fornices. Há primeira vista este termo poderia vir directamente de *Kornikes, já que Kores ou korês eram as jovens gregas que se entregavam ao amor dos kourois por força da deusa do amor, a filha da Deusa Mãe, também conhecida como Ceres e Deméter e, é claro por causa das fomes que as guerra sequencialmente provocavam! Porém, fornices, enquanto lugar particular de venda de favores amorosos pode ter sido também santuário da deusa Fornax > Phoranashis > fornices. De facto, enquanto deusa dos mistérios das padarias eram deusa dos fornos do pão quente, espaço caloroso de mulherio onde estas se poderiam iniciar nos mistérios da gravidez enquanto analogia do pão lêvedo, flor de trigo fecundada pelo fermento! Como se verá a propósito de Afrodite, nestes mistérios se fundamentará o equivoco que deus origem ao mito do nascimento de Vénus da espuma do mar!

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Figura 16 : No mais conhecido dos «nascimento de Vénus», o de Boticelli, o vento Zéfiro sopra a espuma, à flor do mar, enquanto a Deusa Mãe, já grávida de novos deuses, se apressa a «correr os panos» da cena, porquanto se ressente ainda das dores de parto .

"In Roman mythology, Fornax was the goddess of the mysteries of bread-baking and the embryo's development."

Fornax < Phuran ash(a) < Kur An Kaki =>

O conceito de espuma do mar no nome de Afrodite só pode resultar de uma mera contingência e por inferência posterior.

The same principles by which these simple cases are explained furnish also the key to the more complicated mythology of Mexico and Peru. Like the deities just discussed, Viracocha, the supreme god of the Quichuas, rises from the bosom of Lake Titicaca and journeys westward, slaying with his lightnings the creatures who oppose him, until he finally disappears in the Western Ocean. Like Aphrodite, he bears in his name the evidence of his origin, Viracocha signifying "foam of the sea"; and hence the "White One" (l'aube), the god of light rising white on the horizon, like the foam on the surface of the waves. [ [31]]

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Figura 17. A semelhança formal deste nascimento de Vénus dum fresco mural romano com a Vénus de Botichelli é flagrante.

Nao mesma conotação semântica de bebida espirituosa andou a divina Ambrósia.

Ambrosia (An-Phro-kika) was the food of the gods which was supposed to confer eternal life upon all who ate it.

De facto não se pode negar que o nome de África chegou aos latinos pela mesma via marítima e, por isso tem em comum com Afrodite mais o mar do que a espuma. Mas, numa área de divindades do amor estranho seria se toda esta escumação não derivasse antes de mais da experiência universal da sexualidade que ainda hoje serve de paradigma intuitivo para avaliação do conteúdo afectivo das situações vivências, de forma explícita na linguagem brejeira ou nas implicações freudianas carregadas de duplos sentidos! Cobras a escumar fogo pela boca só poderia ser uma alegoria obvia da ejaculação masculina que começou a ser relevantes nos cultos agro-pastoris da fertilidade assim que a humanidade descobriu o papel relevante dos machos taurinos na fecundação das fêmeas! Como é óbvio, o que se afigurava era importante para a humanidade primitiva era sagrado logo o esperma[32] deveria ser um elemento ritual dos cultos arcaicos de fertilidade. O étimo *Phor-, dos cultos solares taurinos da fertilidade, deram origem não apenas ao termo esperma e esporo como ainda ao nome do espirito eslavo da fertilidade e do crescimento agrícola, Spor. Ora, o étimo grego aphro- é foneticamente próximo de acro-, étimo também helénica mas, mais arcaico e presente no nome da Acrópole onde tem o significado de «cidade alta».Claro que o sentido de «altura e elevação» do étimo acro- lhe vem do nome do deus Kar (o sumeriograma dos «deuses protectores» hititas de que derivam os termos sumérios Kal para soberano, hal > al para elevado e gar e gal para forte e poderoso) enquanto sua esposa.

Afro- < acro- <= Karo < Kar > gar > Gal > hal > Al.

Acroterion = The ornament which may be placed at any or all of the three angles of a pediment (the apex and the lower angles). Akroteria could be either of terracotta or stone, vegetal or figural, single pieces or sculptural groups.

Pois bem, aphro- está relacionado com acro- por se referir seguramente a tudo aquilo que sobe à tona das águas tal como em português popular a «escuma» da cerveja sobe ao cume das vasilhas, que eram os cântaros e as «ânforas», e dos cálices (< calix < Kar kiki + An => Afrodite Potinija, a deusa aguadeira por excelência!).

Pois bem, depois de explicar a origem da relação do «fogo» > do «fumo» > e da «Fama»,

= Kiki > *Kima > Kama.

              com «fumo» > «asma»,

     «fumo» + «fama» + «asma» => «fantasma» etc...ficamos a entender porque é que faz e não faz muito sentido quando Tzvi Abusch claims that tëmu (intelligence) represents the link between life and afterlife, because it is phonetically present in the word etemmu. In fact, only etemmu, the spirit (in Sumerian gidim) survives death, it is the spirit of the dead. It has been suggested that etemmu is the ghost, not the spirit because the word is used only in conjunction with the dead.

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Figura 18: Uma das muitas Vénus modernas feitas «à toa», nascidas «à tona» da espuma das águas do mar da emaginação táctil, nas praias da «boa vida»!

Como o termo etemmu (= espectro) = e-temmu = E + tëmu (= intelligencia), lit. «casa do espírito», estaremos perante um conceito que é mais o de vector do que o de coisa em si!

Sendo o fumo uma mera forma de ar visível os espectros das almas eram análogos a fumos e também exorcizáveis por fumigações e defumadoiros!

O resto é pura metafísica que, perante a simplicidade e crueza empírica do pensamento sumério, nem os milénios de especulação filosófica nos ajudam a adiantar muito mais. Dito de outro modo, a revelação que temos hoje sobre a complexidade de conceitos como o da inteligência (e da sua relação desta com a imortalidade) são a mesma que teriam os sumérios pelo que, tentar compreender porque é que, já então, seria diferente o conceito abstracto de espírito (inteligência) do conceito concreto de espírito «fantasma» seria pouco mais do que pura perda de tempo com querelas teosóficas. Na verdade, mesmo nesses tempos, os espíritos dos mortos não se materializariam sempre em espectros e fantasmas. Nas terras do Vale do Côa da minha infância, mesmo depois de milénios de santos exorcismos inquisitórios, ainda se acreditava às portas do sec. XXI em espíritos, bruxas e lobisomens! Porém, só se temiam as aparições das «almas penadas» quando estas morriam com votos por cumprir!

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Figura 19: Insecto minóico, abelha ou traça?

A este propósito importa referir que o jogo de palavras almas «penadas» / «(de)penadas» faria mais sentido do que almas que metiam pena e provocavam dó porque se referia a almas que não entravam na eternidade (fosse ela do paraíso ou do inferno) por falta de penas nas asas que lhes permitisse subir e chegar ao seu destino no outro mundo! Ora, o pressuposto de que para ir para o céu dos astros era preciso passar pelo céu sublunar, o dos pardais, implicava o corolário de, para tal, ser preciso, no mínimo, ter asas o que era tão obvio como a evidência de que o sol se movia no «alto do céu» de oriente a ocidente e por isso era uma «cobra alada e emplumada»!

The words H AHR (the Aêr), O AIQHR (the Aithêr), ZEUS (Zeus) and OURANOS (Ouranos, Heaven) all reduce to 9. (These are all names used by Empedocles for Air.) Related words that reduce to 9 include PNEUMA (Pneuma, Spirit) and TO PNEUMATIKON OXHMA (to Pneumatikon Okhêma, the Spirit Vehicle). -- Biblioteca Arcana page

Quer dizer que etemmu era um sinónimo de algo como o Ba, uma espécie de insecto ou  ave que, como o Ba no egipto, transportava a s(h)a, o sopro vital para o céu! Um bom candidato a este papel seriam as borboletas ou as traças sobretudo porque relacionadas com as larvas da putrefacção! Ora, na arqueologia minóica foi encontrada a representação esculpida dum insecto que mais se parece com uma traça do que com uma abelha! De acordo com a elementos da tradição gnóstica podemos supor que este vector místico era o PNEUMATIKON OXHMA = Pneumatikon Okhêma

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Figura 20: Anel creto-micénico em que aparece um estranho cortejo de sacerdotisas (amphiboloi?) com galhetas liberatórias ("vidae aqua = agua viva = «licor de mel»?"!) mascaradas de insectos ou apenas ajaezada com peles de leopardo de que resulta ilusão de óptica com aspecto de crisálidas de insectos? A verdade é que toda a composição da cena sugere um rito agrário de morte e ressurreição como sol no topo central cercado de espigas de cereal e na base um friso parecido com conchas complementarmente justapostas mas que ou são «bichos de conta ou de «larvas» de insectos! Este motivo estilístico deve ser o que aparece estilizado na forma de «anel de tracejado de cadeado» junto ao trono do palácio de Knossos! O interessante é que, qual Hórus, uma ave falcoeira aguarda pela alvorada atrás do trono da Deusa mãe!

ochêma, atos, to, anything that bears or supports: hence, Zeus is called gês ochêma stay of earth (gaiêochos).

=> *Kauhêma > Okhêma > «ashma» > ásthma.

Ora a ideia de que o último suspiro da morte significava a saída do sopro de vida permitiu confundir, no termo grego pneumos (< Phi-an-ama-us < An-*Kima), a alma com a inalação vital e os fantasmas com fumos no ar. Como *Ka-Kima º *An-Kima => significa que pneumos < Phian-Hema, (lit. «da terra ao céu, acima Oh, Deusa Mãe!) + ish = «fantasma», o espectro e suporte físico do espírito?) teria sido uma origem redundante a partir do étimo de okhêma.

De qualquer modo a tradição gnóstica foi útil em conservar essa misteriosa e arcaica relação entre «espírito de transporte e espírito transportado» que o antigo sumério e-temmu e o gnóstico *Ka-Kima esclarecem! Mas, quem mais agradece é a etimologia que vê assim esclarecida a origem do seu «étimo» < Lat. e Gr. étymon < Sumer. e-temmu <= *Kau-Kima => Oci-Thema > okhêma, lit. «transportador de espíritos e sentido étmicos» para as regiões ocidentais do mondo, lá para as bandas ibéricas da morte!

Em toda esta semântica fazem sobretudo sentido as «larvas» que devem o seu nome às deusas da morte dos latinos e o seu sentido à sua relação com a metamorfose das borboletas.

Repare-se: «metamorfose» dá «metamórficas» > meta-morfigas > *meta-formifas, lit «as formigas que ganham asas e voam < *Meat-Maur-Phiash, conceito complexo que envolve a trilogia dos poderes da Deusa Mãe enquanto «Macha» (< Maish, « jovem filha da mãe»), Moira, Sr.ª da morte e do destino, e Phiash, deusa Vesta do fogo!

«Larvas» < Larukas < Karrukas => Harpias

Nesta mitologia etimológica desaguaria a origem do epíteto de Hermes, o Psicopompo = Psico (< Phi-ish-kau) + Pompo ( > «pampo» = «pâmpano» < Lat. pampinu, deus dos pampos, ou deus que faz despontar («subir ao céu») os rebentos de sarmento (= *Kar-ama-Antu, que transportam a vida da uva tal «como o sol é transportado ao colo da deusa mãe»! ) < «pombo» < luso antigo «comba», a pomba branca de Afrodite que transporta a alma < *Ki-Ama-Ki = Tiamat ??!

 

ARTEMISA, S.ª DA SAÚDE

artemisia, hê, wormwood, a. platutera, = Artemisia arborescens, a. leptotera, = A. campestris, Dsc.3.113. 2. a. monoklônos, = A. scoparia, Ps.-Dsc.3.113.

ambrosi-a, Ion. -iê, hê, immortality, rarein general sense, sômatos a. Epigr.Gr.338 (Cyzicus); usu. elixir of life, as used by gods for food, etc.; as perfume; as unguent; as pasture for horses, etc.

athanasia, hê, immortality.

II. elixir or antidote, a. Mithridatou Gal.14.148, cf. au=Gal. 13.203.

Liddell-Scott-Jones Lexicon of Classical Greek

Com estes mesmos conceitos relacionados com os poderes mágicos do domínio do fogo pela deusa mãe andou relacionado a medicina nos aspectos correspondentes à preparação dos «elixires da longa vida, das poções mágicas e dos filtros de amor» de cuja longa arte e repetida prática derivou a «farmácia» < pharmakia < Kar me ki(a) < Kar Ki me => Artimes. Sabendo-se que Atena derivou duma devoção da cidade de Atenas à Deusa Mãe e que, por isso mesmo, não é mais do que um aspecto particular duma deusa do fogo.

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Como de resto é muito semelhante a Artemisa é interessante notar que a um dos epítetos de Atena foi Hugieia (< Kuki Geia, lit. a deusa mãe das artes mágicas do fogo e da culinária). Claro que, tal como ontem e ainda hoje, eram as deusas mães que confeccionavam ao lume as tisanas e os xaropes que serviam de remédio balsâmico para as maleitas humanas.

Assim sendo, o caduceu do saber hermético, que é o símbolo da medicina, revela-se uma justa homenagem à Deusa Mãe ao descrever duas cobras entrelaçadas.

Figura 21: Caduceu da medicina.

Este mesmo símbolo, enquanto keyron de Hermes revela-nos que este deus foi outrora um irmão gémeo de Apolo e o esposo adequado de sua irmã gémea, a deusa mãe Artemisa, tanto por razões fonéticas quanto funcionais. O termo «remédio» (Lat. remediu), s. m. nome genérico de qualquer substância que pode debelar uma doença; • medicamento; não parece ter uma etimologia latina muito expressiva mas, a verdade é que «remediu(m)» < uremethium< carmenthiu < Kar me Antu => Artemisa ( => Ka Kar menthiu > «sacramento», unguento do deus Sacar).

Quer dizer que, por mera coincidência semântica ou por profunda relação etimológica, a Sr.ª dos Remédios é a mesma que a Sr.ª da Saúde (< Salut < salatu, lit. «salgado» < Kar ash tu> ) e ambas variantes recentes da profunda veneração que a humanidade sempre teve pelos primeiros e mais eficazes cuidados que a Deusa Mãe sempre teve pela nossa saúde. Claro que uma das primeiras relações simpáticas que a humanidade teve com a saúde derivou do facto de Ter descoberto que a carne assada ou cozida não apodrecia tão depressa facto que lhe permitiu aprender a conservar carne assada em banha, fumada ou seca ao sol e depois salgando-a. Daí que o sal tenha sido considerado como «cal» com o poder do fogo ou como algo que confere à carne as virtudes que só o fogo lhe conferia. De qualquer modo, lidar com o fogo era um primeiro passo para os segredos da vida eterna.

Um dos epítetos de Apolo, irmão de Artemisa, foi Esmenian < Eshmun < Ish mean < Ka (ur) kime (ou Baalat Asclepius < Srª. Iscur-akius, Ishtar filha de Enki/Iscur?), era deus da saúde dos fenícios. Assim sendo, não e de todo em todo por diletância etimológica que refiro de seguida a impressão que sempre me causou o culto que o povo do Alto Douro conferia à senhora dos remédios venerada na mais bela cidade lusitana que é Lamego. Ora, desde logo a origem do nome Lamego aparece como controversa e suspeita de mistificação ultrior a contento. O tal general luso-romano Lamecus, que figura no fontanário do velho Jardim episcopal em frente à Câmara( ou será o patriarca antediluviano Lamech?), não passa de pura lenda ou foi herói semi-lendário que recebeu o nome da própria cidade que se supõe ter fundado. Que a atual. cidade resulte da fusão de lugarejos pré-históricos de que existem restos castrejos à volta tal facto não faz mais do que jus à lógica de crescimento das antigas cidades do início da revolução agrícola, como foi o caso de Roma.

A verdade é que “ a cidade de Lamego possui origem remotíssima que se desvanece em afastados séculos. Nada mais do que lendas e opiniões isoladas se conhecem, porém, a respeito de seus inícios.” Mendes da Silva pretende ver nesta cidade a «Laconimurgum, Lama ou Lanio» de Ptolumeu. Claro que sem se saber onde ficava a tal Murgi (de Lamego ao concelho transmontano de Murça ainda é longe mas, para o mundo plano do geógrafo Egípcio, poderiam ser terras vizinhas, quem sabe se parte dum reino pré-romano de que Murça seria a capital!) é difícil de saber se é com razão ou sem ela. No entanto Laconi teria dado Lacão ou Chawão (> S. Gião?) e não Lamego que, neste caso, até derivaria mais de Lama do que de Lanio (< Karnio > Planio < Chãs?).

Aceitando que Lama + Kia = terra de lama ou lameiro, como era o bairro de Fafel (< Phapher < Shacer < Sakar) antes da doença de civilização do camartelo, => Lamecha > Lamego.

Porque terá mudado a cidade de género vá lá a gente sabe-lo ?!. Que o nome pode ter esta derivação rústica e agrícola pode demonstra-lo o termo «lamego» = • s. m. arado de varredoiro, labrego; • variedade de feijões. Porém, interessa-nos mais a possibilidade de o mesmo nome ter tido outra conotação anterior. «Lamecha» = • adj. e s. m. (fam.) bajoujo; • apaixonado; • namorador ridículo. Sem estarmos propriamente no domínio de Afrodite, a deusa do amor, a verdade é que o domínio de Artemisa poderia ter por estas paragens alguma correlação com as artes da sua divina irmã. Que esta cidade era uma terra da Deusa Mãe Artemisa (< Artem Isia) demonstra-o a N. Sª dos Remédios, com o Deus Menino ao colo. Então, se Lamego era uma cidade de Artemisa é legítimo pressupor que:

Lamego < Lamesha < Ar me kia < Ar ki mia => Artemisia.

De resto, a freguesia de Almacave (< Ar ma kawi < Kar me Kaki => Artemisa), que talvez não deva o nome apenas à época da dominação árabe (parece que a cidade de Lamego era uma das cidades peninsulares que mais vezes mudava de dominação religiosa!) pode esconder o núcleo religioso da cidade já que existe a tradição de a sua igreja ter sido a primeira sede episcopar da diocese.

As enciclopédias não o referem de forma explícita mas a verdade é que esta cidade vale sobretudo pela sua beleza de cidade Mariana centrada na bela basílica de N.Sª dos Remédios de acesso triunfante e teatral como o bom Jesus de Braga. Ora, tal como aqui o culto do Bom Jesus deriva de remotíssimos cultos a Hercules (o deus da guerra dos belicosos bárcaros de que nasceu o sangue dos célebres cartagineses peninsulares, os Barcas) em Lamego o culto da N.Sª dos Remédios só pode ter derivado também de arcaicos cultos à Deusa Mãe na variante taumaturga de Artemisa. Porém, se cidade de Lamego herdou tais cultos arcaicos a que soube fazer jus com as adequadas adaptações, de que soube tirar ainda melhores e mais proveitosos louros e lucros, a verdade é que não se entende por razões naturais a especial vocação desta cidade para atrair populações carente de remédio, ou seja de saúde real e não meramente potencial, como seria o caso duma romaria dedicada à Sr.ª da Saúde. Pois bem, na ausência de actuais aspectos salutares concretos, para além da beleza e dos bons ares, somos obrigados a dar conta de que a freguesia de Cambres (< Ki An me wares < An Kar me ki es, lit. «deusa Artemisia») é o lugar com estância termal mais próximo de Lamego.

Reminiscências desta antiquíssima relação étmica pode ser a capela do estranho onomástico N.ª Sr.ª dos Meninos a quem cantam as moças do Bairro da ponte:

«Ò senhora dos Meninos

Sedes Nossa Padroeira

Que nos livrais dos calhaus

Que rolam da Tamboreira.»

Seguramente que o nome Tamboreira é um topónimo local mas não deixa de ser interessante verificar que pode derivar de outros Tambores (< Thambores < Kam wares > Cambres) que não os de fazer música.

Mas existem por estes lados as caldas de Aregos (< Harkios < *Kar-Kius) e do Moledo. Quem sabe se não existiriam outrora também termas idênticas no termo da cidade de Lamego? Que o rio Balsemão tem conotações com os poderes curativos do bálsamo é foneticamente obvio! Pelo menos em Resende a Sr.ª do Carte (< Karki ma) foi famosa por ter salvado às mãos de Egas Moniz (pelo menos formalmente) o primeiro rei de Portugal.

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A teatralizasse barroca destas escadarias só realçam ainda mais o espectáculo da Natureza que sobe da terra aos céus com a ansiedade dos romeiros.

<= Figura 22: Escadaria monumental do «Bom Jesus de Braga». Figura 23: Bela e monumental escadaria de N.ª Sr.ª dos Remédios em Lamego. =>

Mashu (< Ma-Xu): Mountain at the edge of the world where the sun rises. Guarded by the scorpion-men.  Name means : Twin.

 

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Mas também ao lado dos cultos herméticos e hercúleos se prestava culto à deusa mãe como e o caso do Bom Jesus de «Bom Jesus do Monte» em Braga já em substituição de cultos ao deus Hércules, que se sabe terem tido importantíssima relevância nos tempos antigos das culturas galaicas da região dos bárcaros, cultos estes que seriam uma variante dos cultos megalíticos a Hermes, por provável adaptação helenista. Ao lado, o alto do Sameiro (< Kima urio < Urkima > Artemis) ainda hoje local de preito Mariano. Porém, o conceito teológico mais importante e mais significativo para este tema é, seguramente, o que se refere à «montanha do sol nascente» que em português arcaico e mediterrânico corresponderiam ao espaço metafórico «da Torralta do Alvor» construídos no topo de colinas a que se ascendia por escadarias monumentais. Ora, é precisamente em Braga e em Lamego que o barroquismo dos santuários lusitanos alcança um dos mais orgásticos e orgásmicos estupores em homenagem à tradição da «Montanha Sagrada» de cumes gémeos como os seios da Deusa Mãe!

Mashu parece-se àquilo a que literalmente ressoa em português, «o macho», na medida em que mash, o inspector, (> Mazda) viria de mesh (< ama ash, o fogo da mãe!), o príncipe, e u é uma partícula do género masculino em sumério! Como se verá adiante estes montes eram sempre dois gémeos como as tetas ou os cornos da vaca Hator, como as colunas de Hércules, e como os deuses gémeos Castor e Polux, variantes tanto de Hermes & Apolo como de Caim & Abel.

A par deste conceito derivado de Kime, presente na composição de Arti-me-ka-ki, é-nos possível identificar, derivado da raiz Mekaki deste mesmo termo virtual, o radical mash já presente num dos epítetos da deusa mãe suméria, Dingir-mah-Nin-mah.[33]

Na suméria as deusas escorpião eram guardiãs da aurora nos montes Mashu e provavelmente teriam um nome próximo de Aker, os leões que no Egipto guardavam a montanha da aurora. Sirsasa (ou Saria < *Karkia > Harpia) era o nome do mote Hermon no Líbano o que sugere que Selquet podia ter sido *Sirsasha na suméria.

 

SALKET, A DEUSA DO PODER PURIFICADOR DO SAL

Mas, o nome da deusa Escorpião pode vir em nossa ajuda já que é muito provável que as medidas curativas relativas às mordeduras deste animal poderiam despertar os mesmos cuidados mágicos e religiosos que os relativos às mordeduras de cobra, que se suspeita terem estado na principal origem, pelo menos no plano metafórico, da medicina. De facto, parece que pelo menos no santuário de Esculápio no Epidauro existiriam biotérios para manter cobras em cativeiro que seriam utilizadas para injectar veneno em certos doentes como cura para certas formas de reumatismo.

Selket clip_image054 was the goddess of scorpians and magic. She was depicted in the form of a woman with a scorpian on her head. Her roles in Egyptian mythology were many, mostly as a beneficial goddess. (...) She was also credited with guarding the snake, Apep following his imprisonment in the Underworld. (...) Magically, Selket was a protector from venomous bites. She was the patroness of magicians who dealt with poisoness bites. Suprisingly though, it was usually Isis who was invoked in spells against scorpion stings. [34]

Selket < *Sirsasha < Kerket < Kir-ki-at (Lila) < *Kur-at-ki Lila <= Kur-at-ki Lilu < Kirtaw-lilu < Girtablilu.

Aqrabuamelu (Girtablilu) - scorpion-man, the guardians of the gates of the underworld. Their "terror is awesome" and their "glance is death". They guard the passage of Shamash. They appraise Gilgamesh and speak with him.

Aqrabuamelu < Aker Waumeru < Kaur -Kau-Ama-Ur > Sacar-Hermes?!

Em qualquer dos casos estamos perante variantes de deusas do nascer do sol!

Assim, sabendo-se que esta deusa é tida como variante guerreira do tipo de Hera e Kali ela foi seguramente uma das percursoras de Artemisa pelo que deve ter tido o nome de *Serkhmèt ou *Selkimet < | Sal-ki, lit. «deusa mãe da força purificadora do sal» < Serq < Serk |-et + Ama = Ker-ki (A)me-ash => Artimes.

Na caldeia foneticamente aparentada com Sekmet (< *Ka-ki-ma-at > ka-ma-ki-at >) foi Shamhat º Shakat > *Kakiat > Hepat / Hekat => Bast / Haphiat > Ptah!

Shamhat: Also pronounced Shakat, "voluptuous one, harlot" name of the prostitute sent to Enkidu. Probably belonged to the cult personnel of Ishtar's temple in Uruk.

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Figura 24: Sekhmèt, a esposa de Ptah.

On attribue à ce couple la filiation d'un jeune guerrier : le dieu Néfertoum qui représenté sous la forme d'un lion devient un redoutable gardien des frontières. Sekhmèt qui signifie "la puissante" incarne les dangereux rayons du soleil à son zénith. Egalement " déesse de la guerre " Sekhmet est capable d'envoyer des maladies, mais aussi de les guérir, c'est pourquoi elle est la patronne de la médecine et des prêtres qui connaissaient l'art de guérir.

Se com Maat nos ficávamos pelos domínios da salvação pela justiça com Sekhmet e Salket iniciamo-nos na salvação pela cura das maleitas físicas. A minha intuição e a de que esta deusa seria o equivalente semântico de Artemisa no Egipto. Só que ... falta um «erre» neste nome pelo que nos ficaríamos apenas por uma variante do tipo *Kikima-at > *Ishmet (=> Esménia/nio, um dos epítetos de Apolo), possível esposa de Eshmun, o deus Sumério da Medicina.

Em Portugal a festa outonal de St. Eufémia era outrora uma taumaturga muito popular e era seguramente uma sobrevivência de cultos arcaicos à deusa mãe que teria tido por esta bandas da Ibéria o nome de Kaukimea < Ama + Kaukania > Celt. Aufaniae, nome que nos reporta tanto para Enki como para a referência ao seu mítico privilégio de posse das «tábua da lei» do destino e das artes (me).

 

ATENA, A OLIVEIRA E O AZEITE.

clip_image058Figura 25: Belo friso de um vaso grego com motivos da «rama da oliveira», em Gr. aphullos e, por isso mesmo, um dos símbolos de Apolo. Como Artemisa era irmã deste deus e se suspeita que seria apenas uma variante de Atena, fica explicada a relação particular da oliveira com Atena, a deusa lunar, e com Apolo, o deus do sol.

«Oliveira», s. f. género de árvores que serve de tipo às oleáceas, e cujo fruto é a azeitona = «oliva» = < • Lat. olivaria, < oli-wa-tria < Lat. olivitor (> Lat. olivetum = *olivedo, olival < Ole-(Ki)kiter < Lat. ole-aster < Ole-Ishtar < Lat. ole-ash-tellus => ash-Tellus º Ash-Ki = *Kiash, lit. «a madeira (ash) por exelência da deusa mãe (Ki) > hausht > Lat. hostus, um dos mais frequentes nomes latinos da oliveira.

No entanto, o Lat. arbor (< aurwaur, lit. a Sr.ª da Aurora pela relação do azeite com a luz das candeias como adiante se verá!) era um dos nomes mais comum entre os romanos para esta «árvore» como se a «oliveira» fora literalmente a «a árvore» por antonomásia, demonstrando-se assim a sua importância na economia clássica. Também comum era o Lat. Myrteus, seguramente por mera analogia morfológica com o Lat. myrtu, murta < Gr. myrtos, s. f. género de plantas arbustivas que serve de tipo às mirtáceas. Outras variantes poéticas e retóricas, tais como Pallas (Atena), Triton (relativo ao lago Tritonis onde era soposto ter nascido Atena) Sicyon (< Kiki-an > Atan) (que são óbvias referências a Atenas), serão já de importação metafórica helenística.

Olivifer = ramos da oliveira, lit. «o que transporta as olivas»;

<= pher-amentum, lit. «a que transporta o sustento maternal de Atena, enquanto Deusa Mãe»;

<= Lat. velamentum, lit. «o velame que permite a luz com que se vala o transporte funério dos mortos!»;

<= Wer-amento Lit. «a proteção de Vera», a Deusa Mãe da verde primavera;

<= Ker-manteo > Lat. termiteus, Lit. «o deus das térmites»  (< Lat. termite = verme que rói a madeira) ??? Ou, o deus «*Termo» = Ker-Ama + Anu => Terminus, do «termo» da vida, o mesmo que Hermes Psicopompo, o encaminhador das almas ??? Em qualquer dos casos estamos perante um assunto terminal, já que as térmites são a morte da madeira, com que a oliveira estaria associada pelo lado da relação de Atena com os assuntos da morte, aspecto que sabemos ter ficado por encobrir nos cultos canaaneus de Anat!

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Figura 26: A apanha da azeitona na época clássica não seria muito diferente da que é ainda hoje na ruralidade remanescente de certas zonas de Trás-os-Montes e Alto Douro e de muitas outras localidades do «Portugal velho», esta nação de população demograficamente envelhecida antes do tempo por força da anemia emigratória.

A língua grega tem mais de meia centena de termos relativos ao nome da «azeitona» o que só demonstra a importância deste frito na economia da Grécia antiga assim como a importância dos insularidade na formação dos diversos dialectos da Grécia antiga.

A grande maioria dos termos gregos mais frequentes andam à volta do étimo ela-, de que derivará seguramente o nome genérico do óleo. «Oliveira» = Gr. ela-dion lit. «a das olivas de Diana/Atena» <= Gr. ela-ïs < Gr. ela-ia < Gr. ela-iêeis < Gr. euela-ios, lit. «as que dão olivas» = ela-ios = ela-ïkos = ela-ïzô = ela-ioprôiros = ela-iothêlos = ela-ioô = Gr. elaiophoros, «azeitona» lit «a que transporta o azeite»! = Gr. gongros < *Ki-An-kuros <= Gr. gorphia < *Kur-kia = *Kur-kaia > Phurgaia (> Lat. frugale = fruto [35]) > Gr. purkaïa <= kotinê-phoros, a que transporta as kotinas < Ki-Atan-ish, lit. «os frutos da terra de Atena» > kitina > Gr. phthina. etc.

Gr. Agrippos < *Kakurikos > Kurishos > ker-kitis > Gr. druppios.

                          *Kakurish > Phikurish > Gr. pituris.

                          *Urakikura > Gr. rhaktria.

                          *Urash > Gr. rhachos, etc.

Algums serão seguramente arcaicos e ralacionados com a arcaica deusa mãe *Kima tais como pher-Maki > prêmadiê < Ama-kur-phes > ômotribês, etc. A origem do cultivo da oliveira era, para os egípcios um dom da deusa Isis, mulher de Osiris, deus supremo; para os gregos foi Aristeo, filho de Apolo e da ninfa Cirene. Para outros foi Acropos, o lendário homem-peixe fundador de Atenas, seguramente um marinheiro cretense o primeiro a receber de Atena o saber do processo de extracção do azeite. Diz-se que Hércules, seguramente um dos mais arcaicos deuses relacinados com cultos solares de marinheiros e que vieo a ter grande importância entre os brácaros da galécia muito antes do «Bom Jesus» de Braga, propagou nos rios de Mediterrâneo o cultivo da oliveira, essa "árvore invencível que renasce de si mesma" (Sófocles). «Azeitona» = Ár. azzaituna, m. s. (será???) < Ash-atuna <= Gr. ischas = kro-tônê => Ish-(kro)tona => *Ish-Atena, as filhas de Atena.

Lat. oliva < Auriwa, lit. «o fruto solar como o ouro» < Haurika > Aureha > Lat. olea;

ð     Lat. amurca < *Ama-Urki, lit. uma correlação semântica com *Urki, a Deusa Mãe da «lua-nova» > murca > «Murça»;

ð     Lat. baca > «baga», pequeno fruto carnudo indeiscente, de endocárpio mole < Lat. por bacca < *Kakika, lit. «a filha da Deusa Mãe»;

ð     Lat. clavus < *Karkus > Gr. Karpos, o «deus menino», o fruto por exelência da Deusa Mãe;

ð      Lat. iteratio < It-her-athio < *Ki-Kur-kakio > Ki-karago > Kikuracho lit. o filho da *Kiphura, da cobra lunar que era a Deusa Mãe!

ð      Lat. quam < ??? = aquelas que, as tais, numa nova manifestação de retórica por antonomásia relacionada com a importância deste frito na vida do mediterrâneo antigo???

ð      Lat. radius < Urathius < Urah-teos, relativo ao sumério deus lunar Urash da morte e ressureição???

ð     Lat. robur < urwur > aurwaur > Lat. arbor, «oliveira»;

ð    Lat. sampsa < Shamphisha < Sham-Ki-isha, lit. «Shamash o sol caldeu, de Ki, a terra mãe?

Do mesmo modo se pode ficar com a suspeita de que as primeiras tentativas para fazer taxonomia teriam começado por atribuir a certos deuses uma relação particular com certos objectos. No caso do nome dos frutos sabemos que Inana/Ishtar era deusa da «bela fruta». No entanto, certos frutos como as favas adquiriram em certas culturas relações particulares com deuses que se iam autonomizando de tal modo que a romã era um fruto de Perséfone. A maçã de Afrodite poderá explicar a maçã que Eva iria dar a Adão para que ambos pudessem adquirir o conhecimento em sentido bíblico (sexual) que afinal era pertença do deus Enki, pai de Inana/Ishtar. As favas eram para os romanos um alimento infernal.

A analogia sumária e intuitiva seria a que mais facilmente estaria disponível para ser entendida pelo senso comum que, tal como agora, foi sempre a base fundamental de todos os consensos.

Porém, o nome mais arcaico da «azeitona» na língua latina será o poético Lat. Taburnus < *Kaphurnus > Haphruneo > lat. apruneu > «abrunhos», essas pequenas ameixas que quando pretas se poderiam confundir com azeitonas, o que demonstra à saciedade o quanto de analogia superficial existia nas regras de consenso do senso comum primordial! No entanto o Lat. Taburnus  constitue um nome seguramente aparentado com uma variante pouco comum na língua grega krotônê < Kauratuna < Kar-Atena, lit. «o filho Kar de Atena» (> Auraton > Eritóneo) < *Kur-at-An = *Kur-kiki-An = An-kur-Kiki => Afrodite, a filha dos deuses do Kur que na variante de Perséfone foi a filha de Deméter e deusa das «cafurnas» dos «infernos» dos lagares de azeite!

Como as coincidências sistemáticas são suspeitas de invariância a hermenêutica do nome «azeite» faz-nos reportar para os cultos dos mortos das lamparinas de azeite a que presidiam Anat entre os Cananeus, e na Grécia Deméter e Perséfone dos mistérios eléusicos. Do mesmo modo se pode inferir que Anat/Atena foi Medusa/Deméter, variantes da arcaica Deusa Mãe terra e Perséfone, sua filha, teve Afrodite/Vénus por sua variante, razão que viria a explicar a venalidade infernal da luxúria a que estas deusas dos amores telúricos presidiam!

Gr. orchis/orchas  <= *Kurkika => Ishtar => Strabêlos < Ishtar-pher-os = azeitonas, lit. uma alusão às luzes das candeias que iluminavam a escuridão como estrelas de Ishtar!

«Azeite» = óleo (de oliva) < Lat. oleum < Gr. elaion < *El-ayon, lit. «o deus altissimo» que alimenta o fogo da lamparina da Santíssima Trindade < Hel-Kaki-An lit, «o que é dourado como o sol (helios) e tem o espirito do fogo (Kaki) que ilumina as lucernas do céu (An)» ???

Ø     Her-ish-an > Iscur-an.

Ø      Kur-Atan > An Ishtar.

Tudo aponta assim que Atena não tenha senão herdado os cultos do fogo alimentado pelas lamparinas de azeite dos cultos do fogo sagrado dos caldeus que, na falta de azeite utilizariam também betumes naturais e gorduras animais em louvor da deusa Mãe suméria, Inana que veio a denominar-se entre os babilónios como Ishtar, deusas lunares, da aurora e da estrela da manhã. Se fosse possível demonstrar que os sumérios ja conheciam a oliveira então, talvez o hulippu de Inana tenha sido uma oliveira! Assim, Inana + Ishtar => Atena. De facto, também destes existem termos que são seguramente mais arcaicos tais como lat. Venafrum < Vena-Pher, lit. «a luz de | Vénus < *Ki-An > Diana Lúcia, a lucífera a que corresponde no grego babrêkes, < Ka-Pher-kish, lit. «a que transporta a vida do fogo»!

Tudo isto nos indicia que na origem o azeite, pela sua raridade e dada a falta de outros sucedâneos, tenha sido utilizado sobretudo como combustível de iluminação e não como alimento. Comestíveis seriam então as azeitonas curtidas que sabemos serem com o pão a base da alimentação frugal dos gregos da ruralidade arcaica!

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Figura 27: Atena Nikê oferece o ramo da oliveira da vitória e da paz aos atenienses.

Previously the Goddess had already shown particular benevolence to the land of Athens. In the days of King Cecrops a dispute had arisen between her and Poseidon for the possession of Attica. To affirm his rights Poseidon struck the rock of the Acropolis with his trident and a salt water spring gushed forth. According to another tradition it was a horse which appeared under Poseidon's trident.

Athena, in her turn, caused an olive tree to sprout on the Acropolis, a tree which could be seen in the time of Pericles, still alive in spite of having been burned by the Persians during the invasion of Xerxes. Asked to settle the dispute the Gods, on the evidence of Cecrops, pronounced in favor of Athena.

Então, na lenda grega, Palas Atenea, deusa da sabedoria e da paz, faz brotar a oliveira de um golpe, e, na sua grande bondade, ensina o seu cultivo e o seu uso. Por isso a oliveira era uma árvore sagrada que tinha um templo no Eriteum da acrópole de Atenas, templo dedicado a Eritónio, o misterioso filho único desta deusa Virgem mãe.

Eritonio > Eraution > eladion, um dos nome gregos da oliveira! De resto, a análise do mito de Atena levanta a forte suspeita, que o nome latrino venafrum para o azeite reforça, de Vénus/Afrodite e Atena/Anat terem sido a mesma deusa mãe que tiveram como filho adorado o mesmo deus menino solar Eros < Erotes + Anu > Erotiano > Eritónio.

Se oliveira aparece no templo do deus menino de Atena é porque de certo modo lhe era dedicado, como se fosse, tal como o mocho, um dos símbolos do filho desta deusa.

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Figura 28: Os olhos do mocho eram duas luas cheias que brilhacam na noite como luzes de lucerna de azite! Animal da sabedoria que o conhecimento dos misterios da vida e da morte revelavam, a relação do mocho com a oliveira permite ter a suspeita de que esta árvore acabou por vir a ser no mediterânio ocidental a «arvore do paraiso» do Génesis, «da sabedoria do bem e do mal».

Assim, o mocho de Atena, que ainda hoje faz ninho na rama da oliveira, era um dos símbolo da fínura do azeite enquanto resultado do esmero das técnicas estrativas. Daí que ser «fino como o azeite» seja «beber azeite»!

O «mocho», tão parecido com a «coruja» (< Karukia < Ka-Urkia, lit. «a ave de rapina nocturna e que, por isso, que transporta a alma da lua > harphia >) era uma das Harpias, as «aves agoirentas» que transportavam as almas dos mortos na barca do sol posto!

A relação do «azeite», que enquanto combustível permite o milagre da ressureição do espírito do sol na luz da candeia, com os arcaicos cultos dos mortos, que inegavelmente sabemos ter estado relacionado com anat entre os fenícios e teria estado com Atena nos tempos minoicos, fica reforçada com um dos nomes da azeitona, o Gr. halmas < *Karmas > «alma», tanto mais que já nos era suspeita a origem deste termo a partir do Lat. anima!

O AZEITE E A SAÚDE:

Na dietéctica e gastroenterologia: azeite, o rei, único entre todas as gorduras, é um sumo puro de fruta de pleno sol, rico portanto, em vitaminas. É a mais digestivél das gorduras. Absorvido ante uma boa refeição protege as mucosas do estômago e protege-o contra as úlceras. Tomado como laxante (1 ou 2 colheres de sopa em jejum, com ou sem limão ou café) não irrita o intestino, não contrai demasiado profundamente a vesícula, não cria hábito. Actua nas doenças das vias biliares e da vesícula.

Mercê do seu ácido oleico (que se metaboliza facilmente) é uma excelente fonte de energia, inclusivé para um coração doente.

Graças ao seu ácido linoleico, cuja escassa percentagem é correspondente às pouco elevadas necessidades do organismo humano, é benéfico no maioria dos casos.

Em pediatria: Parecido ao leite da mulher pela sua percentagem de ácido linoleico, pode humanizar o leite da vaca desnatado e atende às necessidades de um organismo em crescimento. A sua acção emulsiva sobre as mucosas, faz dele uma indicação excelente na gastroenterite infantil. Limita as defeciências em ácidos essenciais no cérebro da criança.

Em gerontologia: Atrasa o processo de envelhecimento, em especial pela sua acção nas células nervosas e do cérebro e pelo valor da sua vitamina E, alfacoterol especialmente activo uma vez que os tocoferois têm actividade precisamente sob a forma alta.

Em cardiologia e sector cerebro-vascular: É eficaz como medida preventiva e curativa. Contrariamente às gorduras animais saturadas, reduz o excesso de colesterol sanguíneo: directamente pela sua associação lípidica parecida ao fruto, e directamente pela sua acção estimulante sobre a secreção da bílis, cuja função é precisamente destruir as gorduras saponificando-as e tornar solúveis os elementos que podem obtruir os filtros capilares. É o azeite tipo(no qual prevalecem os ácidos gordos monoinsaturados) necessário na dieta preventiva de doenças cardiovasculares chamada " de distribuição por terços".



[1] Que é em espanhol ganado => português «ganhado» > ganho e lucro > riqueza e fortuna!

[2] «giro», em portuguê, é aquilo que é belo, como o fogo é!

[3] «Isqueiro», , em portuguê, é aquilo que permite criar fa-iscas(< pha ish ki!) para acender o lume! Quanto ao «lume» < lat. lumen < Ur min < kur mean, o que apela para kur, a raiz do sumério «bil e gira» kur!

[4] Em portugues, um dos sentidos de pendura é o de navegador.

[5] Hiwel Ziwa returned and told them (the House of Life) and brought back a letter ('ngirtha). Hiwel Ziwa => Kiuel Ziua = kiuer Hiwa, nítida repetição do mesmo termo em etapas de evolução semântica diferentes.

[6] Cacus lived in a cave in the Aventine Hill from where he terrorized the countryside. When Heracles returned with the cattle of Geryon, he passed Cacus' cave and lay down to sleep in the vicinity. At night Cacus dragged some of the cattle to his cave backward by their tails, so that their tracks would point in the opposite direction. However, the lowing of the animals betrayed their presence in the cave to Heracles and he retrieved them and slew Cacus. Other sources claim that Cacus' sister told Heracles the location of his cave. On the place were Heracles slew Cacus he erected an altar, where later the Forum Boarium, the cattle market, was held.

[7] Gerión < Kerion < Keiron < Kauran; Inaco < Anuki < Kianu => Anunaki; Faetón < Phiat an > Phiaton > Piton.

[8] Acerca de la Zeltiberia, del investigador D. Jorge María Ribero-Meneses SanJosé.

[9] Pierre Clastre em Arqueologia Da Violência: A Guerra Nas Sociedades Primitivas».

[10] Pierre clastre, em Infortúnio Do Guerreiro Selvagem.

[11] Pierre clastre, em Infortúnio Do Guerreiro Selvagem.

[12] idem

[13] Facto ainda presente no direito político do militarismo hitita de forma rude mas directa pelas duas palavras que exprimiam as ralações possíveis entre o Grande Rei e os outros governantes: kukur e taksul, «guerra e paz»!

[14] Pierre Clastre, em Infortúnio Do Guerreiro Selvagem

[15] Pierre Clastre, arqueologia da violência: A guerra nas sociedades primitivas.

[16] Lewis Spense, GUIA ILUSTRADO DA MITOLOGIA EGÍPSIA.

[17] Se acrescentarmos ao epíteto divino a fórmula “Senhor Deus da Sabedoria = Divino Espirito Santo” teríamos nas suas versão mais arcaica: Telphian > Telepinus > Delfim e Delfos e El Phi An > Alef > «Alce» < Alex.

[18] Existe uma versão menos sacerdotal e mais aguerrida do veado que é o «cervo» < kervo < Keruo (> Heruo > sagrado, herói) < *Kaur-ki, lit. «animal da Terra Mãe»!

[19] de que os médicos de saúde pública ainda hoje são herdeiros pelo menos nos aspectos caricatos das actividades de fiscalização sobre as «retretes e os croquetes».

[20] Hebe® <= Kiwr < Kiwria = terra estrangeira => Hiberia? O facto de Hebe se ter tornado esposa de Hercules deixa a suspeita de o ter sido sempre e estarmos perante uma reminicência clássica na forma duma referência críptica à deusa terra mãe Ki e seu divino esposo Pha enquanto deuses originários da Ibéria.

[21] From The Alpha and the Omega - Chapter Three, by Jim A. Cornwell, Copyright © 1995, all rights reserved.

[22] De qualquer modo, o lado afrodisíaco da «boas fruta», que coloca o pecado da gula ao lado da luxúria vegetal, está tanto na sensualidade do seu doce e refrescante paladar quanto nas conotações fálicas de «pepinos e bananas»; nas formas mamárias abonadas como «marmelos» e quanto na simbologia dos genitais femininos das «nêsperas, ameixas etc.»!

[23] Mary Lynn Schroeder, Anthropology 207:001 Ancient Civilizations of the Old World, Mr. Mike Fuller -- April 19, 1993. In the Eyes of Inanna: The Aspects of a Goddess in Literature

[24] C. Mêdicus, a, um, adj., Median, Assyrian, Persian, etc.: vestis, Persian, Nep. Paus. 3: rura, Luc. 8, 368: arbor, the orange-tree, Plin. 12, 3, 7, § 15: mala, Assyrian, i. e. oranges, citrons, id. 15, 14, 14, § 47: smaragdi, id. 37, 5, 18, § 71: dea, i. e. Nemesis, a statue of Parian marble, Aus. Ep. 24, 54.--Mê-dicus, i, m., a surname of the emperor Verus, on account of his victory over the Medes, Capitol. Verr. 7; v. Medica. -- Perseus:  Lewis & Short Latin Dictionary.

[26] A história da carochinha não é afinal tão inócoa de sentido como se tem pensado já que parece encobrir uma reminiscência antiga dos cultos pascoais de Damuz onde a carochinha seria sugestiva simultâneamente de Ishtar e do deus escaravelho de transporte solar egípsio.

[27] > Anfioxo • (Gr. amphí, de ambos os lados + óxys, agudo, pontudo), s. m. pequeno animal fusiforme, de corda dorsal, sem crânio nem cérebro que vive oculto nas areias do Mediterrâneo.

[28] => aisma, atos, to, (aidô) song, esp. lyric ode, hymn.

[29] Afrósina = • (Gr. aphrosyne, demência), s. f. • demência.

[30]" Frota = • (Prov. flota < Lat. fluctu, onda), s. f. porção de navios de guerra reunidos para navegar juntos; Froco =• (Lat. floccu), s. m. floco de neve; Fronde = • (Lat. fronde), s. f. folhagem de palmeiras e fetos; Fronha = • (Lat. * frondia), s. f. peça de roupa, em forma de manga, que envolve o travesseiro ou almofada de cama" e que era cheia .

[31] Myths and Myth-Makers: Old Tales and Superstitions Interpreted by Comparative Mythology by John Fiske.

[32] A par do erudito esperma o português comum «esporra-se» (< ex | phor la < Kar la, lit. «mulher de Kar» > «corlas», vomito) com «langonha» (< Kauran kaunia), termos que se tornaram calão apenas por anátema contra os antigos cultos de fertilidade que a liturgia cristã veio a substituir, tanto nos ritos quanto na linguagem!

[33] Do radical *mash- deriva o termo «mecha» • (Fr. mèche), s. f. pedaço de papel ou pano embebido em enxofre, para defumar vasilhas de vinho; • pavio, torcida; • rastilho. Mas, terá sido por via franca ou por via árabe (e com a pólvora!) que este termo sumério chegou a ocidente? De qualquer modo mais uma vez é a persistência deste tipo de arcaísmos nas línguas latinas que nos permitem confirmar o significado das pistas que percorremos.

[34] adptado de © April Arnold 1997-1999, All Rights Reserved, Netjert@ixpres.com.

[35] Não será então que o conceito de «refeição frugal» dos gregos clássicos = «pão com azeitonas», mas que poderia ser também pão com figos secos ou qualquer outro fruto do mediterrâneo.

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